 
 
 Na manh de 26 de agosto de 1660, a Frana est em festa: o jovem e recm-empossado Rei Lus XTV faz sua entrada triunfal em Paris. Enfim, o pas emerge da sangrenta 
poca de hostilidades durante a qual seis exrcitos se enfrentaram sobre seu solo. Ao lado do rei, o cardeal e ministro Mazarino tambm marcha vitorioso. O casamento 
que engendrou para o rei com a infanta espanhola Maria Teresa consagra a aliana com a nao vizinha e importante rival. A paz se consolida... ou quase. Nas cidades 
e no campo, o povo, grato pelo fim dos conflitos, esquece as desventuras para aclamar o novo rei e sua rainha.
 Todos tm motivo para festejar, menos Anglica. Enquanto a Frana comemora o advento de uma nova era, para ela tem incio um perodo de sofrimento e privaes. 
Seu marido, desaparecido numa nuvem de mistrio, est preso incomunicvel na Bastilha, onde aguarda julgamento. A ordem de priso foi assinada pelo prprio rei. 
Em segredo, Joffrey, o marido, corre o risco de ser esquecido para sempre nas masmorras da famigerada   fortaleza-presdio.
 
 
 "O amor", sibila o devasso marqus, " o preo cobrado s damas formosas nos corredores do Louvre."
 De um momento para outro, Anglica viu-se arrancada do esplendor da corte de Lus XIV e atirada no mais negro infortnio. O marido a quem tanto amava cara em desgraa 
perante a Inquisio e desaparecera nas masmorias da Bastilha, tendo todos os seus bens confiscados.
 Com o corao partido, abandonada  prpria sorte numa Paris estranha e hostil, a garota rebelde de Monteloup esvaa-se na dor de seu desamparo. Por conhecer um 
terrvel segredo de Estado, tornara-se alvo de uma conspirao, que visava silenci-la. Seus inimigos eram poderosos e ela estava sozinha.
 Do desespero nascia uma nova Anglica, sem as douras e ingenuidades do passado. Agora, resistente  adversidade e cruel com os homens, seria implacvel como a 
fatalidade que decidira seu destino.
 
O suplcio de Anglica
Anne e Serge Golon
Ttulo: O suplcio de Anglica
Autor: Anne e Serge Golon
Ttulo original: 
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1989
Publicao original: 
Gnero: Romance Histrico
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida
 
 
 Primavera de 1660. Anglica e o marido, o Conde Joffrey 
 de Peyrac, haviam deixado o Palcio da Gaia Cincia, 
 em Toulouse, e seguido em direo  cidadezinha de 
 Saint-Jean-de-Luz, na fronteira espanhola ao sul da Frana. 
 Ali, s margens do Rio Bidassoa, assistiriam, junto com 
 toda a nobreza francesa, ao casamento de Lus XIV com a 
 infanta Maria Teresa, filha de Filipe IV da Espanha. 
 Em sua comitiva, alm de Florimond, o filhinho de um 
 ano de idade, o casal levara a indispensvel ama Margarida, 
 o criado negro Kuassi-Ba, quatro msicos e o cabeleireiro 
 Francisco Binet. Tambm os acompanhavam,  frente do 
 restante da criadagem, o Marqus Bernardo d'Andijos, 
 primeiro gentil-homem da casa, e o Baro Cerbalaud.
 
 OS CORREDORES DO LOUVRE (maio a setembro de 1660)
 
 CAPTULO I
 
 Recepo do rei em Saint-Jean-de-Luz
 
 - demais! Estou consumida de dor e ainda tenho que estar rodeada de pessoas nscias. Se no tivesse conscincia de minha
posio, lanar-me-ia do alto deste balco para pr fim  minha existncia!
 Essas palavras amargas, emitidas com voz lancinante, fizeram com que Anglica corresse para o balco de seu prprio aposento. Viu, inclinada sobre o corrimo de 
uma sacada fronteira, uma mulher alta, em traje de noite, com o rosto mergulhado num leno.
 Uma dama aproximou-se da que continuava soluando, mas a outra comeou a agitar os braos como um moinho de vento.
 -        Idiota! Idiota! Deixe-me em paz! Graas  sua estupidez nunca estarei pronta. Alis, no tem nenhuma importncia. Estou de luto, resta-me apenas encerrar-me 
na minha dor. Que me importa estar penteada como um espantalho?
 Esguedelhou sua basta cabeleira e mostrou o rosto regado de lgrimas. Era uma mulher de uns trinta anos, com belos traos aristocrticos, mas um tanto emurchecida.
 - Se a Sra. de Valbon est doente, quem vai pentear-me? - insistiu, dramaticamente. - Todas vocs tm as mos mais pesadas que um urso da feira de Saint-Germain!
 - Senhora!... - interveio Anglica.
 Os dois balces eram muito prximos um do outro, naquela rua estreita de Saint-Jean-de-Luz, com palacetes repletos de corte-saos. Cada um se inteirava do que acontecia 
nos alojamentos visi-nhos. Entretanto, mal rompia a aurora, cor de aniseta, j a cidade zumbia como uma colmeia.
 -        Senhora - insistiu Anglica -, posso ser-lhe til? Vejo que est com dificuldades com o seu toucado. Tenho aqui um cabeleireiro hbil, com seus ferros 
e diversos ps. Est  sua disposio. A dama enxugou o nariz longo e vermelho e soltou profundo suspiro.
 - Voc  sumamente amvel, minha cara. Aceito seu oferecimento. Nada pude conseguir de minhas criadas esta manh. A chegada dos espanhis tornou-as to loucas como 
se se encontrassem num campo de batalha de Flandres. E no entanto pergunto-lhe: que  o rei da Espanha?
 -  o rei da Espanha - disse Anglica rindo.
 - Mas se formos ver sua famlia, no vale a nossa em nobreza. J se sabe, esto carregados de ouro, mas so comedores de rba-nos, mais antipticos do que corvos.
 - Oh, senhora! No me esfrie o entusiasmo. Estou ansiosa por conhecer todos esses prncipes! Dizem que o Rei Filipe IV e sua filha, a infanta, vo chegar hoje  
margem espanhola.
 - E possvel. Em todo caso, eu no poderei saud-los, pois nesta marcha no acabarei de me arrumar.
 - Tenha pacincia, senhora. D-me s o tempo necessrio para vestir-me decentemente e lhe mandarei o meu cabeleireiro.
 Anglica voltou precipitadamente ao seu aposento, onde reinava indescritvel desordem. Margarida e as outras criadas acabavam de dar os ltimos retoques ao luxuoso 
traje de sua patroa. Os bas estavam abertos, bem como os estojos de jias, e Florimond, com as ndegas  mostra, engatinhava feliz entre aqueles esplendores.
 "Preciso que Joffrey me diga que jias devo usar com este traje de tecido de ouro", pensou Anglica, tirando o chambre e vestindo uma roupa simples e um manto.
 No pavimento trreo encontrou o Sieur Francisco Binet, que havia passado a noite frisando o cabelo de algumas damas tolosa-nas, amigas de Anglica, e at das criadas 
que desejavam embelezar-se. Apanhou sua bacia de cobre, para o caso de ter de barbear algum cavaleiro, e sua caixa de pentes, ferros, pomadas e trancas postias 
e, acompanhado de um rapaz que levava o aquecedor, entrou atrs de Anglica no prdio vizinho.
 Este estava ainda mais cheio que o palacete em que o Conde de Peyrac havia sido acolhido por uma parenta afastada.
 Anglica reparou na bonita libre dos domsticos e pensou que a dama chorosa devia ser pessoa de alta linhagem. Na dvida, fez uma profunda reverncia quando se 
encontrou diante dela.
 -        Voc  encantadora - disse a dama com ar tristonho, enquanto
 o cabeleireiro dispunha seus instrumentos sobre um tamborete. - Se no fosse por sua causa, eu teria estragado o rosto de tanto chorar.
 - Este no  um dia para se chorar - protestou Anglica.
 - Que quer, minha cara? No sinto entusiasmo por essas comemoraes.
 Fez um pequeno gesto de desconsolo.
 - No viu meu traje negro? Acabo de perder meu pai.
 - Oh! Sinto-o muito...
 - Tanto nos detestvamos e discutamos que isso aumenta o meu pesar. Mas que aborrecimento por estar de luto justamente agora! Conhecendo o carter maligno de meu 
pai, suspeito que...
 Interrompeu-se para mergulhar o rosto no cone de papelo que Binet lhe apresentou enquanto lhe enchia a cabeleira de p perfumado. Anglica espirrou.
 -        ... suspeito que o fez de propsito - continuou a dama tirando o rosto do cone.
 .   - Fez; de propsito? O qu, senhora?
 - Morrer,  claro! Mas no importa. Esqueo tudo. Digam o que disserem, sempre tive uma alma generosa. E meu pai morreu cristmente...  um grande consolo. O que 
me desgosta  que tenham levado seu corpo para Saint-Denis com apenas alguns guardas e alguns capeles, sem pompa nem despesa... Parece-lhe admissvel?
 - De maneira alguma - confirmou Anglica, que comeava a ter medo de cometer uma tolice. Aquele nobre enterrado em Saint-Denis no podia pertencer seno  famlia 
real. A menos que - no houvesse entendido bem...
 -        Se eu estivesse l, as coisas se teriam passado de outro modo, pode crer - concluiu a dama, erguendo altivamente o queixo. -Gosto do fausto e que cada 
um procure honrar sua linhagem.
 Calou-se para se mirar no espelho que Francisco Binet lhe apresentava de joelhos, e seu rosto se iluminou.
 - Est timo! - exclamou. - Penteado perfeito e encantador! Seu cabeleireiro  um artista, querida. No ignoro, entretanto, que tenho um cabelo difcil de pentear.
 - Vossa Alteza tem o cabelo fino, mas flexvel e abundante - disse o cabeleireiro em tom doutorai. - Com uma cabeleira dessa qualidade  que se podem compor os 
mais belos penteados.
 - Deveras? O senhor me lisonjeia. Vou mandar que lhe dem cem escudos. Senhoras!... Senhoras!  absolutamente necessrio que este homem frise o cabelo das pequenas.
 De um quarto vizinho, onde parolavam damas de honor e camareiras, vieram as "pequenas", duas criaturas na idade ingrata.
 - Suas filhas, sem dvida, senhora? - perguntou Anglica.
 - No, minhas irmzinhas. So insuportveis. Olhe a menor; s tem de bonito a ctis, e encontrou um meio de se fazer picar por essas moscas a que chamam pernilongos. 
Veja como est inchada. E ainda por cima chora.
 - Sem dvida est triste pela morte do pai.
 - Nada disso. Mas disseram-lhe muitas vezes que se casaria com o rei. S a chamavam "rainhazinha". E agora sofre porque ele se casa com outra.
 Enquanto o cabeleireiro se ocupava das adolescentes, ouviu-se um rumor de passos na estreita escada, e um senhor jovem apareceu na ombreira. Era de muito baixa 
estatura, com um rosto de boneca a emergir de um espumoso papo de rendas. Levava tambm folhos de renda nas mangas e nos joelhos. Apesar da hora matinal, estava 
trajado com grande esmero.
 - Minha prima - disse com voz amaneirada -, ouvi dizer que havia em seu apartamento um cabeleireiro que faz maravilhas.
 - Ah! Filipe, voc  mais astuto que uma mulher bonita, quando se trata de colher notcias desta natureza! Diga-me, ao menos, que me acha bela.
 O cavaleiro franziu os lbios vermelhos e carnudos, e, semicerrando os olhos, examinou o penteado.
 -        Devo reconhecer que esse artista tirou de seu rosto melhor partido do que se poderia esperar - disse com insolncia temperada por um sorriso coquete.
 Voltou  antecmara e inclinou-se sobre a balaustrada.
 -        De Guiche, meu querido, suba.  aqui mesmo.
 No gentil-homem que entrava, um belo moo muito trigueiro e de compleio bem-feita, Anglica reconheceu o Conde de Guiche, filho mais velho do Duque de Gramont, 
governador de Barn. Filipe tomou o brao do Conde de Guiche e inclinou-se terna-mente sobre seu ombro.
 -        Oh, como estou feliz! Certamente vamos ser os mais bem penteados da corte. Pguilin e o Marqus d'Humires empalidecero de inveja. Vi-os pressurosos  
procura de seu barbeiro, que Vardes lhes arrebatara graas a uma bolsa recheada. Esses gloriosos capites dos gentis-homens de bico de corvo vo se ver obrigados 
a comparecer diante do rei com o mento feito ourio de castanha.
 Lanou um risinho agudo, passou a mo pelo queixo barbeado e, depois, com gesto gracioso, acariciou a face do Conde de Guiche. Apoiava-se no jovem com enlevo e 
dirigia para ele um olhar langoroso. O Conde de Guiche, sorrindo com fatuidade, recebia aquelas homenagens sem o menor acanhamento.
 Anglica nunca tinha visto dois homens entregarem-se a tais manifestaes, o que a deixava meio constrangida. Aquilo tampouco devia agradar  dona do apartamento, 
pois sbito exclamou:
 -        Oh! Filipe, no venha entregar-se aqui a tais denguices! Sua me me acusaria de favorecer seus instintos perversos. Depois daquela festa em Lyon, em que 
nos fantasiamos, voc, eu e a Srta. de Villeroy, de camponesas brets, ela tem-me atormentado com as suas censuras. E no me diga que o pequeno Pguilin se encontra 
em apuros, porque mandarei um homem busc-lo. Vou ver se o encontro. E o jovem mais notvel que conheo, e muito o estimo.
 A sua maneira ruidosa e impulsiva, precipitou-se de novo para o balco, mas retrocedeu logo, com uma das mos sobre o volumoso peito.
 - Ah, meu Deus, a est ele!
 - Pguilin? - indagou o pequeno gentil-homem.
 - No.  esse cavaleiro de Toulouse que me causa tanto medo. Anglica, por sua vez, chegou  sacada e viu o Conde de Pey-
 rac, seu marido, que descia a rua acompanhado de Kuassi-Ba.
 - Oh!  o Grande Coxo do Languedoc! - exclamou Filipe, que se havia reunido a elas. - Minha prima, por que o teme? Tem os olhos dulcssimos, a mo acariciadora 
e o esprito cintilante.
 - Voc fala como uma mulher - disse a dama com asco. - Parece que todas as mulheres esto loucas por ele.
 - Exceto voc.
 - Eu nunca me extraviei em sentimentalismos. Vejo o que vejo. No lhe parece que esse homem sombrio e claudicante, com esse mouro negro como o inferno, tem qualquer 
coisa de aterrador?
 O Conde de Guiche punha olhares espantados em Anglica e por duas vezes chegou a abrir a boca. Ela fez-lhe sinal para que nada dissesse. Aquele dilogo a divertia 
muito.
 -        Precisamente, voc no sabe olhar para os homens com olhos de mulher - respondeu o jovem Filipe. - Lembre que esse nobre negou-se a dobrar o joelho diante 
do Sr. d'Orlans e isso basta para arrepiar-lhe.
 -         verdade que demonstrou ento rara insolncia...
Naquele momento, Joffrey ergueu os olhos para o balco. Deteve-se e, tirando o chapu emplumado, saudou vrias vezes profundamente.
 - Veja como  injusto o rumor pblico - disse o Petit Mon-sieur. - Dizem que esse homem  cheio de orgulho e, no entanto...  possvel saudar com mais graa? Que 
pensa disso, meu querido?
 - O Sr. Conde de Peyrac  reconhecidamente corts - apressou-se a responder De Guiche. - Haja vista a maravilhosa recepo que tivemos em Toulouse.
 - Ao rei at molestou um pouco. O que no impede que Sua Majestade esteja muito impaciente por saber se a mulher do tal coxo  to bela como dizem. Parece-lhe inconcebvel 
que algum o possa amar...
 Anglica retirou-se mansamente; levando para um lado Francisco Binet, beliscou-lhe a orelha.
 - Seu amo est de volta e vai cham-lo. No se deixe comprar pelos escudos dessa gente; do contrrio, far-lhe-ei moer de pancadas.
 - Fique tranqila, senhora. Quando acabar o meu trabalho com esta jovem, saio correndo.
 Anglica desceu e voltou para sua residncia. Ia pensando que estimava o tal Binet, no s por seu bom gosto e habilidade, mas tambm por sua astcia sutil, por 
sua filosofia de subalterno. Dizia que chamava "alteza" a todas as pessoas da nobreza para estar certo de no ofender a ningum.
 No quarto, cuja desordem tinha piorado, Anglica encontrou seu marido com uma toalha ao pescoo, esperando j o barbeiro.
 - Muito bem, daminha! - exclamou. - Estou vendo que voc no perde tempo. Deixo-a meio adormecida, para ir em busca de notcias e inteirar-me da ordem das cerimnias, 
e uma hora mais tarde encontro-a familiarmente instalada em um balco entre a Du-quesa de Montpensier e Monsieur, o irmo do rei.
 - A Duquesa de Montpensier! A Grande Mademoiselle! - exclamou Anglica. - Meu Deus! Deveria t-lo suspeitado quando falou de seu pai, enterrado em Saint-Denis.
 Enquanto se despia, Anglica contou como tinha feito conhecimento fortuitamente com a clebre frondista, a velha donzela do reino, que agora, falecido seu pai, 
Gasto d'Orlans, era a mais rica herdeira da Frana.
 -        Suas irmzinhas so apenas meias irms, as Srtas. de Valois e d'Alenon, que devem segurar a cauda da rainha na cerimnia do casamento. Binet tambm as 
penteou.
 O barbeiro surgiu esbaforido e comeou a ensaboar o queixo de seu amo. Anglica estava de camisa, mas ningum reparava nisso. Tratava-se de acudir o mais rapidamente 
possvel ao chamado do rei, que pedia que todos os nobres de sua corte fossem saud-lo naquela mesma manh. Depois, absorvido nas preocupaes do encontro com os 
espanhis, no teria tempo para as apresentaes. Margarida, com a boca cheia de alfinetes, passou a Anglica uma primeira saia de pesado tecido de ouro e depois 
uma segunda, de renda de ouro, fina como teia de aranha e cujo desenho era acentuado por pedras preciosas.
 - E voc diz que o jovem efeminado  o irmo do rei? - interrogou Anglica. - Comportava-se de maneira estranha com o Conde de Guiche. Dir-se-a que estava apaixonado 
por ele. Oh, Joffrey! Cr verdadeiramente que... que eles...
 - Chama-se a isso amar  italiana - disse o conde rindo. - Nossos vizinhos do outro lado dos Alpes so to refinados que no se contentam com os simples prazeres 
da natureza. Devemos-lhe,  verdade, o renascimento das letras e das artes, mais um ministro velhaco, cuja manha nem sempre tem sido intil  Frana, mas devemos-lhes 
tambm a introduo desses costumes extravagantes. E pena que os adote o nico irmo do rei.
 Anglica franziu o sobrolho.
 - O prncipe disse que voc tem a mo acariciadora. Gostaria de saber como ele o notou.
 - Palavra? O Petit Monsieur gosta tanto de roar-se nos homens que talvez em alguma ocasio me tenha pedido que o ajudasse a endireitar a volta ou os punhos. No 
perde oportunidade de se fazer afagar.
 - Ele falou de voc em termos que quase me despertaram cime.
 - Oh, meu bem! Se voc comea a perturbar-se, logo as intrigas a afogaro. A corte  uma imensa teia de aranha viscosa. Voc se perder nela, se no olhar as coisas 
com superioridade.
 Francisco Binet, que era palrador como todos os de sua profisso, tomou a palavra:
 - Ouvi dizer que o Cardeal Mazarino estimulou os gostos do Petit Monsieur para que ele no fizesse sombra a seu irmo. Mandava que o vestissem de menina e fazia 
disfarar da mesma maneira os seus amiguinhos. Como irmo do rei, sempre se temeu que comeasse a conspirar como o falecido Sr. Gasto d'Orlans, que era to insuportvel.
 - Voc julga os prncipes muito severamente, barbeiro - disse Joffrey de Peyrac.
 - O nico bem que possuo  a minha lngua, senhor conde. Minha lngua e o direito de faz-la funcionar.
 - Mentiroso! Tornei-o mais rico que o cabeleireiro do rei.
 - E verdade, senhor conde. Mas no fao ostentao disso. No  prudente despertar invejas.
 Joffrey de Peyrac mergulhou o rosto em uma bacia de gua de rosas para acalmar o ardor deixado pela navalha. Seu rosto cicatrizado fazia que a operao fosse longa 
e delicada, e era necessria a mo leve de Binet. Tirou o penteador e comeou a vestir-se, auxiliado por seu camareiro e por Afonso.
 Entrementes, Anglica havia enfiado um corpete de tecido de ouro e permanecia imvel, enquanto Margarida fixava o plastro, verdadeira obra de arte de ouro filigranado 
entretecido com sedas. Uma renda de ouro punha uma brilhante espuma em torno de seus ombros nus, dando a sua carne uma palidez luminosa, como de porcelana translcida. 
Com o tom rosado de suas faces, seus clios e superclios sombreados, os cabelos ondulados que tinham o mesmo reflexo do vestido, a surpreendente limpidez de seus 
olhos verdes, viu-se no espelho como um estranho dolo feito inteiramente de matrias preciosas: ouro, mrmore, esmeraldas.
 Margarida soltou de repente um grito e precipitou-se para Florimond, que levava  boca um diamante de seis quilates...
 - Joffrey, que adereo devo usar? As prolas parecem-me demasiado modestas; os diamantes excessivamente duros.
 - Esmeraldas - respondeu o conde. - Em harmonia com os seus olhos. Todo esse ouro  insolente, de um brilho um tanto pesado. Seus olhos o suavizam, do-lhe vida. 
So precisos dois pingentes e o colar de ouro e esmeraldas. Nos anis poder misturar alguns diamantes.
 Inclinada sobre seus escrnios, Anglica absorveu-se na escolha das jias. Ainda no estava entediada, e tal profuso a arrebatava sempre.
 Quando se voltou, o Conde de Peyrac colocava a espada em seu boldri constelado de diamantes.
 Olhou-o demoradamente, e um estremecimento inslito a percorreu.
 - Creio que a Grande Mademoiselle no se equivoca inteiramente quando diz que voc tem aspecto aterrador.
 - Seria trabalho intil querer disfarar meu infortnio - disse o conde. - Se procurasse vestir-me como um favorito, seria ridculo e lamentvel. Trajo-me, portanto, 
de acordo com o meu rosto.
 Anglica olhou aquele rosto. Era seu. Havia-o acariciado, conhecia-lhe os menores sulcos. Sorriu e murmurou:
 - Meu amor!
 O conde estava inteiramente vestido de negro e prata. Seu manto de chamalote preto era velado por uma renda de prata segura por pontos de diamantes. Deixava ver 
um gibo de brocado de prata ornado com rendas negras de ponto delicadssimo. As mesmas rendas em trs folhos pendiam dos joelhos, sob a rhingrave de veludo escuro. 
Os sapatos tinham fivelas de diamantes. A gravata, que no tinha forma de volta, mas de amplo lao, tambm era bordada de pequenssimos diamantes. Nos dedos, uma 
infinidade de brilhantes e um enorme rubi.
 O conde ps na cabea o chapu de feltro com plumas brancas e perguntou se Kuassi-Ba se havia encarregado dos presentes que deviam ser oferecidos ao rei para sua 
noiva.
 O negro estava fora, em frente  porta, e era alvo da admirao de todos os basbaques, com seu gibo de veludo cereja, seus amplos cales  turca e seu turbante, 
este e aqueles de cetim branco. Transeuntes apontavam seu sabre curvo. Conduzia sobre uma al-mofada uma caixa de belssimo marroquim vermelho cravejado de ouro.
 Duas cadeirinhas esperavam o conde e Anglica.
 Foram rapidamente levados  habitao em que o rei, sua me e o cardeal estavam hospedados. Como todas as de Saint-Jean-de-Luz, era uma estreita casa  espanhola, 
cheia de balaustradas e cor-rimes espiralados de madeira dourada. Os cortesos transbordavam pela praa, onde o vento do mar sacudia as penas dos chapus, trazendo 
em lufadas o cheiro salino do oceano.
 Anglica sentiu o corao aos pulos quando transps os degraus da entrada.
 "Vou ver o rei!", pensava. "A rainha-me! O cardeal!"
 Quo perto dela tinha estado aquele jovem rei de que falava sua ama, assaltado pelas malvadas multides de Paris, em fuga atravs da Frana arruinada pela Fronda, 
levado de cidade em cidade, de castelo em castelo,  merc das faces dos prncipes, trado, abandonado, e finalmente vitorioso! Agora colhia o fruto de suas lutas. 
E, ainda mais que o rei, a mulher que Anglica divisava no fundo da sala, envolta em seus vus negros, com sua tez mate de espanhola, seu ar ao mesmo tempo distante 
e afvel, suas mos pequenas e perfeitas, pousadas sobre o vestido escuro, a rainha-me, saboreava a hora do triunfo.
 Anglica e seu marido atravessaram a cmara, cujo soalho bri-
 lhava. Dois negrinhos seguravam o manto da jovem, que era de um tecido de ouro frisado e cinzelado, em contraste com o lam brilhante da saia e do corpete. O gigante 
Kuassi-Ba os acompanhava. Havia pouca luz e fazia muito calor devido  tapearia e  multido. O primeiro gentil-homem da casa real anunciou:
 -        Conde de Peyrac de Morens d'Irristru.
 Anglica mergulhou numa reverncia. Tinha o corao na garganta. Diante dela erguiam-se um vulto negro e um vulto vermelho: a rainha-me e o cardeal. "Joffrey deveria 
inclinar-se mais profundamente", pensava. "H pouco saudou to belamente a Grande Mademoiselle. Mas, diante do mais poderoso, apenas afasta um pouco o p... Binet 
tem razo... Binet tem razo..."
 Era tolice pensar assim no bom cabeleireiro e repetir que ele tinha razo. Por que isso?
 Uma voz disse:
 -        Regozijamo-nos de v-lo novamente, conde, e de poder cumprimentar... admirar sua esposa, da qual j nos haviam falado to bem. Mas, coisa contrria s 
normas, verificamos desta vez que o elogio no alcana a realidade.
 Anglica ergueu os olhos. Encontrou um olhar escuro e brilhante que a examinava com muita ateno: o olhar do rei.
 Vestido ricamente, o rei era de estatura mediana, mas conservava-se to reto que parecia mais imponente do que todos os seus cor-tesos. Anglica notou-lhe a ctis 
ligeiramente marcada pela varola que o tinha acometido na infncia. Tinha o nariz demasiadamente comprido, mas sua boca era forte e acariciadora, sob a linha escura, 
apenas esboada, de um pequeno bigode. A cabeleira castanha, abundante, caindo em cachos, no devia nada aos artifcios das perucas. Tinha as pernas bem formadas 
e as mos harmoniosas. Sob as rendas e as fitas,.percebia-se um corpo flexvel e vigoroso, adestrado nos exerccios da caa e da ginstica.
 "Minha ama diria: ' um belo macho'", pensou Anglica. "Fazem bem em cas-lo."
 Arrependeu-se logo de pensamentos to vulgares naquele momento solene de sua existncia.
 A rainha-me quis ver o interior da caixa que Kuassi-Ba acabava de apresentar de joelhos, com a fronte no solo, numa postura de rei mago.
 Houve exclamaes ante o precioso estojo de viagem, com suas caixinhas e pentes, tesouras, colchetes, sinetes, tudo de ouro macio e de concha de tartaruga. O oratrio 
porttil encantou as damas devotas do squito da rainha-me. Esta sorriu e benzeu-se. O crucifixo e as duas imagens de santos espanhis, assim como a lamparina e 
o diminuto incensrio, eram de ouro e prata dourada. Joffrey de Peyrac tinha mandado pintar por um artista da Itlia 11 m rrptiro de macieira dourada que representava 
as cenas da Paixo. As miniaturas eram finas, de cores delicadas. Ana d'ustria declarou que a infanta tinha fama de ser muito piedosa e no podia seno ficar encantada 
com o presente.
 Voltou-se para o cardeal a fim de faz-lo admirar as pinturas, mas este se entretinha a observar os pequenos instrumentos do estojo, que fazia cintilar dando-lhes 
suaves voltas entre os dedos.
 - Dizem que o ouro mana do cncavo de suas mos, Sr. de Peyrac, como a fonte de uma rocha.
 - A imagem  exata, Eminncia - respondeu o conde calmamente. - Como a fonte de uma rocha... mas de uma rocha que se teria minado com grande quantidade de mechas 
e de plvora, escavado at profundidades insuspeitadas, aludo, triturado, pulverizado. Ento, efetivamente,  custa de trabalho, suor e esforo,  possvel que 
jorre o ouro, e at em abundncia.
 - Eis uma bela parbola sobre o trabalho que d seus frutos. No estamos acostumados a ouvir pessoas de sua linhagem empregarem semelhante linguagem, mas confesso 
que isso no me desagrada.
 Mazarino continuava sorrindo. Aproximou do rosto um espe-lhinho do estojo e lanou-lhe um rpido olhar. Apesar dos cosmticos e ps com que tentava disfarar sua 
pele amarelada, um suor de debilidade brilhava em suas fontes, umedeendo os anis de seus cabelos sob o vermelho solidu de cardeal.
 A enfermidade vinha-o esgotando havia longos meses. Ele pelo menos no tinha mentido quando alegara motivo de sade para no se apresentar em primeiro lugar perante 
o ministro espanhol Dom Lus de Haro. Anglica surpreendeu um olhar da rainha-me ao cardeal, um olhar de mulher angustiada, que se atormenta. Sem dvida, tinha 
ardente desejo de dizer-lhe: "No fale tanto, que se fatiga. Est na hora de tomar a tisana".
 Seria verdade que a rainha, tanto tempo desprezada por um esposo demasiadamente casto, havia amado o italiano? Todo mundo o afirmava, mas ningum tinha certeza. 
As escadas ocultas do Louvre guardavam bem o seu segredo. Talvez somente um ser o conhecesse, e era aquele filho tenazmente defendido: o rei. Nas cartas que trocavam, 
o cardeal e a rainha no o tratavam por Confidente? Confidente de qu?
 -        Se houver uma oportunidade, gostaria de falar com o senhor acerca dos seus trabalhos - disse o cardeal.
 O jovem rei interveio com certa vivacidade:
 - Eu tambm. O que me disseram deles despertou minha curiosidade.
 - Estou  disposio de Vossa Majestade e de Vossa Eminncia.
 A audincia havia terminado. Anglica e seu marido foram saudar Monsenhor de Fontenac, que viram entre as pessoas que acompanhavam o cardeal.
 Depois dirigiram-se s altas personalidades e suas relaes. Anglica tinha as costas doloridas por causa das reverncias, mas encontrava-se em tal estado de excitao 
e de prazer que no sentia nenhum cansao. Os cumprimentos que recebia no lhe deixavam dvidas sobre o seu xito. Era certo que ela e o marido atraam a ateno 
de todos.
 Enquanto Joffrey conversava com o Marechal de Gramont, um jovem de pequena estatura mas de semblante agradvel postou-se diante de Anglica.
 -        Reconhece-me,  deusa descida do carro do Sol?
 -        Certamente - exclamou encantada -,  Pguilin.
Imediatamente desculpou-se:
 - Perdoe minha familiaridade, Sr. de Lauzun, mas, que quer? Por toda parte ouo falar de Pguilin. Pguilin para c, Pguilin para l... Todos o tm tal afeio 
que, sem t-lo visto novamente, acabei aderindo.
 - A senhora  adorvel e enche de contentamento no s os meus olhos mas tambm o meu corao. Sabia que  a mulher mais extraordinria de toda a reunio? Conheo 
damas que esto fazendo em pedaos os seus leques e rasgando seus lenos, tal a inveja que lhes causou seu traje. Como estar ataviada no dia das bodas, se comea 
assim?
 - Oh! Nesse dia, apagar-me-ei ante o fausto dos cortejos. Mas hoje era a minha apresentao ao rei. Ainda estou comovidssima.
 - Pareceu-lhe amvel?
 - Como  possvel no achar amvel o rei? - disse Anglica sorrindo.
 - Vejo que a senhora j est bem inteirada do que se deve dizer e do que no se deve dizer na corte. Quanto a mim, continuo nela no sei por que milagre. Apesar 
de tudo, fui nomeado capito da companhia que denominam "os gentis-homens de bico de corvo".
 - Admiro seu uniforme.
 -        No me fica muito mal... O rei  um amigo encantador, mas, cuidado! E preciso no o arranhar com muita fora quando se brinca com ele.
 Aproximou-se mais e disse-lhe ao ouvido:
 - Sabia que por pouco no me encerram na Bastilha?
 - Que foi que fez?
 - J no me recordo. Creio que tinha abraado um pouco estreitamente a menina Maria Mancini, da qual o rei estava loucamente enamorado. A ordem de priso estava 
pronta, mas fui avisado a tempo e atirei-me em lgrimas aos ps do rei e fi-lo rir tanto que ele me perdoou, e, em lugar de me mandar para a negra priso, nomeou-me 
capito. Como pode ver,  um amigo encantador... quando no  nosso inimigo.
 - Por que est me dizendo isso? - perguntou subitamente Anglica.
 Pguilin de Lauzun abriu o mais que pde seus claros e expressivos olhos.
 -        Por nada, querida amiga.
 Segurou-a familiarmente pelo brao e levou-a.
 -        Venha, quero apresent-lo a uns amigos que desejam ardentemente conhec-la.
 Esses amigos, todos jovens, pertenciam ao squito do rei. Anglica ficou encantada por se encontrar assim ao nvel das primeiras figuras da corte. Saint-Thierry, 
Brienne, Cavois, Ondedei, o Marqus d'Humires, que Lauzun apresentou como seu inimigo habitual; Louvigny, segundo filho do Duque de Gramont; todos lhe pareceram 
muito alegres e galantes, e estavam magnificamente vestidos. Viu tambm De Guiche, ao qual continuava grudado o irmo do rei. Este lanou-lhe um olhar hostil.
 -        Oh, j a conheo! - disse.
E deu-lhe as costas.
 - No se ofenda, minha cara, com essas maneiras - cochichou Pguilin. - Para o Petit Monsieur todas as mulheres so rivais, e De Guiche cometeu a imprudncia de 
lhe dirigir um olhar amigvel.
 - Saiba que ele no quer que continuem a cham-lo de Petit Monsieur - advertiu o Marqus d'Humires. - Desde a morte de seu tio, Gasto d'Orlans, devemos cham-lo 
simplesmente Monsieur.
 Produziu-se um rebulio na multido, seguido de empurres, e algumas mos solcitas se estenderam para proteger Anglica.
 -        Cuidado, senhores! - exclamou Lauzun levantando um dedo sentencioso. - Recordem-se de uma espada clebre no Languedoc!
 Mas os apertos eram tais que Anglica, rindo e um tanto confusa, no pde evitar que a espremessem entre alguns preciosos gibes enfitados e perfumados com p de 
iris e mbar.
 Os oficiais da casa do rei pediam passagem para uma procisso de lacaios que conduziam bandejas e terrinas de prata. Circulava o rumor de que Suas Majestades e 
o cardeal acabavam de retirar-se para tomar uma colao e descansar das interminveis apresentaes.
 Lauzun e seus amigos afastaram-se, reclamados por seu servio.
 Anglica procurou com os olhos seus conhecidos tolosanos. Havia temido encontrar-se diante da fogosa Carmencita, mas inteirou-se de que o Sr. de Mrecourt, seu 
desventurado esposo, depois de haver bebido o clice at as fezes, se havia decidido, num assomo de dignidade, enviar sua mulher para um convento.
 Anglica comeou a abrir caminho entre os grupos. O cheiro dos assados, misturado com os perfumes, produzia-lhe enxaqueca. O calor era sufocante.
 A jovem tinha bom apetite. Pensou que a manh j devia estar muito adiantada e que, se no encontrasse logo seu marido, voltaria sozinha ao seu hotel a fim de servir-se 
de um pouco de presunto e de vinho.
 As pessoas de sua provncia deviam ter-se reunido em casa de algumas delas para uma refeio. No via em redor seno rostos desconhecidos. Aquelas vozes sem acento 
causavam-lhe impresso inusitada. Talvez, no transcurso dos anos passados no Lan-guedoc, houvesse tambm adquirido aquela maneira de falar, cantante e rpida. Sentiu-se 
um tanto humilhada.
 Foi parar em um canto, sob a escada, e sentou-se em um banco para tomar flego e abanar-se. Decididamente, no era fcil sair daquelas casas  espanhola com seus 
corredores ocultos e suas portas falsas.
 Precisamente a alguns passos, a parede recoberta de tapetes deixava aparecer uma fresta. Um co que vinha do outro aposento, com um osso de ave na boca, alargou 
a abertura.
 Anglica lanou um olhar e viu a famlia real reunida em torno de uma mesa, em companhia do cardeal, dos arcebispos de Bayonne e de Toulouse, do Marechal de Gramont 
e do Sr. de Lionne. Os oficiais que serviam os prncipes entravam e saam por outra porta.
 O rei, em vrias ocasies, atirou para trs sua cabeleira e abanou-se com o guardanapo.
 -  O calor deste lugar estraga as melhores festas. __ A ilha dos Faises  mais agradvel. Sopra ali uma brisa marinha _ disse o Sr. de Lionne.
 - Aproveitarei muito pouco, porque, de acordo com a etiqueta espanhola, no devo ver minha noiva at o dia do casamento.
 - Mas ir para a ilha dos Faises a fim de encontrar-se com o rei da Espanha, seu tio, que vai ser seu sogro - disse-lhe a rainha. - Ento firmar-se- a paz.
 Voltou-se para a Sra. de Motteville, sua dama de honor.
 -        Estou muito emocionada. Queria muitssimo a meu irmo e freqentemente troquei correspondncia com ele! Mas pense que eu tinha doze anos quando me separei 
dele, nesta mesma margem, e que desde ento no tornei a v-lo.
 Ouviram-se exclamaes de enternecimento. Ningum parecia recordar que esse mesmo irmo, Filipe IV, havia sido o maior inimigo da Frana, e que sua correspondncia 
com Ana d'ustria havia feito o Cardeal de Richelieu suspeitar dela por conluio e traio. Aqueles acontecimentos estavam distantes. Agora todos renovavam a esperana 
que, cinqenta anos antes, enchera os coraes, quando s margens daquele mesmo rio, o Bidassoa, se trocaram, entre os dois pases, duas princesinhas de faces redondas, 
afogadas em suas amplas golas enrocadas: Ana d'ustria casava-se com o jovem Lus XIII, e Isabel da Frana com o pequeno Filipe IV. A infanta Maria Teresa, que hoje 
esperavam, era filha daquela Isabel.
 Anglica olhava com apaixonada curiosidade aqueles grandes do mundo em sua intimidade. O rei comia com apetite, mas com dignidade; bebia pouco e vrias vezes pediu 
que lhe pusessem gua no vinho.
 - Palavra! - exclamou de sbito. - O mais extraordinrio que vi esta manh foi o estranho casal vestido de negro e ouro de Tou-louse. Que mulher, meus amigos! Uma 
maravilha! J me haviam dito, mas no podia acreditar. E parece sinceramente enamorada dele. Na verdade, esse coxo me confunde.
 - Confunde a todos os que se aproximam dele - disse o Arcebispo de Toulouse com acrimnia. - Eu, que o conheo h vrios anos, renuncio a compreend-lo. Debaixo 
disso existe algo diablico.
 Ja volta a delirar", pensou Anglica, desanimada. Seu corao tinha pulsado agradavelmente s palavras do rei, mas a interveno do arcebispo revivia suas preocupaes. 
O prelado no depunha as armas.
 Um dos gentis-homens do squito do monarca disse com um risinho:
 - Estar apaixonada pelo marido! Eis uma coisa bem ridcula. Seria bom que essa jovem freqentasse um pouco a corte. F-la-amos perder esse tolo preconceito.
 - Parece acreditar, senhor, que a corte  um lugar onde no existe outra lei seno o adultrio - protestou severamente Ana d'ustria. - No entanto,  bom e natural 
que os esposos se amem. A coisa no tem nada de ridculo.
 - Mas isso  to raro! - suspirou a Sra. de Motteville.
 - Porque  raro casar-se algum sob o signo do amor! - disse o rei em tom desiludido.
 Houve um silncio um tanto constrangido. A rainha-me trocou com o cardeal um olhar desolado. Monsenhor de Fontenac ergueu uma das mos com uno.
 -        Sire, no se entristea. Se os caminhos da Providncia so insondveis, os do deusinho Eros no o so menos. E, j que invoca um exemplo que parece t-lo 
comovido, posso afirmar-lhe que esse nobre e sua mulher nunca se tinham visto antes do dia do seu casamento, abenoado por mim na catedral de Toulouse. Entretanto, 
depois de vrios anos de unio, coroados pelo nascimento de um filho, seu recproco amor fulgura diante dos olhos menos atentos.
 Ana d'ustria teve uma expresso agradecida, e o monsenhor ergueu altivamente o queixo. "Hipcrita ou sincero?", pensava Anglica. A voz um tanto ceceosa do cardeal 
elevou-se de novo:
 - Esta manh pareceu-me estar em um teatro. Esse homem  feio, desfigurado, aleijado e, no entanto, quando apareceu ao lado de sua esplndida mulher, seguido por 
esse grande mouro de cetim branco, eu pensei: "Como so belos!"
 - Isso nos distrai de tantos rostos aborrecveis - disse o rei.
 -         verdade que ele tem uma voz magnfica?
 -         o que dizem e repetem.
 O gentil-homem que havia falado tornou a chacotear:
 - Sem dvida,  uma histria extraordinariamente comovedora, quase um conto de fadas. E preciso vir ao Midi para ouvir semelhantes coisas.
 - Oh! Est insuportvel com essa mania de zombar de tudo!
 -        protestou mais uma vez a rainha-me. - Seu cinismo me desagrada, meu senhor.
 O corteso inclinou a cabea e fingiu interessar-se pelo co que roa um osso junto  porta. Vendo-o dirigir-se para o lugar de seu retiro, Anglica levantou-se 
precipitadamente para afastar-se.
 Deu alguns passos na antecmara, mas o manto pesava-lhe muito e enganchou-se num dos puxadores de um consolo.
 Enquanto ela se inclinava para desembaraar-se, o homem rechaou o co com o p, saiu e fechou a pequena porta disfarada pela tapearia. Tendo desgostado a rainha-me, 
considerou prudente sair sorrateiramente.
 Avanou displicentemente, passou perto de Anglica e voltou-se para observ-la.
 -        Oh!  a mulher de ouro!...
 Ela o olhou altivamente e procurou prosseguir seu caminho, mas ele barrou-lhe a passagem.
 -        Mais devagar! Deixe-me contemplar o fenmeno. E, ento, a dama apaixonada por seu marido? E que marido! Um verdadeiro Adnis!
 Anglica o examinou com tranqilo desprezo. Era mais alto que ela e muito bem compleicionado. Seu rosto no era falto de beleza, mas a boca fina tinha uma expresso 
malvada, e seus olhos amendoados eram amarelos com manchinh as escuras. Aquela cor indecisa, bastante vulgar, afeava-o um pouco. Estava vestido com gosto e esmero. 
Sua peruca, de um louro quase branco, contrastava vivamente com a juvenilidade de seus traos.
 Anglica no pde deixar de ach-lo bem-posto, mas disse friamente:
 -        Na realidade, dificilmente o senhor pode sofrer uma comparao com ele. Na minha terra, os olhos como os seus so chamados "mas bichadas". Compreende 
o que quero dizer? E quanto aos cabelos, os de meu marido pelo menos so verdadeiros.
 Uma expresso de vaidade ferida ensombreceu a fisionomia do gentil-homem.
 - E mentira! - exclamou. - Ele usa peruca.
 - D-lhes um puxo, se tiver coragem!
 Tinha-lhe tocado nos pontos sensveis e desconfiou que ele usava peruca porque comeava a encalvecer. Mas logo ele recobrou o sangue-frio. Semicerrou os olhos at 
no serem mais que duas fendas brilhantes.
 -        Ento, procura ferir-me? Decididamente,  muita habilidade
para uma provincianazinha.
 Lanou um olhar em torno; depois, segurando-a pelos pulsos, puxou-a para um canto.
 -        Deixe-me! - disse Anglica.
 -        Depois, minha bela. Agora temos que ajustar umas contazinhas.
 Antes que ela pudesse prever-lhe o gesto, ele deitou-lhe a cabea para trs e mordeu-lhe cruelmente os lbios. Anglica soltou um grito. Sua mo moveu-se prontamente 
e caiu sobre a face do importuno. Anos sacrificados s boas maneiras no haviam atenuado nela o fundo de violncia rstica unida ao vigor da sade. Quando algum 
despertava sua clera, tornava a encontrar as mesmas reaes que a tinham feito lutar brao a brao com seus com-panheirinhos aldees. Estalou a bofetada e ele certamente 
viu estrelas, porque retrocedeu levando a mo ao rosto.
 - Palavra, uma verdadeira bofetada de lavadeira!
 - Deixe-me passar - repetiu Anglica -, se no quer que o desfigure to completamente que no poder tornar a apresentar-se diante do rei!
 O homem sentiu que ela cumpriria a promessa e recuou um passo.
 - Oh! Gostaria de t-la uma noite inteira em meu poder! - murmurou cerrando os dentes. - Asseguro-lhe que ao amanhecer estaria domesticada, um verdadeiro frangalho.
 -  isso - respondeu ela rindo. - Medite sobre sua desforra... enquanto segura a cara.
 Afastou-se, abrindo passagem rapidamente at a porta. Os apertos tinham diminudo, porque muitos haviam ido comer alguma coisa.
 Anglica, ofendida e humilhada, apertava com o leno a boca ferida.
 "Oxal no se note demasiadamente!... Que responderei se Jof-frey me perguntar?  preciso evitar que fure esse porco. A menos que ache graa... Seria o ltimo a 
ter iluses sobre os costumes desses belos senhores do norte. Comeo a compreender o que quer dizer quando fala de policiar as maneiras da corte... Mas  uma tarefa 
a que, por minha parte, no gostaria de dedicar-me..."
 Procurou descobrir sua cadeirinha e seus criados em meio ao bulcio da praa.        
 Um brao deslizou sob o seu.
 -        Andava a procur-la, querida - disse a Grande Mademoiselle, cuja alta figura acabava de surgir a seu lado. - Agita-se-me o sangue pensando em todas as 
necedades que pronunciei esta manh diante de voc sem saber quem era. Ai! Era um dia de festa, quando no se tem todas as comodidades, os nervos se alteram e a 
lngua fala sem que a gente o perceba.
 -        Vossa Alteza no tem por que preocupar-se. No disse nada que no fosse verdade, embora no lisnjeiro. No recordo seno suas ltimas frases.
 _- Voc  a graa em pessoa. Estou encantada por t-la como vizinha... Tornar a emprestar-me seu cabeleireiro, no ? Tem tempo disponvel? E se fssemos trincar 
algumas uvas  sombra? Que lhe parece? Esses espanhis no chegam.
 -        Estou s ordens de Vossa Alteza - respondeu Anglica com uma reverncia.
 No dia seguinte pela manh tiveram de ir ver o rei da Espanha comer na ilha dos Faises. Toda a corte se atropelava nas embarcaes e molhava os lindos sapatos. 
As damas davam gritinhos, arrepanhando as saias.
 Anglica, vestida de verde e cetim branco bordado de prata, foi levada por Pguilin a sentar-se entre uma princesa de semblante espiritual e o Marqus d'Humires. 
O Petit Monsieur, que estava entre os espectadores, ria-se muito evocando o ar triste de seu irmo, obrigado a ficar na margem francesa. Lus XIV no devia ver a 
infanta at que o matrimnio por procurao a houvesse tornado rainha na margem espanhola. S ento iria  ilha dos Faises para jurar a paz e levar sua fabulosa 
conquista. O matrimnio verdadeiro seria celebrado em Saint-Jean-de-Luz pelo Bispo de Bayonne.
 Deslizavam os barcos sobre a gua tranqila, pejados de cintilante carga. Atracaram. Enquanto Anglica esperava sua vez de desembarcar, um dos senhores ps o p 
sobre o banco em que ela estava sentada e com o alto taco espremeu-lhe os dedos. Ela reteve um grito de dor. Levantando os olhos, reconheceu o gentil-homem da vspera, 
que to perversamente a molestara.
 -  o Marqus de Vardes - disse a princesinha que estava a seu lado. - Naturalmente que o fez de propsito.
 - Um verdadeiro bruto! - lamentou Anglica. - Como se pode tolerar uma pessoa to grosseira no squito do rei?
 - Ele diverte o rei com sua insolncia e, alm disso, diante de Sua Majestade esconde as garras. Mas tem fama na corte. Fizeram uma canoneta sobre ele.
 E ps-se a cantarolar:
 - No precisa de pele de bfalo Para portar-se como um selvagem. No esconde o sombrio focinho Nem com a pompa nem com a roupagem. Quem diz "de Vardes" diz: "o 
selvagem".
 - Cale-se, Henriqueta! - exclamou o irmo do rei. - Se a Sra. de Soissons a ouvir, ficar indignada e ir queixar-se a Sua Majestade de que falam mal de seu favorito.
 - Ora essa! A Sra. de Soissons j no tem valimento junto a Sua Majestade. Agora que o rei se casa...
 - Onde aprendeu, senhora, que uma esposa, embora seja a infanta, pode ter mais influncia sobre seu marido que uma antiga amante? - perguntou Lauzun.
 - Oh, senhores! Oh, senhoras! - exclamou a Sra. de Mottevil-le. - Por favor! Parece-lhes momento apropriado para tal conversa quando os grandes da Espanha j vm 
ao nosso encontro?
 Trigueira, seca, o rosto sulcado de rugas, misturava curiosamente seu escuro vestido e seus ares pudibundos quela carga de tagare-las. Talvez a presena da dama 
de honor de Ana d'ustria no fosse inteiramente fortuita. A rainha-me a teria encarregado de fiscalizar as palavras daquela juventude louca, habitualmente inconsiderada, 
e que poderia ferir os melindres espanhis.
 Anglica comeava a cansar-se daquelas pessoas frvolas, maldizentes, e cujos vcios uma etiqueta complicada dificilmente disfarava.
 Ouviu a morena Condessa de Soissons dizer a uma de suas amigas:
 -        Querida, encontrei dois corredores dos quais estou muito orgulhosa. Disseram-me que os bascos eram mais ligeiros que o vento. Podem fazer, correndo, mais 
de vinte lguas por dia. No lhes parece que esse costume de fazer-se preceder por corredores que os anunciam e por ces que ladram e afastam o populacho d o ar 
mais importante do mundo?
 Tais palavras fizeram Anglica recordar-se de que Joffrey, to amante do fausto, no gostava, contudo, daquela moda de corredores precedendo as carruagens.
 E onde estaria ele?, pensou por associao de idias.
 No o via desde a vspera. O conde havia voltado ao palacete a fim de trocar de roupa e barbear-se, mas nesses momentos ela estava em casa da Grande Mademoiselle. 
Ela prpria tivera de vestir-se trs ou quatro vezes a toda a pressa e muito nervosa. No havia dormido seno poucas horas, mas as libaes de bom vinho que se faziam 
a cada momento lograram mant-la desperta. Renunciava a preocupar-se com Florimond; dentro de trs ou quatro dias chegaria o momento de saber se as criadas lhe haviam 
dado de co-
 mer, em vez de correrem para admirar as carruagens e de se deixarem galantear pelos pajens e criados do servio do rei. Por outro lado, Margarida velava. Seu temperamento 
huguenote reprovava as festas e, atenta a todos os cuidados que requeria a elegncia de sua ama, dirigia severamente os domsticos que tinha sob suas ordens.
 Anglica viu finalmente Joffrey entre a multido que se comprimia no interior da casa situada no centro da ilha.
 Caminhou at ele e tocou-o com o leque. O conde deixou cair sobre ela um olhar distrado.
 - Ah! Est aqui.
 - Joffrey, sinto terrivelmente sua falta. Parece que no lhe agrada ver-me. Converteu-se ao preconceito que ridiculariza os esposos que se amam? Parece-me que se 
envergonha de mim.
 Joffrey recobrou seu franco sorriso e estreitou-a pela cintura.
 - No, meu amor. Mas via-a em to importante e agradvel companhia...
 - Oh, agradvel! - fez Anglica passando um dedo sobre a mo esfolada. - Corro enorme perigo de sair aleijada. Que fez desde ontem?
 - Encontrei alguns amigos, falei com uns e outros. Viu o rei da Espanha?
 - Ainda no.
 - Entremos nesta sala. Esto preparando a mesa. Segundo a etiqueta espanhola, o rei deve comer sozinho, seguindo um cerimonial muito complicado.
 As paredes da sala estavam cobertas de tapetes que contavam em tons surdos, bronzeados, matizados de vermelho e cinzento-azulado, a histria do reino da Espanha. 
O aperto era enorme.
 As duas cortes rivalizavam em luxo e magnificncia. Os espanhis levavam a palma sobre os franceses em ouro e pedrarias, mas estes triunfavam pela forma e elegncia 
dos trajes. Os jovens do squito de Lus XIV exibiam mantos de chamalote cinza cobertos de rendas de ouro seguras por pontos cor de fogo e forrados de tecido de 
ouro. O gibo era de brocado de ouro. Os chapus, guarnecidos de plumas brancas, tinham a aba levantada de um lado e presa por um alfinete de diamantes.
 Mostravam rindo os longos bigodes fora de moda dos grandes da Espanha e suas roupas carregadas de bordados macios e antiquados.
 -        Viu esses chapus chatos com suas peninhas? - cochichou Pguilin a rir.
 - E as damas? Uma srie de velhas magricelas com os ossos salientes sob as mantilhas.
 - Em seu pas, as belas esposas esto sempre em casa, por trs das grades.
 - Parece que a infanta ainda usa anquinhas com aros de ferro to grandes que tem de pr-se de lado para passar pelas portas.
 - E o justilho apertado a tal ponto que parece no ter seios, ela que dizem t-los formosssimos - exagerou a Sra. de Motte-ville ajeitando algumas rendas sobre 
seu magro torso.
 Joffrey de Peyrac deixou cair sobre ela seu olhar mais custico.
 -        Realmente,  preciso que os costureiros de Madri sejam muito pouco experientes para estragar de tal maneira o que  belo, enquanto os de Paris so to 
hbeis que realam o que quase no existe.
 Anglica beliscou-o por baixo da manga de veludo. Ele riu e beijou-lhe a mo com ar de cumplicidade. Ela suspeitou que ele ocultava uma preocupao, mas depois, 
distrada, no pensou mais nisso. Subitamente todos se calaram. O rei da Espanha acabava de entrar. Anglica, que no era muito alta, conseguiu subir em um escabelo.
 -        Parece uma mmia - disse Pguilin.
 A ctis de Filipe IV parecia, efetivamente, de pergaminho. Aproximou-se da mesa com passos de autmato. Seus grandes olhos tristes no piscavam. Seu queixo alongado 
sustinha um lbio vermelho que, com a escassa cabeleira acobreada, acentuava seu aspecto doentio.
 No entanto, cnscio de sua grandeza quase divina de soberano, no fazia gesto algum que no correspondesse  exata obrigao da etiqueta. Tolhido pelas cadeias 
de seu poder, solitrio em sua pequena mesa, comia como se oficiasse.
 Um rebulio da multido, que no cessava de aumentar, empurrou as primeiras filas para a frente. A mesa real quase tombou.
 A atmosfera tornou-se irrespirvel e Filipe IV sentiu um mal-estar. Viram-no levar a mo  garganta e afrouxar a gola de rendas. Mas em seguida voltou a assumir 
a postura hertica como ator consciencioso at o martrio.
 -        Quem diria que esse espectro fecunda com a mesma facilidade de um galo? - disse o incorrgvel Pguilin de Lauzun quando, terminada a refeio, saram 
para o ar livre. - Seus filhos naturais soltam vagidos pelos corredores de seu palcio, e sua segunda mulher no pra de trazer ao mundo crianas raquticas, que 
passam rapidamente do bero para o podredouro do Escoriai.
 _ O ltimo morreu durante a embaixada de meu pai em Madri quando foi pedir a mo da infanta - disse Louvigny, segundo filho do Duque de Gramont. - Depois nasceu 
outro que tem apenas um sopro de vida.
 O Marqus d'Humires exclamou com entusiasmo:
 _ Ele morrer, e ento quem ser o herdeiro do trono de Carlos V? A infanta nossa rainha.
 _ O senhor tem os olhos muito abertos e v demasiadamente longe, marqus - retrucou, pessimista, o Duque de Bouillon.
 - Quem nos diz que tal porvir no foi previsto por Sua Eminncia, o cardeal, e at por Sua Majestade?
 - Sem dvida, sem dvida, mas as ambies excessivas no so nada favorveis  paz.
 Com o longo nariz dirigido para o vento do mar, como se farejasse alguns odores suspeitos, o Duque de Bouillon resmungou:
 -        A paz! A paz! No levar dez anos para vacilar.
 No levou duas horas. Subitamente tudo pareceu perdido, pois correu o boato de que no haveria casamento.
 Dom Lus de Haro e o Cardeal Mazarino haviam esperado demasiadamente para ajustar os ltimos detalhes da paz e assentar alguns pontos nevrlgicos - aldeias, caminhos 
e fronteiras -'nos quais cada um queria tirar vantagem aproveitando-se do entusiasmo das festas. Nem um nem outro queria ceder. A guerra continuaria. Houve meio 
dia de expectativa angustiada. Fez-se intervir o deus Amor entre os dois noivos, que nunca se tinham visto, e Ondedei pde transmitir uma mensagem  infanta, em 
que lhe comunicava a impacincia do rei por conhec-la. Uma filha  onipotente sobre o corao de seu pai. Por muito dcil que fosse, a infanta no tinha nenhum 
desejo de voltar a Madri, depois de haver estado to perto do Sol... Fez compreender a Filipe IV que ela queria seu marido, e a ordem das cerimnias, perturbada 
um momento, foi restabelecida.
 O matrimnio por procurao realizou-se na margem espanhola, em San Sebastin. A Grande Mademoiselle levou Anglica. A filha de Gasto d'Orl ans, de luto por seu 
pai, no devia assistir a celebrao. Mas decidiu comparecer incgnita, isto , amarrando um leno de cetim em torno dos cabelos e no usando p.
 A procisso atravs das ruas da cidade pareceu aos franceses uma estranha bacanal. Cem bailarinos vestidos de branco, com guizos nas pernas, faziam peloticascom 
espadas; atrs, cinqenta moos mascarados faziam ressoar seus pandeiros. Seguiam-se trs gigantes de vime vestidos de reis mouros e to altos que chegavam at o 
primeiro andar das casas, um enorme So Cristvo, um espantoso drago maior que seis baleias e, por fim, sob um palio, o Santssimo Sacramento, em uma custdia 
de ouro gigantesca e diante da qual se ajoelhava a multido.
 Aquelas pantomimas barrocas, aquelas extravagncias msticas estonteavam os estrangeiros.
 Na igreja, por trs do tabernculo, uma escada se elevava at o teto, carregada de crios.
 Anglica contemplava, deslumbrada, aquela sara ardente. O forte cheiro do incenso acentuava a atmosfera inslita, mourisca, da catedral. Na obscuridade das abbadas 
e nas naves laterais via-se brilharem as douradas e retorcidas colunas de trs tribunas superpostas onde se amontoavam, de um lado, os homens, e do outro, as damas.
 A espera foi longa. Os padres desocupados conversavam com as francesas, e a Sra. de Motteville, oculta na sombra, horrorizou-se mais uma vez das coisas que ouviu.
 -        Perdone. Djemepasarl - disse uma rouca voz espanhola perto de Anglica.
 Ela olhou ao redor e, baixando os olhos, viu uma criatura estranha. Era uma an, to gorda quanto alta, e extremamente feia. Sua mo carnuda se apoiava no pescoo 
de um grande lebru negro. Seguia-a um ano, com roupas enfeitadas e uma ampla gola, mas a expresso de seu rosto era astuta, e, ao olh-lo, sentia-se vontade de 
rir.
 As pessoas se afastaram para dar passagem ao diminuto par e ao animal.
 -  a an da infanta e seu bufo Tomasini - disse algum. - Parece que os traz para a Frana.
 - Para que necessita desses pigmeus? Na Frana no faltar do que rir-se.
 - Ela diz que somente sua an sabe preparar-lhe o chocolate com canela.
 L em cima Anglica viu elevar-se uma figura plida e imponente:
era Monsenhor de Fontenac que chegava a uma das tribunas de madeira dourada. Inclinou-se por cima da balaustrada. Em seus olhos brilhava um fogo destruidor. Falava 
com algum que Anglica no via.'
 Subitamente alarmada, abriu caminho em direo do prelado. Joffrey de Peyrac, ao p da escada, levantava seu rosto irnico para o arcebispo.
 -        Recorde-se do "ouro de Toulouse" - dizia este ltimo a meia-voz. - Quando Servlio Cipo saqueou os templos de Toulouse,
 foi vencido como castigo de sua impiedade. Eis por que a expresso proverbial "ouro de Toulouse" faz aluso s desgraas que trazem consigo as riquezas mal adquiridas.
 O Conde de Peyrac continuava sorrindo.
 __ Gosto do senhor - murmurou - e o admiro. Tem o candor e a crueldade dos puros. Vejo brilhar em seus olhos as chamas da Inquisio. Ento no me poupar?
 - Adeus, senhor - disse o arcebispo com os lbios contrados.
 - Adeus, Foulques de Neuilly.
 Os crios lanavam suas luzes sobre o rosto de Joffrey de Peyrac. Ele olhava ao longe.
 - Que se passa agora? - cochichou Anglica.
 - Nada, minha lindeza. Nossa eterna querela...
 O rei da Espanha, plido como um morto, adiantava-se pela nave central, sem aparato, levando a infanta pela mo.
 A princesa tinha uma brancura de pele conservada na penumbra dos austeros palcios madrilenhos, olhos azuis, cabelos de seda plida avolumados por madeixas postias, 
ar submisso e tranqilo. Mais parecia flamenga que espanhola.
 Ach aram horrvel seu traje de l branca muito pouco bordado.
 O rei levou sua filha at o altar, onde ela se ajoelhou. Dom Lus de Haro, que a desposava em nome do rei da Frana, estava a seu lado, mas bastante longe dela.
 Quando chegou o instante do juramento, a infanta e Dom Lus estenderam o brao um para o outro, sem se tocarem. Ao mesmo tempo, a infanta ps a mo na de seu pai 
e beijou-o. Correram lgrimas sobre as faces de marfim do soberano. A Grande Made-moiseile assoou-se ruidosamente.
 
 CAPTULO II
 
 As npcias do rei - Desaparecimento do Conde de Peyrac
 
 -Cantar para ns? - perguntou o rei.
 Joffrey de Peyrac estremeceu. Dirigiu a Lus XIV um olhar altivo e mirou-o como teria feito com um desconhecido que no lhe houvessem apresentado. Anglica tremeu 
e segurou-lhe a mo.
 -        Cante para mim - cochichou ela.
 O conde sorriu e fez um sinal a Bernardo d'Andijos, que se precipitou para fora do salo.
 Aproximava-se o trmino da reunio. Perto da rainha-me, do cardeal, do rei e de seu irmo, estava sentada a infanta, muito ere-ta, com os olhos baixos ante aquele 
esposo ao qual ia unir-se nas cerimnias do dia seguinte. Sua separao da Espanha estava consumada. Filipe IV e seus bidalgos, com o corao dilacerado, regressavam 
a Madri, deixando a infanta altiva e pura em penhor da nova paz...
 O pequeno violinista Giovanni atravessou as filas dos cortesos e apresentou ao Conde de Peyrac sua guitarra e sua mscara de veludo.
 - Por que se mascara? - perguntou o rei.
 - A voz do amor no tem semblante - respondeu Peyrac -, e quando sonham os belos olhos das damas  preciso que nenhuma fealdade venha turb-los.
 Preludiou e comeou a cantar, misturando canes antigas em lngua d'oc e as copias de amor que estavam na moda.
 Por fim, erguendo sua alta figura, foi sentar-se perto da infanta e entoou um endiabrado refro espanhol, cortado por gritos roucos  maneira rabe, e no qual ardiam 
toda a paixo e o entusiasmo da pennsula Ibrica.
 O inexpressivo rosto de nacar e rosa acabou por comover-se; as plpebras da infanta se levantaram e seus olhos brilharam. Certamente revivia pela ltima vez sua 
existncia clausurada de pequena divindade, entre suas aias e os anes que a faziam rir, existncia calma e austera, mas familiar, em que se jogavam cartas se recebiam 
visitas de religiosas que prediziam o futuro e se preparavam refeies de confeitos e de bolos aromatizados com flor de laranjeira e violeta.
 A infanta sentiu um pequeno susto ao ver em seu redor todos aqueles rostos franceses.        
 -        O senhor nos encantou - disse o rei ao cantor. - S desejo uma coisa, e  ter, amide, ocasio de tornar a escut-lo.
 O olhar de Joffrey de Peyrac brilhou de modo estranho por trs da mscara.
 -        Ningum o deseja mais que eu, sire. Mas tudo depende de Vossa Majestade, no  certo?
 Anglica viu o soberano franzir ligeiramente o sobrolho.
 -        E verdade. Agrada-me ouvi-lo dizer isso, Sr. de Peyrac - fez um tanto secamente.
 Ao voltar para casa, a uma hora muito avanada da noite, Anglica despiu-se apressadamente, sem esperar a ajuda de uma criada, e jogou-se no leito soltando um suspiro.
 -        Estou derreada, Joffrey. Creio que ainda no estou preparada para a vida da corte. Como se arranja essa gente para absorver tantos prazeres e ainda encontrar 
meio de se enganar mutuamente pela noite?
 O conde estendeu-se junto dela sem responder. Fazia tanto calor que o simples contato dos lenis incomodava. Pela janela aberta entrava a luz avermelhada das tochas 
que passavam pela rua, iluminando at o fundo do leito, cujas cortinas haviam deixado erguidas. Em Saint-Jean-de-Luz continuavam os preparativos para o dia seguinte.
 -        Se eu no dormir um pouco, cairei durante a cerimnia - disse Anglica bocejando.
 Estirou-se e depois aconchegou-se ao corpo moreno e magro do marido.
 Ele estendeu a mo, acariciou-lhe as ancas que luziam como alabastro na penumbra, seguiu a curva flexvel da cintura, encontrou os seios pequenos e firmes. Seus 
dedos fremiram, tornaram-se mais expeditos, afagaram o ventre da mulher. Como ele tentasse uma carcia mais ousada, Anglica protestou, meio adormecida:
 -        Oh, Joffrey, estou com tanto sono!
 Ele no insistiu, e ela o olhou atravs dos clios para ver se no estava zangado. Apoiado em um cotovelo, ele a observava meio sorridente.
 -        Dorme, meu amor - cochichou.
 Quando acordou, Anglica pde acreditar que ele no se havia movido, porque continuava a contempl-la. Ela lhe sorriu.
 O calor havia abrandado. Ainda estava escuro, mas o cu tomava uma colorao esverdeada, preldio do deslumbramento da aurora. Um passageiro torpor aquietava a 
pequena cidade.
 Ainda estremunhada, Anglica aproximou-se dele, e seus braos se encontraram, procurando uma perfeita unio.
 Ele lhe ensinara o prolongado prazer, o hbil combate, com suas fintas, seus recuos, suas ousadias, obra paciente em que os dois generosos corpos eram mutuamente 
transportados ao paroxismo do gozo. Quando, afinal, se separaram, exaustos, saciados, o sol j ia alto no cu.
 -        Quem diria que temos em perspectiva um dia fatigante? - disse Anglica rindo.
 Margarida bateu  porta.
 -        Senhora, senhora, est atrasada! Os coches j se dirigem para a catedral, e no vai encontrar lugar para ver o cortejo.
 O cortejo era pouco numeroso. Seis personagens iam a p pelo caminho alcatifado.
 Na frente marchava o Cardeal-Prncipe de Conti, brilhante e entusiasta, antigo heri da Fronda, cuja presena naquele festivo dia confirmava de uma e outra parte 
a vontade de apagar as tristes recordaes. "  Depois, o Cardeal Mazarino, em seu manto prpura.
 A certa distncia avanava o rei em traje de brocado de ouro ornado de ampla renda negra. De um e outro lado do soberano, o Marqus d'Humires e Pguilin de Lauzun, 
capites das duas companhias de gentis-homens de bico de corvo, empunhavam cada qual o basto azul, insgnia de seu posto.
 Seguia-lhes os passos a infanta, a nova rainha, tendo  direita Monsieur, irmo do rei, e  esquerda o cavaleiro de honra, Sr. de Bernonville. O traje da rainha 
era de brocado de prata, e o manto de veludo violeta semeado de lrios. O manto, muito curto nos lados, tinha uma cauda com dez varas de comprimento. Seguravam-no 
as jovens primas do rei, Srtas. de Valois e d'Alenon, e a Princesa de Carignan. Duas damas sustentavam sobre a cabea da soberana uma coroa fechada. O deslumbrante 
grupo avanava com dificuldade pela rua estreita, ao longo da qual estavam formados suios,  guardas franceses e mosqueteiros.
 A rainha-mae, envolta em vus negros bordados de prata, seguia o par, rodeada de suas damas e de seus guardas.
 Fechando o prstito vinha a Srta. de Montpensier, a "grande estouvada do reino", o estorvo da corte, vestida de negro, mas com vinte fileiras de prolas.
 O percurso at a igreja era curto; no entanto, produziram-se alguns incidentes. Viu-se muito bem que Humires disputava com Pguilin.
 Os dois capites tomaram lugar na igreja de ambos os lados do rei. Com o Conde de Charost, capito de uma companhia de guardas, e o Marqus de Vardes, capito-coronel 
dos cem suos, acompanharam o rei na oferenda.
 Lus XIV tomou das mos de Monsieur, que o havia recebido do grande mestre de cerimnia, um crio com vinte luses de ouro e o entregou a Joo d'01ce, Bispo de 
Bayonne.
 Mademoiselle desempenhava em relao  jovem rainha Maria Teresa as mesmas funes de Monsieur para com o rei.
 -        No levei minha oferenda e fiz minhas reverncias to bem como qualquer outra pessoa? - perguntou mais tarde a Anglica.
 -        Certamente, Vossa Alteza tinha muita majestade.
Madajioiselle envaideceu-se.
 -        Sirvo para as cerimnias e creio que minha pessoa, nessas ocasies, ocupa seu posto to bem como meu nome no cerimonial.
 Graas  sua proteo, Anglica pde assistir de perto a todas as festividades subseqentes: o banquete e o baile. De noite tomou parte no longo desfile de cortesos 
e nobres que foram inclinar-se, um aps outro, diante do grande leito em que se achavam estendidos lado a lado o rei e sua jovem esposa.
 Anglica viu a ambos imveis como rgidas bonecas, deitados entre lenis de renda, sob os olhares da multido.
 Tanta etiqueta despojava de vida e calor o ato que ia realizar-se. Como aqueles esposos, que at ontem no se conheciam, e que agora se achavam tesos em sua magnificncia, 
engomados em sua dignidade, poderiam voltar-se um para o outro a fim de estreitar-se quando a rainha-me, segundo o costume, houvesse deixado cair sobre eles as 
cortinas do suntuoso leito? Teve pena da infanta impassvel, que diante de tantos olhares devia dissimular sua perturbao de moa. A menos que no sentisse emoo 
alguma, figurante habituada desde a infncia  servido das representaes. No se
 tratava seno de mais um rito. Podia-se confiar no sangue bour-bnico de Lus XIV para no fracassar.
 Ao descer a escada, os senhores e as damas trocavam pilhrias maliciosas. Anglica pensava em Joffrey, que tinha sido to carinhoso e paciente para com ela. Onde 
estaria Joffrey? No o vira durante o dia todo.
 No vestbulo da casa real, Pguilin de Lauzun aproximou-se dela. Estava um tanto sufocado.
 - Onde est seu marido?
 - Palavra que tambm o estou procurando.
 - Quando o viu pela ltima vez?
 - Separei-me dele esta manh para ir  catedral com Mademoi-selle. Ele acompanhava o Sr. de Gramont.
 - Depois no o viu?
 - J lhe disse que no. Como est agitado! Que quer dele? Lauzun tomou-a pela mo.
 - Vamos  residncia do Duque de Gramont!
 - Que est acontecendo?
 Pguilin no respondeu. Ainda envergava seu belo uniforme, mas, contrariamente a seu costume, seu rosto havia perdido a alegria.
 Em casa do Duque de Gramont, o gro-senhor, sentado  mesa entre um grupo de amigos, disse-lhe que o Conde de Peyrac se havia separado dele de manh, depois da 
missa.
 -        Ia sozinho? - perguntou Lauzun.
 - Sozinho? Sozinho? - resmungou o Duque. - Que quer dizer, meu rapaz? Ser que existe uma s pessoa em Saint-Jean-de-Luz que possa vangloriar-se de estar sozinha 
hoje? Peyrac no me confiou suas intenes, mas posso dizer-lhe que seu mouro o acompanhava.
 - Est bem - disse Lauzun.
 - Deve estar com os gasces. O grupo est. se divertindo  grande em uma taberna do porto; a menos que tenha aceitado o convite da Princesa Henriqueta da Inglaterra, 
que tencionava pedir-lhe que cantasse para ela e suas damas.
 - Venha Anglica! - disse Lauzun.
 A Princesa Henriqueta era a simptica jovem perto da qual Anglica havia estado no barco por ocasio da visita  ilha dos Fai-ses. A pergunta de Pguilin, sacudiu 
negativamente a cabea:
 - No, no est aqui. Enviei um de meus gentis-homens para busc-lo, mas ele no o encontrou em parte alguma.
 - No entanto, seu mouro Kuassi-Ba  um indivduo que a gente distingue sem dificuldade.
 -  Ningum viu o mouro.
 Na taberna A Baleia de Ouro, Bernardo d'Andijos levantou-se penosamente da mesa ao redor da qual estava reunida a fina flor da Gascogne e do Languedoc. No, ningum 
tinha visto o Conde de Peyrac. Deus era testemunha de que o tinham procurado, de que haviam chegado at a jogar pedras nos vidros das janelas de sua habitao, na 
Rue de Ia Rivire. Haviam mesmo quebrado as vidraas da residncia de Mademoiselle. Mas no havia sombra de Peyrac.
 Lauzun, com a mo no queixo, refletia.
 -        Procuremos De Guiche. O Petit Monsieur olhava com ternura para seu marido. Pode ser que o tenha atrado a alguma festa ntima em casa de seu favorito.
 Anglica seguia o duque atravs das ruelas entupidas de gente, iluminadas com tochas e lanternas multicores. Entravam, interrogavam, saam. As pessoas estavam  
mesa, envolvidas pelo odor dos manjares, pela fumaa de centenas de velas e pelo hlito dos criados que tinham passado o dia bebendo nas fontes de vinho.
 Nas encruzilhadas danavam ao som de tamborins e castanho-las. Os cavalos relinchavam na penumbra dos ptios.
 O Conde de Peyrac havia desaparecido.
 Anglica segurou bruscamente Pguilin e f-lo virar-se para ela.
 -        Basta, Pguilin! Fale. Por que se inquieta de tal modo por meu marido? Sabe alguma coisa?
 Ele suspirou e, levantando discretamente a peruca, enxugou a testa.
 -        Nada sei. Um gentil-homem do squito do rei nunca sabe nada. Pode custar-lhe demasiado caro. Mas faz tempo que venho suspeitando de um conluio contra seu 
marido.
 Cochichou-lhe ao ouvido:
 - Receio que tenham procurado prend-lo.
 - Prend-lo? - repetiu Anglica. - Mas por qu? Com um gesto Pguilin demonstrou que ignorava.
 - Est louco - disse Anglica. - Quem pode dar a ordem de prend-lo?
 - O rei, evidentemente.
 - O rei tem outras coisas mais importantes a fazer para que possa pensar em prender pessoas em um dia como hoje. O que me diz no tem ps nem cabea.
 - Assim o espero. Ontem de noite fiz-lhe chegar uma palavra de advertncia. Ainda tinha tempo de saltar para o seu cavalo. Senhora, est bem certa de que ele passou 
a noite a seu lado?
 - Sim, muito certa - disse, ruborizando-se um pouco.
 - Ele no compreendeu. Brincou mais uma vez com o destino.
 - Pguilin, voc est me enlouquecendo! - exclamou Anglica sacudindo-o. - Creio que est fazendo comigo uma brincadeira de mau gosto.
 - Psiu!
 Atraiu-a para si como homem acostumado a lidar com mulheres e encostou a face na dela para tranqiliz-la.
 -        Sou um rapaz muito mau, minha linda; mas uma coisa de que nunca serei capaz  de atormentar seu coraaozinho. Alm disso, depois do rei, no h homem a 
quem eu mais queira do que ao Conde de Peyrac. No enlouquea, minha amiga. Pode ser que tenha fugido a tempo.
 -        Mas afinal... - exclamou Anglica.
Lauzun fez um gesto imperioso.
 - Mas afinal - repetiu baixo -, por que haveria o rei de querer prend-lo? Sua Majestade falou-lhe ontem mesmo com muita graa, e at ouvi-lhe palavras em que no 
ocultava a simpatia que Joffrey lhe inspirava.
 - Ora! Simpatia!... Razo de Estado... Influncias... No podemos, ns nobres cortesos, dosar os sentimentos do rei. Lembre-se de que foi discpulo de Mazarino, 
e que este se referia a ele deste modo: "Demorar a pr-se em marcha, mas'ir mais longe que os outros".
 - No acha que pode haver em tudo isso alguma intriga do Arcebispo de Toulouse, Monsenhor de Fontenac?
 -        No sei nada... no sei nada - repetiu Pguilin.
Acompanhou-a at em casa e disse-lhe que iria buscar mais informaes e viria v-la de manh.
 Ao entrar, Anglica esperava ansiosamente que seu marido a estivesse aguardando, mas no encontrou seno Margarida, que velava Florimond adormecido, e a velha parenta 
de Joffrey, que, completamente esquecida no meio de tantas festas, se limitava a passear pelas escadas. As outras domsticas tinham ido danar na cidade.
 Anglica deitou-se vestida no leito, depois de tirar unicamente os sapatos e as meias. Tinha os ps inchados da louca corrida que dera com o Duque de Lauzun atravs 
da cidade. O crebro girava-lhe sem cessar.
 - Amanh refletirei - disse ela. E adormeceu pesadamente. Despertou-a um chamado que vinha da rua.
 - Mdme! Mdme!
 A luz viajava sobre os telhados planos da pequena cidade. Do porto ainda chegavam gritos e cantos, e tambm da grande praa, mas aquele bairro estava silencioso 
e quase todos dormiam, extremamente fatigados.
 Anglica precipitou-se para o balco e divisou o negro Kuassi-Ba, de p, ao luar.
 - Mdme, mdme!...
 - Espera. Deso para abrir.
 Sem se calar, desceu rapidamente, acendeu uma vela no vest-bulo e abriu a porta.
 O negro entrou com um salto flexvel de animal. Seus olhos brilhavam estranhamente. Anglica viu que ele tremia como se estivesse em transe.
 - De onde veio?
 - L de baixo - disse com um gesto vago. - Preciso de um cavalo. Imediatamente, um cavalo!
 Seus dentes se descobriram numa careta selvagem.
 - Atacaram meu amo - cochichou -, e eu no tinha o meu grande sabre. Oh! Por que no tinha o meu grande sabre hoje?
 - Como? Atacaram Joffrey, Kuassi-Ba? Quem o atacou?
 - No sei, senhora. Como o saberia eu, um pobre escravo? Um pajem lhe trouxe um papelzinho. Meu senhor foi l. Eu o seguia. No havia gente no ptio daquela casa. 
Somente uma carruagem com cortinas pretas. Saram homens e o cercaram. Meu senhor puxou da espada. Vieram outros homens. Ele foi golpeado e metido na carruagem. 
Eu gritava. Agarrei-me ao coche. Dois criados tinham subido atrs, sobre o eixo. Bateram-me at que ca, mas derrubei um e estrangulei-o.
 - Voc o estrangulou?
 - Com as minhas mos, assim - disse o negro abrindo e tornando a cerrar as mos como tenazes. - Corri pela estrada. Fazia muito sol e tenho a lngua maior que a 
cabea, de tanta sede.
 - Venha beber. Depois falar.
 Foram para a estrebaria, onde o negro apanhou um balde e bebeu.
 -        Agora - disse enxugando os grossos lbios -, vou apanhar um cavalo e persegui-los. Matarei a todos com o meu grande sabre.
 Remexeu a palha e tirou sua pequena bagagem. Enquanto o escravo despia as vestes de cetim rasgadas e cobertas de poeira para vestir uma libre mais simples, Anglica, 
com os dentes cerrados, entrou na coxia e desatou o cavalo do mouro. Fragmentos de palha espetavam-lhe os ps descalos, mas ela no os sentia. Parecia-lhe estar 
vivendo um pesadelo em que tudo ia devagar, demasia-
 dmente devagar... Corria para seu marido, estendia os braos para ele. Mas nunca mais poderia encontr-lo, nunca mais...
 Viu partir  rdea solta o negro cavaleiro. Os cascos do animal fizeram saltar fascas da rua calada com pedras arredondadas. De-crescia o rudo do galope no momento 
em que outro som nascia da lmpida manh: o dos sinos anunciando as matinas para uma ao de graas.
 Terminava a noite de npcias reais. A Infanta Maria Teresa era rainha da Frana.
 
 CAPITULO III
 
 Viagem para Paris - Atentado contra a carruagem de Anglica - Hospitalidade de Hortnsia
 
 Atravessando campos e vergis em flor, a corte retornava a Paris.
 A longa caravana estendia entre os trigais novos seus coches de seis cavalos, seus carros pejados de leitos, bas e tapetes, seus muares carregados, seus lacaios 
e seus guardas montados.
 Nas vizinhanas das cidades, aproximavam-se na poeira as de-putaes de magistrados municipais, que levavam at a carruagem do rei as chaves sobre uma bandeja de 
prata ou uma almofada de veludo.
 Assim desfilaram Bordeaux, Saintes, Poitiers, que Anglica, perdida naquele bulcio, quase no reconheceu.
 Tambm ela ia para Paris, acompanhando a corte.
 -        J que nada lhe dizem, proceda como se nada houvesse acontecido - aconselhara Pguilin.
 Este multiplicava os "psu!" e sobressaltava-se ao menor rudo.
 - Seu marido tinha inteno de ir a Paris; v, pois. Ali tudo se esclarecer. Em suma, talvez no passe tudo de um mal-entendido.
 - Mas que sabe voc, Pguilin?
 - Nada, nada... Nada sei.
 E afastou-se, com o olhar inquieto, para ir bufonear diante do rei.
 Finalmente, Anglica, depois de ter pedido a Andijos e a Cerba-laud que a escoltassem, fez voltar para Toulouse parte de sua equi-pagem. Reteve apenas um coche 
e outra viatura, bem como Margarida, uma criadinha, embaladeira de Florimond, trs lacaios e dois cocheiros. No ltimo momento, o cabeleireiro Binet e o pequeno 
violinista Giovanni suplicaram-lhe que os levasse.
 - Se o senhor Conde nos estiver esperando em Paris e eu lhe falar, ficar muito descontente, asseguro-lhe - dizia Francisco Binet.
 - Conhecer Paris! Oh! conhecer Paris! - repetia o jovem msico. - Se conseguir encontrar o professor de msica do rei, esse Batista Lulli de quem tanto se fala, 
estou certo de que me aconselhar e chegarei a ser um grande artista.
 - Est bem, sobe, grande artista - acabou Anglica por ceder.
 Continuava sorrindo, fingia despreocupao e agarrava-se s palavras de Pguilin: "Deve ser um mal-entendido". Com efeito, afora o fato de que Peyrac se havia subitamente 
volatizado, nada parecia mudado, nenhum rumor corria de que ele houvesse cado em desgraa.
 A Grande Mademoiselle no perdia ocasio de falar amistosamente  jovem. No teria podido fingir, pois era pessoa muito ingnua e sem nenhuma hipocrisia.
 Alguns perguntavam pelo Sr. de Peyrac com absoluta naturalidade. Anglica dizia-lhes que se lhe antecipara a fim de organizar sua chegada.
 Mas antes de deixar Saint-Jean-de-Luz procurou em vo encontrar-se com Monsenhor de Fontenac. Este havia voltado para Toulouse.
 Em alguns momentos parecia-lhe haver sonhado, iludia-se com falsas esperanas. Talvez Joffrey estivesse em Toulouse...
 Nos arredores de Dax, quando atravessavam as Landes, arenosas e escaldantes, um macabro incidente despertou-a para a trgica realidade. Os habitantes de uma aldeia 
apresentaram-se e perguntaram se alguns guardas poderiam ajud-los em uma batida contra uma espcie de monstro negro e terrvel que ensangentava a regio.
 Andijos galopou at o coche de Anglica e cochichou-lhe que sem dvida se tratava de Kuassi-Ba.
 Ela pediu para ver os aldees. Eram pastores de ovelhas, trepados em andas que lhes permitiam caminhar sobre o solo movedio das dunas. Eles confirmaram os temores 
de Anglica.
 Sim, fazia dois dias que os pastores tinham ouvido gritos e disparos de arma de fogo na estrada, e viram uma carruagem assaltada por um cavaleiro de rosto negro 
que brandia um sabre curvo como os dos turcos. Felizmente as pessoas da carruagem tinham uma pistola. O homem negro foi ferido e fugiu.
 - Que pessoas iam na carruagem? - perguntou Anglica.
 - No sabemos - responderam. - As cortinas estavam corridas e somente dois homens a escoltavam. Deram-nos uma moeda
 para que enterrssemos um deles, cuja cabea o monstro havia de-cepado.
 - Decepado a cabea! - repetiu Andijos, aterrado.
 - Sim, senhor, tanto que tivemos de ir busc-la na vala para onde havia rolado.
 Na noite seguinte, quando a maior parte dos viajantes estavam acampados nas aldeias dos arredores de Bordeaux, Anglica sonhou de novo com o sinistro chamado:
 -        Mdme! Mdme!
 Agitou-se e acabou por despertar. Haviam-lhe feito a cama no nico aposento de uma casa de lavradores, cujos habitantes foram dormir no estbulo. O bero de Florimond 
estava junto  lareira. Margarida e a pequena ama haviam-se deitado no mesmo enxergo.
 Anglica viu que Margarida vestia uma saia.
 -        Aonde vai?
 -        E Kuassi-Ba, tenho certeza - cochichou a grandalhona.
J Anglica tinha saltado do leito.
 As duas abriram com precauo a porta. Por sorte a noite estava muito escura.        
 -        Kuassi-Ba, entre! - cochicharam.
 Algo se moveu, e um grande corpo vacilante tropeou na solei-ra. Fizeram-no sentar em um banco. A luz de uma vela, viram sua pele cinzenta e lacerada. Tinha as 
roupas manchadas de sangue. Ferido, fazia trs dias que vagava pelas charnecas.
 Margarida remexeu os bas e f-lo beber um bom trago de aguardente, aps o que ele falou.
 -        Uma s cabea, senhora. S pude cortar uma cabea.
 -  o suficiente, asseguro-lhe -- disse Anglica com um leve sorriso.
 - Perdi meu grande sabre e meu cavalo.
 - Dar-lhe-ei outros. No fale... Voltou a encontrar-nos,  o principal. Quando seu senhor o vir, dir: "Est bem, Kuassi-Ba!"
 - Tornaremos a ver meu senhor?
 - Voltaremos a v-lo, eu lhe prometo.
 Enquanto falava, Anglica tinha rasgado um pano para desfi-lo. Temia que a bala houvesse ficado dentro da ferida, situada perto da clavcula, mas descobriu outra 
ferida debaixo do brao, o que mostrava que o projtil havia sado. Ps aguardente sobre as duas feridas e atou-as fortemente.
 - Que vamos fazer deste homem, senhora? - perguntou Margarida.
 - Lev-lo conosco! Tornar a ocupar seu lugar no carro.
 - Mas que iro dizer?
 - "Quem" vai dizer? Acredita que as pessoas que nos rodeiam se preocupam com as faanhas do meu negro?... Comer bem, ter bons cavalos de muda, alojar-se confortavelmente 
so suas nicas preocupaes. Ele ficar sob a cobertura, e em Paris, quando estivermos em nossa casa, as coisas se arranjaro por si mesmas.
 Repetiu, para se convencer intimamente:
 -        Compreende, Margarida? Tudo no passa de um mal-entendido.
 O coche rodava agora atravs da floresta de Rambouillet. Anglica toscanejava, pois o calor era terrvel. Florimond dormia sobre os joelhos de Margarida. Subitamente 
o rudo de uma detonao seca despertou a todos, que se sobressaltaram. Houve um violento choque. Anglica teve a viso de uma profunda ravina. Levantando uma nuvem 
de p, o coche tombou, fazendo um barulho tremendo. Florimond berrava, meio esmagado pela criada. Ouviam-se os relinchos dos cavalos, os gritos do postilho e os 
estalos do chicote.
 O mesmo rudo seco voltou a ser ouvido, e Anglica viu em um dos vidros da carruagem uma estrela estranha, semelhante a um cristal de neve, com um orificiozinho 
no centro. Procurou erguer-se e tomar Florimond nos braos.
 De repente algum arrancou a portinhola, e o rosto de Pguilin de Lauzun inclinou-se pela abertura.
 -        Ningum ferido, pelo menos?
 Com a emoo, Pguilin havia voltado a falar com seu acento meridional.
 -        Todos gritam, o que me faz imaginar que todos esto vivos - disse Anglica.
 Tinha uma escoriao no antebrao, produzida por um fragmento de vidro, mas sem gravidade.
 Entregou o menino ao duque. O Cavaleiro de Louvigny apareceu tambm, estendeu-lhe a mo e ajudou-a a sair do coche. Quando ps os ps na estrada, ela retomou precipitadamente 
Florimond e esforou-se por aquiet-lo. O agudo choro do beb cobria todo o tumulto, e era impossvel pronunciar uma palavra.
 Enquanto acarinhava o filho, Anglica viu que o coche do Duque de Lauzun se havia detido atrs de seu carro de bagagens, bem como o da irm de Lauzun, Carlota, 
Condessa de Nogent, e que os irmos Gramont, algumas damas, amigos e criados acorriam ao lugar do acidente.
 -        Mas, afinal, que aconteceu? - perguntou Anglica quando
Florimond lhe permitiu abrir a boca.
 O cocheiro tinha um ar de espanto. No era homem dos mais seguros: tagarela e jactancioso, tinha sempre um refro na boca e  sobretudo, decidida inclinao pela 
garrafa.
 - Tinha bebido e adormeceu?
 - No, senhora, asseguro-lhe. Tinha calor,  certo, mas dominava bem os animais. Os cavalos seguiam como convinha. Mas de repente saram dois homens de entre as 
rvores. Um deles tinha uma pistola. Disparou para o ar, e foi isso que espantou os animais. Encabritaram-se e recuaram. Foi ento que a carruagem virou. Um dos 
homens tinha-os segurado pelo freio. Mas eu bati-lhe com o chicote o mais que podia. O outro tornou a carregar a pistola. Aproximou-se e atirou no coche. Nesse momento 
chegou o carro de bagagens e depois esses senhores a cavalo... Os dois homens fugiram...
 -  uma curiosa histria - disse Lauzun. - A floresta est vigiada, protegida. Os guardas expulsaram dela todos os malfeitores por causa da passagem do rei. Que 
aspecto tinham esses bandidos?
 - No sei, senhor duque. No eram salteadores, disso estou certo. Estavam bem vestidos, bem barbeados. O mximo que posso dizer  que pareciam criados de boa casa.
 - Dois criados despedidos que enveredaram pelo mau caminho? - conjeturou De Guiche.
 Uma pesada carruagem ia passando ao longo dos grupos e acabou por deter-se. A Srta. de Montpensier ps a cabea pela por-tinhola.
 -        Mais uma vez vocs, os gasces, esto fazendo algazarra! Querem assustar os pssaros de lie de France com suas vozes de trombeta?
 Lauzun correu para ela multiplicando as saudaes. Explicou-lhe o acidente de que acabava de ser vtima a Sra. de Peyrac e disse-lhe que seria necessrio muito 
tempo para reparar o coche e p-lo em condies de prosseguir viagem.
 -        Pois que suba, que suba para o nosso - exclamou a Grande Mademoiselle. - Meu pequeno Pguilin, v busc-la. Venha, minha cara. Temos um banco desocupado. 
Estar  vontade com seu beb. Pobre anjo! Pobre tesouro!
 Ela mesma ajudou Anglica a subir e instalar-se.
 -        Est ferida, minha pobre amiga. Na prxima parada, mandar-lhe-ei meu mdico.
 A jovem percebeu, confusa, que a pessoa que estava sentada ao fundo da carruagem, junto a Srta. de Montpensier, no era outra seno a rainha-me.
 - Que Vossa Majestade me desculpe.
 - No tem de que desculpar-se, senhora - respondeu Ana d'ustria amavelmente. - Mademoiselle tem cem vezes razo de convid-la a viajar em nosso coche. O assento 
 confortvel e nele a senhora se refar melhor de suas emoes. O que me aborrece  o que me dizem acerca desses homens armados que a assaltaram.
 - Meu Deus, talvez esses homens acreditassem dirigir-se  pessoa do rei ou da rainha! - exclamou a Srta. de Montpensier juntando as mos.
 - Seus coches vo cercados de guardas e creio que nada h que temer por eles. No entanto, falarei com o tenente de polcia.
 Anglica experimentava agora os efeitos do choque recebido. Sentia que estava ficando muito plida e, cerrando os olhos, encostou a cabea no espaldar estofado 
de seu assento. O homem havia atirado bem de perto na vidraa. Por milagre no havia ferido nenhum dos ocupantes do veculo. Apertou contra o peito Florimond. Notou 
que ele havia emagrecido e considerou-se culpada. Estava cansado daquelas viagens interminveis. Desde que o haviam separado de sua ama e de seu negrinho, chorava 
sem cessar e recusava o leite que Margarida ia buscar nas aldeias. Suspirava dormindo e havia lgrimas suspensas dos longos clios que sombreavam suas faces descoradas. 
Tinha uma boca pequenina, redonda e vermelha como uma cereja. Suavemente, Anglica enxugou com seu leno a branca fronte do menino, orvalhada de suor.
 A Grande Mademoiselle suspirou ruidosamente.
 - Faz um calor de cozinhar o sangue!
 - H pouco, sob as rvores, estvamos melhor - disse Ana d'ustria abanando seu grande leque de tartaruga negra -, mas agora atravessamos um espao em que a floresta 
foi devastada.
 Houve um silncio; depois, a Srta. de Montpensier assoou-se e enxugou os olhos. Tremiam-lhe os lbios.
 - Est sendo cruel, senhora, fazendo-me reparar no que, h instantes, me dilacera o corao. No ignoro que essa floresta me pertence, e que Monsieur, meu defunto 
pai, a fez falar de tal maneira, para pagar suas despesas, que j nada resta. Pelo menos so cem mil escudos perdidos para mim e com os quais poderia ter formosos 
diamantes e belas prolas...
 - Seu pai nunca teve muito discernimento em seus atos, minha cara.
 __ No indigna ver todas essas razes  flor do solo? Se no estivesse na carruagem de Vossa Majestade, poderia crer que me processam por crime de lesa-majestade, 
j que  costume destruir as matas dos que cometem tais delitos.
 __  verdade que faltou pouco - disse a rainha-me.
 Mademoiselle ruborizou-se at nos olhos.
 -        Vossa Majestade afirmou-me tantas vezes que sua memria tinha esquecido tudo! No me atrevo a compreender a que faz aluso.
 - Reconheo que fiz mal em falar assim. Que quer? O corao  impulsivo, embora a razo queira ser clemente. No entanto, sempre a estimei. Mas houve um tempo em 
que estive zangada com voc. Talvez a tivesse perdoado quanto ao caso de Orlans, mas, quanto ao da Porte de Saint-Antoine e do canho da Bastilha, ter-lhe-ia estrangulado 
se lhe houvesse posto a mo.
 - Seria bem merecido, pois desgostei Vossa Majestade. Foi uma desdita para mim encontrar-me com pessoas que me induziram por honra de dever a fazer o que fiz.
 - E sempre difcil saber onde est nossa honra e onde o nosso dever - disse a rainha.
 Suspiraram juntas, profundamente. Ao ouvi-las, Anglica dizia a si mesma que as querelas dos grandes so bem parecidas com as dos pequenos. Mas onde nestas no 
haveria mais que um murro, naquelas h um canhonao. Onde nestas no haveria mais que ressentimento surdo entre vizinhos, naquelas h um passado cheio de dios misturados 
com intrigas perigosas. Diz-se que se olvida, sorri-se ao povo, acolhe-se o Sr. de Conde para agradar aos espanhis, acaricia-se o Sr. Fouquet para se obter dinheiro 
dele, mas a lembrana dos agravos recebidos permanece no fundo dos coraes.
 Se as cartas contidas no cofrezinho esquecido na torrinha do castelo do Plessis viessem a pblico, no bastariam para reavivar o grande incndio, cujas chamas estavam 
apenas amortecidas?
 Parecia a Anglica que havia ocultado o cofrezinho dentro de si mesma e que agora ele pesava como chumbo sobre a sua vida. Continuava com os olhos cerrados. Tinha 
medo de que por eles vissem passar imagens estranhas: o Prncipe de Conde inclinado sobre o frasquinho de veneno ou lendo a carta que acabava de assinar: "... assumo 
perante Monseigneur Fouquet o compromisso de jamais subordinar-me a outra pessoa que no ele..."
 Anglica sentia-se s. No podia confiar em ningum^ Aquelas agradveis relaes cortess no tinham nenhum valor. vidos de
 proteo e de mercs, todos se afastariam dela ao menor sinal de desfavor. Bernardo d'Andijos era dedicado, mas to leviano! Quando transpusessem as muralhas de 
Paris, no voltaria a v-lo. De brao com sua amante, a Srta. de Montmort, andaria pelos bailes da corte, e, em companhia de gasces, freqentaria de noite as ta-bernas 
e as casas de jogo.
 No fundo, isso no tinha importncia. O principal era chegar a Paris. Ali voltaria a encontrar-se como em terra firme. Anglica instalar-se-ia no belo palcio que 
o Conde de Peyrac possua no Quartier Saint-Paul. Depois iniciaria as investigaes para saber de Joffrey.
 - Estaremos em Paris antes do meio-dia - anunciou-lhe Andi-jos quando, na manh seguinte, Anglica tomava assento com Florimond em um coche que o marqus havia 
alugado para ela, pois o seu estava muito danificado pelo acidente.
 - Talvez encontre ali meu marido e tudo se explicar - disse Anglica. - Por que faz essa cara, marqus?
 - Porque pouco faltou para que a matassem ontem. Se a carruagem no houvesse tombado, o segundo disparo do bandido a teria alcanado  queima-roupa. A bala entrou 
pelo vidro e eu a encontrei no espaldar do fundo, exatamente no lugar em que devia estar sua cabea.
 - J se v que a sorte est do nosso lado! Talvez seja um press-rio feliz de acontecimentos futuros.
 Anglica j se supunha em Paris quando ainda atravessava os arrabaldes. Aps franquear a Porte de Saint-Honor, ficou decepcionada com as ruas estreitas e lamacentas. 
O barulho no tinha a qualidade sonora do de Toulouse, e pareceu-lhe mais estridente e mais spero. Os preges dos mercadores e, sobretudo, os gritos dos cocheiros, 
dos lacaios que precediam os coches e dos portadores de cadeirinhas destacavam-se sobre o fundo de um rudo surdo que a fez pensar no dos troves que precedem as 
tempestades. Havia intenso calor e mau cheiro.
 A carruagem de Anglica; escoltada por Bernardo d'Andijos a cavalo e seguida pelo carro das bagagens e dos dois lacaios montados, levou mais de duas horas para 
alcanar o Quartier Saint-Paul.
 Por fim, entrou na Rue de Beautreillis e retardou a marcha.
 A carruagem parou em frente, de uma grande porta-cocheira de madeira clara com aldravas e fechaduras de bronze lavrado. Por trs do muro de pedras brancas estava 
o ptio de entrada e a casa
 edifiada ao gosto da poca, com grandes pedras de cantaria, janelas altas com vidros claros e telhado adornado com trapeiras e coberto de ardsias novas que brilhavam 
ao sol.
 Um lacaio veio abrir a portinhola da carruagem.
 __  aqui, senhora - disse o Marqus d'Andijos.
 Permanecia a cavalo e olhava o prtico com ar aparvalhado.
 Anglica desceu do coche e correu para a casinha que devia servir de moradia ao suo que guardava o edifcio.
 Puxou a sineta com raiva. Era inadmissvel que ningum tivesse vindo abrir a porta principal. A campainha pareceu soar no deserto. Os vidros da pequena casa estavam 
sujos. Tudo parecia sem vida.
 S ento reparou no curioso aspecto do portal, que Andijos continuava olhando como ferido por um raio,
 Aproximou-se. Cordis vermelhos entrelaados estendiam-se de lado a lado, seguros por grossos selos de cera multicor. Uma folha de papel igualmente presa por selos 
de cera dizia:
 "Cmara de Justia do rei
 Paris
 1o de julho de 1660"
 Com a boca aberta de estupor, olhou sem compreender. Naquele instante entreabriu-se a pequena porta da casinha e apareceu o rosto inquieto de um criado com a libre 
amarrotada. Vendo o coche, ele fechou precipitadamente a porta. Aps alguns momentos, tornou a abri-la e saiu com passo hesitante.
 - Voc  o porteiro? - perguntou a jovem.
 - Sou... sim, senhora, sou eu. Batista... e reconheo a... a carruagem., de... de... meu... meu... meu amo.
 - Pare de gaguejar, imbecil - exclamou Anglica, batendo com o p -, e diga-me logo onde est o Sr. de Peyrac.
 O criado olhou em redor com inquietao. A ausncia de vizinhos pareceu acalm-lo. Aproximou-se mais, ergueu os olhos para Anglica e, de repente, ajoelhou-se diante 
dela sem deixar de lanar em torno de si olhares angustiosos.
 -        Oh! minha pobre senhorazinha - exclamou. - Meu pobre amo!... Oh, que terrvel desgraa!
 -        Mas fale de uma vez! Que aconteceu?
Sacudiu-o por um ombro, cheia de aflio.
 ~ Levante-se, idiota! No entendo nada do que diz. Onde est meu marido? Morreu?
 O homem levantou-se com dificuldade e murmurou:
 -        Dizem que est na Bastilha. A casa est selada. Respondo por ela com a vida. E a senhora, procure fugir daqui enquanto  tempo.
 A lembrana da famosa fortaleza-priso da Bastilha, ao invs de transtornar Anglica, tranqilizou-a um pouco depois do espantoso temor que acabava de experimentar.
 De uma priso pode-se sair. Sabia que em Paris a priso mais temida era a do Arcebispado, situada abaixo do nvel do Sena e onde, no inverno, os prisioneiros corriam 
o perigo de afogar-se, e que o Chtelet e o Hospital Geral eram destinados s pessoas da plebe. A Bastilha era a priso aristocrtica. A despeito de algumas sinistras 
lendas sobre as cmaras fortes de suas oito torres, era sabido que uma estada entre queles muros no desonrava ningum.
 Anglica soltou um pequeno suspiro e esforou-se por enfrentar a situao.
 - Creio que  melhor voc no ficar por aqui... - disse a Andijos.
 - Senhora; afaste-se depressa - insistiu o criado.
 - O problema  saber para onde ir. Tenho uma irm que vive em Paris. Ignoro o endereo, mas seu marido  um procurador do rei, de nome Fallot. Creio que, depois 
de seu casamento, passou a chamar-se Fallot de Sanc.
 -        Se formos ao Palcio da Justia, com certeza nos informaro.
O coche e seu squito reiniciaram o percurso atravs de Paris.
 Anglica no pensava em olhar os lugares por onde iam passando. Aquela cidade, que a recebia de modo to hostil, j no a atraa. Florimond chorava. Estavam-lhe 
nascendo os dentes, e em vo Margarida lhe esfregava as gengivas com uma mistura de mel e erva-doce moda.
 Acabaram por encontrar o endereo do procurador do rei, que morava, como muitos magistrados, no longe do Palcio da Justia, na lie de Ia Cite, na parquia de 
Saint-Landry.
 A rua chamava-se Rue de PEnfer, o que pareceu a Anglica funesto pressgio. As casas eram cinzentas e medievais, com empe-nas agudas, esculturas, grgulas e poucas 
aberturas.
 Aquela diante da qual se deteve a carruagem no parecia menos sombria que as demais, embora tivesse em cada pavimento trs janelas bastante altas. No andar trreo 
ficava o escritrio, sobre cuja porta havia uma placa com estas palavras: "Matre Fallot de Sanc, procurador do rei".
 Dois auxiliares que estavam bocejando na entrada precipitaram-se para Anglica, quando ela se apeou, e imediatamente a envolveram numa torrente de palavras de um 
jargo incompreensvel. Acabou percebendo que exaltavam os mritos do escritrio do Matre de Sanc como o nico lugar de Paris em que as pessoas desejosas de ganhar 
um pleito podiam ser orientadas com toda a segurana.
 -        No venho para um pleito - disse Anglica. - Desejo ver a Sra. Fallot.
 Decepcionados, mostraram-lhe a porta da esquerda, que dava acesso ao domiclio do procurador.
 Anglica levantou a aldrava de bronze e esperou com emoo que viessem abrir.
 Uma gorda criada, de touca branca e decentemente vestida, introduziu-a no vestbulo, mas quase imediatamente Hortnsia apareceu no alto da escada. Tinha visto o 
coche pela janela.
 Anglica teve a impresso de que sua irm estivera a ponto de se lhe atirar ao pescoo, mas que, em seguida, havia assumido um ar distante. Beijaram-se friamente.
 Hortnsia parecia ainda mais magra e alta que antes.
 - Minha pobre irm - disse.
 - Por que me chama "minha pobre irm?" - perguntou Anglica.
 A Sra. Fallot fez um gesto mostrando a criada e levou Anglica para o seu aposento. Era um espaoso quarto, que tambm servia de salo, pois nele havia numerosas 
poltronas e tamboretes, bem como cadeiras e bancos estofados em redor do leito de belas cortinas e colcha de damasco amarelo. Anglica perguntou a si mesma se Hortnsia 
teria o costume de receber suas amigas deitada no leito, como faziam as "preciosas". Outrora, Hortnsia era tida na conta de espirituosa e jactava-se de falar com 
elegncia.
 O aposento estava escuro, pois as vidraas eram coloridas, mas, com tanto calor, a penumbra no era desagradvel. O lajedo era refrigerado por molhos de ervas verdes, 
postos aqui e acol. Anglica aspirou profundamente o bom odor campestre.
 -        A gente se sente bem em sua casa - disse a Hortnsia.
Mas esta no desfranziu a testa.
 - No procure enganar-me com suas maneiras alegres. Estou a par de tudo.    .
 - Voc tem mais sorte do que eu. Confesso que estou na mais completa ignorncia do que se passa comigo.
 - Que imprudncia mostrar-se assim em plena Paris! - disse Hortnsia levantando os olhos.
 - Escute, Hortnsia, no comece a pr os olhos no teto. No
 sei se seu marido  como eu, mas lembro-me que nunca pude v-la fazer esse trejeito sem dar-lhe um sopapo. Agora vou dizer-lhe o que sei, e depois voc me dir 
o que sabe.
 Contou como, encontrando-se em Saint-Jean-de-Luz para o casamento do rei, o Conde de Peyrac havia subitamente desaparecido. As presunes de certos amigos levaram-na 
a crer que ele havia sido preso e trazido para Paris, e por isso tambm ela viera para a capital. Ali acabava de encontrar selada a sua casa e de saber que seu marido, 
sem dvida, estava na Bastilha.
 Hortnsia disse severamente:
 - Assim sendo, voc podia ter alguma dvida de que sua vinda em plena luz do dia seria comprometedora para um alto funcionrio do rei? No entanto, voc aqui est!
 - Sim, com efeito - replicou Anglica -,  estranho que minha primeira idia tenha sido de que as pessoas de minha famlia poderiam ajudar-me.
 - nica ocasio em que se recordou de sua famlia, creio! Estou bem certa de que no haveria recebido sua visita se houvesse podido pavonear-se em sua bela casa 
nova do Quartier Saiht-Paul. Por que no foi pedir hospitalidade aos brilhantes amigos de seu riqussimo e formosssimo esposo, a todos esses prncipes, duques e 
marqueses, em lugar de vir prejudicar-nos com a sua presena?
 Anglica esteve a ponto de se levantar e sair, mas pareceu-lhe ouvir, vindo da rua, o choro de Florimond, e dominou-se.
 - Hortnsia, eu no alimento iluses. Como irm afetuosa e dedicada, pe-me no olho da rua. Mas trago comigo uma criana de catorze meses. E preciso dar-lhe banho, 
mudar-lhe a roupa e aliment-la. Est ficando tarde. Se parto  procura de alojamento, acabarei por ter de dormir na rua. Abrigue-me por esta noite.
 - Uma noite que ser demasiado para a segurana do meu lar.
 - Qualquer um diria que carrego comigo a reputao de uma vida escandalosa!
 A Sra. Fallot contraiu os finos lbios, e seus olhos escuros e vivos, embora muito pequenos, cintilaram.
 -        Sua reputao no  imaculada. Quanto  de seu marido,  simplesmente atroz.
 Anglica no pde deixar de sorrir daquela expresso dramtica.
 - Asseguro-lhe que meu marido  o melhor dos homens. Depressa voc o compreenderia se o conhecesse...
 - Deus me livre! Eu morreria de medo. Se  verdade o que me contaram, no compreendo como voc pde viver vrios anos em sua casa. Com certeza enfeitiou-a.
 Aps um segundo de reflexo, acresccmou. __  verdade que desde muito jovem voc tinha grande predisposio para toda espcie de vcios.
 - Sua amabilidade me confunde, querida!  exato que, desde muito jovem, voc tinha grande predisposio para a maledicn-cia e a maldade.
 - Voc vai de mal a pior! Agora me insulta sob meu prprio teto.
 - Por qe se nega a crer-me? Digo-lhe que meu marido s est na Bastilha por um mal-entendido.
 - Se est na Bastilha,  porque h uma justia.
 - Se h uma justia, ele logo estar em liberdade.
 - Permitam-me intervir, senhora, j que falam to bem da justia - disse atrs delas uma voz grave.
 Havia entrado um homem no aposento. Devia ter uns trinta anos, mas afetava um ar solene. Debaixo da peruca escura, seu rosto cheio, cuidadosamente barbeado, adotava 
uma expresso ao mesmo tempo grave e atenta, que tinha algo de eclesistico. Inclinava a cabea levemente para um lado, como quem-est acostumado, por sua profisso, 
a receber confidencias.
 Pelo traje de tecido preto, confortvel mas adornado apenas com um galo negro e botes de chifre, e pela volta muito branca mas simples, Anglica percebeu que 
estava diante de seu cunhado, o procurador. Para lisonje-lo, fez-lhe uma reverncia. Ele se aproximou e com muita gravidade beijou-lhe ambas as faces, como  comum 
entre pessoas da mesma famlia.
 -        No fale no condicional, senhora. H uma justia. E  em seu nome e por causa de sua existncia que a acolho em minha casa.
 Hortnsia pulou como um gato escaldado.
 - Que  isso Gasto? Est louco! Desde que me casei voc tem me repetido que sua carreira est acima de tudo e que depende exclusivamente do rei...
 - E da justia, querida - interrompeu com doura mas com firmeza o magistrado.
 - O que no impediu que voc tivesse revelado sem cessar o temor de que minha irm se refugiasse em nossa casa. Diante do que sabia sobre a priso de seu marido, 
tal eventualidade, dizia, eqivaleria para ns a uma runa certa...
 - Cale-se, senhora, ou far com que me arrependa de haver trado, por assim dizer, o segredo profissional, pondo-a a par do que soube fortuitamente.
 Anglica decidiu calcar o seu amor-prprio.
 - Soube de alguma coisa? Oh, senhor, pelo amor de Deus, informe-me! Estou h vrios dias na mais absoluta incerteza.
 - Ai, senhora! No procurarei escudar-me com uma falsa discrio, nem expandir-me em palavras de consolo. Confesso-lhe que sei muito pouco. S por uma informao 
oficiosa do palcio me inteirei, com assombro, confesso-o, da priso do Sr. de Peyrac. Por isso lhe peo, em seu prprio interesse e no de seu marido, que no leve 
em conta at nova ordem o que vou confiar-lhe. , alis, repito-o, uma informao muito sumria. Ei-la: seu marido foi preso em virtude de um mandado de terceira 
categoria, isto , em nome do rei. O oficial ou gentil-homem incriminado  convidado pelo rei a dirigir-se em segredo, mas livremente, ainda que acompanhado por 
um comissrio real, ao lugar que lhe  designado. No tocante ao seu esposo, foi primeiramente conduzido a For-Lvque, de onde o transferiram para a Bastilha, por 
uma ordem referendada por Sguier.
 - Agradeo-lhe haver-me confirmado notcias afinal de contas tranqilizadoras. Muitas pessoas foram para a Bastilha e dela saram reabilitadas quando se fez luz 
sobre as calnias que as conduziram para l.
 - Vejo que  mulher de sangue-frio - disse Fallot com um pequeno movimento aprovador da cabea -, mas no quero dar-lhe a iluso de que as coisas se resolvero 
facilmente, pois tambm soube que a ordem de priso, firmada pelo rei, especificava que no se mencionasse nos registros do crcere nem o nome do detido nem a acusao 
de que era objeto.
 - Sem dvida o rei no deseja infligir uma afronta a um de seus fiis sditos antes de haver examinado ele prprio os fatos de que o acusam. Quer poder declar-lo 
inocente sem barulho...
 - Ou esquec-lo.
 - Como assim? Esquec-lo? - repetiu Anglica sacudida por um estremecimento.
 - H muitas pessoas que ficam esquecidas nas prises - disse o magistrado semicerrando os olhos e olhando ao longe -, to esquecidos como no fundo de um tmulo. 
 certo que no  desonroso em si estar prisioneiro na Bastilha, que  a priso das pessoas de qualidade e pela qual passaram inmeros prncipes de sangue sem descer 
de categoria por isso. No entanto, insisto no fato de que ser um prisioneiro annimo e secreto indica que o caso  particularmente srio.
 Anglica ficou silenciosa por um momento. De sbito sentiu cansao, e a fome atenazava-lhe o estmago. Ou seria angstia?
 Levantou os olhos para o magistrado, no qual esperava um aliado.
 -        T que teve a bondade de esclarecer-me as coisas, diga-me, senhor, o que devo fazer.
 _ Uma vez mais, senhora, no se trata de bondade, mas de justia. Por esprito de justia  que a recebo sob meu teto, e, j que me pede conselho, encaminho-a a 
um advogado. Receio que minha interveno neste caso seja considerada parcial e interesseira, embora nossas relaes de famlia no tenham sido at agora muito freqentes.
 Hortnsia, que morria de impacincia, exclamou com a voz aguda de sua juventude:
 - Bem pode dizer isso! Enquanto tinha os castelos e os escudos de seu Coxo, no se preocupou conosco. No acredita que o Sr. Conde de Peyrac, que era do Parlamento 
de Toulouse, teria podido obter-nos alguns favores, recomendando-o a altos magistrados de Paris?
 - Joffrey tinha poucas relaes com as pessoas da capital.
 - Sim, sim! - disse a outra imitando seu modo de falar. - Somente algumas insignificantes relaes com o governador do Lan-guedoc e do Barn, com o Cardeal Mazarino, 
com a rainha-me e o rei!
 - Voc exagera...
 - No foram convidados para as npcias do rei? Sim ou no?
 Anglica no respondeu e retirou-se do salo. No havia argumento que pusesse fim  discusso. Era melhor ir em busca de Flo-rimond, pois o cunhado estava de acordo. 
Ao descer a escada, surpreendeu-se ao notar que sorria. Rapidamente ela e Hortnsia haviam tornado a encontrar o caminho de suas eternas querelas. Monteloup no 
havia morrido. Era melhor puxarem-se os cabelos do. que sentirem-se estranhas uma  outra.
 Na rua encontrou Francisco Binet sentado no estribo da carruagem, com o beb adormecido nos braos. O jovem barbeiro disse-lhe que, vendo o menino sofrer, havia-lhe 
ministrado um remdio  sua maneira, pio e menta amassada, do qual tinha alguma reserva, pois era, como todos os de sua profisso, um pouco cirurgio e boticrio. 
A jovem agradeceu. Perguntou por Margarida e pela pequena ama. Soube ento que a serva, como a espera se prolongava, no tinha podido resistir ao anncio de um criado 
de banheiro que ia cantando pela rua:
 "A imagem de Santa Joana
 Vo banhar-se as mulheres.
 Bem servidas estaro.
 Por criados e camareiras.
 Apressem-se, os banhos esto prontos..."
 Como todos os huguenotes, Margarida tinha forte inclinao para a gua, no que Anglica lhe dava razo: "Eu tambm iria com muito gosto fazer uma visita a essa 
Santa Joana", suspirou.
 Os lacaios e os dois cocheiros, sentados  sombra do carro, be-biam clarete e comiam arenques salgados, pois era uma sexta-feira.
 Anglica olhou suas vestes empoeiradas e Florimond lambuzado de muco e mel at as sobrancelhas. Que lamentvel equipagem!
 Mas devia parecer ainda muito luxuosa  mulher do pobre procurador, porque Hortnsia, que tinha descido atrs dela, ironizou:
 - Bem, querida, para uma mulher que se queixa de estar reduzida a dormir na rua, voc no est demasiadamente mal alojada: um coche, um furgo, seis cavalos, quatro 
ou cinco lacaios e duas criadas que vo aos banhos!
 - Trago uma cama - preveniu Anglica. - Quer que a faa subir?
 -  desnecessrio. Temos leito e roupa de cama suficientes para receb-la. Mas no me  possvel abrigar toda essa criadagem.
 - No ter uma gua-furtada para Margarida e a bab? Quanto aos homens, vou mandar que se alojem numa hospedaria.
 Contraindo a boca, Hortnsia olhava horrorizada aqueles homens do sul que, julgando que no valia a pena perturbar-se com a mulher de um procurador, continuavam 
comendo enquanto a olhavam insolentemente com olhos esbraseados.
 - As pessoas de sua escolta, decididamente, tm ar de bandidos - disse com voz sufocada.
 - Atribui-lhes qualidades que no possuem. Tudo o que lhes posso reprovar  um gosto imoderado de dormir ao sol.
 Na grande cmara que lhe haviam reservado no segundo andar, Anglica teve um momento de alvio mergulhando numa tina e banhando-se com gua fresca. Lavou os cabelos 
e depois, diante de um espelho de ao pendurado na chamin, penteou-os o melhor que pde. O aposento era escuro e os mveis, muito feios mas suficientes. Em uma 
caminha com lenis limpos, Florimond, graas ao medicamento do cabeleireiro, continuava dormindo.
 Depois de s pintar levemente, pois desconfiava que seu cunhado no apreciava mulheres carminadas, ficou indecisa na escolha do traje. O mais simples havia de parecer 
demasiado luxuoso comparado tom as roupas que usava a pobre Hortnsia, que no exibia mais que uns poucos gales de veludo e algumas fitas em seu vestido de pano 
cinza
 Decidiu-se, afinal, a pr um vestido cor de caf com bordados de ouro bastante discretos e substituiu a delicada pala de renda nor um leno de cetim negro ao pescoo. 
Estava acabando de se vestir quando apareceu Margarida desculpando-se de seu atraso.
 Com a mo perita a criada voltou a dar ao cabelo de sua ama a graciosa ondulao que lhe era habitual e no pde resistir ao desejo de perfum-la.
 - Cuidado... No devo ficar demasiado elegante.  preciso inspirar confiana a meu cunhado, o procurador.
 - Ai! Ter visto a seus ps to belos senhores, e adorn-la agora para agradar a um procurador!
 Um berro estridente que vinha do andar trreo interrompeu-as. Precipitaram-se para o patamar.
 Era uma mulher que gritava aterrorizada. Anglica desceu a toda a pressa e, quando chegou ao vestbulo, encontrou seus criados reunidos na soleira com ar espantado. 
Os gritos continuavam, mas j eram menos penetrantes e pareciam provir de um alto armrio de falso bano que adornava a antecmara.
 Hortnsia, que tambm acudira, foi abrir o armrio e conseguiu retirar dele a gorda criada que tinha aberto a porta para Anglica, bem como duas crianas de oito 
e quatro anos agarradas s suas saias. A Sra. Fallot comeou por dar um tapa na criada e depois perguntou-lhe o que estava acontecendo.
 -        Ali! Ali! - balbuciou a infeliz apontando com o dedo.
Anglica olhou na direo indicada e viu o bom Kuassi-Ba, que estava timidamente atrs dos domsticos.
 Hortnsia teve um pequeno sobressalto, mas dominou-se e disse secamente:
 - Ora!  um homem negro, um mouro. No h motivo para gritar assim. Nunca viu um mouro?
 - N... no, no, senhora.
 - No h em Paris quem no tenha visto um mouro. Bem se ve que voc acabou de chegar do campo. Voc  uma tola.
 Acercou-se de Anglica e disse-lhe:
 -        Felicitaes, querida! Voc faz tudo para causar perturbaes em minha casa. Mete nela at um selvagem das ilhas! E provvel que esta criada v embora 
imediamente. E que trabalho me deu arranj-la!
 - Kuassi-Ba - exclamou Anglica -, estas crianas e esta moa tm medo de voc. Mostra-lhes o que sabe fazer para diverti-las.
 - Sim, Mdme.
 O negro deu um salto para a frente. A criada berrou de novo, apoiando-se na parede como se quisesse enterrar-se nela. Mas Kuassi-Ba, depois de dar algumas cambalhotas, 
tirou dos bolsos umas bolinhas coloridas e comeou a fazer malabarismos com surpreendente habilidade. No parecia que suas recentes feridas o incomodassem. Afinal, 
quando viu os meninos sorrirem, tomou a guitarra do jovem Giovanni e, sentando-se no solo com as pernas cruzadas, comeou a cantar com voz doce e aveludada.
 Anglica aproximou-se dos outros domsticos.
 -        Vou dar-lhes dinheiro para poderem alojar-se na hospedaria e fazer as refeies - disse ela.
 O cocheiro da carruagem aproximou-se, retorcendo o chapu de feltro com pluma vermelha que fazia parte da rica libre dos criados do Conde de Peyrac.
 -        Por favor, senhora, gostaramos de pedir-lhe que nos desse tambm o resto de nossos salrios. Estamos em Paris, cidade em que se faz muita despesa.
 Anglica, depois de um instante de hesitao, acedeu ao pedido deles. Mandou que Margarida lhe trouxesse sua caixa de dinheiro e entregou a cada um o que lhe era 
devido. Os homens agradeceram e saudaram. O pequeno Giovanni disse que viria no dia seguinte pedir instrues  senhora condessa. Os demais se retiraram em silncio. 
Quando transpunham a porta, Margarida, do meio da escada, gritou-lhes algo em dialeto do Languedoc, mas eles no responderam.
 - Que lhes disse? - perguntou Anglica, pensativa.
 - Que, se amanh no se apresentarem para receber ordens, o amo lanar sobre eles um sortilgio.
 - Acredita que no voltaro?
 - Receio-o muito.
 Anglica passou a mo pela fronte com lassido.
 - No era preciso dizer que o amo lhes lanar um sortilgio, Margarida. Tais palavras podem causar-lhes mais mal do que bem. Toma, leva a caixinha para o meu quarto 
e trata de preparar o mingau de Florimond, para que possa comer quando acordar.
 - Senhora - disse junto de Anglica uma voz infantil -, meu pai me pediu que a avisasse de que a comida est na mesa e que a esperamos na sala para rezar.
 Era o menino de oito anos que ela havia visto no armrio.
 T no tem medo de Kuassi-Ba? - perguntou Anglica. No senhora. Estou muito contente por ter conhecido um ,   homem negro. Os meus colegas vo sentir inveja. __ 
Como se chama?
 Havia aberto as janelas da sala de refeies, para dar um pouco de claridade e no ser preciso acender as velas. Um crepsculo rosa e lmpido prolongava-se por 
cima dos telhados. Era a hora em que os sinos das igrejas tocavam o ngelus.
 -  Vocs tm belos sinos em sua parquia - observou Anglica para dissipar o constrangimento dos primeiros instantes da refeio.
 -        So os sinos de Notre-Dame - respondeu o Matre Fallot.
 -        Nossa parquia  Saint-Landry, mas a catedral est muito perto. Se se debruar na janela, conseguir ver as duas grandes torres e a agulha da abside.
 No outro extremo da mesa um ancio, tio do Matre Fallot e antigo magistrado, estava teso e silencioso.
 Ao comear a refeio, ele e seu sobrinho deixaram cair, com o mesmo ar de gravidade, um pedao de chifre de licorne em seus copos. Isso fez Anglica lembrar-se 
de que naquela manh tinha esquecido de tomar a pastilha de veneno a que Joffrey queria que se acostumasse.
 A criada servia a sopa. O branco mantel engomado conservava, em retngulos iguais, os vincos da passagem a ferro.
 O servio de prata era muito lindo, mas a famlia Fallot no usava garfos, cujo emprego ainda no se havia generalizado. Joffrey era quem havia ensinado Anglica 
a servir-se de tal objeto, e ela recordou que no dia de seu casamento em Toulouse se havia sentido muito atrapalhada com aquela forquilhazinha na mo. Houve pratos 
de pescado, ovos e laticnios. Anglica suspeitou que sua irm tinha feito trazer de uma rtisserie dois ou trs pratos preparados, para completar o cardpio.
 -        No quero que acrescente nada ao trivial por minha causa -disse.
 -        Pensa que a famlia de um procurador no come seno papas de centeio ou sopas de couve? - replicou a outra com azedume.
 De noite, apesar da fadiga, Anglica no adormeceu logo. Ouviu subir das ruas estreitas e midas os gritos da cidade desconhecida.
 Passou um pequeno vendedor de barquilhas, sacudindo seus dados em um copo de couro. De algumas casas o chamavam, e os
 ociosos se divertiam tirando a sorte os canudos de leve massa folhada.
 Pouco mais tarde soou a campainha de um homem que pedia uma prece pelos finados:
 "Escutem, vocs que dormem, Orem a Deus pelos mortos..."
 Anglica estremeceu e mergulhou o rosto no travesseiro. Buscava a seu lado o corpo comprido, magro e quente de Joffrey. Como faziam falta sua alegria, sua vivacidade, 
sua voz maravilhosa e sempre agradvel, suas mos acariciadoras!
 Quando tornariam a encontrar-se? Como seriam felizes ento! Aninhar-se-ia entre seus braos, pedir-lhe-ia que a beijasse, que a apertasse com fora!... Adormeceu 
agarrada ao travesseiro perfumado de alfazema.
 
 CAPITULO IV
 
 O advogado Desgrez - Visita a Mademoiselle
 
 Anglica removeu a folha de madeira macia e depois lutou contra a janela de losangos de vidro colorido encaixilhados de chumbo. Por fim conseguiu abri-la. Era 
preciso ser parisiense para dormir com a janela fechada em tempo de tanto calor. Respirou profundamente o ar fresco da manh e ficou imvel, estupefata e maravilhada.
 Seu aposento no dava para a Rue de 1'Enfer, mas para o lado oposto. Dominava o rio, liso e brilhante como uma espada, cha-peado de ouro pelo sol nascente e sulcado 
por barcos e pesadas chalanas.
 Na margem fronteira, uma barca de lavadeiras coberta por um bojudo toldo branco punha uma mancha de giz na paisagem levemente embrumada. Os gritos das mulheres, 
o batido de suas ps de madeira chegavam at Anglica misturados com as vozes dos marinheiros e os relinchos dos cavalos que os criados levavam para beber.
 Um cheiro penetrante, ao mesmo tempo acre e doce, molestava o olfato. Anglica inclinou-se e viu que os pilotis de madeira da velha casa se enterravam numa praia 
lodosa, invadida por um monto de frutas podres em torno das quais j se afanavam enxames de vespas.
 A direita, no ngulo da ilha, havia um pequeno porto coalhado de chalanas. Ali desembarcavam cestos repletos de laranjas, cerejas, uvas, peras. Belos rapazes andrajosos, 
em p na extremidade de suas canoas, mordiam laranjas e jogavam no rio as cascas, que as ondas midas impeliam ao longo das casas. Depois despojavam-se ue suas velhas 
roupas e mergulhavam na gua... Partindo das do-
 cas, uma estreita ponte de madeira pintada de vermelho-vivo ligava a Cite a uma pequena ilha.
 Bem em frente, um pouco alm das lavadeiras, comeava uma extensa praia, cheia, igualmente, de barcos mercantes.
 L se via arrumarem tonis, empilharem sacos e descarregarem montanhas de feno para as cavalarias.
 Munidos de croques, alguns homens guiavam troncos de rvores flutuantes, unidos em forma de jangada, e levavam-nos at a margem, onde biscateiros faziam rolar os 
toros e depois os amontoavam.
 Sobre toda aquela animao reinava uma luz cor de primavera, de excepcional suavidade, e que transformava cada cena em delicada tela esfumada, envolta em sonho, 
realada de repente pelo brilho de um reflexo, de um pano ou gorro branco, de uma gaivota que passava  flor da gua.
 -        O Sena era Paris.
 Bateram  porta, e a criada de Hortnsia entrou com uma bilha na mo.
 - Trago leite para o bebe, senhora. Eu mesma fui  Place de la Pierre-au-Lait, de manh cedo. As mulheres das aldeias acabavam de chegar. O leite de suas vasilhas 
ainda estava morno.
 - Foi muito amvel, minha filha, dando-se a tanto trabalho. Deveria ter chamado a bab que eu trouxe comigo, e entregar-lhe o jarro para que o trouxesse para cima.
 - Queria ver se o anjinho havia acordado. Gosto tanto de bebs, senhora!  pena que a Srta. Hortnsia confie os dela a uma ama-de-leite. Teve um h seis meses e 
eu mesma a levei  aldeia de Chaillot. Todos os dias fico angustiada pensando que podem vir comunicar-nos a sua morte, pois a ama quase no tinha leite, e eu acho 
que o criar com po molhado em gua com vinho.
 Era gorducha com faces lustrosas e olhos azuis e ingnuos. Anglica sentiu por ela uma sbita simpatia.
 - Como se chama, minha filha?
 - Chamo-me Brbara, senhora, para servi-la.
 - Pois eu, Brbara, criei meu filho nos primeiros meses. Espero que ele venha a ser robusto.
 - Nada substitui os cuidados de uma me - disse Brbara, sen-tenciosa.
 Florimond despertou. Agarrou-se com as duas mos s bordas do bero e sentou-se, fitando com seus olhos negros e brilhantes o rosto desconhecido.
 -        Tesouro lindo, bom dia, meu querido - cantarolou a criada levantando-o nos braos, ainda sonolento.
 Aproximou-se da janela para mostrar-lhe as embarcaes, as gaivotas e os cestos de laranja.
 - Como se chama aquele pequeno porto? - perguntou Anglica;
 -  o Quai de Saint-Landry, o porto das frutas, e mais alm o Pont Rouge, que leva  ilha Saint-Louis. Defronte tambm desembarcam muitas coisas: h um porto para 
o feno, um porto para a madeira, outro para o trigo e outro para o vinho. Essas mercadorias interessam sobretudo aos senhores do Hotel de Vil-le, o belo edifcio 
que se v por trs da praia.
 - Ea grande praa que fica na frente?
 -  a Place de Greve.
 Brbara semicerrou as plpebras para enxergar melhor.
 - Vejo muita gente esta manh na Place de Greve. Seguramente h um enforcado.
 - Um enforcado? - fez Anglica com horror.
 - Certamente.  l que se fazem as execues. De minha trapeira, que est bem no alto, no perco nenhuma, embora esteja um pouco distante. Prefiro, alis, que seja 
assim, pois tenho o corao sensvel. Os enforcamentos so mais frequentes, mas tambm vi duas cabeas decepadas a machado e um feiticeiro queimado na fogueira.
 Anglica estremeceu e afastou-se. O panorama de sua janela j no lhe parecia to risonho.
 Depois de vestir-se com certa elegncia, porque tencionava ir sTulherias, Anglica pediu a Margarida que pusesse o manto e a acompanhasse. A bab cuidaria de Florimond, 
e Brbara velaria por ambos. Anglica estava contente por ter encontrado uma aliada na domstica da casa, pois isso era de muita importncia para Hortnsia, que 
tinha poucos criados.
 -        Sua apresentao j no era to brilhante dentro em pouco - disse Margarida apertando os lbios. - O que eu temia aconteceu, senhora. Os malditos criados 
e cocheiros fugiram, e no h ningum para guiar o coche e cuidar dos cavalos.
 Aps um momento de inquietao, Anglica recuperou a serenidade.
 -        Afinal de contas, est bem assim. Trouxe comigo apenas quatro mil libras.  minha inteno mandar o Sr. d'Andijos a Toulouse para que me traga dinheiro. 
Mas, enquanto isso, como no conhecemos o futuro,  melhor no ter de pagar a essa gente. Venderei os cavalos e a carruagem ao proprietrio da estrebaria pblica 
e andaremos a p. Tenho grande desejo de ver as lojas.
 - A senhora no sabe quanta lama existe nas ruas. Em alguns lugares a gente se afunda na imundcie at os tornozelos.
 - Minha irm me disse que, calando chapins de madeira, conseguiremos andar facilmente. Vamos, Margarida, minha cara, no rezingues. Vamos visitar Paris. No  
maravilhoso?
 Ao descer, Anglica encontrou no vestbulo Francisco Binet e o pequeno msico.
 -        Agradeo-lhes por me serem fiis - dsse-lhes com emoo -, mas creio que vai ser preciso que nos separemos, pois doravante no poderei conservar-lhes 
a meu servio. Quer, Binet, que o recomende  Srta. de Montpensier? Diante do xito que teve em Saint-Jean-de-Luz, estou certa de que lhe arranjar um emprego ou 
o recomendar, por seu turno, a algum gentil-homem.
 Com grande assombro de Anglica, o jovem oficial no aceitou o oferecimento.
 - Agradeo-lhe, senhora, a sua bondade, mas creio que me colocarei a servio de um mestre barbeiro.
 - Voc - protestou Anglica -, voc, que j era o melhor barbeiro e cabeleireiro de Toulouse!
 - No posso, infelizmente, encontrar emprego mais importante nesta cidade, onde as corporaes so muito fechadas.
 - Mas na corte...
 - Conseguir a honra de servir aos grandes, senhora,  obra de largo flego. No  bom encontrar-se algum de sbito em plena luz, mormente quando se trata de um 
modesto artfice como eu. Basta muito pouca coisa, uma palavra, uma aluso venenosa, para precipitar-nos do auge da grandeza em uma misria maior que a que teramos 
conhecido se houvssemos ficado modestamente na sombra. O favor dos prncipes  to mutvel que um ttulo de glria bem pode ocasionar a nossa perdio.
 Anglica olhou-o fixamente.
 -        Quer dar-lhes tempo para esquecerem que foi o barbeiro do Sr. de Peyrac?
 O homem baixou os olhos.
 - De minha parte, nunca o esquecerei, senhora. Se meu amo se impuser a seus inimigos, eu me apressarei em voltar a servi-lo. Mas no passo de um simples barbeiro.
 - Tem razo, Binet - disse Anglica sorrindo. - Gosto da sua franqueza. No , de maneira alguma, necessrio que o arrastemos em nossa desgraa. Tome cem escudos, 
e desejo-lhe boa sorte. O jovem agradeceu e, apanhando sua caixa de barbeiro, recuou at a porta fazendo reverncias incontveis e saiu.
 - E voc, Giovanni, quer que procure p-lo em contato com o Sr. Lulli?
 - Oh! Quero, sim, senhora!
 - E voc, Kuassi-Ba, que deseja fazer?
 
 - Eu quero passear com a senhora, mdme! 
 Anglica sorriu.
 - Est bem. Venham os dois. Vamos s Tulherias.
 Nesse instante abriu-se uma porta e apareceu a bela peruca escura do Procurador Fallot.
 -        Ouvi a sua voz, senhora, e estava justamente procurando-a para lhe pedir um momento de ateno.
 Anglica fez sinal aos trs servidores para que esperassem.
 -        Estou  sua disposio, senhor.
 Acompanhou-o ao seu escritrio, onde se agitavam escreventes e outros auxiliares. O caracterstico cheiro da tinta, o ranger das penas de ganso, a luz escassa, 
as vestes de pano negro daquelas pessoas necessitadas no faziam da sala um lugar muito agradvel. Nas paredes estavam pendurados inmeros sacos pretos que continham 
os autos dos processos.
 Fallot introduziu Anglica numa saleta contgua, onde um homem a esperava. Seu cunhado o apresentou:
 -        O Sr. Desgrez, advogado. O Sr. Desgrez est  sua disposio para orient-la no difcil processo de seu marido.
 Anglica, consternada, olhava o recm-vindo. Aquilo era o advogado do Conde de Peyrac! Teria sido difcil encontrar capa mais surrada, camisa mais puda, chapu 
mais traado. O procurador, que no entanto lhe falava com considerao, parecia, a seu lado, vestido quase com luxo. O pobre rapaz no usava peruca, e seus longos 
cabelos pareciam da mesma l escura e spera de sua roupa. Entretanto, apesar de sua visvel pobreza, tinha muito desembarao.
 - Minha senhora - declarou logo -, no falemos no futuro nem mesmo no condicional: estou  sua disposio. Agora confie-me sem temor tudo que sabe.
 - Na verdade, maitre - respondeu um tanto friamente Anglica -, no sei nada, ou quase nada sei.
 - E melhor; assim no partiremos de falsas presunes.
 - H, no entanto, um ponto certo - interveio o Procurador Fallot: - a ordem de priso foi assinada pelo rei.
 - Pois bem, maitre. O rei. Partiremos do rei.
 O jovem advogado apoiou o queixo na mo e franziu o sobrolho.
 - No  nada fcil! Como ponto de partida de uma pista, no se pode escolher um mais alto.
 - Tenho inteno de ir ver a Srta. de Montpensier, prima do rei - disse Anglica. - Parece-me que poderia dar-me informaes mais precisas, sobretudo se, como suspeito, 
se trata de uma intriga palaciana. E por intermdio dela talvez pudesse chegar at Sua Majestade.
 - A Srta. de Montpensier, ora essa! - disse o advogado com ar desdenhoso. - Essa varapau  uma desastrada. No se esquea, minha senhora, de que ela foi uma insurgente 
e fez disparar contra as tropas de seu real primo. Com tais ttulos, sempre ser suspeita na corte. Alm disso, o rei a inveja um pouco por causa de sua imensa riqueza. 
Ela compreender logo que no  de seu interesse parecer que est protegendo um nobre cado em desgraa.
 - Creio, e sempre ouvi dizer, que a Grande Mademoiselle tem um excelente corao.
 - Praza ao cu que o demonstre com a senhora! Como filho de Paris, no confio muito no corao dos grandes, que alimentam o povo com os frutos de suas dissenses, 
frutos to amargos e podres como os que fermentam debaixo da sua casa, senhor procurador. Mas, em todo caso, faa a tentativa, minha senhora. Recomendo-lhe, no entanto, 
que no fale a Mademoiselle, nem aos prncipes, seno muito ligeiramente, e sem insistir na injustia de que foi vtima seu marido.
 " um advogadozinho com os sapatos rotos quem me vai ensinar a falar com as pessoas da corte?", pensou Anglica, de mau humor.
 Pegou a bolsa e tirou alguns escudos.
 - Tome um adiantamento para as despesas que lhe possam ocasionar suas buscas - disse.
 - Agradeo-lhe, minha senhora - respondeu o advogado, que, depois de ter lanado aos escudos um olhar satisfeito, os introduziu numa bolsa de couro que tinha  
cintura, e que parecia completamente vazia. Saudou-a muito cortesmente e saiu.
 Um enorme co dinamarqus de plo branco com grandes malhas escuras, e que esperava pacientemente num canto da sala, levantou-se e seguiu o advogado. Este, com 
as mos nos bolsos, afastou-se assobiando alegremente.
 -  Esse homem no me inspira grande confiana - disse Anglica a seu cunhado. - Acho-o ao mesmo tempo zombeteiro, vaidoso e incompetente.
 -   um rapaz muito brilhante - afirmou o procurador -, mas  pobre... como muitos de seus semelhantes. H uma pletora de advogados em Paris. Este teve de herdar 
o cargo de seu pai, pois de outra maneira no teria podido compr-lo. Mas eu o recomendei porque aprecio sua inteligncia e, por outro lado, no lhe custar caro. 
Com a pequena soma que lhe deu far maravilhas.
 -        A questo do dinheiro no deve influir. Se for necessrio, meu marido ter a ajuda dos causdicos mais ilustres.
 Fallot deixou cair sobre Anglica um olhar ao mesmo tempo altaneiro e astuto.
 - Ter, pois,  sua disposio uma fortuna inesgotvel?
 - Comigo, no. Mas vou enviar o Marqus d'Andijos a Toulouse. Procurar nosso banqueiro e o encarregar, se no houver saldo disponvel, de vender algumas terras.
 - No teme que seus bens em Toulouse tenham sido sequestrados e selados como sua casa de Paris?
 Anglica olhou-o aterrada.
 -         impossvel! - balbuciou. - Por que haveriam de fazer isso? Por que haveriam de encarniar-se contra ns? No causamos dano a ningum.
 O procurador fez um gesto compungido.
 -        Ai, senhora! Muitas das pessoas que passam por este escritrio pronunciam essas mesmas palavras. Se lhes dermos ouvidos, concluiremos que ningum faz mal 
a ningum. E, no entanto, sempre h processos...
 "E trabalho para os procuradores", pensou Anglica.
 Com aquela nova inquietao na cabea, quase no apreciou o passeio que, pelas ruas de la Colombe, des Mormousets e de la Lanterne, a levou at o Palcio da Justia. 
Seguindo o Quai de l'Hor-loge chegou ao Pont Neuf, na extremidade da ilha. Sua animao encantou os domsticos. Pequenas tendas sobre rodas cercavam a esttua de 
bronze do bom Rei Henrique IV, e mil gritos apregoavam as mais variadas mercadorias. Aqui se vendia um emplastro maravilhoso, ali se arrancavam dentes sem dor, acol 
ofereciam-se frascos de um produto estranho para tirar manchas da roupa, mais alm livros, brinquedos, colares de ossos de tartaruga para curar dor de barriga. Ouvia-se 
o toque de trombetas e de caixas de msica. Rufavam tambores sobre um tablado onde acrobatas faziam peloticas com copos. Um indivduo macilento, trajando uma roupa 
surrada, introduziu na mo de Anglica uma folha de papel e pediu-lhe dez soldos. Anglica deu-os maquinalmente e guardou o papel no bolso; depois ordenou a seus 
boquiabertos acompanhantes que se apressassem um pouco.
 No tinha nimo para se divertir com coisas vs. Alm disso, a cada passo detinham-na mendigos que surgiam bruscamente diante dela exibindo uma chaga viscosa ou 
um coto envolto em fios sangrentos, ou mulheres andrajosas que levavam nos braos meninos com o rosto coberto de sujeira e cercados de moscas. Aquela gente saa 
da sombra dos prticos ou dos cantos das tendas, ou erguia-se das margens do rio. Pediam esmolas primeiro com voz lamentosa, depois ameaadora.
 Por fim, aborrecida e sem dinheiro trocado, Anglica deu ordem a Kuassi-Ba para afast-los. Imediatamente o negro mostrou seus dentes de canibal e estendeu as mos 
na direo de um homem de muletas que se aproximava e que saiu a correr com surpreendente agilidade.
 - E isso que se consegue indo a p como camponeses - repetia Margarida, cada vez mais irritada.
 Anglica suspirou de alvio quando viu afinal, coberta de hera, a Tour du Bois, ruinoso vestgio da antiga muralha da velha Paris. Pouco depois surgiu o Pavillon 
de Flore, terminando numa galeria e unindo-a em ngulo reto com o Castelo das Tulherias.
 O ar se tornava mais fresco. Um vento brando subia do Sena e dispersava os eflvios malcheirosos da cidade.
 Por fim descobriu as Tulherias, palcio adornado com mil detalhes e flanqueado por uma cpula e por lanternins, residncia de vero de uma graa feminina, pois 
fora edificada por uma mulher, Catarina de Mdicis, a ostentativa italiana.
 Nas Tulherias disseram-lhe que esperasse. A Grande Mademoi-selle havia ido ao Luxemburgo para preparar sua mudana, pois Monsieur, irmo do rei, disputava-lhe as 
Tulherias, onde Mademoi-selle morava havia anos. Ele se instalara com todo o seu squito em uma ala do palcio. Houve troca de gritos e xingamentos. Por fim Mademoiselle 
cedeu, como sempre havia cedido. Era mesmo excessivamente boa.
 Ficando s, Anglica sentou-se perto de uma janela e contemplou os maravilhosos jardins. Para alm dos tabuleiros de mosaicos floridos via-se brilharem os flocos 
brancos de um grande vergel de amendoeiras, e mais longe as massas verdes das rvores da Garenne.
  margem do Sena, um edifcio abrigava o avirio de Lus XIII, onde se criavam ainda falces de caa.
  direita ficavam as clebres cavalarias reais e o picadeiro, do qual subiam quela hora o rudo dos galopes e os gritos dos pajens e dos amestradores.
 Anglica respirava o ar campestre e contemplava os pequenos moinhos de vento nas distantes colinas de Chaillot, de Passy e do Roule.
 Por volta do meio-dia, apareceu a Srta. de Montpensier, suando e abanando-se.
 -        Minha cara - disse a Anglica -, voc chega sempre no momento oportuno. Quando no vejo em meu redor seno idiotas, que me do desejos de esbofete-los, 
seu rosto encantador e seus olhos inteligentes e lmpidos causam-me uma impresso... refrescante.  isso: refrescante... Ser que no pensam em trazer-nos limonada 
e gelo?
 Deixou-se cair em uma poltrona e tomou flego.
 -        Deixe-me que lhe conte. Estive a ponto de estrangular o Petit Monsieur esta manh, e no me teria sido nada difcil. Expulsa-me deste palcio em que vivi 
desde a minha infncia. Digo mais, reinei neste palcio. Daqui mesmo enviei meus cuidados e violinistas a cruzarem o ferro com os homens do Sr. de Mazarino na Ponte 
de la Confrence, que se v l embaixo. Mazarino queria fugir ante a clera do povo, mas no pde sair de Paris. Pouco faltou para que o assassinassem e lanassem 
seu corpo ao rio...
 Anglica perguntava a si mesma como poderia abordar, no meio daquela verborreia, o assunto que a levara ali. Recordava o ceti-cismo do jovem advogado sobre a bondade 
dos grandes. Por fim, apelando para toda a sua coragem, disse:
 -        Perdoe-me, Alteza, mas sei que est a par de tudo o que acontece na corte. No chegou ao seu conhecimento que meu marido est na Bastilha?
 A princesa surpreendeu-se francamente e mostrou-se comovida.
 - Na Bastilha? Mas que crime cometeu?
 - Isso  precisamente o que ignoro, e espero muito de Vossa Alteza, para que me ajude a decifrar este enigma.
 Relatou os acontecimentos de Saint-Jean-de-Luz e o desaparecimento misterioso do Conde de Peyrac. Os selos apostos na casa do Quartier Saint-Paul demonstravam claramente 
que seu rapto se relacionava com um processo criminal, mas o segredo estava bem guardado.
 - Vamos ver - disse a Srta. de Montpensier -, pensemos um pouco. Seu marido tinha inimigos, como todo mundo. Quem, em sua opinio, teria interesse em prejudic-lo?
 - Meu marido no vivia em boa inteligncia com o Arcebispo de Toulouse. Mas no creio que tenha dito contra ele alguma coisa que desse motivo para a interveno 
do rei.
 - O Conde de Peyrac no ter ofendido algum nobre que tenha influncia na corte? Lembro-me de uma coisa, querida. O Sr. de Peyrac mostrou-se uma vez de uma insolncia 
incrvel para com meu pai, quando este se apresentou em Toulouse como governador do Languedoc. Oh! Meu pai no lhe guardou ressentimento, e alm disso est morto! 
O senhor meu pai no tinha carter vingativo, embora passasse a vida conspirando. Dele herdei esta paixo, confesso-o, e por isso o rei nem sempre me v com bons 
olhos. E um homem to suscetvel... Ah! Agora me ocorreu: o SrJde Peyrac no ter ofendido o rei em pessoa?
 - Meu marido no tem o costume de prodigar adulaes. No entanto, respeitava o rei, e no procurou comprazer-lhe o mais que pde quando o recebeu em Toulouse?
 - Oh! Que festa magnfica! - disse com entusiasmo Mademoi-selle, juntando as mos. - Aqueles passarinhos que saam de uma enorme rocha de confeitos!... Mas algum 
me disse que o rei ficou irritado. O mesmo aconteceu em relao ao Sr. Fouquet em Vaux-le-Vicomte... Todos esses grandes senhores no percebem que, se o rei sorri, 
seus dentes esto embotados, como se bebesse agra-o, de ver que seus prprios sditos o esmagam com seu esplendor.
 - No posso acreditar que Sua Majestade tenha um esprito to mesquinho.
 - O rei parece amvel e bom, concordo. Mas sempre recorda o tempo em que os prncipes de sangue lhe faziam guerra. Eu estava ao lado deles,  verdade, j no sei 
por qu. Em resumo, Sua Majestade desconfia de quantos levantam a cabea demasiado.
 - Meu marido nunca procurou conspirar contra o rei. Sempre se conduziu como sdito leal e pagava, ele s, a quarta parte de todos os impostos do Languedoc.
 A Srta. de Montpensier deu em sua visitante uma pancadinha amistosa com o leque.
 - Com que ardor o defende! Confesso que seu aspecto me espantava um pouco, mas, depois de haver conversado com ele em Saint-Jean-de-Luz, comecei a compreender em 
que consiste o fascnio que exerce sobre as mulheres. No chore, querida; devolver-lhe-emos seu grande Coxo sedutor, ainda que tenha de crivar de perguntas o prprio 
cardeal.
 
 CAPTULO V
 
 Assassinato de Margarida - Canalhice do Marqus de Vardes
 
 Anglica separou-se da Grande Mademoiselle um pouco mais tranquila. Combinaram que esta mandaria busc-la quando houvesse conseguido informaes seguras. Desejosa 
de agradar a sua amiga, a princesa consentiu em encarregar-se do jovem Giovanni, que ela colocaria entre seus prprios violinistas e apresentaria a Batista Lulli, 
o professor de msica do rei.
 -        De qualquer modo, no se poder dar qualquer passo antes da entrada do rei em Paris - concluiu. - Tudo est em suspenso por causa das comemoraes. A rainha-me 
est no Louvre, mas o rei e a rainha devem ficar em Vincennes at l. No deixa de ser um transtorno, mas no se impaciente. Eu no a esquecerei e mandarei cham-la 
quando for necessrio.
 Depois de hav-la deixado, Anglica errou um pouco pelos corredores do castelo com a esperana de encontrar Pguilin de Lau-zun, que ela sabia que visitava frequentemente 
Mademoiselle. No o viu, mas encontrou-se com Cerbalaud. Tambm este no sabia o que pensar da priso do Conde de Peyrac: tudo quanto podia dizer era que ningum 
falava disso, nem parecia suspeit-lo.
 No tardariam em sab-lo, afirmou Anglica, confiante na Grande Mademoiselle, a trombeta de cem campanhas.
 Nada lhe parecia mais terrvel agora do que a muralha de silncio que cercava a desapario de Joffrey. Se algum falasse dela, forosamente o assunto viria  luz.
 Perguntou pelo Marqus d'Andijos. Cerbalaud disse-lhe que acabava de partir para o Pr-aux-Clercs, para um duelo.
 -        Vai bater-se em duelo? - exclamou Anglica, assustada.
 - Ele, no, mas Lauzun e d'Humires.
 -        Acompanhe-me. Quero v-los.
 Ao descer a escada de mrmore, aproximou-se dela uma mulher de grandes olhos negros. Reconheceu a Condessa de Soissons, uma das Mancini: Olmpia, sobrinha do cardeal.
 - Sra. de Peyrac, estou feliz por tornar a v-la - disse a bela moa - mas, ainda mais que a senhora, quem me encanta  seu guarda pessoal, negro como bano. J 
em Saint-Jean-de-Luz tencionava pedi-lho. Quer ced-lo a mim? Pagarei bom preo.
 - Kuassi-Ba no est  venda - protestou Anglica. -  certo que meu marido o comprou em Narbonne, ainda muito pequeno, mas jamais o considerou um escravo e paga-lhe 
como se fosse um domstico.
 - Tambm eu lhe pagarei, e muito bem.
 - Lamento-o, senhora, mas no posso compraz-la. Kuassi-Ba me  til, e meu marido sentiria muito no encontr-lo quando voltar.
 -  pena - disse a Sra. de Soissons com um gesto de desapontamento.
 Lanou um olhar de admirao ao gigante, que estava impassvel atrs de Anglica.
 -         espantoso como semelhante criatura pode fazer ressaltar a beleza, atfragilidade e a brancura de uma mulher. No pensa o mesmo, queridssimo?
 Anglica viu ento o Marqus de -Vardes, que se dirigia para o grupo. No tinha nenhum desejo de voltar a encontrar-se frente a frente com aquele gentil-homem, 
que se havia mostrado para com ela to brutal e odioso. Ainda sentia a queimadura nos lbios, que ele to malvadamente havia mordido. Assim foi que se apressou em 
despedir-se da Sra. de Soissons e descer para os jardins.
 - Tenho a impresso de que a bela Olmpia lana olhares concupiscentes ao seu mouro - disse Cerbalaud. - Vardes, seu amante efetivo, no lhe basta. Tem curiosidade 
de saber como um negro pratica o amor.
 - Oh! Apresse-se, em lugar de dizer horrores - disse Anglica, impaciente. - Por minha parte, estou sobretudo curiosa de saber se Lauzun e d'Humires no se esto 
trespassando mutuamente.
 Como a fatigava aquela gente leviana, de crebro vazio e corao egosta! Tinha a impresso de correr, como num sonho, em busca de qualquer coisa extremamente difcil, 
e de se esforar em vo por reunir elementos dispersos. Tudo fugia, tudo se esvaecia
  sua frente.
 J se encontravam os dois no cais do Sena, quando uma voz os chamou. Um gro-senhor, que Anglica no conhecia, dirigiu-se a ela e pediu-lhe alguns momentos de 
ateno.
 -        Senhora, fui enviado por Sua Alteza Real Filipe d'Orlans, irmo do rei. Monsieur desejaria v-la para falar-lhe a respeito do Sr. de Peyrac.
 "Meu Deus!", murmurou Anglica, cujo corao comeou a pulsar mais forte.
 Iria saber finalmente algo de preciso? No lhe inspirava, entretanto, grande simpatia o irmo do rei, homenzinho de olhos tristes e frios. Mas lembrava-se das palavras 
admirativas, embora muito ambguas, que ele havia pronunciado ao se referir ao Conde de / Peyrac. Que teria sabido sobre o prisioneiro da Bastilha?
 - Sua Alteza a esperar esta tarde, pelas cinco horas - continuou a meia voz o gentil-homem. - A senhora dever entrar pelas Tulherias e se dirigir ao Pavillon 
de Flore, onde Monsieur tem seus aposentos. No fale disso a ningum.
 - Irei acompanhada de minha camareira.
 - Como quiser.
 Cumprimentou e afastou-se fazendo retinir as esporas.
 - Quem  esse nobre? - perguntou Anglica a Cerbalaud.
 - O Cavaleiro de Lorena, o novo favorito de Monsieur. De Guich foi deposto: no era muito entusiasta dos amores invertidos e gostava bastante do belo sexo. No 
entanto o Petit Monsieur tambm no despreza de todo as mulheres. Dizem que depois da chegada do rei vo cas-lo, e sabe com quem? Com a Princesa Henriqueta da Inglaterra, 
filha do pobre Carlos I, que os ingleses decapitaram...
 Anglica no prestava muita ateno ao que dizia Cerbalaud. Comeava a ter fome. O apetite nela no perdia jamais os seus direitos. Sentia-se um tanto envergonhada, 
sobretudo nas presentes circunstncias. Que comeria o pobre Joffrey em sua negra priso, ele que era to requintado?
 Lanou um olhar em volta, na esperana de ver algum vendedor de folhados ou de pastis quentes.
 Tinham chegado  outra margem do Sena, perto da velha Porte de Nesle, flanqueada por sua torre. Fazia muito tempo que j no existia o Pr-aux-lercs, onde tantos 
jovens estudantes se divertiam outrora. Mas ainda restava entre a abadia de Saint-Germain-des-Prs e os antigos fossos um terreno baldio, onde os jovens pun-donorosos 
podiam lavar sua honra longe do olhar indiscreto dos guardas.
 Ao se aproximarem, Anglica e Cerbalaud ouviram gritos e encontraram Lauzun e o Marqus d'Humires, que, de camisa aberta, ao estilo dos duelistas, se precipitavam 
sobre Andijos com a inteno de esmurr-lo. Ambos contaram que, obrigados a bater-se, haviam ido, cada qual em segredo, pedir a Andijos que viesse apart-los em 
nome da amizade. Mas o traidor se tinha escondido atrs de uns arbustos e, rindo feito um louco, havia assistido s angstias dos dois "inimigos", que faziam atrasar-se 
o duelo pretextando que uma das espadas era mais curta que a outra ou que os sapatos eram apertados. Finalmente protestaram quando apareceu o conciliador.
 -        Por menos coragem que tivssemos, poderamos degolar-nos cem vezes - gritava o mido Lauzun.
 Anglica uniu-se a eles contra Andijos.
 -        Acredita que meu marido o manteve durante quinze anos para que se entregue a faccias estpidas enquanto ele est numa priso? - gritou-lhe. - Oh! estas 
criaturas do Midi!
 Puxou-o para um lado e, cravando-lhe as unhas no brao, ordenou-lhe que seguisse imediatamente para Toulouse a fim de trazer-lhe dinheiro quanto antes. Bastante 
envergonhado, Andijos confessou haver perdido tudo o que possua, jogando na vspera em casa da Princesa Henriqueta. Anglica deu-lhe quinhentas libras e mandou 
que Kuassi-Ba o acompanhasse.
 Quando eles partiram, Anglica percebeu que Lauzun e d'Hu-mires, bem como suas testemunhas, tambm haviam desaparecido.
 Ps a mo na testa.
 - Tenho de voltar s Tulherias s cinco horas - disse a Margarida. - Esperaremos numa taberna em que possamos beber e comer.
 - Uma taberna! - repetiu a criada. - Senhora, no  lugar para uma condessa.
 - Acha que uma priso seja lugar para meu marido? Tenho sede e fome.  voc tambm. Deixemo-nos de cerimonias e vamos descansar.
 Tomou-a pelo brao familiarmente e apoiou-se nela. Era mais baixa que Margarida, e talvez por isso se tenha deixado impressionar pela camareira tanto tempo. Agora 
conhecia-a bem. Viva, veemente, irritvel, Margarida tributava  famlia Peyrac uma abnegao indefectvel.
 - Talvez tenha desejos de ir embora voc tambm - disse bruscamente Anglica. - No sei absolutamente como vai terminar tudo isto. Deve ter visto que os criados 
se atemorizaram logo, e talvez no estivessem errados.
 - Nunca desejei seguir o exemplo dos criados - disse desdenhosamente Margarida, cujos olhos ardiam como brasas.
 Aps um momento de reflexo, acrescentou:
 -        Para mim a vida gira em torno de uma s recordao. Lanaram-me com o conde na cesta do campons catlico que o levou de volta a casa de seus pais em Toulouse. 
Foi depois da matana dos habitantes de minha aldeia, entre os quais estava minha me, sua ama-de-leite. Eu tinha apenas quatro anos, mas me lembro de todos os detalhes. 
Ele estava ferido e gemia. Eu enxugava-lhe desajeitadamente a carinha ensanguentada, e, como ele ardia de sede, punha-lhe nos lbios um pouco de neve derretida. 
Agora, como ento, embora tenha de morrer sobre a palha de uma enxovia, no o abandonarei...
 Anglica no respondeu, mas apoiou-se mais firmemente na criada e descansou um instante a face no seu ombro.
 Acharam uma taberna perto de Porte de Nesle, diante da pequena ponte arqueada que atravessava o antigo fosso das muralhas. A taberneira preparou-lhes um fricass.
 Havia pouca gente na sala, alm de alguns soldados que olhavam para aquela dama ricamente vestida, sentada diante de uma tosca mesa.
 Pela porta aberta Anglica olhava a sinistra Torre de Nesle, flanqueada por seu lanternim. Dali  que eram precipitados no rio os amantes de uma noite da lasciva 
Margarida de Borgonha, rainha da Frana, que, mascarada, ia buscar nas ruelas os estudantes de rosto bonito.
 Agora o governo da cidade havia alugado a torre em runas a umas lavadeiras que estendiam suas roupas nas ameias e seteiras.
 O lugar era tranquilo e pouco transitado, e o campo ficava muito prximo. Os bateleiros puxavam suas canoas sobre a vasa das margens. Alguns meninos pescavam  
linha nos fossos...
 Quando comeou a cair a tarde, Anglica atravessou de novo o rio para voltar s Tulherias. Havia muita gente nas alias do jardim, pois a hora fresca atraa no 
s nobres, mas tambm famlias de ricos burgueses que tinham acesso s avenidas do parque.
 No Pavillon de Flore, o Cavaleiro de Lorena veio pessoalmente ao encontro das visitantes e f-las sentar em um banco da antecmara. Sua Alteza no demoraria. Deixou-as.
 Os corredores pareciam muito animados. Aquela passagem servia de comunicao entre as Tulherias e o Louvre. Anglica notou vrios rostos que tinha visto em Saint-Jean-de-Luz. 
Escondia-se em um canto porque no desejava que a reconhecessem. Alm disso, poucas pessoas repararam nas duas mulheres. Iam ao jantar de Ma-demoiselle. Reuniam-se 
para jogar trinta-e-um com a Princesa Henriqueta. Alguns deploravam ser obrigados a voltar ao Castelo de Vincennes, to desconfortvel, mas onde o rei permanecia 
at sua entrada em Paris.
 Pouco a pouco as sombras invadiram os corredores. Apareceram filas de lacaios trazendo candelabros, que eles foram colocando sobre os consolos entre as altas janelas.
 - Senhora - disse abruptamente Margarida -,  preciso regressarmos. A noite j escurece os vidros das janelas. Se no formos agora, no encontraremos o caminho, 
ou ento correremos o risco de ser assassinadas por algum bandido.
 - No sairei daqui enquanto no vir Monsieur - disse Anglica teimosamente. - Ainda que tenha de passar a noite neste banco.
 A serva no insistiu. Mas, decorridos alguns minutos, voltou a falar, em voz baixa: - Senhora, receio que queiram atentar contra sua vida. Anglica sobressaltou-se.
 - Est louca! Onde foi buscar semelhante ideia?
 - No muito longe. Quiseram mat-la faz apenas quatro dias.
 - Que quer dizer?
 - Na floresta de Rambouillet. O alvo no era o rei nem a rainha, mas a senhora. E se o coche no se houvesse desequilibrado num carril, a bala que dispararam  
queima-roupa atravs do vidro certamente a teria atingido a cabea.
 - Voc imagina coisas extravagantes. Aqueles criados, procurando fazer mal, teriam assaltado qualquer viatura...
 - Oh! Ento por que motivo o que disparou contra a senhora era o seu antigo mordomo Clemente Tonnel?
 Anglica percorreu com a vista a antecmara agora deserta, onde as chamas verticais das velas de cera no faziam mover-se nenhuma sombra.
 - Est certa do que diz?
 - Responderia por isso com a vida. Reconheci-o perfeitamente, embora ele tivesse baixado o chapu sobre os olhos. Devem t-lo escolhido porque a conhece bem, e 
assim tinham certeza de que no erraria a pessoa.
 - Quem o escolheu? - indagou Anglica.
 - E eu sei? - respondeu a servilheta, encolhendo os ombros. - Mas de uma coisa estou convicta: esse homem  um espio; ele nunca me inspirou confiana. Em primeiro 
lugar, no  de nossa terra. Depois, no sabia rir. Finalmente, parecia estar sempre vigiando alguma coisa; mostrava-se atarefado, mas tinha os ouvidos demasiadamente 
abertos... Agora, o motivo de querer mat-la eu no poderia explicar, como no sei a razo por que meu amo est preso. Mas teria de ser cega, surda e idiota para 
no compreender que a senhora tem inimigos que juraram perd-la.
 Anglica estremeceu e aconchegou ao corpo a ampla capa de se da escura.        
 -        No vejo nada que possa motivar tal encarniamento. Por que ho de querer matar-me?
 Em um relmpago passou diante de seus olhos a viso do cofre-zinho de veneno. Aquele segredo ela no o havia transmitido seno a Joffrey. Era possvel que ainda 
se preocupassem com aquela velha histria?
 -        Vamos, senhora! - repetiu Margarida com insistncia.
Naquele momento um rumor de passos repercutiu na galeria e Anglica sobressaltou-se. Algum se aproximava. Ela reconheceu o Cavaleiro de Lorena, que trazia um candelabro 
de trs velas. As chamas alumiavam-lhe o belo rosto, e suas maneiras afveis no chegavam a disfarar uma expresso hipcrita e um tanto cruel.
 -        Sua Alteza Real pede-lhe infinitas desculpas - disse ele, inclinando-se. - Atrasou-se e no poder comparecer esta noite  entrevista que lhe marcou. Quer 
deix-la para amanh  mesma hora?
 Anglica sofreu uma decepo terrvel. Aceitou, no entanto, a nova entrevista.
 O Cavaleiro de Lorena disse-lhe que as portas das Tulherias estavam fechadas; ia conduzi-las at o outro extremo da grande galeria. Ali, saindo por um jardinzinho 
chamado Jardin de Plnfante, estariam a alguns passos do Pont Neuf.
 O cavaleiro caminhava levando alto o candelabro. Seus taces de madeira ressoavam lugubremente sobre as lajes. Anglica viu refletir-se nos negros vidros o pequeno 
cortejo e achou nele qualquer coisa de funreo. De vez em quando passavam por um guarda ou abria-se uma porta e por ela saa um par risonho. Havia um salo brilhantemente 
iluminado, onde a sociedade se entretinha em diversos jogos. Uma orquestra de violinos lanava sua melodia acidula e doce.
 Por fim a marcha inacabvel pareceu terminar. O Cavaleiro de Lorena parou.
 -         esta a escada por onde descer aos jardins. Encontrar imediatamente  direita uma pequena porta e alguns degraus, e se encontrar fora do palcio.
 Anglica no se atreveu a dizer que no tinha coche e, alis, o cavaleiro no procurou saber. Inclinou-se com a correo de algum que terminou seu servio e afastou-se.
 Anglica segurou de novo o brao da criada.
 -        Apressemo-nos, Margarida, minha cara. No sou medrosa, mas este passeio noturno no me entusiasma.
 Comearam a descer a toda a pressa os degraus de pedra.
 Foi seu sapatinho que salvou Anglica. Havia caminhado tanto durante o dia que a frgil correia cedeu bruscamente. Soltando sua companheira no meio da escada, inclinou-se 
para procurar arranj-la. Margarida continuou a descer.
 De sbito um grito atroz elevou-se da escurido, um grito de mulher ferida de morte:
 -        Socorro, senhora!... Esto-me assassinando!... Fuja!... Fuja!
Logo emudeceu a voz. Um gemido espantoso prolongou-se, cada vez mais fraco.
 Gelada de pavor, Anglica sondava em vo o poo escuro em que mergulhavam os brancos degraus! Chamou:
 -        Margarida! Margarida!
 Sua voz ecoou em um silncio profundo. O ar fresco da noite perfumada pelas laranjeiras do vergel chegava at ela, mas nenhum rudo se ouvia.
 Dominada pelo terror, Anglica subiu apressadamente e reencontrou as luzes da grande galeria. Passava um oficial. Ela precipitou-se para ele.
 -        Senhor! Senhor! Socorro! Acabam de matar minha criada.
Reconheceu, um pouco tarde, o Marqus de Vardes, mas naquela situao ele pareceu-lhe providencial.
 - Ah!  a mulher de ouro - disse com sua voz zombeteira - a mulher de dedos geis.
 - Senhor, o momento no  para brincadeiras. Repito-lhe que acabam de assassinar minha criada.
 - E da? Quer que me ponha a chorar? Anglica torcia as mos.
 - Por favor,  preciso fazer alguma coisa, persiga os malfeitores que esto escondidos sob esta escada. Talvez ela esteja apenas ferida.
 Ele a olhava sem deixar de sorrir.
 -        Decididamente, a senhora me parece menos arrogante que da primeira vez em que nos encontramos. Mas a emoo no lhe fica mal.
 Ela esteve a ponto de arranhar-lhe a cara, de esbofete-lo, de chamar-lhe covarde. Mas ouviu o tinir da espada que ele desembainhava, enquanto dizia displicentemente:
 -        Vamos ver o que  isso.
 Anglica seguiu-o, procurando dominar os nervos, e desceu ao lado dele os primeiros degraus.
O marqus inclinou-se por cima da balaustrada.        
 -        No se v nada, mas fede. O cheiro da canalha no engana: cebola, tabaco e vinho negro das tabernas. Ouvem-se os movimentos, l embaixo, de quatro ou cinco.
 E tomando-a pelo pulso:
 Escute!
 O rudo de uma queda na gua, seguido de uma breve chuva de respingos, quebrou o triste silncio.
 -        A est. Acabam de atirar o corpo ao Sena.
 Voltado para ela, com os olhos meio cerrados como se a estudasse com ateno de rptil, continuou:
 -        Oh! O lugar  clssico! Existe ali uma portinha que amide se esquecem de fechar... s vezes de propsito. E uma brincadeira para quem quer introduzir 
alguns assassinos profissionais. O Sena est a dois passos. A coisa  feita num instante. Escute um pouco. Ouvir seus cochichos. Devem ter percebido que no mataram 
a pessoa que lhes tinha sido designada. Tem, ento, grandes inimigos, minha bela?
 Anglica cerrava os dentes para no bater o queixo. Afinal, conseguiu dizer:
 - Que vai fazer?
 - No momento, nada. No tenho o menor desejo de ir medir minha espada com as tarascas desses facnoras. Mas, daqui a uma hora, os suos vo guardar este recanto. 
Os assassinos escaparo, a menos que se deixem apanhar. Seja como for, a senhora poder ento passar sem receio. Enquanto isso...
 Segurando-a sempre pelo pulso, conduziu-a de volta  galeria. Ela o acompanhava maquinalmente, a cabea cheia de zumbidos.
 - Margarida est morta... Quiseram matar-me...  a segunda vez..- E eu no sei nada, nada. Margarida est morta...
 Vardes introduziu-a numa reentrncia em que havia um consolo e tamboretes e que devia servir de antecmara a um apartamento vizinho. Com toda a calma tornou a embainhar 
a espada, tirou o talabarte e colocou-o com a espada sobre o consolo. Depois aproximou-se de Anglica.
 Ela percebeu prontamente o que ele queria e repeliu-o com horror.
 - Como, senhor, acabo de assistir ao assassnio de uma mulher a quem tinha amizade, e acredita que vou consentir...?
 - Pouco me importa que consinta ou no. O que as mulheres tm na cabea me  indiferente. S lhes vejo interesse abaixo da cintura. O amor  uma formalidade. Ignora 
que  assim que as damas formosas pagam sua passagem pelos corredores do Louvre?
 Anglica procurou zurzi-lo:
 -        E verdade, tinha-o esquecido. "Quem diz Vardes diz selvagem."
 O marqus beliscou-lhe o brao at faz-lo sangrar.
 -        Cadelinha! Se no fosse to bonita, abandon-la-ia com muito gosto a esses bons sujeitos que a esperam l embaixo. Mas seria uma pena ver sangrar uma franguinha 
to delicada. Vamos, seja cordata!
 Anglica no o via, mas adivinhava o sorriso presunoso, um tanto cruel, de seu belo rosto. Uma luz indecisa, que vinha da galeria, alumiava sua peruca de um louro 
plido.
 - Se me tocar - disse, anelante -, eu grito!
 - Gritar no serviria de nada. Este lugar  pouco frequentado. No haveria quem a acudisse, a no ser esses cavalheiros de chan-falho. No faa escndalo, querida. 
Eu a quero e ser minha. H tempo que o decidi, e a sorte me favoreceu. Prefere que a deixe ir sozinha para casa?
 Irei pedir ajuda em outra parte.
 - Quem a ajudar neste palcio, onde tudo parece ter sido to bem preparado para a sua perdio? Quem a conduziu a essa formosa escada?
 - O Cavaleiro de Lorena.
 - O qu? Ento  coisa do Petit Monsieur! De fato no seria a primeira vez que se suprimiria um "rival" incomoda. Veja, pois, como  muitssimo conveniente calar...
 Ela no retrucou, mas, quando ele se aproximou de novo, ficou imvel.
 Sem precipitao, com insolente tranquilidade, ele levantou sua comprida e roante saia de tafet, e ela sentiu suas mos tpidas acariciarem-lhe os rins.
 -        Encantadora - disse ele a meia voz.
 Anglica estava fora de si, de humilhao e de medo. Em seu esprito dementado turbilhonavam imagens absurdas: o Cavaleiro de Lorena e seu candelabro, a Bastilha, 
o grito de Margarida, o cofrezinho de veneno. Depois tudo se esvaeceu e ela submergiu na ansiedade, no pnico fsico da mulher que no conhecera seno um nico homem. 
Aquele contato novo a inquietava'e revoltava. Contorceu-se, procurando escapar ao amplexo. Queria gritar, mas nenhum som lhe saa da garganta. Paralisada, tremula, 
deixou-se dominar, quase inconsciente do que lhe sucedia...
 Uma luz mergulhou de sbito na pequena sala. Um nobre que passava desviou rapidamente o candelabro que levava na mo e afastou-se rindo e gritando: "No vi nada!" 
Aquele gnero de espetculo parecia familiar aos moradores do Louvre.
 O Marqus de Vardes no se perturbou nem de leve. Na sombra em que suas respiraes se misturavam, Anglica, estupefata, perguntava a si mesma quando teria fim 
o terrvel constrangimento. Fatigada, turbada, meio desfalecida, abandonava-se, a contragosto, aos braos masculinos que a esmagavam. Pouco a pouco, o indito daquele 
aperto, a repetio dos movimentos amorosos para os quais seu corpo era to maravilhosamente feito, causaram-lhe uma excitao contra a qual j no se defendia. 
Quando recuperou a conscincia era muito tarde. A centelha do prazer produzia nela uma languidez bem conhecida, acendia em suas veias a chama sutil que em breve 
se transformaria em fogo abrasador.
 O jovem percebeu. Teve um risinho abafado e redobrou a percia e ateno.
 Ento ela se rebelou contra si mesma, recusando-se a permitir o atentado, volvendo a cabea e gemendo baixo: "No, no". Mas a luta no fez seno abreviar sua derrota 
e dentro em pouco ela se entregou vencida.
 Mal se separaram, Anglica sentiu-se invadida de uma espantosa vergonha. Enterrou o rosto nas mos. Desejaria ter morrido, nunca mais rever a luz.
 Silencioso, ainda arquejante, o oficial recolocou o boldri.
 -        Os guardas j devem ter chegado - disse. - Venha comigo.
Como Anglica no se movia, tomou-lhe o brao e f-la sair da antecmara. Ela se desprendeu, mas seguiu-o sem proferir uma palavra. A vergonha continuava a queim-la 
como ferro em brasa.
 Nunca mais poderia olhar Joffrey face a face, beijar Florimond. Vardes tinha destrudo e saqueado tudo. Ela havia perdido a nica coisa que lhe restava: a conscincia 
de seu amor.
 Ao p da escada, um suo de gibo de gola branca assobiava apoiado em sua alabarda.
 Ao ver seu capito, endireitou-se.   .
 - No h nenhum patife pelos arredores? - interrogou o marqus.
 - No vi ningum, senhor. Mas antes que eu chegasse deve ter havido um crime.
 Erguendo a lanterna, mostrou no solo uma grande poa de sangue.
 - A porta do Jardin de 1'Infante que d para o cais estava aberta. Segui o sangue at l. Suponho que lanaram o corpo  gua...
 - Est bem. Vigie atentamente.
 No havia luar. Das margens subia um cheiro de vasa desagradvel. Ouvia-se murmurejar o Sena e zumbirem os mosquitos. Anglica deteve-se  margem do cais e chamou 
em voz baixa:
 -        Margarida!
 Sentiu desejos de anular-se naquela escurido, de afundar-se por sua vez no seio da noite lquida. A voz do Marqus de Vardes interrogou-a secamente:
 - Onde voc mora?
 - Probo-lhe de me tratar por "voc"! - gritou encolerizada.
 - Sempre trato por voc as mulheres que foram minhas.
 - No me importam seus costumes. Deixe-me em paz.
 - Oh! No estava to orgulhosa h pouco. No tive a impresso de desagrad-la tanto.
 "H pouco era h pouco. Agora  outra coisa. E agora o odeio."
 Repetiu vrias vezes: "Eu o odeio!" com os dentes cerrados, e cuspiu em sinal de desprezo. Em seguida ps-se a caminhar, tropeando na terra do cais.
 A escurido era completa. Somente algumas lanternas, aqui e ali, alumiavam a tabuleta de uma loja, o prtico de uma casa burguesa.
 Anglica sabia que o Pont Neuf ficava  sua direita. Conseguiu ver, sem grande dificuldade, o branco parapeito, mas, quando ia transp-lo, uma espcie de larva 
humana que estava acocorada ergueu-se diante dela. Pelo cheiro nauseabundo, adivinhou que era um dos mendigos que tanto a tinham assustado em pleno dia. Retrocedeu, 
lanando um grito agudo. Atrs dela acelerou-se um passo e ergueu-se a voz do Marqus de Vardes:
 -Para trs, vagabundo, ou eu o atravesso!
 O outro continuava plantado no meio da ponte.
 - Piedade, senhor! Sou um pobre cego.
 - Mas no para ver-me e extorquir-me a bolsa!
 De Vardes levou a ponta da espada ao ventre da deforme criatura, que teve um sobressalto e fugiu a lamentar-se.
 -        Agora vai dizer-me onde mora? - disse duramente o oficial.
Contrafeita, Anglica deu o endereo de seu cunhado. Aquela Paris noturna a terrificava. Sentia-se em um formigueiro de seres invisveis, uma vida subterrnea semelhante 
 dos bichos-de-contas. Ouviam-se vozes, cochichos, risotas. De quando em quando, a porta aberta de uma taberna ou de um bordel lanava para fora uma faixa de luz 
e canes berradas, e viam-se entre o fumo dos cachimbos mosqueteiros sentados em redor das mesas, com uma decada nua sobre os joelhos. Depois recomeava a aranhol 
de ruelas, o labirinto tenebroso.
 De Vardes voltava a cabea a todo instante. De um grupo reunido perto de uma fonte havia-se separado um indivduo que os seguia com passo silencioso.
 -        Ainda est longe?
 - Estamos chegando - disse Anglica, que reconheceu as grgulas e empenas das casas da Rue de 1'Enfer.
 - Tanto melhor, pois creio que vou ser obrigado a atravessar algumas panas. Escute-me bem, garota. Nunca mais volte ao Lou-vre. Esconda-se. Faa com que a esqueam.
 - No ser escondendo-me que conseguirei tirar meu marido da priso.
 De Vardes ps-se a rir.
 -        Como lhe aprouver,  fiel e virtuosa esposa!
 Anglica sentiu que lhe subia ao rosto uma onda de sangue. Tinha gana de morder, de estrangular.
 Um segundo vulto surgiu, da sombra de um beco.
 O marqus encostou a jovem  parede e postou-se diante dela com a espada na mo.
 No crculo de claridade que projetava a grande lanterna pendurada diante da casa do Matre Fallot de Sanc, Anglica olhava com os olhos dilatados de pavor aqueles 
homens cobertos de farrapos. Um deles tinha na mo um pau, e o outro, uma faca de cozinha.
 - As bolsas! - disse o primeiro com voz roufenha.
 - Levaro alguma coisa, com certeza, cavalheiros, mas sero algumas estocadas.
 - Tendo alcanado a aldrava de bronze da porta, Anglica batia sem cessar. A porta, afinal, se entreabriu. Ela penetrou na casa, levando nas retinas a viso do 
Marqus de Vardes, cuja espada em riste continha os malandrins.
 CAPTULO VI
 
 Joffrey de Peyrac na Bastilha
 
 Quem abriu a porta foi Hortnsia. Com uma vela na mo, o pescoo magro emergindo de uma camisa de tecido grosso, seguia sua irm pela escada, cochichando com voz 
sibilante.
 Ela sempre o dissera. Anglica no passava de uma assanhada, e o fora desde a meninice. Uma intrigante. Uma ambiciosa que apenas queria a fortuna de seu marido 
e ainda tinha a hipocrisia de fazer crer que o amava, enquanto no se privava de andar com libertinos nos bas-fonds de Paris.
 Anglica no prestava ateno s palavras de Hortnsia. Escutava os rudos da rua e ouviu perfeitamente um retinir de ferros, depois um grito de homem degolado, 
seguido de uma fuga desvairada.
 - Escute! - murmurou, apertando nervosamente o brao de Hortnsia.
 - Que  que h?
 - Esse grito! Certamente h algum ferido.
 - E da? A noite  para os salteadores e os desordeiros. Nenhuma mulher respeitvel teria a ideia de passear em Paris aps o anoitecer. Era preciso que fosse a 
minha prpria irm!
 Levantou a vela para alumiar o rosto de Anglica.
 -        Se se visse! Puxa! Tem uma cara de cortes que acaba de se dar.
Anglica arrancou-lhe das mos o castial.
 -        E voc tem uma cara de hipcrita que no se deu bastante. V juntar-se com seu marido procurador, que na cama s sabe roncar.
 Anglica ficou muito tempo sentada  janela, no se decidindo a deitar-se para dormir. No chorava. Revivia os acontecimentos daquele espantoso dia. Parecia-lhe 
que um sculo se havia escoado desde o momento em que Brbara havia entrado no quarto dizendo: "Aqui est um bom leite para o bebe".
 Depois Margarida morrera e ela, Anglica, havia trado Joffrey.
 "Se ao menos isso no me houvesse feito sentir tanto prazer!", repetia ela consigo mesma.
 A sensualidade de seu corpo causava-lhe horror. Enquanto esteve junto de Joffrey, saciada por ele," no tinha sabido como era verdadeira a frase que ele lhe dissera 
muitas vezes: "Voc foi feita para o amor".
 Chocada com a trivialidade de certas ocorrncias de sua infncia, acreditara-se fria, com suas repulses, seus reflexos medrosos. Joffrey tinha sabido libert-la 
dessas ms inibies, mas tambm havia despertado nela o gosto do prazer, para o qual a predispunha sua natureza sadia e campestre. As vezes ele se havia mostrado 
um tanto inquieto.
 Ela recordava uma tarde de vero em que, estendida de travs no leito, desmaiou sob as carcias do marido. De repente ele se interrompera e lhe dissera bruscamente:
 - Voc no me trair?
 - No, jamais. E a voc, somente, que eu amo.
 - Se voc me trasse, eu a mataria!
 "Que me mate!", pensou Anglica erguendo-se subitamente. "Seria bom ser morta por suas mos. E a ele que eu amo."
 Apoiada  janela, contemplando a cidade noturna, repetiu: "E a voc que eu amo".
 Elevou-se no quarto a leve respirao do beb. Anglica conseguiu dormir uma hora, mas, comas primeiras luzes da alvorada, achou-se de p. Amarrou um leno  cabea, 
desceu pisando de manso e saiu.
 Misturando-se s criadas, s mulheres de artesos e de comerciantes, foi a Notre-Dame para ouvir a primeira missa.
 Nas ruelas, onde a nvoa do Sena se dourava, como um vu ferico, sob os primeiros raios de sol, ainda se respiravam os odores da noite. Vagabundos, batedores de 
carteira recolhiam-se aos seus covis, enquanto mendigos, aleijados, enfermos se instalavam nas esquinas. Olhos remelentos seguiam aquelas mulheres honradas e devotas 
que iam dirigir preces ao Senhor antes de comear sua lida. Os artesos abriam suas tendas.
 Aprendizes-cabeleireiros, com o saco de p e o pente na mo, corriam para a casa dos clientes burgueses a fim de ajustarem a peruca do senhor conselheiro ou do 
senhor procurador.
 Anglica dirigiu-se a uma das naves laterais da catedral. Os sacristes preparavam os clices e as galhetas sobre os altares, enchiam as pias de gua-benta, limpavam 
os castiais.
 Anglica entrou no primeiro confessionrio que encontrou. Com as tmporas latejando, acusou-se de ter cometido o pecado de adultrio.
 Depois de receber a absolvio, assistiu  missa e encomendou trs pelo repouso da alma de sua criada Margarida.
 Ao sair para o adro, sentia-se aquietada. A hora dos escrpulos tinha passado. Agora ela manteria toda a sua coragem para lutar e arrancar Joffrey  priso.
 Comprou a um pequeno vendedor alguns barquilhos ainda quentes do forno, e olhou em volta de si. A animao j tinha chegado a seu ponto culminante no adro. Carruagens 
traziam grandes damas para a missa.
 Diante das portas do hospital, o Htel-Dieu, religiosas punham em fila os que tinham morrido durante a noite, convenientemente costurados em seus sudrios. Uma 
carroa os recolhia para lev-los ao Cimetire des Saints Innocents.
 Embora a Place du Parvis fosse cercada de um pequeno muro, conservava a mesma desordem e o pitoresco que antigamente haviam feito dela a mais popular praa de Paris.
 Os padeiros ainda vinham vender a baixo preo, para os indigentes, seus pes da semana anterior. Os basbaques continuavam a reunir-se diante do Grande Jejuador, 
a enorme esttua de gesso, revestida de chumbo, que os parisienses, durante sculos, tinham visto ali. Ningum sabia o que representava esse monumento: um homem 
que tinha numa das mos um livro e na outra um basto em torno do qual se entrelaavam serpentes.
 Era a personagem mais clebre de Paris. Atribuam-lhe o poder de falar nos dias tumultuosos, para exprimir os sentimentos do povo, e muitos libelos circulavam ento 
firmados: "o Grande Jejuador de Notre-Dame"...
 "Escutem a voz de um pregador   . Vulgarmente chamado Jejuador Porque passou, segundo a histria, Mil anos sem comer e sem beber."
 Ao adro tambm tinham vindo, no decorrer dos sculos, todos os criminosos, em camisa e com o crio de quinze libras na mo, para confessar publicamente suas faltas 
e pedir perdo a Nossa Senhora antes de serem queimados ou enforcados.
 Anglica estremeceu evocando o cortejo dos sinistros fantasmas.
 Quantos haviam vindo ajoelhar-se ali, entre os clamores cruis do populacho, sob o olhar cego dos velhos santos de pedra!
 Sacudiu a cabea para afastar aqueles pensamentos lgubres e preparava-se para voltar  casa do procurador, quando um eclesistico em traje de rua se aproximou 
dela.
 - Sra. de Peyrac, apresento-lhe minhas homenagens. Eu estava justamente pensando em ir  casa de Matre Fallot para conversar com a senhora.
 - Estou  sua disposio, senhor padre, mas no recordo bem o seu nome.        
 - De verdade?
 O eclesistico tirou seu grande chapu, e com ele uma curta peruca de crina acinzentada. Anglica, estupefata, reconheceu o advogado Desgrez.
 -        O senhor! Mas por que esse disfarce?
 O jovem havia reposto o chapu e respondeu a meia voz:
 -        Porque ontem precisaram de um capelo na Bastilha.
Tirou de dentro da batina uma caixinha de chifre cheia de rap, tomou uma pitada, espirrou, assoou-se e, em seguida, perguntou a Anglica:
 -        Que acha? No parece verdadeiro?
 - Certamente. Eu mesma me enganei. Mas... diga-me, pde introduzir-se na Bastilha?
 - Psiu! Vamos  casa do senhor procurador. L falaremos  vontade.
 No caminho, Anglica mal dominava sua impacincia. O advogado j saberia alguma coisa? Teria visto Joffrey?
 Desgrez caminhava gravemente ao seu lado, com a atitude digna e modesta de um vigrio cheio de piedade.
 - Ser que tem de disfarar-se amide em seu ofcio? - perguntou Anglica.
 - Em meu ofcio, no. Minha honra de advogado se oporia a tais mascaradas. Mas preciso viver. Quando me canso de andar caando clientes nos degraus do Palcio da 
Justia, a fim de arranjar um pleito que me render trs libras, ofereo meus servios a polcia. Castigar-me-iam se o soubessem, mas sempre posso dizer que estou 
fazendo investigaes para os meus clientes.
 - No  um pouco arriscado disfarar-se de sacerdote? - indagou Anglica. - Poderia ser arrastado a praticar um ato prximo do sacrilgio.
 - Nunca me apresento para dar os sacramentos, mas como confidente. O hbito inspira confiana. Ningum parece mais ingnuo do que um vigrio recm-sado do seminrio. 
Contam-lhe tudo. Ah! reconheo que isso tudo no  muito brilhante. No sou como seu cunhado Fallot, que foi meu condiscpulo na Sorbonne. Eis um homem que ir longe! 
Assim, enquanto eu desempenho o papel de irrequieto padrezinho ao lado de uma dama gentil, esse grave magistrado vai passar a manh inteira de joelhos, no Palcio 
da Justia, escutando um discurso de Matre de Talon, em um processo de herana.
 - Por que de joelhos?
 -  a tradio judiciria de Henrique IV. O procurador prepara as peas. O advogado defende a causa. Ele tem grande precedncia sobre o procurador. Esse deve permanecer 
de joelhos enquanto o outro fala. Mas o advogado tem o estmago vazio, enquanto o procurador tem a barriga cheia. Pudera! Ele ganhou sua parte sobre os doze graus 
do processo!...
 - Tudo isso me parece muito complicado.
 - Mas  preciso que recorde os detalhes. Podem ter sua importncia se algum dia conseguirmos fazer sair o processo de seu marido.
 - Cr que ele chegar a tal ponto? - exclamou Anglica.
 -  necessrio - afirmou gravemente o advogado. -  a nica possibilidade de salvao.
 No pequeno gabinete de Matre Fallot, tirou a peruca e passou a mo sobre os rijos cabelos. Seu rosto, que parecia naturalmente alegre e animado, teve de repente 
uma expresso de inquietude. Anglica sentou-se perto da pequena mesa e ps-se a brincar maquinalmente com uma das penas de ganso do procurador. No ousava interrogar 
Desgrez. Finalmente, no mais se contendo, arriscou:
 - O senhor o viu?
 - Quem?
 - Meu marido.
 - Oh! no, isso no  possvel: ele est absolutamente incomunicvel. O governador da Bastilha pagar com a vida se ele falar com qualquer pessoa ou lhe escrever.
 - Ele  bem tratado?
 - Por enquanto, sim. Tem mesmo uma cama e duas cadeiras, e come a mesma comida que o governador. Ouvi dizer que canta frequentemente, que cobre as paredes de sua 
cela de frmulas matemticas, com auxlio da menor pedra de gesso, e tambm que est procurando domesticar duas enormes aranhas.
 -        Oh! Joffrey! - murmurou Anglica com um sorriso. Mas seus olhos encheram-se de lgrimas.
 Assim ele vivia, no se tinha tornado um fantasma cego e surdo, e as paredes da Bastilha no eram ainda bastante grossas para sufocar os ecos de sua vitalidade.
 Ela ergueu os olhos para Desgrez.
 -        Obrigada, maitre.
 O advogado afastou a vista com mau humor.
 - No me agradea. O caso  extremamente difcil. Devo confessar-lhe que, para obter estas minguadas informaes, j gastei todo o adiantamento que me fez.
 - O dinheiro no tem importncia. Solicite-me o que julgar necessrio para prosseguir suas investigaes.
 Mas o jovem continuava a olhar para outro lado, como se, apesar da sua facndia, estivesse muito embaraado.
 -        Para ser franco - disse bruscamente -, estou perguntando a mim mesmo se no deveria devolver-lhe esse dinheiro. Acredito que fui um pouco imprudente encarregando-me 
deste caso, que me parece muito complexo.
 -        Renuncia a defender meu marido? - exclamou Anglica.
At ento ela no podia seno desconfiar de um advogado que, a despeito de seus brilhantes diplomas, no passava certamente de um pobre joo-ningum que no matava 
a fome todos os dias. Mas agora que ele falava em abandon-la, ela foi tomada de pnico.
 Ele disse meneando a cabea:
 - Para defend-lo seria preciso que ele fosse atacado.
 - De que o acusam?
 - Oficialmente, de nada. Ele no existe.
 - Mas, ento, nada podem fazer-lhe.
 -        Podem esquec-lo para sempre, senhora. Existem nas masmorras da Bastilha pessoas que ali esto h trinta ou quarenta anos e que no seriam capazes de recordar 
sequer seus prprios nomes nem o que fizeram. Por isso lhe digo: sua maior possibilidade de salvao  provocar um processo. Mas, mesmo neste caso, sem dvida o 
processo ser secreto, e recusada a assistncia de um advogado. Dessa maneira, o dinheiro que vai gastar  sem dvida intil!
 Anglica levantou-se diante dele e olhou-o fixamente.
 -        Est com medo?
 -        No, mas eu me pergunto: para mim, por exemplo, no ser prefervel continuar sendo um advogado sem causas a me arriscar ao escndalo? Para a senhora, 
no ser melhor esconder-se no fundo de uma provncia, com o seu filho e o dinheiro que lhe resta, do que perder a vida? Para seu marido, no ser prefervel passar 
vrios anos na priso a ser envolvido em um processo... de feitiaria e de sacrilgio?
 Anglica soltou um grande suspiro de alvio.
 - Feitiaria e sacrilgio!...  disso que o acusam?
 -  pelo menos o que serviu de pretexto para a sua priso.
 - Mas isso no  grave! No passa de consequncia de uma asneira do Arcebispo de Toulouse.
 Ela contou detalhadamente ao jovem advogado os principais episdios da querela entre o arcebispo e o Conde de Peyrac e como, tendo este ltimo aperfeioado um processo 
de extrao de ouro das rochas, o arcebispo, invejoso de sua riqueza, havia decidido obter dele esse segredo, que no passava, em suma, de uma frmula industrial.
 -        No se trata de qualquer ao mgica, mas de trabalho cientfico.
 O advogado franziu os lbios.
 - Senhora, sou incompetente nessa matria. Se esses trabalhos constituem a base da acusao, seria preciso arranjar testemunhas, fazer a demonstrao diante dos 
juzes e provar-lhes que no se trata de feitiaria ou de magia.
 - Meu- marido no  um devoto, mas vai  missa aos domingos, jejua e comunga por ocasio das grandes festas.  generoso para com a Igreja. No entanto, o Primaz 
de Toulouse temia sua influncia, e os dois estavam em luta havia anos.
 - Infelizmente,  um ttulo ser arcebispo de Toulouse. Sob certos aspectos, esse prelado tem mais poder que o Arcebispo de Paris, e talvez mais que o prprio cardeal. 
Lembre-se de que ele  o nico a representar ainda na Frana a causa do Santo Ofcio. Aqui entre ns, que somos pessoas modernas, tal histria no parece ter sentido. 
A Inquisio est a ponto de desaparecer. No conserva sua virulncia seno em certas regies do sul, onde a heresia protestante est mais difundida, em Toulouse 
precisamente, e em Lyon. Mas finalmente, o que mais temo neste caso particular no  a severidade do arcebispo e a aplicao das leis do Santo Ofcio. Tome, leia 
isto.
 Tirou de sua sovada bolsa de pelcia um pedacinho de papel que tinha a um canto a palavra "cpia". Anglica leu:
 "Sentena:
 Filiberto Vnot, procurador-geral das causas do juiz eclesistico da sede episcopal de Toulouse, autor na causa por crime de magia e sortilgio contra o Sr. Joffrey 
de Peyrac, Conde de Morens, ru.
 Considerando que o dito Joffrey de Peyrac est suficientemente convencido de ter renunciado a Deus e de se haver entregue ao Diabo, e tambm de ter invocado vrias 
vezes os demnios e haver feito pacto com eles, de ter, enfim, praticado vrias e diversas espcies de sortilgios...
 Pelos quais casos e outros  enviado ao juiz secular para ser julgado por seus crimes.
 Dado aos 26 de junho de 1660 pelo P. Vnot, o dito De Peyrac no contestou nem apelou, assim h dito que a vontade de Deus seja feita!"
 Desgrez explicou:
 - Em linguagem menos sibilina, isto significa que o tribunal religioso, depois de ter julgado seu marido por contumcia, isto , sem que ele o soubesse, e haver 
extrado antecipadamente a concluso de sua culpabilidade, o entregou  justia secular do rei.
 - E o senhor acredita que o rei dar f a tais frioleiras? Elas no resultam seno da inveja de um bispo que queria reinar sobre toda a provncia e que se deixa 
influenciar pelas lucubraes de um monge retrgrado como esse Bcher, que, alm disso, deve estar louco.
 - Eu no posso julgar seno os fatos - disse com deciso o advogado. - Pois bem, isso prova que o arcebispo no quer figurar ostensivamente nesta histria: veja, 
seu nome no aparece nesse papel e, no entanto, no se pode duvidar de que tenha sido ele quem provocou o primeiro julgamento a portas fechadas. Por outro lado, 
a ordem de priso tinha a assinatura do rei, bem como a de Sguier, presidente do tribunal. Sguier  um homem ntegro, mas fraco. Ele  guardio das formas da justia. 
As ordens do rei esto em primeiro lugar, para ele.
 - Entretanto, se se provocar o processo, ser a apreciao dos jurados que ter valor?
 - Sim - conveio Desgrez reticente. - Mas quem nomear os jurados?
 - E, segundo o senhor, que risco corre meu marido em tal processo?
 - A tortura, por questo ordinria e extraordinria, primeiro; depois a fogueira, senhora!
 Anglica empalideceu, e uma nusea subiu-lhe  garganta.
 - Mas enfim - repetiu ela - no se pode condenar um homem de sua linhagem por causa de um estpido diz-que-diz-que.
 - Que no serve seno de pretexto. Quer minha opinio, senhora? O Arcebispo de Toulouse nunca teve a inteno de entregar seu marido a um tribunal secular. Ele 
esperava, sem dvida, que um julgamento eclesistico bastasse para abater o seu orgulho e torn-lo dcil aos desgnios da Igreja. Mas monsenhor, ao fomentar essa 
intriga, ultrapassou suas previses, e sabe por qu?
 - No.
 - Porque existe outra coisa - disse Francisco Desgrez levantando o dedo. - Certamente seu marido devia ter muitos inimigos altamente colocados, que juraram sua 
perda. A intriga de Monsenhor de Toulouse forneceu-lhes um trampolim maravilhoso. Antigamente, envenenavam-se na sombra os inimigos. Hoje adora-se faz-lo dentro 
das formas legais: acusa-se, julga-se, condena-se. Assim, fica-se com a conscincia tranquila. Se se realizar o processo de seu marido, ser fundamentado nessa acusao 
de bruxaria, mas o verdadeiro motivo de sua condenao ningum o saber jamais.
 Anglica teve uma rpida viso do cofrezinho de veneno. Devia falar disso a Desgrez? Hesitou. Falar seria dar forma a suspeitas sem fundamento, podia emaranhar 
ainda mais as pistas j to complexas.
 Perguntou com voz vacilante:
 - De que natureza seria essa outra coisa de que suspeita?
 - No tenho a mnima ideia. Tudo que lhe posso afirmar  que, por ter metido o bedelho neste caso, tive tempo de recuar com espanto diante das altas personagens 
que nele se encontram envolvidas. Em suma, repito-lhe o que lhe disse outro dia: a pista comea no rei. Se ele assinou essa ordem de priso, foi porque a aprovava.
 - Quando eu penso - murmurou Anglica - que o rei pediu a Joffrey que cantasse para ele, que o cobriu de palavras amveis! J sabia que o iam prender.
 - Sem dvida, mas nosso rei esteve em boa escola de dissimulao. De qualquer maneira, s ele pode revogar uma ordem de priso especial e secreta. Nem Tellier, 
nem sobretudo Sguier ou outras pessoas togadas bastariam. A falta do rei,  preciso tentar aproximao com a rainha-me, que tem muita influncia sobre o filho, 
ou com o seu confessor jesuta, ou mesmo com o cardeal.
 - Eu falei com a Grande Mademoiselle - disse Anglica. - Prometeu-me recolher informaes e transmiti-las a mim. Disse, porm, que nada se pode esperar antes das 
festas da entrada... do rei- em Paris...
 Anglica terminou a frase com dificuldade. Fazia alguns instantes desde que o advogado falara em fogueira, que sentia um mal-estar. O suor perlava-lhe as tmporas, 
e ela receava desmaiar. Ouviu Desgrez aprovar:
 -  Sou da mesma opinio. Antes das festas... nada se pode fazer. O melhor para a senhora seria esperar pacientemente aqui. Quanto a mim, vou tratar de completar 
minha pesquisa.
 Como submersa em nvoa, Anglica levantou-se e estendeu as mos. Seu rosto frio encontrou um severo tecido de traje eclesistico.
 -        Ento, no renuncia a defend-lo?
 O jovem permaneceu um instante em silncio. Depois, disse em tom rspido:
 -        Afinal de contas, nunca receei pela minha pele. Arrisquei-a dez vezes em rixas idiotas de taberna. Bem posso arrisc-la mais uma vez, por uma causa justa. 
 preciso apenas que me fornea dinheiro, pois sou pobre como um mendigo, e o belchior que me aluga as roupas  um inveterado ladro.
 Aquelas rudes palavras reanimaram Anglica. Aquele rapaz era muito mais srio do que lhe parecera a princpio. Sob aparncias realistas e desenvoltas, ocultava 
profundo conhecimento do processo legal e devia consagrar-se conscienciosamente s tarefas que lhe confiavam.
 Anglica suspeitou que no era o caso de todos os jovens advogados recm-sados da universidade, os quais, quando tinham um pai generoso, no pensavam seno em 
fazer figura.
 Recuperou o sangue-frio e entregou-lhe cem libras. Desgrez, depois de uma rpida saudao, afastou-se, no sem ter lanado um olhar enigmtico sobre o rosto plido 
de Anglica, onde os olhos verdes brilhavam como pedras preciosas na triste penumbra daquele gabinete, infetado pelo odor das tintas e dos lacres.
 Anglica subiu para o seu quarto agarrando-se ao corrimo. Certamente seu desfalecimento era devido s emoes da ltima noite. Ia deitar-se e procurar dormir um 
pouco, ainda que tivesse de suportar os sarcasmos de Hortnsia. Mal entrou, foi assaltada pelas nuseas e no teve tempo seno de precipitar-se para a bacia.
 "Que ser que eu tenho?", perguntou a si mesma, tomada de espanto.
 E se Margarida houvesse dito a verdade? Se realmente procuravam mat-la? O acidente da carruagem?... O atentado do Louvre?... Teriam querido envenen-la?
 Subitamente seu rosto se relaxou e um sorriso iluminou-lhe as feies.
 "Que boba eu sou! Estou grvida, simplesmente!"
 Recordou que, ao partir de Toulouse, j tinha desconfiado que estava  espera de um segundo filho. Agora a coisa se confirmava sem possibilidade de dvida.
 "Como Joffrey ficar satisfeito quando sair da priso!", disse consigo mesma.
 
 CAPTULO VII
 
 Entrada do Rei em Paris
 
 Nos dias seguintes Anglica esforou-se por ter pacincia. Era preciso esperar a entrada triunfal do rei em Paris. Diziam que isso seria nos fins de julho; mas 
os preparativos da festa obrigavam, dia a dia, a uma transferncia de data. A multido de provincianos chegados a Paris para o grande evento principiava a impacientar-se.
 Anglica vendeu a carruagem, os cavalos e algumas jias. Compartilhava a modesta existncia daquele bairro burgus. Ajudava na cozinha, brincava com Florimond, 
que, muito, ativo, corria por toda a casa, embaralhando-se em sua comprida vestimenta. Seus priminhos o adoravam. Mimado por eles, por Brbara, pela cria-dinha bearnesa, 
parecia feliz e tinha voltado a recuperar as cores. Anglica bordou-lhe uma touca vermelha, sob a qual seu rostinho feiticeiro, circundado de cachos negros, fazia 
com que toda a famlia se extasiasse. At Hortnsia deixou de franzir a testa, e observou que um menino daquela idade tinha certamente muito encanto! Ela, coitada! 
jamais tivera recursos para pagar a uma ama domstica, de modo que no conhecia seus filhos at completarem quatro anos! Afinal, nem todas podiam casar-se com um 
senhor coxo e desfigurado, enriquecido mediante pacto com Satans, e mais valia ser a mulher de um procurador do que perder a alma.
 Anglica fazia ouvidos moucos. Para demonstrar sua boa vontade, ia todas as manhs  missa na pouco divertida companhia de seu cunhado e de sua irm. Comeava a 
conhecer o aspecto particular da Cite, cada vez mais invadida pelas pessoas togadas.
 Ao redor do Palcio da Justia, da Notre-Dame, das paroquias de Saint-Agnan e de Saint-Landry, nomeais, agitavam-se numerosos meirinhos, procuradores, juzes, conselheiros.
 Vestidos de negro, com volta, capa e, algumas vezes, toga, iam e vinham levando nas mos os sacos dos processos ou carregando nos braos montes de papis a que 
chamavam "maos teis". Enchiam as escadas do palcio e as ruelas adjacentes. A Taberija Cabea Negra era seu ponto de reunio. Ali se via brilharem, diante dos 
ragus fumegantes e das garrafas bojudas, as caras avermelhadas dos magistrados.
 No outro extremo da ilha, o Pont Neuf, fervedouro de tagarelas, oferecia uma Paris que os senhores da Justia muito se indignavam de ver florescer  sua sombra.
 Quando se mandava um lacaio dar um recado para aquelas bandas e se lhe perguntava a que horas voltaria, ele respondia: "Depende das canes que hoje se ouam no 
Pont Neuf".
 Com as canes, nascia tambm uma nuvem de poesias, libelos ou panfletos daquele contnuo movimento em torno das tendas. No Pont Neuf sabia-se tudo. E os poderosos 
haviam aprendido a temer as folhas imundas que o vento do Sena carregava.
 Certa noite, ao levantar-se da mesa em casa de Matre Fallot e enquanto uns e outros saboreavam o vinho de marmelo ou de fran-boesa, Anglica retirou maquinalmente 
de seu bolso uma folha de papel. Olhou-a com assombro e depois recordou que a tinha comprado, por dez soldos, a um pobre mendigo do Pont Neuf, na manh de seu passeio 
s Tulherias.
 Leu a meia voz:
 "E entremos ento no palcio,
 Onde veremos que Rabelais
 No disse troas suficientes
 Sobre as velhacarias que ali se praticam.
 Ali veremos astutos enganadores,
 Ilustrssimos afrontadores. 
 Vamos ver a grande multido..."
 Dois gritos indignados a interromperam. O velho tio de Matre Fallot se engasgava com o vinho do copo. Com uma vivacidade que Anglica nunca esperara de seu solene 
cunhado, ele arrancou-lhe das mos o papelucho, fez dele uma bola e atirou-o pela janela.
 - Que vergonha, minha irm! - exclamou. - Como se atreve a introduzir tais imundcies em nossa casa? Apostaria que o comprou a um desses pasquineiros famintos do 
Pont Neuf!
 - Realmente. Puseram-1he o papel na mo, pedindo-me dez soldos. No tive coragem de recusar.
 -  A imprudncia dessa gente vai alm de quanto se possa imaginar. Sua pena no se detm nem mesmo diante da integridade dos magistrados. E dizer que os encerram 
na Bastilha como se fossem pessoas de qualidade! O calabouo mais negro do Chtelet ainda seria excessivamente bom para eles.
 O marido de Hortnsia bufava como um touro. Jamais ela o havia crido capaz de emocionar-se a tal ponto.
 - Panfletos, libelos, canes, com tudo eles nos acabrunham. No deixam ningum em paz, nem o rei nem a corte, e recorrem  blasfmia com a maior naturalidade.
 - No meu tempo - disse o velho tio -, a raa dos pasquinei-ros apenas comeava a proliferar. Agora  uma verdadeira praga, a vergonha de nossa capital.
 Falava pouco e no abria a boca seno para pedir um clice de licor ou sua tabaqueira. Aquela longa frase demonstrava quanto ele fora chocado pela leitura do panfleto.
 -        Nenhuma mulher respeitvel se aventura a passar a p pelo Pont Neuf - interveio Hortnsia.
 Seu marido tinha ido olhar pela janela.
 - O riacho levou essa ignomnia. Mas eu gostaria de ver se estava assinada pelo Poeta Pobre.
 - Sem dvida nenhuma. Semelhante virulncia s pode ser dele.
 - O Poeta Pobre - murmurou sombriamente Matre Fallot -, o homem que critica a sociedade em seu conjunto, o revoltado nato, o parasita profissional! Uma vez consegui 
v-lo sobre um tablado, gritando  multido no sei que venenosas objurgatrias. Chama-se Cludio Le Petit. Quando eu penso que esse magro espantalho, com cara de 
nabo, encontrou meio de fazer com que os prncipes e o prprio rei ranjam os dentes, vejo como  desalentador viver em semelhante poca. Quando nos livrar a polcia 
de tais impostores?
 Todos suspiraram durante alguns minutos, e depois o incidente foi esquecido.
 A entrada do rei em Paris ocupava todos os espritos. Nessa ocasio produziu-se uma aproximao entre Anglica e sua irm. Um dia Hortnsia entrou no quarto de 
Anglica com o sorriso mais suave que pde arranjar.
 - Imagine o que nos acontece - exclamou. - Lembra-se da minha velha amiga de colgio, Atenas de Tonnay-Charente, com quem eu era to unida em Poitiers?
 - No, absolutamente no me lembro.
 - No tem importncia. Ela est em Paris e, como sempre foi intrigante, j conseguiu meter-se entre algumas pessoas importantes. Em resumo, no dia da chegada do 
rei ela poder ir ao palcio de Bauvais, que fica situado exatamente na Rue Saint-Antoine, onde comear o cortejo. Evidentemente, olharemos de uma das janelas 
da gua-furtada, mas isso no nos impedir de ver. Ao contrrio.
 - Por que diz "olharemos"?
 - Porque nos convidou a compartilhar a sua boa sorte. Iro com ela sua irm e seu irmo e outra amiga que tambm  de Poi-tiers. Seremos uma carrada de gente do 
Poitou. Muito simptico, no lhe parece?
 - Se contava com a minha carruagem, lamento comunicar-lhe que a vendi.
 - Eu sei, eu sei. Oh! a carruagem  sem importncia. Atenas nos levar na sua. Est um pouco estragada, porque sua famlia se arruinou e, alm disso, ela no gosta 
de fazer despesas. Sua me mandou-a para Paris com apenas uma aia, um lacaio e esse velho coche, com instrues para encontrar marido dentro do mais curto prazo. 
Oh! ela o conseguir, porque no poupar esforos. Mas... para a entrada do rei... ela me deu a entender que est um pouco pobre de vestidos. Voc compreende, essa 
Sra. de Bauvais, que nos cede uma de suas trapeiras, no  uma qualquer. At dizem que a rainha-me, o cardeal e no sei quantas personagens importantes iro comer 
em sua casa durante o desfile. Em suma, ns estaremos nos primeiros lugares. Mas  preciso que no ns tomem por camareiras da rainha ou pensem que somos umas desvalidas 
e nos faam expulsar pelos lacaios.
 Em silncio, Anglica foi abrir uma de suas grandes malas.
 -        Olhe se h a dentro alguma coisa que possa convir-lhe, e a voc tambm. Voc  mais alta que eu, mas ser fcil encompridar uma saia com renda ou folhos.
 Hortnsia aproximou-se, os olhos brilhando. No podia esconder sua admirao enquanto Anglica ia estendendo sobre o leito as luxuosas roupas. Diante do vestido 
de tecido de ouro, soltou um grito de espanto.
 - Creio que ficaria um pouco deslocado na nossa janela - preveniu-a Anglica.
 - Evidentemente, como assiste ao casamento do rei, voc pode agora fazer-se desdenhosa.
 - Asseguro-lhe que estou muito satisfeita. Ningum espera com mais impacincia do que eu a entrada do rei em Paris. Mas quero guardar este traje para vend-lo, 
se Andijos no me trouxer dinheiro, como principio a recear. Quanto aos demais, voc pode dispor deles como se fossem seus. E justo cobrar as despesas de minha permanncia 
na sua casa.
 Finalmente, depois de muito vacilar, Hortnsia decidiu-se por um vestido de cetim azul-celeste para a sua amiga. Escolheu para si mesma um conjunto verde-ma, 
que "destacava seu tipo um tanto indeciso de morena.
 Na manh de 26 de agosto, Anglica, olhando a magra silhueta de sua irm, um pouco dissimulada pelas anquinhas, a ctis mate realada pelo verde brilhante, os cabelos 
no muito abundantes mas flexveis e finos, de uma bela cor castanha, constatou, sacun-dindo a cabea:
 -        Acredito verdadeiramente, Hortnsia, que voc seria quase bonita se no tivesse um carter to spero.
 Para grande surpresa sua, Hortnsia no se aborreceu. Suspirou, enquanto continuava a contemplar-se no grande espelho de ao:
 - Tambm o creio - disse ela. - Que voc quer? Nunca me agradou a mediocridade, e foi s o que conheci at agora. Gosto de conversar, ver pessoas brilhantes e bem 
vestidas, adoro o teatro. Mas  difcil fugir aos encargos domsticos. Este inverno pude ir s reunies que dava um escrivo satrico, o poeta Scarron. Um homem 
horroroso, invlido, malvado, mas que esptito, querida! Conservo uma recordao maravilhosa de tais recepes. Desgraadamente, Scarron acaba de morrer. Devo voltar 
 mediocridade.
 - No momento, voc no inspira piedade. Asseguro-lhe que est com uma bela estampa.
 - E certo que este mesmo vestido numa "verdadeira" mulher de procurador no produziria o mesmo efeito. A nobreza no se compra. Traz-se no sangue.
 Inclinadas sobre escrnios para escolher as jias, reencontravam o calor do cl, a arrogncia de sua classe. Elas esqueciam o quarto sombrio, os mveis sem gosto, 
as inspidas tapearias de Brgamo sobre as paredes, tecidas na Normandia para uso dos pequenos-burgueses.
 Ao romper do grande dia, o senhor procurador partiu para Vincennes, onde deviam reunir-se os corpos do Estado encarregados de saudar e arengar o rei.
 Troavam os canhes, respondendo aos sinos das igrejas. A milcia burguesa, em traje de gala e eriada de lanas, alabardas e mosquetes, tomavam posse das ruas, 
que os pregoeiros enchiam de espantoso alarido, distribuindo opsculos em que se anunciava o programa da festa, o itinerrio do cortejo real, a descrio dos arcos 
de triunfo.
 Por volta das oito horas, a carruagem, bastante desbotada, da Srta. Atenas de Tonnay-Charente deteve-se diante da casa. Era uma bela moa, de aspecto vioso: cabelos 
de ouro, faces coradas, fronte de ncar realada por uma mosca. Seu vestido azul combinava maravilhosamente com seus olhos de safira, um pouco salientes mas vivos 
e espirituais.
 Mal pensou em agradecer a Anglica, embora estivesse usando, alm do traje, um belo adereo de diamantes emprestado por ela.
 Tudo merecia a Srta. De Tonnay-Charente de Mortemart, e ningum podia sentir-se pouco honrado em servi-la. No obstante as dificuldades financeiras de sua famlia, 
ela achava que sua velha nobreza valia uma fortuna. Seu irmo e sua irm pareciam animados do mesmo estado de esprito. Os trs possuam uma vitalidade transbordante, 
uma verve custica, um entusiasmo e uma ambio que faziam deles os mais agradveis e mais temveis companheiros.
 A carruagem ia alegre embora rechinante, passando como podia atravs das ruas abarrotadas de gente, em frente s casas cujas fachadas estavam adornadas com flores 
e tapetes. Entre a multido, cada vez mais densa, viam-se cavaleiros e filas de coches que reclamavam passagem para chegar  Porte Saint-Antoine, onde s organizava 
o cortejo.
 - Vamos ter que dar uma volta para ir buscar a pobre Francisca - disse Atenas. - No vai ser fcil.
 - Oh! Deus nos livre da viva de Scarron, o paraltico - exclamou seu irmo.
 Sentado junto de Anglica, apertava-a sem disfarar. Ela pediu-lhe que se afastasse, porque a sufocava.
 - Prometi a Francisca lev-la - disse Atenas. -  uma boa moa e distrai-se muito pouco depois que o invlido de seu marido morreu. Pergunto a mim mesma se j 
no estar comeando a sentir falta dele.
 - Ora essa! Por mais repulsivo que ele fosse, era quem sustentava a casa. A rainha-me lhe dera uma penso.
 - J era invlido quando se casou com ela? - perguntou Hortnsia. -  um casal que sempre me intrigou.
 - Por certo que era invlido. Levou a pobre pequena para sua casa a fim de cuidar dele. Como ela era rf, aceitou: tinha quinze anos.
 - Acredita que ela tenha escorregado? - perguntou a irm mais nova.
 - Quem pode saber?... Scarron proclamava, diante de quem quisesse ouvir, que a doena o tinha paralisado completamente, com exceo da lngua e de outra parte que 
eu bem sei qual . Sem qualquer dvida, ela deve ter aprendido umas coisinhas com o marido. Ele tinha ficado to vicioso! E tanta gente frequentava a casa deles, 
que algum belo cavaleiro bem-parecido deve ter-se encarregado de distra-la. Falou-se de Villarceaux.
 - E preciso reconhecer - disse Hortnsia - que a Sra. Scarron  bela, mas sempre se comportou muito modestamente. Sentava-se junto  cadeira de rodas de seu marido, 
ajudava-o a sentar-se, dava-lhe as tisanas. Alm disso, ela  instruda e fala muito bem.
 A viva esperava na calada, diante de uma casa de pobre aparncia.
 - Meu Deus, que traje! - cochichou Atenas levando a mo aos lbios. - V-se a urdidura da saia.
 - Por que no me disse? - perguntou Anglica. - Teria podido encontrar alguma coisa para ela.
 - Para falar a verdade, no pensei nisso. Suba, Francisca.
 A jovem sentou-se a um canto, depois de ter saudado graciosamente o grupo. Tinha formosos olhos escuros, que eram, amide, escondidos por suas plpebras de tom 
ligeiramente malva. Nascida em Niort, tinha vivido na Amrica, mas, ficando rf, havia voltado para a Frana.
 Quando chegaram, no sem dificuldade,  Rue Saint-Antoine, esta, limpa e reta, no oferecia um aspecto demasiadamente tumultuoso. As carruagens esperavam nas ruas 
adjacentes. O Palacete de Beauvais se distinguia por sua atividade de colmeia. Um dossel de veludo carmesim, adornado com passamanes e franjas de ouro e prata, decorava 
o balco central. Tapetes persas embelezavam a fachada.
 Na entrada, uma velha senhora zarolha, vestindo um traje exageradssimo, com os punhos apoiados nas cadeiras, dirigia aos gritos os tapeceiros.
 -        Que faz a essa espantosa megera? - interrogou Anglica quando seu grupo se ia acercando do palacete.
 Hortnsia fez-lhe sinal para que se calasse, mas Atenas rompeu a rir por trs do leque.
 -        E a dona da casa, minha cara, Catarina de Beauvais, conhecida por Cateau, a Caolha.  uma antiga aia de Ana d'ustria, que a encarregou de fazer de nosso 
jovem rei um homem, quando ele completou quinze anos. Esse  o mistrio da sua fortuna. Anglica no pde deixar de rir.
 - E preciso acreditar que sua experincia substituiu os atrativos...
 - Existe um provrbio que diz que no existem mulheres feias para os adolescentes e os monges - acrescentou a jovem Mortemart.
 No obstante seus sentimentos irnicos, eles no se inclinaram menos profundamente diante da velha camareira. Esta, com seu nico olho, lanou-lhes um olhar incisivo.
 -        Ah! So os de Poitiers! Meus cordeirinhos, no me atrapalhem. Subam depressa, antes que minhas criadas ocupem os bons lugares. Mas quem  essa? - disse 
estendendo o indicador ganchoso na direo de Anglica.
 A Srta. de Tonnay-Charente apresentou:
 - Uma amiga, a Condessa de Peyrac de Morens.
 - Ah! Ah! - fez a velha senhora com um risinho malicioso.
 - Estou certa de que sabe algo de voc - cochichou Hortnsia na escada. - Somos todos uns ingnuos acreditando que no haver um escndalo. Eu no devia ter-lhe 
trazido. O melhor que faria era tornar a casa.
 - Est bem, mas ento devolve-me o vestido - disse Anglica estendendo a mo para o corpete da irm.
 - Fique quieta, louca! - replicou Hortnsia, defendendo-se.
 Atenas de Tonnay-Charente j havia tomado de assalto a janela de um quarto de empregada e acomodava-se nela em companhia de suas amigas.
 -        Enxerga-se maravilhosamente! - exclamou. - Olhem ali a Porte Saint-Antoine, por onde vai entrar o rei.
 Anglica inclinou-se tambm. Sentiu-se empalidecer.
 O que via sob o cu azul, embaado pelo calor, no era a imensa avenida onde se comprimia a turbamulta, no era a Porte Saint-Antoine com seu arco de triunfo de 
pedras brancas, mas, um pouco  direita, erguida como um sombrio penhasco, a massa de uma enorme fortaleza.
 Perguntou a meia voz a sua irm:
 - Que castelo fortificado  aquele, perto da Porte Saint-Antoine?
 - A Bastilha - soprou Hortnsia por trs do leque.
 Anglica no podia afastar dele os olhos. Oito torrees coroados cada um por uma torre de vigia, fachadas macias, paredes, grades, pontes levadias, fossos, uma 
ilha de dor perdida no oceano de uma cidade indiferente, um mundo fechado, insensvel  vida e ao qual no chegariam nem mesmo naquela data os clamores da alegria: 
a Bastilha!...
 O rei passaria em toda a sua glria ao p da feroz guardi de sua autoridade.
 Nenhum som atravessaria a escurido dos calabouos, onde homens se entregavam ao desespero durante anos, por toda uma vida...
 A espera se prolongava. Por fim os gritos da impaciente multido assinalaram o comeo do desfile.
 Saindo da sombra da Porte Saint-Antoine, apareceram as primeiras companhias. Eram compostas das quatro ordens mendicantes: franciscanos, dominicanos, agostinianos 
e carmelitas, precedidos por suas cruzes e portadores de crios. Seus hbitos de burel, negros, pardos ou brancos insultavam o esplendor do sol, que fazia brilhar, 
para vingar-se, um mar de crnios rosados.
 Seguia o clero secular, com suas cruzes e estandartes, seus padres com sobrepeliz e barrete quadrado.
 Vinham depois as corporaes da capital, com as trombetas erguidas e fazendo suceder aos cnticos piedosos sua alegre clarinada.
 Atrs dos trezentos archeiros da cidade vinham o Sr. de Bur-nonville, o governador, e seus guardas.
 Depois apareceu o preboste dos mercadores, cavalgando entre uma magnfica escolta de lacaios vestidos de veludo verde e precedendo os conselheiros da cidade, os 
magistrados municipais, os administradores de bairro, os mestres e guardas das corporaes de negociantes de fazendas, especieiros, merceeiros, peleiros e vendedores 
de vinho, com trajes de veludo de mil cores.
 O povo aclamou suas companhias mercantis.
 Voltou a esfriar quando, por sua vez, desfilaram os oficiais da guarda, seguidos pelos homens do Chtelet, isto , os aguazis, os meirinhos e os dois tenentes, 
o civil e o criminal.
 Ao reconhecer seus habituais atormentadores, "mal-encarados" e "malvolos", a plebe se calava.
 O mesmo silncio hostil acolheu as cortes soberanas, a de Contribuies e a de Contas, smbolos do detestado imposto.
 Depois passaram o primeiro presidente e seus principais colegas, vestidos com magnficos mantos escarlates com guarnies de arminho e cobertos com barretes de 
veludo negro agaloado de ouro.
 J eram duas horas da tarde. No cu azul formavam-se pequenas nuvens, imediatamente dissolvidas por um sol abrasador. A multido suava, fumegava. Comeava a entrar 
em transe, o pescoo estendido na direo dos arrabaldes.
 Um clamor anunciou que acabavam de ver a rainha-me sob o dossel do Palacete de Beauvais. Era sinal de que o rei e a rainha se aproximavam.
 Anglica tinha os braos apoiados nos ombros da Sra. Scarron e de Atenas de Tonnay-Charente. As trs, inclinadas na janela do ltimo andar do palacete, no perdiam 
um pormenor do espet-culo. Hortnsia, o jovem Mortemart e sua irm mais jovem haviam encontrado lugar em outra janela.
 Reconheceram ao longe o squito de Sua Eminncia, Monsenhor Mazarino.
 O cardeal-ministro ostentava sua magnificncia com os seus setenta e dois muares sob gualdrapas de veludo e ouro, que abriam a marcha, seus pajens e seus gentis-homens 
vestidos luxuosamente. O coche em que ia, verdadeira obra-prima de ourivesaria, cintilava ao sol.
 Parou diante do Palacete de Beauvais, donde o saudou com profunda reverncia Cateau, a Caolha, e foi juntar-se no balco  rainha-me e  sua cunhada, a ex-rainha 
da Inglaterra, viva do decapitado Rei Carlos I.
 A multido aplaudia Mazarino espontaneamente. No o estimava mais do que nos tempos das "mazarinadas", mas havia firmado a paz dos Pireneus e, no fundo de seu corao, 
o povo da Frana lhe era reconhecido por hav-lo preservado de sua prpria loucura, a de banir seu rei, esse mesmo rei a quem agora estava esperando em um paroxismo 
de admirao e adorao.
 Seus gentis-homens, cada um com sua gente, o precediam.
 Agora j Anglica podia ligar um nome a muitos rostos. Apontou s suas companheiras o Marqus d'Humires e o Duque de Lauzun,  frente de cem nobres. Lauzum, sem 
cerimnia, sempre alegre, atirava beijos s damas. A multido respondia com grandes risos enternecidos.
 Como queriam queles senhores jovens, to bravos e to brilhantes! Ali olvidavam seu esbanjamento, sua arrogncia, suas rixas e seu desregramento nas tabernas. 
No recordavam seno suas faanhas guerreiras e galantes.
 Eram anunciados em voz alta: Saint-Aignan, vestido de ouro, o mais agradvel de corpo e de feies; De Guich, com seu rosto de flor de sul, cavalgando um corcel 
fogoso, cujos saltos faziam resplandecer suas pedrarias; Brienne, com as trs fileiras de plumas de seu chapu, que lhe rodeavam a cabea como asas de fabulosos 
pssaros brancos e rosados.
 Anglica recuou um pouco e apertou os lbios quando passou o Marqus de Vardes, insolente, ereto sob sua peruca loura, marchando  frente dos cem suos estrangulados 
em suas golas engomadas.
 Uma aguda clarinada quebrou a cadncia do desfile.
 O rei se aproximava no meio de uma onda de aclamaes.
 L estava ele... Formoso como o astro do dia!
 Como era grande o rei da Frana! Enfim, um verdadeiro rei! Nem desprezvel como um Carlos IX ou um Henrique III, nem simples demais como um Henrique IV, nem demasiado 
austero como um Lus XIII.
 Montado em um cavalo baio-escuro, avanava lentamente, escoltado a alguns passos por seu camareiro-mor, seu primeiro gentil-homem, seu grande escudeiro e seu capito 
de guarda.
 Havia recusado o plio que a cidade tinha feito bordar para ele. Queria que o povo o visse.
 Lus XIV passou sem suspeitar o papel que representariam em sua vida aquelas trs mulheres reunidas pelo mais curioso dos acasos: Atenais de Tonnay-Charente de 
Mortemart, Anglica de Peyrac e Francisca Scarron, nascida d'Aubign.
 Sob sua mo, Anglica sentia estremecer a carne dourada de Francisca.
 -        Oh! Como  belo! - cochichou a viva.
 Diante do homem deificado que se afastava por entre a tempestade de aclamaes, a pobre viva Scarron evocou o ano lbrico de quem ela tinha sido durante oito 
anos a criada e o joguete.
 Atenais, com os olhos azuis 'dilatados pelo entusiasmo, murmurou:
 -        Na verdade, ele  belo em seu traje de prata. Mas penso que ele no deve ficar nada mal sem roupa nenhuma. A rainha tem ampla possibilidade de encontrar 
um bom parceiro na cama.
 Anglica nada dizia.
 " ele", pensava ela, "que tem entre as mos a nossa sorte. Deus nos ampare!  excessivamente grande e poderoso!" Um grito partido da turba atraiu sua ateno.
 -        O senhor prncipe! Viva o senhor prncipe! - clamavam.
Anglica tremeu.
 Magro, descarnado, ereto, com seus olhos de fogo e o nariz adunco, o Prncipe de Conde reentrava em Paris. Voltava de Flandres, aonde o tinha levado sua longa rebelio 
contra a autoridade real.
 No tinha escrpulos ou remorsos, e alm disso o povo de Paris lhe tinha perdoado. Olvidava o traidor, aclamava o heri de Rocro e de Lens.
 A seu lado, Monsieur, irmo do rei, numa nuvem de rendas, parecia, mais que nunca, uma moa disfarada.
 Apareceu, finalmente, a jovem rainha, sentada num carro  romana, de prata dourada, puxado por seis cavalos com gualdrapas bordadas de flores-de-lis de ouro e de 
pedras preciosas.
 Cateau, a Caolha, ao p de uma escada, parecia procurar algum. Quando o modesto grupo do Poitou, de que fazia parte Anglica, apareceu no patamar, ela gritou-lhes 
com sua voz rouca:
 -        Que tal? Conseguiram ver bem?
 Eles lanaram entusisticas exclamaes, com as faces ainda inflamadas de excitao, e agradeceram.
 -        Est bem. Vo comer por a alguns pastis.
 Fechou seu vasto leque e bateu com ele de leve no ombro de Anglica.
 -        Voc, minha bela, fique um pouco comigo.
 Surpreendida, a jovem seguiu a Sra. de Beauvais atravs das salas atulhadas de convidados. Acabaram por achar-se em um pequeno gabinete deserto.
 - Uf! - suspirou, abanando-se, a velha dama. - No  fcil a gente isolar-se.
 - Examinou Anglica com ateno. Sua plpebra meio cerrada sobre a rbita vazia dava-lhe ao rosto uma expresso de canalhice acentuada pelas pJacas de pintura vermelha 
incrustadas em suas rugas e pelo sorriso de sua boca desdentada.
 - Creio que concordar - disse ela depois de um momento de observao. - Que diria, minha bela, de um grande castelo nos arredores de Paris, com mordomo, pajens, 
lacaios, criadas, seis coches, estrebarias e cem mil libras de renda?
 - E a mim que propem tudo isso? - perguntou Anglica rindo.
 - A voc mesma.
 - E quem?
 - Uma pessoa que lhe quer bem.
 - Fao ideia. Mas quem ?
 A outra se aproximou com ar de cumplicidade.
 - Um rico senhor que morre de amor por seus belos olhos.
 - Escute, senhora - disse Anglica, que se esforava por conservar a seriedade a fim de no magoar a interlocutora -, sou muito reconhecida a tal senhor, seja quem 
for, mas receio que procurem abusar de minha ingenuidade fazendo-me propostas to principescas. Esse senhor me conhece muito mal se acredita que o s anncio de 
tais esplendores pode fazer que eu me decida a pertencer-lhe.
 -        Est em to boa situao em Paris para se fazer to desdenhosa? Algum me contou que seus bens estavam sob selos e que voc tinha vendido suas carruagens.
 Seu olho vivo de pega no se desviava do rosto da jovem.
 - Vejo que est bem informada, senhora, mas, sinceramente, ainda no tenho a inteno de vender meu corpo.
 - Quem lhe falou nisso, pequena tola? - silvou a outra por entre os dentes estragados.
 - Pensei compreender...
 - Que ideia! Ter um amante, se quiser. Viver como religiosa, se isso lhe agrada. Tudo o que se lhe pede  que aceite esta proposta.
 -        Mas... em troca de qu? - interrogou Anglica, estupefata.
A outra aproximou-se ainda mais e tomou-lhe as duas mos com familiaridade.
 - Ver,  muito simples - disse ela em tom razovel de boa av. - Instalar-se- como em sua casa nesse castelo maravilhoso. Frequentar a corte. Ir a Saint-Germain, 
a Fontainebleau. No a divertiria assistir s festas da corte, ver-se cercada de gente, mimada, lisonjeada? Naturalmente, se tiver empenho nisso, poder continuar 
chamando-se Sra. de Peyrac... Mas talvez prefira mudar de nome; por exemplo, poder chamar-se Sra. de Sanc...  muito lindfe... Quando voc passar, diro: "L vai 
a bela Sra. de Sanc!" Ah, ah! No  agradvel?
 - Mas, afinal - impacientou-se Anglica -, no acredita que eu seja bastante estpida para pensar que um gentil-homem vai cumular-me de riquezas sem me pedir alguma 
coisa em troca.
 -  quase isso! Tudo o que se lhe pede  que no mais pense seno em seus vestidos, suas jias, suas diverses.  coisa to difcil para uma moa bonita? Compreende? 
- insistiu ela sacudindo levemente Anglica. - Compreende?
 Anglica olhou aquele rosto de bruxa, cujo queixo peludo retinha montculos de p branco.
 -        Compreende-me? No pensar em nada! Esquecer!...
 "Pedem-me que esquea Joffrey", dizia consigo mesma Anglica, "que esquea que sou sua mulher, que renuncie a defende-lo, que afaste sua recordao da minha vida, 
que apague qualquer lembrana. Pedem-me que cale, que esquea..."
 A viso do cofrezinho de veneno apareceu diante dela. Era dali, agora estava certa disso, que partia o drama. Quem poderia ter interesse no seu silncio? Pessoas 
que ocupavam no reino os mais altos postos: o Sr. Fouquet, o Prncipe de Conde, todos aqueles nobres cuja traio, cuidadosamente neutralizada, repousava havia anos 
em um cofrezinho de sndaio. Anglica sacudiu a cabea com muito sangue-fro.
 - Estou triste, senhora, mas sem dvida sou pouco inteligente, pois no compreendo uma s palavra do que me diz.
 - Pois bem, minha amiga, poder refletir, e depois dar sua resposta. No muito tarde, entretanto. Dentro de aJguns dias, no ? Vamos, vamos, minha pequena, afinal 
de contas o que se lhe prope no  melhor do que...
 Chegou-se ao ouvido de Anglica e soprou:
 -        ...do que perder a vida?
 
 CAPITULO VIII
 
 Novas tentativas na corte
 
 - Sr. Desgrez, compreende com que inteno um senhor annimo me oferece um castelo e uma penso de cem mil libras?
 - Suponho que com a mesma inteno com que eu prprio lhe ofereceria uma penso de cem mil libras - respondeu o advogado.
 Anglica olhou-o sem compreender, depois ruborizou-se levemente ao dar com o olhar atrevido do rapaz. Nunca lhe havia ocorrido examinar seu advogado a essa luz 
particular. Com certa perturbao, ela percebeu que suas roupas gastas deviam ocultar um corpo vigoroso e de agradveis propores. No era belo, com seu grande 
nariz e seus dentes desiguais, mas tinha uma fisionomia expressiva. Matre Fallot dizia dele que afora o talento e a erudio, ele nada tinha do necessrio para 
chegar a ser um respeitvel magistrado. Visitava pouco os seus colegas, continuava a frequentar as tabernas como no tempo da universidade. Por isso, confiavam-lhe 
certos assuntos que exigiam investigaes em lugares onde os senhores da Rue Saint-Landry teriam hesitado em entrar, por medo de perder a alma.
 -        Pois no , de maneira nenhuma - disse Anglica -, pelo que pensa. Perguntar-lhe-ei de outro modo: por que motivo j por duas vezes procuraram assassinar-me, 
o que  uma forma ainda mais segura de conseguir o meu silncio?
 O rosto do advogado ensombrou-se repentinamente.
 -        Ah! Eis o que eu esperava - disse.
 Abandonou a postura desenvolta  beira da mesa, no pequeno gabinete de Matre Fallot, e foi sentar-se gravemente diante de Anglica.
 -        Minha senhora - continuou -, talvez eu no seja um homem da lei que lhe inspire grande confiana. No entanto, creio
 que seu ilustre cunhado no procedeu muito mal ao mand-la a mim, pois o caso de seu marido requer mais as qualidades de um detetive particular, em que me transformei 
por fora das circunstncias, do que o escrupuloso conhecimento do direito e do processo. Mas, na verdade, no posso desemaranhar este imbrglio sem que me fornea 
todos os elementos necessrios para um julgamento claro. Em resumo, eis a pergunta que ardo por fazer-lhe... Levantou-se, foi olhar atrs da porta, ergueu uma cortina 
que ocultava umas estantes e, voltando para junto de Anglica, interrogou a meia voz:
 -        Que sabem, seu marido e a senhora que possa atemorizar uma das mais altas personagens do reino? Refiro-me ao Sr. Fouquet.
 Os lbios de Anglica tornaram-se lvidos. Fixou o advogado um tanto perturbada.
 - Bem, pelo que vejo, existe qualquer coisa - prosseguiu Desgrez. - No momento, estou esperando o informe de um espio que coloquei junto a Mazarino. Mas um outro 
me ps na pista de um domstico chamado Clemente Tonnel, que foi outrora pau-para-toda-obra do Prncipe de Conde...
 - E nosso mordomo em Toulouse.
 -  isso. Esse homem tambm est em ntimo contato com o Sr. Fouquet. Na realidade, s trabalha para ele, embora de tempos em tempos receba polpudas gratificaes 
de seu antigo amo o Senhor Prncipe, as quais consegue extorquir provavelmente mediante chantagem. Agora, outra pergunta: por intermdio de quem lhe foi feita essa 
proposta de se instalar principescamente?
 - Pela Sra. de Beauvais.
 - Cateau, a Caolha!... Desta vez, o problema est claro. E assinado por Fouquet. Ele paga regiamente a essa velha megera para conhecer todos os segredos da corte. 
Antigamente ela estava a soldo do Sr. de Mazarino, mas este mostrou-se menos generoso que o superintendente. Acrescento que estou, igualmente, na pista de outra 
grande personagem que jurou a perda de seu marido e a sua.
 - Quem ?
 - Monsieur, o irmo do rei. Anglica soltou um grito.
 - Est louco!
 O jovem fez uma cara de desagrado.
 -        Acredita que lhe furtei suas mil e quinhentas libras? Posso parecer um impostor, minha senhora, mas, se as informaes que lhe trago custam caro,  porque 
so sempre exatas. Foi o irmo do rei quem lhe preparou uma armadilha no Louvre e procurou fazer assassin-la. Eu o soube pelo prprio facnora que apunhalou sua 
criada Margarida, e precisei dar-lhe nada menos de trs canadas de vinho no Galo Vermelho para arrancar-lhe essa confisso.
 Anglica passou a mo pela fronte. Com voz entrecortada, fez a Desgrez a exposio do curioso incidente de que fora testemunha, alguns anos antes, no Castelo do 
Plessis-Bellire.
 - Sabe o que foi feito de seu parente, o Marqus du Plessis?
 - Ignoro-o. Mas  possvel que esteja em Paris ou no exrcito.
 - A Fronda est longe - murmurou pensativo o advogado -, mas bastaria bem pouco para reacender o tio que ainda fumega. Evidentemente, existem muitas pessoas que 
receiam ver aparecer  luz do dia a prova de sua traio.
 Com um gesto ele varreu a mesa cheia de papis velhos e de penas de ganso.
 - Faamos um resumo da situao: a Srta. Anglica de Sanc, isto , a senhora mesma,  suspeita de possuir um temvel segredo. O Senhor Prncipe ou Fouquet encarrega 
o criado Clemente de espion-la. Durante anos, este a espreita. Por fim adquire a certeza do que no era mais que uma suspeita: foi a senhora que fez desaparecer 
o cofre, somente a senhora, e seu marido conhecem o esconderijo. Desta vez, o nosso criado vai procurar Fouquet e vende-lhe a informao a peso de ouro. Desde esse 
instante, sua perda est decidida. Todos os que vivem  custa do superintendente, todos os que temem perder sua penso, o favor da corte, ligam-se na sombra contra 
o senhor tolosano que, um dia, pode aparecer diante do rei dizendo: "Eis o que eu sei!" Se estivssemos na Itlia, teriam empregado o punhal ou o veneno. Mas sabe-se 
que o Conde de Peyrac  refratrio ao veneno e, alm disso, na Frana prefere-se dar s coisas uma aparncia legal. A estpida cabala montada por Monsenhor de Fontenac 
vem a propsito. Fazem prender o homem como feiticeiro. Convencem o rei. Atiam-lhe a inveja contra esse senhor demasiadamente rico. E a est! As portas da Bastilha 
se fecham sobre o Conde de Peyrac. Todo mundo pode respirar  vontade.
 - No - disse Anglica ferozmente. - No os deixarei respirar  vontade. Revolverei cu e terra at que nos faam justia. Irei eu mesma dizer ao rei por que temos 
tantos inimigos.
 - Psiu! - disse Desgrez vivamente. - No se arrebate. A senhora carrega nas mos uma carga de plvora de canho, mas cuidado para no ser a primeira a ser despedaada. 
Quem pode garantir-lhe que o rei ou mesmo Mazarino no estejam a par dessa histria?
 - Mas, afinal - protestou Anglica -, seriam eles as vtimas da velha-conspirao: deviam assassinar o cardeal e, se possvel, o rei e seu jovem irmo.
 - Compreendo bem, minha bela, compreendo bem - disse o advogado.
 Continuou, com um gesto de escusa:
 - Admito a lgica da sua argumentao, minha senhora. Mas pense bem: as intrigas dos grandes forma um ninho de vboras. Arrisca-se a morrer quem procure interpretar 
seus sentimentos. E muito possvel que o Sr. de Mazarino tenha sido posto ao corrente de tudo por um desses intercmbios de espies de que ele tem o segredo. Mas, 
que importa ao Sr. de Mazarino um passado de que saiu como grande vencedor? O cardeal estava negociando com os espanhis o regresso do Sr. de Conde. Era o momento 
de acrescentar mais um crime no quadro-negro em que se devia passar a esponja? O senhor cardeal fingiu que nada sabia. Querem prender esse senhor de Toulouse? Est 
bem, que o prendam! E muito boa ideia. O rei segue de bom grado o que diz o senhor cardeal, e alm disso ficou desconfiado com a riqueza de seu marido. Ser uma 
brincadeira de criana faz-lo assinar o mandado de priso para a Bastilha...
 - Mas, e o irmo do rei?
 - O irmo do rei? Tampouco se preocupa com o fato de que o Sr. Fouquet haja querido suprimi-lo quando era um menino. Somente o presente importa para ele e, no presente, 
 o Sr. Fouquet quem lhe torna a vida confortvel. Cobre-o de ouro, arranja-lhe favoritos. O Petit Monsieur nunca foi muito mimado por sua me nem por seu irmo. 
Teme que algum comprometa seu pro-tetor. Em suma, todo este negcio se teria resolvido com a maior facilidade se a senhora no tivesse intervindo. Esperavam que, 
privada do apoio de seu marido, desaparecesse... discretamente... sem se saber para onde tinha ido. No desejavam sab-lo. Ignoram sempre a sorte da esposa, quando 
um nobre cai em desgraa. Elas tm o tato de se desfazer em fumo. Algunas vo para um convento. Outras mudam de nome. Somente a senhora no segue a regra geral. 
Pretende reclamar justia!... Muitssimo insolente, no  verdade? Ento, por duas vezes procuram mat-la. Depois, em desespero de causa, Fouquet representa o papel 
de demnio tentador...
 Anglica soltou um profundo suspiro.
 -        E de aniquilar uma pessoa - murmurou. - Em qualquer lugar para onde eu volte os olhos no encontro seno inimigos, olhares odientos, inveja, desconfianas, 
ameaas...
 - Escute-me, talvez nem tudo esteja perdido - disse Desgrez. - Fouquet lhe oferece uma forma honrosa de se arranjar. No se devolvem os bens de seu marido, mas, 
afinal, pem-na em boa situao. Que mais a senhora necessita?
 - Preciso de meu marido! - gritou Anglica, levantando-se furiosa.
 O advogado olhou-a com ironia.
 - A senhora  uma criatura bem extravagante.
 - E o senhor  um poltro! A verdade  que, como todos os outros, est morto de medo.
 -  muito certo que a vida de um modesto advogado importa muito pouco aos olhos dos poderosos.
 - Pois bem, preserve sua pequena vida de seis soldos! Guarde-a para os tendeiros que se deixam roubar por seus empregados e para os herdeiros descontentes. No 
preciso do senhor.
 O advogado levantou-se sem dizer palavra e desamarrotou uma folha de papel.
 - Eis a conta de minhas despesas. Ver que no guardei nada para mim.
 - -me indiferente que seja honesto ou ladro.
 - Mais um conselho...
 - No necessito de seus conselhos. Pedirei instrues a meu cunhado.
 - Seu cunhado est na firme disposio de no tomar partido neste caso. Acolheu-a em sua casa e recomendou-a a mim porque, se as coisas correrem bem, ficar com 
a glria. No caso contrrio, lavar as mos e protestar sua lealdade ao servio do rei. Por isso, torno a aconselh-la: procure ver o rei.
 Fez-lhe uma grande saudao, enfiou na cabea seu chapu surrado e, voltando-se da porta, disse:
 -        Se precisar de mim, pode mandar chamar-me na Taberna dos Trs Malhos, aonde vou todas as noites.
 Quando ele partiu, Anglica sentiu sbito desejo de chorar. Agora, ela estava totalmente sozinha. Sentia pesar sobre si um cu de tormenta, uma acumulao de nuvens 
vindas de todos os pontos do horizonte: a ambio de Monsenhor de Fontenac, o medo de Fouquet e de Conde, a falta de energia do cardeal e, mais de perto, a desconfiada 
espera de seu cunhado e de sua irm, dispostos a expuls-la de casa ao menor sinal de perigo...
 No vestbulo encontrou Hortnsia, com um avental branco em  torno da magra cintura. A casa cheirava a morango quente e laranja. Em setembro as boas donas-de-casa 
faziam suas conservas. Era uma operao delicada e importante, entre enormes tachos de cobre, pes de acar trilhados e lgrimas de Brbara. A casa ficava de pernas 
para o ar durante trs dias.
 Hortnsia, que levava nas mos um precioso po de acar, esbarrou em Florimond, que saa da cozinha agitando furiosamente seu chocalho de prata com trs guizos 
e dois dentes de cristal.
 Foi o bastante para fazer desencadear a tormenta.
 - No s estamos apertados e comprometidos - esganiou Hortnsia -, mas tambm no posso dedicar-me aos meus afazeres sem tropear neste fedelho, que me ensurdece. 
A enxaqueca me queima as tmporas. E enquanto eu me mato de trabalho, a condessa recebe seu advogado ou percorre as ruas sob pretexto de libertar um horroroso marido, 
cuja fortuna  s o que faz falta.
 - No grite to alto - disse Anglica. - Muito me agradaria ajud-la a fazer as conservas. Conheo trs boas receitas do Midi.
 Hortnsia, com seu po de acar na mo, ergueu-se como se estivesse envolta em uma tnica de atriz de tragdia.
 - Nunca - disse ferozmente -, nunca consentirei em que meta a mo no alimento que preparo para meu marido e meus filhos! No esqueo que seu marido tem pacto com 
o Diabo,  um feitor de malefcios, um fabricante de venenos. Bem pode ser que a tenha tornado sua alma-danada. Gasto se transformou depois que voc chegou.
 - Seu marido? Nem sequer olho para ele.
 - Mas ele a olha... muito mais do que conviria. Deveria compreender que sua presena aqui se prolonga demasiadamente. Voc disse que vinha s por uma noite...
 - Asseguro-lhe que estou fazendo o possvel para esclarecer a situao.
 - Suas diligncias acabaro chamando a ateno sobre si e conseguir que tambm a prendam.
 - No ponto a que chegamos, pergunto a mim mesma se no estaria melhor numa priso. Pelo menos, seria abrigada gratuitamente e sem mais complicaes.
 __ - No sabe o que diz, minha linda - zombou Hortnsia. - E preciso pagar dez soldos por dia, e a mim, sua nica parenta, viriam cobr-los, sem dvida.
 - No  to caro. E menos do que lhe dou. Sem contar os vestidos e as jias com que a presenteei.
 - Com duas crianas, sero trinta soldos por dia...
 Anglica deu um suspiro de cansao.
 __ Venha c, Florimond - disse ela ao menino. - Bem se v que voc fatiga sua tia Hortnsia. Os vapores das conservas lhe sobem  cabea e ela divaga.
 O garotinho precipitou-se para ela sacudindo seu brilhante chocalho. Hortnsia foi levada ao cmulo, da ira.
 -  como esse chocalho! - gritou. - Nunca meus filhos tiveram um parecido. Voc se queixa de no ter dinheiro e compra para teu filho um brinquedo to caro.
 - Ele o desejava tanto! E esse chocalho no  to caro. O filho do sapateiro da esquina tem um igual.
 - Todo mundo sabe que as criaturas do povo no gostam de economizar. Mimam seus filhos e no lhes do nenhuma educao. Antes de comprar objetos suprfluos, no 
esquea que est na misria e que eu no tenho nenhuma inteno de sustent-la.
 - No lhe peo isso - disse Anglica como se houvesse recebido uma chicotada. - Quando Andijos regressar, irei morar na hospedaria.
 Hortnsia encolheu os ombros com um riso de piedade.
 -        Decididamente,  mais estpida do que eu imaginava. No sabe o que so as leis e os trmites judiciais. Seu Marqus d'Andijos no lhe trar coisa alguma.
 A triste previso de Hortnsia realizou-se plenamente. Quando o Marqus d'Andijos se apresentou, acompanhado do fiel Kuassi-Ba, informou Anglica de que em Toulouse 
todos os bens do conde estavam sob selos. No tinha podido trazer mais de mil libras, tomadas de emprstimo, sob promessa de segredo, a dois dos grandes arrendatrios 
do prisioneiro.
 A maior parte das jias de Anglica, a baixela de ouro e prata e a maioria dos objetos preciosos que continha o Palcio da Gaia Cincia, inclusive os lingotes de 
ouro e prata, haviam sido sequestrados e depositados, parte na Tenncia Geral de Toulouse e parte em Montpellier.
 Andijos parecia embaraado. No tinha mais sua facndia e bonomia habituais, e lanava em derredor olhares furtivos. Contou ainda que Toulouse entrara em efervescncia 
aps a priso do Conde de Peyrac. Ante o rumor de que o arcebispo era o responsvel, produzira-se enorme tumulto em redor do palcio episcopal. Alguns capitouls 
haviam procurado Andijos, pedindo-lhe que se pusesse  sua frente para se rebelarem contra a autoridade real, nem mais nem menos. O marqus tivera insano trabalho 
para poder deixar a cidade e voltar a Paris.
 - E agora, que pretende fazer? - perguntou-lhe Anglica.
 - Ficar algum tempo em Paris. Meus recursos, como os seus, so limitados, pobre de mim! Vendi uma velha quinta e um pombal. Talvez possa comprar um cargo na corte...
 Sua pronncia, to viva outrora, tinha algo lamentvel como uma bandeira a meio pau.
 "Oh! essas criaturas do Midi", pensou Anglica. "Solenes juramentos, grandes risos! E logo, se chega a infelicidade, os fogos de artifcio se apagam."
 -        No quero compromet-lo - disse ela em voz alta. - Obrigada por todos os seus servios, Sr. d'Andijos. Desejo-lhe boa sorte na corte.
 Andijos beijou-lhe as mos em silncio e retirou-se um pouco envergonhado.
 Anglica, no vestbulo, contemplava a porta de madeira pintada da casa do procurador. Quantos criados j a tinham deixado por aquela porta, com os olhos baixos, 
mas fugindo com alvio de sua patroa em desgraa!
 Kuassi-Ba estava agachado a seus ps. Anglica afagou a grande cabea crespa, e o gigante teve um sorriso infantil.
 Mil libras eram alguma coisa. Na noite seguinte, Anglica fez o projeto de deixar a casa de sua irm, cuja atmosfera se tornava intolervel. Levaria consigo a criadinha 
bearnesa e Kuassi-Ba. Em Paris certamente encontrariam hospedarias modestas. Ainda lhe restavam algumas jias e o vestido de lam. de ouro. Quanto poderia conseguir 
vendendo tudo?
 O beb que ela estava esperando comeava a mexer-se, mas ela mal pensava nele e no estava emocionada, como na gestao anterior. Passado o primeiro movimento de 
alegria, ela viu que a chegada de um segundo filho em tal momento era quase uma catstrofe. Enfim, no devia pensar muito no futuro, se desejava conservar toda a 
sua coragem.
 A manh seguinte trouxe-lhe alguma esperana com a vinda de um pajem da casa da Srta. de Montpensier, magnfico em sua libr de camura com guarnies de ouro e 
veludo negro.
 At Hortnsia ficou impressionada.
 A Grande Mademoiselle pedia a Anglica que fosse v-la no Louvre, na parte da tarde. O pajem esclareceu que a senhorita j no estava nas Tulherias, mas no Louvre.
 Tremendo de impacincia, Anglica atravessou,  hora indicada, o Pont de Notre-Dame, para grande decepo de Kuassi-Ba, que olhava de soslaio para os lados do Pont 
Neuf. Mas Anglica no queria ser importunada pelos mercadores e mendigos.
 Esteve a ponto de pedir a Hortnsia sua cadeirinha de rodas chamada vinaigrette, para no estragar seu ltimo traje de certo luxo, mas, diante da atitude hostil 
de sua irm, renunciou.
 Anglica vestia um traje de dois tons, oliva e verde-plido, de tecidos um tanto leves para a estao. Estava envolta em sua capa de seda cor de ameixa, porque 
o vento mido varria as ruas estreitas e o cais.
 Chegou por fim ao macio palcio, cujo telhado e zimbrios, coroados por altas chamins armoriadas, se destacavam contra o cu sombrio.
 Pelo ptio interno e grandes escadas de mrmore, Anglica atingiu o apartamento que lhe indicaram como atual morada de Mademoi-selle. No podia deixar de estremecer 
ao encontrar-se de novo naqueles longos corredores, sinistros apesar de seus tetos dourados, seus lambris floridos, seus tapetes preciosos. Mas demasiadas trevas 
estagnavam naqueles recantos feitos para a emboscada, para o atentado. Uma histria de sangue e de horror surgia a cada passo naquele velho palcio real, no qual, 
contudo, a corte de um rei muito jovem procurava despertar um pouco de alegria.
 Certo Sr. de Prfontaines informou Anglica de que Mademoi-selle estava em seu estdio de pintura, na grande galeria, e se ofereceu para conduzir a jovem dama.
 Caminhava ao lado dela com solenidade. Era um homem maduro, prudente e vivo de esprito, e cujos conselhos eram to preciosos para a Grande Mademoiselle que, por 
duas vezes, s para molest-la, a rainha-me havia exigido o seu desterro.
 Malgrado suas preocupaes, Anglica esforou-se por falar com ele enquanto caminhavam e informou-se dos projetos de Mademoiselle. Iria a princesa mudar-se em breve 
para o Palcio do Luxemburgo, como estava previsto?
 O Sr. de Prfontaines suspirou. Mademoiselle havia metido na cabea fazer restaurar seus apartamentos do Luxemburgo, ainda muito belos e quase novos. Entrementes, 
havia-se alojado no Lou-vre, pois no podia suportar nas Tulherias o convvio de Monsieur, irmo do rei. Por outro lado, como se falava muito do casamento de Monsieur 
com a jovem Henriqueta da Inglaterra e da instalao do casal no Palais-Royal, Mademoiselle esperava poder ainda voltar s Tulherias.
 - Pessoalmente, senhora - concluiu o Sr. de Prfontaines -, no lhe ocultarei minha opinio: Luxemburgo ou Tulherias, pouco importa. Tudo, menos morar no Louvre. 
Aproximou-se dela confidencialmente.
 - Quer saber? Meu av e meu pai eram da religio reformada. Eu prprio fui educado at a idade de dez anos nas prticas protestantes. Pois bem, queira-se ou no, 
no h huguenote que possa sentir-se  vontade ao passar pelos corredores do Louvre.  certo que decorreu quase um sculo desde a noite atroz, mas eu vejo s vezes 
brilhar sobre as lajes o sangue da noite de So Bartolomeu. Meu av descreveu-me detalhadamente a tragdia. Ele tinha vinte e quatro anos e no escapou seno por 
milagre ao massacre organizado dos protestantes. Olhe... foi desta janela que o Rei Carlos IX atirou com um arcabuz contra os nobres huguenotes que procuravam escapar 
atravessando o Sena a fim de alcanar o Pr-aux-Clercs. Meu av evocava Carlos IX. Revia-o gigantesco, barbudo, bestial, gritando: "Mata! Mata! Que no escape um 
s". A noite inteira mataram no Louvre. De todas as janelas atiravam cadveres, em todas as alcovas se apunhalava. No  huguenote?
 - No, senhor.
 - Ento, no sei por que lhe conto isto - disse, pensativo, o Sr. de Prfontaines. - Eu tambm sou catlico, mas a gente no esquece completamente a primeira educao. 
Desde que moro no Louvre, durmo muito pouco. Desperto sobressaltado, acreditando ouvir gritos nos corredores: "Mata! Mata!", e o rudo da carreira dos senhores protestantes 
perseguidos por seus assassinos no me d trgua... Se quer meu conselho, senhora, pergunto a mim mesmo se no existem fantasmas no Louvre... fantasmas sangrentos...
 - Deveria tomar alguma tisana de ervas sonferas, Sr. de Prfontaines - recomendou Anglica, que no se sentia bem ouvindo aquelas lgubres evocaes. O atentado 
de que tinha sado ilesa e que havia custado a vida de Margarida estava muito prximo para que ela pudesse tomar as palavras do Sr. de Prfontaines como imaginao 
delirante.
 O assassnio, a violao e a traio, o horror dos crimes mais imundos estavam ocultos nas entranhas do enorme palcio.
 Anglica se achou sem demora em uma espcie de subsolo, debaixo da grande galeria. Desde Henrique IV, os apartamentos, ali, eram reservados para os artistas e pessoas 
que exerciam certos ofcios.
 Escultores, pintores, relojoeiros, perfumistas, gravadores de pedras preciosas, forjadores de espadas de ao, os mais hbeis douradores, tauxiadores, violeiros, 
fabricantes de instrumentos cientficos, tapeceiros, livreiros, ali viviam com suas famlias, a expensas do rei. Atrs das portas de grossa madeira envernizada, 
ouvia-se o martelar dos malhos e das forjas, o rudo dos teares da oficina especializada em tapearia de alto lio e tapetes da Turquia, o choque surdo das prensas 
tipogrficas.
 O pintor por quem a Srta. de Montpensier se fazia retratar era um holands de barba loura, alto, com brilhantes olhos azuis e um rosto de presunto cozido. Artista 
modesto e homem de talento, Van Ossel opunha aos caprichos das damas da corte a fortaleza de um carter tranquilo e de um francs estropiado. Se a maior parte dos 
grandes o tratavam com familiaridade, como era costume fazer com um lacaio ou um obreiro, nem por isso ele deixava de fazer o mundo marchar a seu gosto.
 Assim, ele tinha exigido pintar Mademoiselle com um seio nu, e, no fundo, ele estava certo, porque isso era o que a robusta celibatria possua de mais perfeito. 
Supondo-se que o quadro fosse destinado a algum novo pretendente, a eloquncia daquele objeto redondo, branco, tentador - era preciso reconhecer -, complementaria 
afortunadamente a quantia do dote e a nobreza dos ttulos.
 Mademoiselle, envolta num opulento veludo azul-escuro com pregas acentuadas, coberta de prolas e de jias, uma rosa nos dedos, sorriu para Anglica.
 -        Em um instante estarei com voc, querida. Van Ossel, quando vai se decidir a terminar meu suplcio?
 O artista resmungou dentro de sua barba e, por mera formalidade, acrescentou alguns toques de luz ao seio solitrio, objeto de todos os seus desvelos.
 Enquanto uma camareira ajudava a Srta. de Montpensier a vestir-se, o pintor entregava seus pincis a um rapazinho que devia ser seu filho e que o servia como aprendiz. 
Van Ossel olhava com ateno Anglica e seu acompanhante Kuassi-Ba. Enfim, tirando o chapu, ele fez uma profunda reverncia.
 -        Permita, senhora, que eu faa seu retrato... Oh! Muito belo!
A mulher luminosa e o mouro todo negro. O sol e a noite...
 Anglica recusou a oferta com um sorriso. O momento no era oportuno. Mas talvez um dia... Ela imaginou o grande quadro que faria pendurar nos sales do palcio 
do Quartier Saint-Paul, quando ali se instalasse, vitoriosa, com Joffrey de Peyrac. Isso deu-lhe um pouco mais de coragem para o futuro.
 Na galeria, ao subir para seus aposentos, a Grande Mademoiselle tomou-a pelo brao e comeou a tratar do assunto com sua costumeira rudeza.        
 - Minha pequena querida, eu esperava, depois de algumas averiguaes, que poderia dar-lhe a boa nova, confirmando que o caso de seu marido no tinha passado de 
um mal-entendido provocado por algum corteso descontente que procurasse fazer-se valer aos olhos do rei, ou ainda pelas calnias de algum postulante repelido pelo 
Sr. de Peyrac e que procurasse vingana... Mas agora receio que o assunto seja um tanto longo e complicado.        
 - Pelo amor de Deus, Alteza, que soube?
 -        Entremos em meu aposento, longe de orelhas indiscretas.
Quando estavam sentadas lado a lado em um confortvel cana p, Mademoiselle continuou:
 -        Na verdade, consegui saber muito pouca coisa, e, se pusermos de parte as tagarelices habituais da corte, devo dizer-lhe que  justamente essa pequena quantidade 
de informes que me inquieta. As pessoas nada sabem ou preferem nada saber.
 Acrescentou, com certa hesitao, baixando a voz:
 -        Seu marido  acusado de feitiaria.
 Para no magoar a boa princesa, Anglica no quis dizer que j o sabia.
 - Isso no  grave - prosseguiu a Srta. de Montpensier -, e a coisa poderia resolver-se sem dificuldades se seu marido fosse remetido a um tribunal eclesistico, 
como o objeto da acusao impunha. No esconderei que acho por vezes as pessoas da Igreja insuportveis e intrometidas, mas  preciso reconhecer que a sua justia 
particular, em se tratando de questes concernentes a suas atribuies,  geralmente mais proba e inteligente. Mas o fato importante  que, apesar dessa acusao 
especial, seu marido foi encaminhado  justia secular. Sobre isso no tenho iluses. Se houver julgamento, o que no  certo, o resultado depender unicamente da 
personalidade dos juzes-jurados.
 - Quer dizer, Alteza, que os juzes do poder civil podero mostrar-se parciais?
 - Depende de quem sejam os escolhidos.
 - E quem deve escolh-los?
 - O rei.
 Diante da assustada expresso de Anglica, a princesa levantou-se, tocou-lhe no ombro e procurou seren-la. Tudo acabaria bem, tinha certeza. Mas era preciso aclarar 
o caso. No se metia na cadeia, incomunicvel, sem motivo, um homem da posio e da linhagem do Sr. de Peyrac. Ela havia feito uma profunda investigao junto ao 
Arcebispo de Paris, Cardeal de Gondi, antigo frondista e bastante mal disposto a respeito de Monsenhor de Fontenac, de Toulouse.
 Por esse cardeal, a quem no se podia qualificar de complacente para com os atos de um rival poderoso no Languedoc, havia sabido que o Arcebispo de Toulouse parecia, 
de fato, o instigador da primeira acusao de bruxaria, mas sua desistncia em favor da justia do rei havia sido, de certo modo, imposta por vias ocultas.
 -        Monsenhor de Toulouse no tinha, em realidade, a inteno de levar as coisas to longe, e, no acreditando em feitiaria, pelo menos no caso de seu marido, 
teria ficado satisfeito em infligir-lhe uma censura, fosse diante do tribunal eclesistico, fosse perante o Parlamento de Toulouse. Mas arrancaram-lhe "seu" acusado 
por meio de um mandado de priso especial e preparado com muita antecipao.
 Mademoiselle explicou depois que, prosseguindo na investigao entre suas altas relaes, tinha adquirido cada vez mais a certeza de que Joffrey de Peyrac fora 
arrancado  fora  ao provvel do tribunal parlamentar de Toulouse.
 - Soube-o da boca do prprio Sr. Massenau, digno parlamentar do Languedoc, que acaba de ser chamado a Paris por misteriosas razes e que pergunta a si mesmo se 
no ser por causa do problema de seu marido.
 - Massenau? - disse Anglica, pensativa.
 Num relmpago, ela reviu o homenzinho rubicundo e enfitado que se debatia na poeira da estrada de Salsigne ameaando o insolente Conde de Peyrac com sua bengala 
e gritando: "Escreverei ao governador do Languedoc... ao Qsnselho do rei..."
 - Oh! Meu Deus - murmurou ela -,  um inimigo de meu marido.
 - Falei eu mesma com esse magistrado - disse a Duquesa de Montpensier. - Embora de origem plebeia, ele me pareceu bastante franco e digno. De fato, ele receia muito 
que o elejam como juiz-jurado para o caso do Conde de Peyrac, precisamente porque se sabe que teve com ele uma altercao. Disse que as injrias que se trocam  
luz do sol nada tm que ver com a causa da justia, e que ele ficar muito embaraado se for obrigado a prestar-se a um simulacro de processo.
 Anglica no guardou seno uma palavra: processo!
 - Pensam, pois, em instaurar o processo? Um advogado que eu consultei me disse que o consegui-lo j seria um resultado, sobretudo se tambm se pudesse obter a formao 
de um tribunal dentro do Parlamento de Paris. A presena desse Massenau, tambm parlamentar, poderia prov-lo.
 A Srta. de Montpensier fez uma grande careta, que por certo no a tornou mais bela.
 -        Saiba, minha pequena, que eu sou bastante versada em processo e conheo as pessoas de toga. Pois bem, se quiser crer-me, um tribunal de parlamentares em 
nada favoreceria seu marido, porque quase todos os parlamentares devem alguma coisa a Fouquet, o atual superintendente das Finanas, e eles seguiro suas ordens, 
principalmente porque ele foi presidente do Parlamento de Paris.
 Anglica tremia. Fouquet! De modo que o temvel esquilo mostrava mais uma vez a aguda ponta de sua orelha.
 -        Por que me fala do Sr. Fouquet? - perguntou Anglica com voz indecisa. - Juro-lhe que meu marido nada fez para atrair seu dio. Alm disso, nunca o vi!
 Mademoiselle continuava balanando a cabea.
 -        Pessoalmente, no tenho espies junto a Fouquet. Alm do mais, isso no entra em minha maneira de proceder, ainda que seja a dele. Era tambm a do meu 
finado pai, que assegurava que neste reino ningum podia agir de outro modo. No tenho, pois,
e lamento-o por seu marido, homem ou mulher a meu servio en tre o pessoal do superintendente. Mas, pelo irmo do rei, que tam
bm est a soldo do Sr. Fouquet, pelo menos o suponho, acreditei entender que os dois, voc e seu marido, guardam um segredo a respeito de Fouquet.
 Anglica sentiu seu corao parar. Deveria confessar tudo  sua grande protetora? Foi tentada a isso, mas recordou a tempo o quanto ela era estouvada e incapaz 
de dominar a lngua. Mais valeria, pois, esperar e pedir conselho a Desgrez.
 A jovem suspirou e disse desviando o olhar:
 -        Que posso saber desse poderoso senhor de quem nunca me aproximei? Evidentemente recordo que, quando eu era criana, falava-se no Poitou de uma pretendida 
conspirao de senhores, na qual estariam envolvidos o Sr. Fouquet, o Sr. Prncipe de Conde e outras grandes personagens. Pouco depois, surgiu a Fronda.
 J era bastante delicado aventurar semelhantes palavras diante da Grande Mademoiselle... Mas esta no lhes deu importncia e confirmou que seu pai tambm tinha 
passado a vida a conspirar.
 -        Era seu vcio principal. Alm disso, era demasiado bom e demasiado frouxo para tomar as rdeas do reino. Ele se havia convertido em um artista da conspirao. 
Pde tambm encontrar-se no cl de Fouquet, ento muito pouco conhecido. Mas meu pai era rico e Fouquet ainda estava iniciando. Ningum poder dizer aue meu pai 
conspirou para enriquecer.
 _- Enquanto meu marido enriqueceu sem conspirar - disse Anglica sorrindo tristemente. - Talvez por isso parea suspeito.
 Mademoiselle concordou com ela. Acrescentou que a ausncia de qualquer esprito palaciano representava na corte grave defeito. Mas enfim isso no justificava a 
ordem de priso secreta, firmada pelo rei.
 -        Deve haver outra coisa - afirmou. - De qualquer modo, somente o rei pode intervir. Oh! Ele no  fcil de manobrar. Foi adestrado por Mazarino na diplomacia 
florentina. Pode ser visto sorrindo, e mesmo com lgrimas nos olhos, pois  muito sensvel... enquanto prepara o punhal que abater um amigo.
 Vendo Anglica empalidecer, sua protetora passou-lhe um brao em volta das espduas e disse-lhe com jovialidade:
 -        Estou brincando, como sempre. No  preciso levar-me a srio. Ningum mais me leva a srio neste reino. De maneira que eu concluo: quer ver o rei?
 E como Anglica, experimentando a reao daquela perptua ducha escocesa, se lanara aos ps da Grande Mademoiselle, ambas se dissolveram em lgrimas.
 Depois disso, a princesa advertiu-a de que a terrvel entrevista j estava marcada e que o rei receberia a Sra. de Peyrac dentro de duas horas.
 Longe de ficar perturbada, Anglica sentiu-se ento penetrada de estranha calma. Aquele dia seria decisivo.
 Como no tinha tempo de voltar ao Quartier Saint-Landry, pediu a Mademoiselle autorizao para usar seus ps e cosmticos, a fim de ficar apresentvel. Mademoiselle 
emprestou-lhe uma de suas camareiras.
 Diante do espelho da penteadeira, Anglica perguntou a si mesma se ainda era bastante bela para impressionar favoravelmente o rei.
 Sua cintura tinha engrossado um pouco, mas, em troca, seu rosto, antigamente de uma redondez infantil, havia se afinado. Tinha olheiras e estava plida. Depois 
de um severo exame, disse a si prpria que, afinal de contas, a curva alongada de suas faces e seus olhos alargados por uma sombra malva no lhe ficavam mal. Conferiam-lhe 
uma expresso pattica, comovente, que no era desprovida de encanto.
 Pintou-se levemente, fixou uma mosca de veludo negro perto da tmpora e deixou-se pentear pela camareira.
 Um pouco mais tarde, ao olhar-se ao espelho e ver seus olhos verdes brilharem como os de um gato na obscuridade, murmurou:
 - J no sou eu! No entanto  uma mulher muito bela. Oh! O rei no pode ficar insensvel, mas, ai de mim! no tenho bastante humildade para ele. Meu Deus, faa 
com que me torne humilde!
 
 CAPITULO IX
 
 A Audincia do Rei
 
 Anglica endireitou-se, com o corao agitado, aps sua profunda reverncia. O rei estava diante dela. Seus altos taces de madeira envernizada no faziam nenhum 
rudo sobre o espesso tapete de l.
 Anglica viu que a porta do pequeno gabinete se tinha cerrado e que ela estava a ss com o soberano. Teve uma sensao de constrangimento, quase de pnico. Sempre 
tinha visto o rei no centro de incontvel multido. Por isso ele nunca lhe parecera absolutamente verdadeiro e vivo; era como um ator na cena de um teatro.
 Agora, ela sentia a presena daquele homem um tanto rude, su-tilmente impregnado do perfume de p de ris, com que, segundo a moda, branqueava o abundante cabelo 
escuro. E esse homem era o rei.
 Anglica esforou-se para erguer os olhos. Lus XIV mantinha-se grave e impassvel. Dir-se-ia que ele procurava recordar o nome da visitante, embora a Grande Mademoiselle 
a houvesse anunciado alguns momentos antes. Anglica sentiu-se paralisada pela frieza de seu olhar.
 Ela ignorava que Lus XIV, sem ter herdado a simplicidade de seu pai, o Rei Lus XIII, tinha a sua timidez. Apaixonado pelo fausto e pelas honras, dominava como 
podia esse sentimento de inferioridade, pouco de acordo com a majestade de seu ttulo. Mas, embora casado e j muito galante, ainda no podia aproximar-se de uma 
mulher, sobretudo uma bela mulher, sem se perturbar.
 Ora, Anglica era bela. Tinha, sobretudo, embora o ignorasse, um porte altivo, e, no olhar, uma expresso ao mesmo tempo discreta e ousada, que podia por vezes 
parecer insolncia, desafio, mas tambm a inocncia dos seres jovens e sinceros. Seu sorriso a transformava, revelando a simpatia que lhe inspiravam os outros seres 
e a vida.
 Mas naquele instante Anglica no sorria. Devia esperar que o rei falasse e, diante do silncio que se prolongava, a garganta se lhe apertava.
 Finalmente o rei se decidiu, mentindo um pouco:
 - Senhora, no a reconheci. No tem mais aquele maravilhoso vestido de ouro que usava em Saint-Jean-de-Luz?
 - Com efeito, sire, e muito me envergonha apresentar-me diante de sua pessoa em traje to simples e gasto. Mas  o nico que me resta. Vossa Majestade no ignora 
que todos os meus bens esto sob selos.
 Gelou-se a fisionomia do rei. Depois, subitamente, preferiu sorrir:
 -        Entrou imediatamente na questo, senhora. Afinal de contas, tem razo. Recorda-me que os instantes de um rei so contados e que este no tem tempo para 
perder em frivolidades.  um tanto severa, senhora.
 Um leve rubor cobriu as faces de Anglica, que sorriu, confusa.
 - Longe de mim querer recordar-lhe os numerosssimos deveres que est cumulado, sire. Mas respondi com simplicidade  sua pergunta. No queria que Vossa Majestade 
me supusesse bastante negligente para apresentar-me diante de sua pessoa com um vestido usado e jias to modestas.
 - No dei ordem para sequestrarem seus bens. E at recomendei que deixassem a Sra. de Peyrac livre e que em nada a molestassem.
 - Agradeo infinitamente a Vossa Majestade as atenes que teve para comigo - disse Anglica inclinando-se. - Mas nada possuo de meu e, na minha pressa de saber 
o que tinha acontecido a meu marido, vim a Paris sem outra fortuna alm de alguns trajes e algumas jias. Mas no venho chorar misria na sua presena, sire. A sorte 
de meu marido  minha nica preocupao.
 Calou-se, cerrando os lbios sobre o caudal de perguntas que desejaria fazer: Por que o prendeu? De que o acusa? Quando mo devolver?
 Lus XIV olhava-a com curiosidade no dissimulada.
 -        Devo compreender que a senhora, to bela, est realmente enamorada desse marido coxo e repulsivo?
 O tom depreciativo do soberano produziu em Anglica o efeito de uma punhalada. Invadiu-a uma dor espantosa. A indignao fez seus olhos chamejarem.
 -        Como pode falar assim? - exclamou ela com calor. - No entanto Vossa Majestade o ouviu, sire. Ouviu a voz de Ouro do
 Reino!
 -  verdade que sua voz tinha um fascnio contra o qual era difcil algum defender-se. Ele aproximou-se dela e continuou com voz insinuante:
 -        , pois, exato que seu marido tinha o poder de enfeitiar todas as mulheres, mesmo as mais glaciais. Contaram-me que esse senhor estava to orgulhoso desse 
poder que se jactava dele, a ponto de convert-lo em uma espcie de ensinamento denominado Corte de Amor, em festas em que reinava a mais despudorada libertinagem.
 "Menos despudorada do que o que se passa perto de Vossa Majestade, no Louvre", esteve a ponto de responder Anglica. Dominou-se o melhor que pde.
 - Interpretaram mal para Vossa Majestade o sentido daquelas reunies mundanas. Meu marido gostava de fazer reviver em seu palcio da Gaia Cincia as tradies medievais 
dos trovadores do Midi, que elevavam a galanteria para com as damas  altura de uma instituio. Certamente as conversaes eram frvolas, pois falavam de amor, 
mas a decncia era rigorosa.
 - No tinha cime, senhora, de ver esse marido, do qual era to enamorada, entregar-se  devassido?
 - Nunca o vi entregando-se  devassido, sire. As tradies dos trovadores ensinam a fidelidade a uma s mulher, esposa legtima ou amante. E eu era a que ele tinha 
escolhido.
 - No entanto, a senhora tardou muito a inclinar-se diante dessa escolha. Por que sua primitiva repulso se transformou de repente em amor devorador?
 - Vejo que Vossa Majestade se interessa pelos mais ntimos detalhes da vida de seus sditos - disse Anglica, que, desta vez, no pde dominar a inflexo irnica 
de sua voz.
 A raiva fervia dentro dela. Sua boca estava cheia de rplicas cortantes que ansiava por lanar-lhe em rosto. Esta, por exemplo: "Ser que os relatrios de seus 
espies o informam cada manh sobre quantas vezes os nobres do reino se entregam ao amor durante a noite?"
 Ela se dominou com grande dificuldade e baixou a cabea, com receio de que seus sentimentos pudessem ser lidos em seu rosto.
 -        No respondeu  minha pergunta, senhora - disse o rei em tom glacial.
 Anglica passou a mo pela fronte.
 -        Por que comecei a amar esse homem? - murmurou ela. - Sem dvida porque tinha todas as qualidades que fazem com que uma mulher se sinta feliz de ser escrava 
de tal homem.
 - Reconhece, ento que seu marido a enfeitiou.
 - Vivi cinco anos ao seu lado, sire. Posso jurar sobre o Evangelho que ele no  nem feiticeiro nem mgico.
 -        Sabe de que feitiaria o acusam?
Ela inclinou a cabea em silncio.
 - No se trata somente da estranha influncia que ele exerce sobre as mulheres, mas ainda da origem suspeita de sua imensa fortuna; diz-se que ele obteve o segredo 
da transmutao do ouro mediante um pacto com Satans.
 - Sire, submeta meu marido a um tribunal, e ele demonstrar sem dificuldades que foi vtima de concepes errneas de alquimistas transviados por sua tradio medieval, 
a qual em nossa poca se tornou mais daninha que til.
 O rei afrouxou um pouco.
 -        Admita, senhora, que nem a senhora nem eu conhecemos grande coisa de alquimia. Entretanto, confesso que as explicaes que me deram acerca das prticas 
infernais do Sr. de Peyrac so muito vagas, e seria necessrio precis-las.
 Anglica conteve um suspiro de alvio.
 -        Como sou feliz, sire, por ouvi-lo pronunciar tal sentena de clemncia e de compreenso!
 O rei esboou um sorriso mesclado de contrariedade.
 - No antecipemos, senhora. Eu disse unicamente que pedi detalhes acerca dessa histria de transmutao.
 - Precisamente, sire, nunca houve transmutao. Meu marido simplesmente .iperfeioou um processo de dissoluo, pelo chumbo derretido, do ouro muito fino contido 
em certas rochas, e foi por meio desse processo que fez sua fortuna.
 - Se tal processo fosse honesto e sincero, teria sido perfeitamente normal que ele oferecesse a explorao a seu rei, em vez de no dizer uma palavra disso a ningum.
 - Sire, sou testemunha de que ele fez completa demonstrao de seu processo diante de alguns nobres, bem como em presena do enviado do Arcebispo de Toulouse, mas 
esse processo s  aplicvel a certas rochas que se chamam files de ouro invisvel dos Pireneus, e so necessrios especialistas estrangeiros para obter resultado. 
No , pois, uma frmula cabalstica que se pode ceder, mas uma cincia especial, que envolve novas pesquisas em terrenos e somas considerveis.
 - Ele preferia sem dvida guardar para si a explorao de um processo que, tornando-o rico, lhe dava pretexto para receber em sua casa estrangeiros, espanhis, 
alemes, ingleses e herticos vindos da Sua. Ele estava assim bem  vontade para preparar a revolta do Languedoc.
 - Jamais meu marido conspirou contra Vossa Majestade.
 - No entanto, dava mostras de uma arrogncia e uma independncia pelo menos reveladoras. Admita, senhora, que um gentil-homem que nada pede ao rei j no  coisa 
normal. Mas, quando se vangloria de no necessitar para nada do seu soberano, isso passa da medida.
 Anglica sentiu a febre sacudi-la. Fez-se humilde, admitiu que Joffrey era um original que, isolado de seus semelhantes por sua desgraa fsica, havia-se esforado 
por triunfar graas  sua alta filosofia e  sua cincia.
 - Seu marido queria criar um Estado dentro do Estado - disse duramente o rei. - No tinha religio, portanto, mago ou no, pretendia reinar pelo dinheiro e pelo 
fausto. Desde sua priso, Toulouse est em efervescncia, e o Languedoc se agita. No acredite, senhora, que assinei o mandado de priso sem motivo mais valioso 
do que uma acusao de bruxaria, inquietante,  verdade, mas que, sobretudo, acarreta outras desordens. Tive srias provas de sua traio.
 - Os traidores vem por toda parte a traio - disse lentamente Anglica, cujas pupilas verdes despediram raios. - Se Vossa Majestade me apontasse os que dessa 
maneira caluniaram o Conde de Peyrac, estou certa de que encontraria entre eles personagens que, em um passado ainda bem prximo, conspiraram realmente, eles sim, 
cofitra o poder e a prpria vida de Vossa Majestade.
 Lus XIV permaneceu impassvel, mas seu rosto ensombreceu-se ligeiramente.
 -         muito ousada, senhora, ao julgar em quem deve depositar minha confiana. As bestas-feras domadas, encadeadas, so mais teis a mim do que o vassalo distante, 
orgulhoso e livre, que bem depressa se apresentaria como rival. Que o caso de seu marido sirva de exemplo aos demais senhores que tenham tendncia para erguer a 
cabea. Veremos se, com todo o seu ouro, poder com
prar os juzes e se Satans vir socorr-lo. A mim me toca defender o povo das influncias perniciosas desses grandes nobres que querem ser donos dos corpos e das 
almas e do prprio rei.
 "Seria preciso lanar-me em lgrimas a seus ps", pensou Anglica. Mas era incapaz de faz-lo. A personalidade do rei tinha-se apagado a seus olhos. Ela no via 
mais que um rapaz de sua idade - vinte e dois anos - que ela tinha terrveis desejos de agarrar pelos bofes de rendas e sacudir como se fosse uma ameixeira.
 - Eis a justia do rei - disse com voz entrecortada que lhe pareceu estranha. - Est Vossa Excelncia rodeado de assassinos empoados, de bandidos emplumados, de 
mendigos que prodigalizam as mais baixas adulaes. Um Fouquet, um Conde, os Conti, Longueville, Beaufort... O homem que eu amo nunca traiu. Superou as piores desgraas, 
alimentou o Tesouro Real com uma parte de sua fortuna, ganha pelo seu gnio, ao preo de esforos e de trabalhos incessantes, e nada pediu a ningum. Isso  o que 
nunca se lhe perdoar...
 - Com efeito, isso  o que nunca se lhe perdoar - repetiu o rei como um eco.
 Aproximou-se de Anglica e segurou-lhe o brao com uma violncia que traa sua clera, no obstante a deliberada calma de seu rosto.
 -        Senhora, sair livre desta sala, quando eu poderia mandar prend-la. Recorde-o no futuro, quando duvidar da magnanimidade do rei. Mas, cuidado! No quero 
tornar a ouvir falar de sua pessoa, pois ento eu serei implacvel. Seu marido  meu vassalo. Deixe que se cumpra a justia do Estado. Adeus, senhora!
 
 CAPITULO X
 
 Anglica, perseguida por assassinos nos corredores do Louvre, consegue escapar  morte
 
 "Tudo est perdido!... Por minha culpa! Perdi Joffrey!", repetia consigo mesma Anglica.
 Desnorteada, abalou pelos corredores do Louvre. Procurava Kuassi-Ba! Queria ver a Grande Mademoisellel... Seu corao, sufocado de angstia, pedia o socorro de 
um corao amigo, mas em vo. Os vultos que com ela se cruzavam eram surdos e cegos, inconsistentes marionetes vindas de outro mundo.
 Caa a noite, trazendo consigo uma tempestade de outubro que aoitava as vidraas, inclinava as chamas das velas, silvava sob as portas, balanava os tapetes.
 Colunatas, carrancas, sombras solenes das escadas gigantes, madeiras douradas, pontes e galerias, trems, lajes, molduras... An-glia errava atravs do Louvre como 
atravs de uma selva tenebrosa, de um labirinto mortal.
 Na esperana de encontrar Kuassi-Ba, desceu a um dos ptios. Teve de retroceder ante o aguaceiro que, pelas biqueiras, se despejava com um rudo torrencial.
 Sob a escada havia-se refugiado em volta de um braseiro um grupo de comediantes italianos que iam danar naquela noite diante do rei. A luz vermelha do fogo alumiava 
a policromia dos trajes de Arlequins, suas mscaras negras, os brancos disfarces de Pantaleo ede seus palhaos.
 Tendo voltado ao primeiro andar, Anglica descobriu, por fim, um rosto conhecido. Era Brienne. Ele lhe disse que tinha visto  Sr. de Prfontaines nos aposentos 
da jovem Princesa Henriqueta da Inglaterra; talvez ele pudesse dizer-lhe onde se achava a Srta. 'de Montpensier.
 No apartamento da Princesa Henriqueta jogava-se com entusiasmo ao redor das mesas,  luz morna das velas de cera que iluminavam alegremente o grande salo. Anglica 
percebeu Andijos, Pguilin, d'Humires e De Guich. Eles estavam absorvidos pelo jogo ou talvez fingissem no v-la.
 O Sr. de Prfontaines, que bebia a pequenos sorvos um copo de licor junto  chamin, disse-lhe que a Srta. de Montpensier tinha ido jogar cartas com a jovem rainha, 
nos aposentos de Ana d'ustria. Sua Majestade a Rainha Maria Teresa, fatigada, intimidada, falando mal o francs, no se animava a misturar-se  mocidade pouco indulgente 
da corte. Mademoiselle ia, toda tarde, jogar uma partida com ela. Mademoiselle era muito boa; no entanto, como a rainhazinha se deitava cedo, era muito possvel 
que Mademoiselle viesse dentro em pouco ao salo de sua prima Henriqueta. De qualquer modo, ela mandaria chamar o Sr. de Prfontaines, pois no dormia sem ter conferido 
suas contas com ele.
 Resolvida a esperar, Anglica aproximou-se de uma mesa onde os oficiais-de-boca haviam servido uma ceia fria e pastis. Ela era sempre muito humilhada pelo apetite, 
que conservava mesmo nas mais graves circunstncias. Encorajada pelo Sr. de Prfontaines, sentou-se e comeu uma asa de frango, dois ovos em gelia e vrios pastis 
e doces. Depois, tendo pedido a um pajem o gomil de prata para lavar os dedos, misturou-se a um grupo de jogadores e pediu cartas. Tinha pouco de dinheiro. Bem cedo 
a sorte a favoreceu e ela comeou a ganhar. Sentiu-se reconfortada. Se pudesse encher a bolsa, aquele no seria, afinal, um dia inteiramente catastrfico. Afundou-se 
no jogo. As pilhas de escudos amontoavam-se diante dela. Um dos seus vizinhos que perdia disse meio a srio, meio de brincadeira:
 -        No nos assombremos:  a pequena feiticeira.
 Anglica recolheu os lucros com mo rpida e demorou uns instantes a perceber a aluso. Pelo visto, a desgraa de Joffrey comeava a ser conhecida. Cochichava-se 
de uma orelha a outra que ele era acusado de feitiaria. Mas Anglica permaneceu firmemente em seu posto.
 "No deixarei o jogo seno quando comear a perder. Oh! Se eu pudesse arruinar a todos eles e ter bastante ouro para comprar os juzes..."
 Quando ela deixava cair mais uma vez trs insolentes ases, uma mo deslizou em torno de sua cintura e beliscou-a.
 -        Por que voltou ao Louvre? - cochichou-lhe ao ouvido o Mar qus de Vardes.
 -        Certamente no foi para v-lo de novo - respondeu Anglica sem olh-lo, e desprendeu-se bruscamente.
 Ele pediu cartas e disp-las maquinalmente, continuando no mesmo tom.
 - Voc est louca! Quer fazer-se assassinar? 
 - O que eu desejo fazer no lhe concerne de modo algum. Ele jogou, perdeu, fez uma nova parada.
 -        Escute, ainda  tempo. Siga-me. Vou fazer que lhe dem uma escolta de suos para que a acompanhe at sua casa.
 Dessa vez ela o encarou com desprezo.
 -        No tenho nenhuma confiana em sua proteo, Sr. de Vardes, e o senhor sabe por qu.
 Ele largou as cartas com despeito contido.
 -        Realmente! Sou um idiota em preocupar-me a seu respeito.
Hesitou ainda antes de resmungar com uma careta:
 - Obriga-me a representar um papel ridculo. Mas, afinal, j que no existe outra maneira de faz-la ter juzo, eu lhe direi: pense em seu filho. Saia do Louvre 
imediatamente, e sobretudo evite reencontrar o irmo do rei!
 - No me afastarei desta mesa enquanto estiver por aqui - respondeu Anglica muito calma.
 As mos do gentil-homem se crisparam. Subitamente ele deixou a mesa de jogo.
 -        Est bem, vou-me embora. No demore a fazer o mesmo. Est jogando sua vida.
 Ela o viu afastar-se, saudando  direita e  esquerda, e depois sair.
 Ficou perturbada. No podia evitar a sensao de medo que deslizava sobre ela como fria serpente. Preparar-lhe-ia Vardes outra armadilha? Ele era capaz de tudo. 
No entanto, a voz do cnico gentil-homem tinha um acento inusitado. A evocao que ele fizera de Florimond abalou-a de repente. Viu o delicioso homenzinho, com sua 
touca vermelha, titubeando em sua comprida camisola bordada, seu chocalho de prata na mo. Que seria dele se ela desaparecesse?...
 Deixou as cartas e meteu na bolsa as moedas de ouro. Tinha ganho mil e quinhentas libras. Apanhou seu manto no encosto de uma poltrona e foi saudar a Princesa Henriqueta, 
que lhe respondeu com uma indiferente inclinao de cabea.
 A contragosto, Anglica deixou o salo, refgio de luz e calor. Uma corrente de .ar bateu a porta atrs dela. O vento sibilante deitava as tremeluzentes chamas 
das velas, que pareciam tomadas de louco pnico. Sombras e chamas agitavam-se como em transe.
 Depois voltou a calma, o vento foi uivar mais longe, e nos corredores silenciosos nada mais se movia.
 Perguntou seu caminho ao suo que estava de guarda diante do apartamento da Princesa Henriqueta e caminhou depressa, aconchegando o manto ao corpo. Esforava-se 
por no ter medo, mas cada recanto parecia dissimular uma forma suspeita. Ao aproximar-se do ngulo de um corredor, encurtou o passo. Uma angstia invencvel a paralisava.
 "Eles esto ali", pensou.
 No via ningum, mas uma sombra se arrastava pelo solo. Desta vez no havia mais dvida: um homem estava  espreita...
 Anglica deteve-se. Algo se moveu no ngulo da parede e uma silhueta envolta num manto escuro, com o chapu enterrado at os olhos, apareceu lentamente, barrando-lhe 
a passagem. Mordendo os lbios para conter um grito, Anglica retrocedeu imediatamente.
 Olhou por cima do ombro. Agora, eles eram trs e seguiam-na. Acelerou o passo. Mas as trs personagens se aproximavam. Ento ela se pos a correr com a ligeireza 
de uma cerva.
 No necessitava de se voltar para saber que eles se haviam lanado em sua perseguio. Ouvia seus passos voluntariamente amortecidos. Eles corriam na ponta dos 
ps. Era uma perseguio silenciosa, irreal, uma corrida de pesadelo atravs do deserto do imenso palcio.
 Subitamente Anglica percebeu uma porta entreaberta  sua direita. Acabara de dobrar o ngulo de um corredor. Os perseguidores estavam fora do alcance de sua vista.
 Entrou no aposento, fechou a porta e correu o ferrolho. Apoiada ao batente, mais morta que viva, ouviu os passos precipitados dos homens e percebeu suas respiraes 
ofegantes. Depois reinou novamente o silncio.
 Cambaleando de emoo, Anglica foi apoiar-se no leito. Estava vazio, mas sem dvida no tardaria a chegar algum. Os lenis estavam preparados para a noite. O 
fogo flamejava na lareira e iluminava a pea, auxiliado por uma pequena lamparina de azeite colocada sobre a mesa-de-cabeceira.
 Anglica, com a mo no peito, soltava a respirao.
 "E absolutamente necessrio que eu saia deste vespeiro", disse consigo mesma.
 Tinha sido muito inconsciente ao imaginar que, tendo escapado a um primeiro atentado nos corredores do Louvre, poderia escapar a um segundo.
 Certamente, fazendo-a retornar ao Louvre, a Grande Mademoiselle ignorava os perigos que Anglica corria. O prprio rei - disso ela estava segura - no suspeitava 
do que se tramava no interior do seu palcio. Mas, no Louvre, reinava a presena oculta de Fou-quet. Temendo que o segredo de Anglica originasse a runa de sua 
assombrosa fortuna, o superintendente havia alertado sua alma-danada, Filipe d'Orlans, e feito nascer o temor no corao dos que viviam dele, ao mesmo tempo que 
adulavam o rei. A priso do Conde de Peyrac fora uma etapa. O desaparecimento de Anglica completaria a prudente manobra. Somente os mortos no falam.
 A jovem cerrou os dentes. Invadiu-a uma vontade feroz. Estava decidida a escapar da morte.
 Percorreu com os olhos o aposento, procurando a sada por onde pudesse fugir sem risco de atrair ateno.
 De repente seus olhos se esbugalharam de espanto.
 Diante dela movia-se uma tapearia. Ouviu ranger a lingeta de uma fechadura. Uma porta dissimulada abriu-se lentamente e pela abertura surgiram os trs homens 
que a tinham perseguido.
 No teve dificuldade em reconhecer no primeiro que se aproximava o irmo do rei.
 Ele deixou cair sua capa de conspirador, ajeitou com um piparote as rendas de seu papo. No tirava os olhos de cima de Anglica, enquanto um frio sorriso arregaava 
sua pequena boca de lbios vermelhos.
 -        Perfeito! - exclamou com sua voz de falsete. - A cerva caiu na armadilha. Mas que corrida! Pode orgulhar-se, senhora, de ter os ps ligeiros.
 Anglica armou-se de sangue-frio e, embora sentisse que as pernas lhe fraquejavam, esboou uma reverncia.
 - Ento foi o senhor, monseigneur, que tanto me assustou? Acreditei que estava sendo seguida por ladres ou bandidos do Pont Neuf, que se houvessem introduzido 
no palcio para um assalto.
 - Oh! Muitas vezes brinquei de bandido, de noite, no Pont Neuf - disse o Petit Monsieur com ar jactancioso -, e ningum tem nada que ensinar-me na arte de tirar 
a bolsa ou atravessar a pana de um burgus. No  verdade, queridssimo?
 Ele se voltara para um de seus companheiros. Este, levantando o chapu, mostrou as feies do Cavaleiro de Lorena. Sem responder, o favorito se aproximou e puxou 
a espada, que desprendeu um fulgor vermelho  luz do fogo.
 Anglica olhava com ateno para o terceiro, que se mantinha um pouco afastado.
 - Clemente Tonnel - disse ela enfim -, que faz aqui, meu amigo?
 O homem se inclinou profundamente.
 - Estou s ordens de monseigneur - respondeu. E acrescentou, levado pela fora do hbito:
 - Desculpe-me a senhora condessa.    
 -        Eu o desculpo de boa vontade - respondeu Anglica, que, de sbito, foi acometida por nervoso desejo de rir. - Mas por que tm uma pistola na mo?
 O mordomo lanou um olhar embaraado  sua arma. Entretanto, aproximou-se do leito onde Anglica continuava apoiada.
 Filipe d'Orlans tinha aberto a gaveta da mesa-de-cabeceira. De l tirou um copo pelo meio de um lquido quase negro.
 - A senhora vai morrer - disse ele solenemente.
 - Verdadeiramente? - respondeu Anglica.
 Olhava para os trs, de p diante dela. Parecia-lhe que seu ser se desdobrava. No fundo de si mesma uma mulher enlouquecida torcia as mos e gritava: "Piedade, 
eu no quero morrer!" Uma outra lcida pensava: "Eles tm, na verdade, um ar ridculo. Tudo isto no passa de uma brincadeira perversa".
 -        A senhora nos afrontou - disse o Petit Monsieur, cuja boca
se crispava de impacincia. - Vai morrer, mas ns somos genero
sos: deixamos  sua escolha a morte: veneno, ferro ou fogo.
 Um golpe de vento sacudiu violentamente a porta e encheu o aposento de uma fumaa acre. Anglica levantou a cabea com esperana.
 - Oh! No vir ningum, no vir ningum! - zombou o irmo do rei. - Esse  seu leito de morte, senhora. Foi preparado para sua pessoa.
 - Mas, enfim, que lhe fiz? - exclamou Anglica, que comeava a sentir um suor de angstia molhar suas tmporas. - Fala de minha morte como de uma coisa natural, 
indispensvel. Permita que eu no compartilhe sua opinio. O maior criminoso tem o direito de saber de que o acusam e de se defender.
 - A mais hbil defesa em nada modificar o veredicto, senhora.
 - Pois bem, se eu devo morrer, ao menos diga-me por qu! - respondeu a jovem com veemncia.
 A qualquer preo era preciso ganhar tempo. O jovem prncipe lanou um olhar interrogador a seu companheiro.
 -        Afinal de contas, j que dentro de alguns instantes ter deixado de viver, no vejo por que nos mostrarmos inutilmente desumanos - disse ele com a sua 
voz aucarada. - Senhora, no  to ignorante quanto diz. Suspeita perfeitamente por ordem de quem estamos aqui!
 -  O rei? - exclamou Anglica, dando mostra de fingido respeito.
 Filipe d'Orlans ergueu seus ombros delicados.
 - O rei s envia para a priso as pessoas contra as quais se excita sua inveja. No, senhora, no se trata de Sua Majestade.
 - De quem, ento, pode o irmo do rei consentir em receber ordens?
 O prncipe estremeceu.
 - Parece-me que  bem ousada, senhora, falando assim. A senhora me ofende!
 - E a mim me parece que em sua famlia se  muito suscetvel! - replicou Anglica, cuja clera se sobrepunha ao terror. - Se os festejam ou os adulam, ofendem-se 
por que aquele que os recebe parece mais rico que vocs. Se lhes oferecem presentes,  uma insolncia! Quando no os sadam bastante profundamente,  outra insolncia! 
Quando no se vive como mendigo, estendendo a mo at arruinar o Estado, como todo o seu galinheiro de gentis-homens,  uma arrogncia contundente! Quando se pagam 
os impostos com pontualidade,  uma provocao!... Um bando de gente mesquinha, eis o que so o senhor, seu irmo o rei, sua me e todos os traidores seus primos: 
Conde, Montpensier, Soissons, Guise, Lorena, Vendme...
 Parou porque lhe faltou o flego.
 Erguido sobre seus altos taces, numa atitude feroz, ameaadora, Filipe d'Orlans lanou um olhar indignado a seu favorito.
 -        J ouviu falar da famlia real com tamanha insolncia?
O Cavaleiro de Lorena teve um sorriso cruel.
 - As injrias no matam, monseigneur. Vamos, tomemos uma deciso, senhora.
 - Quero saber por que vou morrer - insistiu Anglica.
 E acrescentou precipitadamente, decidida a tudo para ganhar alguns minutos:
 -         por causa do Sr. Fouquet?
 O irmo do rei no pde deixar de sorrir com satisfao.
 - De modo que recuperou a memria? Sabe ento por que o Sr. Fouquet se interessa tanto por seu silncio?
 - S sei uma coisa, e  que h anos fiz abortar a conspirao que devia suprimi-lo por envenenamento, monseigneur, bem como o rei e o cardeal. E lamento amargamente 
que a coisa no tenha tido xito, como desejavam o Sr. Fouquet e o Prncipe de Conde.
 - Ento, confessa?
 - Nada tenho a confessar. A traio desse criado o informou amplamente sobre o que eu sabia e confiei a meu marido. Em outra ocasio eu lhe salvei a vida, monseigneur, 
e eis como me agradecei
 Uma fugitiva emoo estampou-se no rosto efeminado do jovem. Seu egosmo tornava-o sensvel a tudo o que lhe concernia.
 - O passado  o passado - disse ele com voz hesitante. - O Sr. Fouquet, depois, cumulou-me de benefcios. E justo que eu o ajude a livrar-se da ameaa que pesa 
sobre ele. Na verdade, senhora, estou pesaroso, mas  muito tarde. Por que no aceitou a razovel proposta que o Sr. Fouquet lhe fez por intermdio da Sra. de Beauvais?
 - Supus que seria preciso que eu abandonasse meu marido  sua triste sorte.
 - Evidentemente. No se pode calar um Conde de Peyrac seno emparedando-o numa priso. Mas uma mulher que tem luxo e lisonjas prontamente esquece aquilo que deve 
esquecer. De qualquer modo,  demasiado tarde. Vamos, senhora...
 - E se eu lhe dissesse onde est o cofrezinho? - props Anglica, segurando-o pelas espduas. - O senhor, monseigneur, somente o senhor ter nas mos o terrvel 
poder de assustar, de dominar o prprio Sr. Fouquet, e a prova da traio de tantos outros grandes senhores que o olham de cima para baixo, que no o tomam a srio...
 Um fulgor brilhou nos olhos do jovem prncipe e ele passou a lngua sobre os lbios.
 Mas o Cavaleiro de Lorena tomou-o pelo brao e atraiu-o para si como se desejasse arranc-lo ao nefasto imprio de Anglica.
 -        Tenha cuidado, monseigneur. No se deixe tentar por essa mulher. Ela procura, por meio, de promessas enganadoras, escapar-nos, retardar sua execuo.  
melhor que leve o seu segredo para o tmulo. Se o senhor o possusse, seria muito poderoso, sem dvida, mas seus dias estariam contados.
 Aconchegado ao peito de seu favorito, feliz por aquela prote-o viril, Filipe d'Orlans refletia.
 -        Tem razo, como sempre, meu caro amor - suspirou. - Est bem, cumpramos nosso dever. Que escolhe, senhora: veneno, espada ou pistola?
 - Decida rapidamente! - exclamou ameaador o Cavaleiro de Lorena. - Do contrrio, escolheremos ns.
 Depois de um instante de esperana, Anglica tornou a cair em uma situao atroz e sem sada.
 Os trs homens estavam diante dela. Ela no poderia fazer um movimento sem que fosse detida pela espada do Cavaleiro de Lorena ou pela pistola de Clemente. Nenhum 
cordo de campainha estava ao seu alcance. De fora no vinha nenhum rudo. Somente o crepitar da lenha na lareira e o saraivar da chuva contra os vidros perturbavam 
o silncio sufocante. Em alguns segundos, seus assassinos se precipitariam sobre ela. Os olhos de Anglica pousaram sobre as armas. Com a pistola ou a espada, ela 
certamente morreria. Mas talvez pudesse escapar ao veneno. Fazia mais de um ano que ela absorvia diariamente uma dose nfima dos produtos txicos que Joffrey preparava 
para ela.
 Estendeu a mo procurando impedi-la de tremer.
 -        Dem-me o veneno! - murmurou.
 Ao aproximar o copo dos lbios, observou no fundo um sedimento de brilho metlico. Teve o cuidado de no agitar o lquido ao beb-lo. O gosto era acre e picante.
 -        Agora, deixem-me s - disse ela, colocando o copo na mesa-de-cabeceifa.
 No sentia nenhuma dor. "Sem dvida", pensava, "a alimentao que tomei nos aposentos da Princesa Henriqueta proteger as paredes do meu estmago contra os efeitos 
corrosivos do produto..." No perdeu de todo a esperana de escapar a seus verdugos e de evitar uma morte horrvel.
 Lanou-se de joelhos aos ps do prncipe.
 -        Monseigneur tenha piedade da minha alma. Envie-me um sacerdote. Sinto que vou morrer. J no tenho foras nem para me arrastar. Agora o senhor j tem certeza 
de que no lhe escaparei. No me deixe morrer sem confisso. Deus no poder perdoar-lhe a infmia de me haver privado dos consolos da religio.
 Comeou a gritar com voz lancinante:
 -        Um padre, um padre! Deus no o perdoar!
 Viu Clemente Tonnel voltar-se e benzer-se, empalidecendo.
 - Ela tem razo - disse o prncipe com voz alterada. - Nada ganharemos em priv-la dos socorros da religio. Acalme-se, senhora. J tinha previsto seu pedido. Vou 
enviar-lhe um capelo que est esperando num aposento vizinho.
 - Retirem-se, senhores - suplicou Anglica, exagerando a debilidade da voz e levando a mo ao estmago, como se a torcesse um espasmo de dor. - No quero pensar 
em nada que no seja por em paz a minha conscincia. Sinto que, se um s de vocs permanecer diante dos meus olhos, no serei capaz de perdoar a meus inimigos. Ah! 
Como eu sofro! Piedade, meu Deus!
 Lanou-se para trs com um grito espantoso.
 Filipe d'Orlans arrastou consigo o Cavaleiro de Lorena.
 -        Vamos depressa! Ela no viver mais que alguns instantes.
O mordomo j havia deixado o aposento.
 Mal eles saram, Anglica, de um salto, levantou-se e correu para a janela. Conseguiu abri-la, recebeu em pleno rosto uma rajada de chuva e inclinou-se sobre o 
vazio tenebroso.
 Como nada enxergava, no podia calcular a que distncia se encontrava o cho, mas sem vacilar atirou-se pela janela.
 A queda pareceu-lhe interminvel. Caiu brutalmente sobre uma espcie de cloaca em que se afundou e que, sem dvida, a impediu de fraturar um membro. Sentiu tal 
dor no tornozelo que, por um instante, acreditou ter quebrado o p; mas no passava de uma torcedura.
 Colando-se  parede, Anglica afastou-se alguns passos. Depois, introduzindo a extremidade de um dos seus cachos na garganta, conseguiu vomitar vrias vezes.
 No podia atinar com o lugar onde se encontrava. Guiando-se pelas paredes, percebeu, com espanto, que havia saltado em pequeno ptio interior, repleto de imundcies, 
e onde havia tanta possibilidade de algum encontr-la como no fundo de uma fossa.
 Felizmente, encontrou, tateando, uma porta, que abriu. O interior estava escuro e mido. Sentiu um cheiro de vinho. Ela devia estar nas dependncias de servio 
do Louvre, perto das adegas.
 Decidiu subir aos andares. Pediria socorro ao primeiro guarda que encontrasse... Mas o rei mandaria prend-la e encerr-la num calabouo. Ah! Como sair daquela 
ratoeira?
 Entrementes, ao chegar s galerias habitadas, deu um suspiro de alvio. Reconheceu a alguns passos de distncia o suo que estava de guarda diante da porta da 
Princesa Henriqueta e ao qual havia, algum tempo antes, perguntado o caminho. No mesmo instante os nervos a dominaram e ela lanou um uivo de terror, pois, no outro 
extremo do corredor, viu surgir, correndo, o Cavaleiro de Lorena e Filipe d'Orlans, de espada em punho. Eles conheciam a nica sada do pequeno ptio para o qual 
saltara sua vtima e procuravam cortar-lhe a retirada.
 Empurrando a sentinela, Anglica se meteu no interior do salo e foi precipitar-se aos ps da Princesa Henriqueta.
 -        Piedade, senhora, piedade, querem assassinar-me!
 Um tiro de canho no teria perturbado mais a brilhante assembleia. Todos os jogadores se levantaram contemplando com estupor aquela jovem desgrenhada, molhada, 
com o vestido enlameado e rasgado, que acabava de cair no meio deles.
 Quase sem foras, Anglica lanava em sua volta olhares de animal perseguido. Reconheceu os rostos de Andijos e de Pguilin de Lauzun.
 - Senhores, socorram-me! - suplitou ela. - Acabam de procurar envenenar-me. Perseguem-me para matar-me.
 - Mas, enfim, onde esto seus assassinos, pobre querida? - par-guntou com voz suave Henriqueta da Inglaterra.
 - Ali!
 Incapaz de dizer mais, Anglica apontava a porta.
 Todos olharam.
 O Petit Monsieur, irmo do rei, e o seu favorito, o Cavaleiro de Lorena, estavam na soleira. Tinham embainhado as espadas e afetavam um ar de compaixo.
 - Minha pobre Henriqueta - disse Filipe d'Orlans aproximando-se a curto passo de sua prima -, estou pesaroso por este incidente. Esta infeliz est louca.
 - No estou louca. Digo-lhes que querem assassinar-me.
 - Mas, enfim, querida, est dizendo coisas sem sentido - respondeu a princesa, procurando acalm-la. - Aquele que apontou como seu assassino no  outro seno Monseigneur 
d'Orlans. Olhe bem.
 - Estou farta de v-lo! - gritou Anglica. - Jamais na minha vida esquecerei seu rosto. Digo-lhe que ele quis envenenar-me. Sr. de Pr-fontaines, o senhor que  
um homem honesto, traga-me qualquer remdio, leite, ou qualquer outra coisa, a fim de que eu possa combater o efeito deste veneno atroz. Eu lhe suplico... Sr. de 
Prfontaines!
 Gaguejando, aturdido, o pobre homem precipitou-se para um pequeno mvel e estendeu a Anglica uma caixinha de orviato, do qual ela foi logo comendo alguns pedaos.
 A confuso chegara ao cmulo.
 Monsieur, com a pequena boca franzida pela contrariedade, procurou uma vez mais fazer-se ouvir.
 - Afirmo-lhes, meus amigos, que esta mulher no est em seu juzo. Nenhum de vocs ignora, com certeza, que seu marido est atualmente na Bastilha, e por um crime 
espantoso: o crime de sortilgio! Esta infeliz, enfeitiada pelo escandaloso gentil-homem, procura proclamar uma inocncia bem difcil de demonstrar. Em vo Sua 
Majestade procurou hoje convenc-la, durante uma entrevista cheia de bondade...
 - Oh! A bondade do rei! A bondade do rei!... - exasperou-se anglica.
 Em um instante, ela se ps a divagar... Que seria feito dela?... Escondeu o rosto nas mos e procurou recuperar a calma. Ouvia a voz cndida de adolescente do Petit 
Monsieur.
 -        De sbito ela foi acometida de uma verdadeira crise diablica. Est possessa do Demnio. O rei mandou chamar imediatamente o superior dos agostinianos 
a fim de procurar acalm-la por meio das preces rituais. Mas ela conseguiu fugir. Para evitar o escndalo de fazer prend-la pelos guardas, Sua Majestade me encarregou 
de procurar alcan-la e det-la at a chegada do religioso. Sinto muito, Henriqueta, que ela tenha estragado sua soire. Creio que o mais prudente seria que todos 
vocs se retirassem para um quarto vizinho com seus jogos, enquanto cumpro aqui a tarefa de que meu irmo me encarregou.
 Anglica, como mergulhada em nvoa, via dissolverem-se em torno de si as apertadas filas de damas e gentis-homens.
 Impressionados, preocupados em no desgostar o irmo do rei, todos se retiravam.
 Anglica estendeu as mos e encontrou o tecido de um traje sobre o qual seus dedos sem fora no puderam fechar-se.
 -        Senhora - disse com voz sem timbre -, vai deixar-me morrer?
A princesa vacilava. Dirigiu um olhar ansioso a seu primo.
 -        Como, Henriqueta - protestou ele dolorosamente -duvida de mim? Agora que j trocamos promessas de mtua confiana e vamos unir-nos por laos sagrados?
 A loura Henriqueta baixou a cabea.
 -        Tenha confiana em monseigneur, minha amiga - disse a Anglica. - Estou persuadida de que ele quer apenas o seu bem.
 E afastou-se rapidamente.
 Numa espcie de delrio que a deixava muda de pavor, Anglica, sempre ajoelhada no tapete, voltou-se para a porta pela qual os cortesos tinham desaparecido rapidamente. 
Viu Bernardo d'An-dijos e Pguilin de Lauzun, que, plidos como mortos, no se decidiam a deixar o salo.
 -        Muito bem, senhores - disse Monseigneur d'Orlans com sua voz aguada -, minhas ordens os atingem igualmente. Ser preciso que eu conte ao rei que do mais 
crdito s impertinncias de uma louca do que s palavras de seu prprio irmo?
 Os dois homens baixaram a cabea e lentamente saram. Esta suprema defeco despertou subitamente a combatividade de Anglica.
 -        Covardes! Covardes! Oh, covardes! - gritou ela, erguendo-se  de um salto e precipitando-se para trs de uma poltrona a fim de defender-se.
 Evitou uma estocada que lhe atirou o Cavaleiro de Lorena. Outro golpe atingiu-lhe a espdua e seu sangue jorrou.
 -        Andijos, Pguilin, a mim os gasces! - uivou ela fora de si.
__ Salvem-me dos homens do norte.
 A porta do segundo salo reabriu-se de repente. Lauzun e o Marqus d'Andijos irromperam com as espadas nuas. Tinham ficado espreitando por trs da folha entreaberta 
e, agora, no podia mais duvidar das horrveis intenes do irmo do rei e de seu favorito.
 De um s golpe, Andijos fez saltar a espada de Filipe d'Orlans e feriu-o no pulso. Lauzun cruzou o ferro com o Cavaleiro de Lorena.
 Andijos segurou a mo de Anglica.
 -        Fujamos depressa!
 Arrastou-a para o corredor, tropeou em Clemente Tonnel, que no teve tempo de brandir a pistola dissimulada sob a capa. De um s impulso, Andijos enterrou-lhe 
a lmina na garganta. O homem tombou em rio de sangue.
 Depois o marqus e a jovem se lanaram numa doida corrida.
 Atrs deles, a voz de falsete do Petit Monsieur aulava os suos:
 -        Guardas! Guardas! Segurem-nos.
 Logo se ouviu um rumor de passos misturados ao retinir de alabardas.
 -        A grande galeria... - murmurou Andijos -, para as Tulherias... As estrebarias, os cavalos! Depois, o campo... Salvos...
 A despeito de sua pana, o gasco com uma resistncia de que Anglica nunca o supusera capaz. Ela  que j no aguentava. Seu tornozelo fazia-a sofrer atrozmente, 
sua espdua lhe queimava.
 -        Vou cair! - disse Anglica ofegante. - Vou cair!
 Nesse momento eles passavam diante de uma das grandes escadas que levavam aos ptios.
 -        Desa por aqui - disse Andijos -, e esconda-se da melhor maneira. Quanto a mim, vou atra-los para bem longe.
 Quase voando, Anglica desceu os degraus de pedra. A luz do braseiro f-la recuar. Subitamente ela desabou.
 Arlequim, Colombina, Pierrot a receberam, atraram-na para seu refgio, esconderam-na o melhor que puderam. Os grandes losangos verdes e vermelhos de seus disfarces 
borboletearam demoradamente diante dos olhos da jovem antes que ela mergulhasse em profundo desmaio.
 
 CAPTULO XI
 
 Gontran, aprendiz de pintor
 
 Uma luz verde e suave banhava Anglica. Acabava esta de abrir os olhos. Estava em Monteloup, debaixo das sombras da margem do rio, onde o sol no penetrava seno 
tingindo-se de verde. Ouvia seu irmo Gontran dizer-lhe:
 - Jamais encontrarei o verde das plantas. Em rigor, tratando-se a calamina pelo sal de cobalto da Prsia, obtm-se um tom vizinho, mas  um verde espesso, opaco. 
Nada deste esmeralda luminoso das folhas de sobre o rio...
 Gontran tinha uma voz grossa enrouquecida, nova, e, no entanto, era uma entonao mal-humorada que tomava ao falar de suas cores e de seus quadros.
 Quantas vezes tinha murmurado, fitando os olhos de sua irm com uma espcie de aborrecimento: "O verde das plantas, jamais o encontrei".
 Um ardor na boca do estmago fez estremecer Anglica. Recordou que algo terrvel tinha sucedido.
 "Meu Deus", pensou ela, "meu filhinho est morto!"
 Certamente ele havia morrido! No teria podido sobreviver a tantos horrores. Ele morrera quando ela saltara pela janela naquele abismo negro. Ou quando correra 
pelos corredores do Louvre... A vertigem daquela carreira insensata ainda tornava febris os seus membros; seu corao, forado ao extremo, parecia-lhe dolorido.
 Reunindo suas foras, conseguiu mexer uma das mos e p-la sobre o ventre. Um doce sobressalto respondeu  sua presso.
 "Oh! ele ainda vive! Que valente companheirinho!", pensou com orgulho e ternura.
 O menino agitava-se como uma pequena r. Ela sentia deslizar sob seus dedos a cabea redonda. De instante a instante ela ia re-conquistando a lucidez e percebeu 
que na realidade se achava em urn grande leito de colunas torsas, cujas cortinas de sarja verde deixavam filtrar aquela luz glauca que a tinha feito recordar as 
margens do rio de Monteloup.
 J no estava na Rue de PEnfer, em casa de Hortnsia. Onde estaria? Suas recordaes permaneciam vagas: tinha somente a impresso de arrastar atrs de si, como 
uma massa enorme e tenebrosa, no sabia que drama atroz de veneno negro, de espadas relampejantes, de medo, de lama pegajosa.
 A voz de Gontran ainda se fez ouvir:
 - Jamais, jamais se conseguir este verde de gua sob as folhas.
 Desta vez Anglica esteve a ponto de soltar um grito. Estava louca, sem qualquer dvida! Ou terrivelmente enferma?
 Vestiu-se e apartou as cortinas do leito. O espetculo que se ofereceu  sua vista acabou por convenc-la de que tinha perdido a razo.
 Diante dela, estendida sobre uma espcie de estrado, via uma deusa loura e rosada, meio desnuda, oferecendo em um cesto de palha esplndidos cachos de uvas douradas 
cujos pmpanos exuberantes se espalhavam sobre coxins de veludo. Um pequeno Cupido, inteiramente nu, maravilhosamente rechonchudo, com uma coroa de flores postas 
de travs sobre os cabelos louros, mordia a uva com muito gosto. Subitamente, o pequeno deus espirrou vrias vezes. A deusa olhou-o com inquietao e disse algumas 
palavras em uma lngua estrangeira, que era sem dvida a lngua do Olimpo.
 Algum se moveu no aposento, e um gigante de cabelos ruivos e barbudo, mas vestido simplesmente como um artista do sculo, aproximou-se de Eros, tomou-o nos braos 
e embrulhou-o em um manto de l.
 Simultaneamente, Anglica descobriu o cavalete do pintor Van Ossel, e junto dele um obreiro com avental de couro e carregado com duas paletas onde se misturavam 
cores vrias e brilhantes.
 O obreiro, inclinando levemente a cabea para o lado, olhava o quadro inacabado do mestre. Uma luz plida iluminava-lhe o rosto. Era um moo de estatura mediana, 
de aspecto comum, com sua camisa de grosso tecido aberta no pescoo bronzeado, de cabelos castanhos, cortados negligentemente  altura dos ombros e cuja franja em 
desalinho ocultava parcialmente os olhos escuros. Mas Anglica teria reconhecido entre mil aqueles lbios mal-humorados, aquele nariz agressivo, e tambm a bonomia 
do queixo um tanto gordo que lhe recordava seu pai, o Baro Armando.
 Ela chamou:
 - Gontran!
 - A dama despertou! - exclamou a deusa.
 Todo o grupo, ao qual se juntaram cinco ou seis crianas, aproximou-se do leito.
 O obreiro parecia estupefato. Assombradssimo, olhava para Anglica, que lhe sorria. De sbito enrubesceu e tomou-lhe a mo entre as suas, manchadas de cores. Ele 
murmurou:
 -        Minha irm!
 A robusta deusa, que no era outra seno a mulher do pintor Van Ossel, gritou a sua filha que trouxesse a gemada que ela havia preparado.
 - Estou contente - dizia o holands -, estou contente por ter no somente socorrido uma dama que sofria mas tambm a irm de meu companheiro.
 - Mas por que estou aqui? - perguntou Anglica.
 Com sua voz arrastada, o holands relatou como, na noite da vspera, duas batidas  porta do seu alojamento os tinham despertado. A luz da vela, alguns comediantes 
italianos, vestidos com suas roupas de cetim, lhes tinham entregue uma mulher desmaiada, ensanguentada, meio morta e, na sua cantante lngua, lhes tinham suplicado 
que socorressem a infeliz. A mansa lngua holandesa havia respondido: "Que ela seja bem-vinda!"
 Agora, Gontran e Anglica olhavam-se com um pouco de embarao. No fazia j oito anos que eles se haviam separado nos arredores de Poitiers? Anglica revia Raimundo 
e Gontran, marchando a cavalo nas ruelas ladeirentas. Talvez Gontran evocasse a velha carruagem onde as trs meninas empoeiradas se apertavam.
 - Da ltima vez que a vi - disse ele - voc estava com Hortnsia e Madelon, e ia para o convento das ursulinas de Poitiers.
 - Sim. Madelon morreu, est sabendo?
 - Sei.
 - Recorda, Gontran? Antigamente, voc fazia o retrato do velho Guilherme.
 - O velho Guilherme faleceu.
 - Sim, eu sei.
 - Conservo o seu retrato. Fiz outro mais bonito ainda... de memria. Depois lhe mostrarei.
 Ele estava sentado na beira da cama, estendendo sobre o avental de couro suas grandes mos manchadas, incrustadas de vermelho e azul, corrodas pelos produtos qumicos 
que lhe serviam para fabricar suas cores, calejadas pelo pilo do gral em que, desde a manh at a noite, moa o mnio de chumbo, os ocres, os litarg-rios, misturados 
com leos ou cido clordrico.
 -        Como pde chegar a esse ofcio? - perguntou Anglica com uma ponta de piedade na voz.
 O nariz suscetvel de Gontran (o nariz dos Sanc) franziu-se, e sua fronte cobriu-se de nuvens.
 - Nscia! - disse sem rebuos. - Se cheguei a isto, como diz, foi porque quis. Oh! minha bagagem de latim est completa e os jesutas no pouparam trabalho para 
fazer de mim um jovem nobre capaz de continuar o nome da famlia, pois Josselino partiu para as Amricas e Raimundo entrou para a clebre Companhia. Mas eu tambm 
tinha minha ideia. Zanguei-me com nosso pai, que pretendia mandar-me para o exrcito, servir o rei. Ele me disse que no me daria um soldo. Ento parti a p, como 
um mendigo, e me fiz arteso em Paris. Estou terminando meus anos de aprendizagem. Depois, percorrerei toda a Frana. Vou partir e irei de cidade em cidade instruindo-me 
de tudo o que se ensine sobre a arte da pintura ou da gravao. Para subsistir, hospedar-me-ei em casa de pintores ou farei retratos de burgueses. E, mais tarde, 
comprarei meu ttulo de mestre. Tornar-me-ei um grande pintor, tenho certeza, Anglica! E talvez eu venha a ser incumbido de pintar os tetos do Louvre...
 - Pintar ali o inferno, chamas e demnios fazendo caretas!
 - No, pintarei o cu azul, nuvens tocadas de sol, por entre as quais aparecer o rei em sua glria.
 -        O rei em sua glria... - repetiu Anglica com voz cansada.
Ela fechou os olhos. Sentia-se subitamente mais velha do que o jovem, que era entretanto mais idoso que ela, mas havia conservado intata a fora de suas paixes 
infantis. Na verdade, ele havia tido frio e fome, tinha sido humilhado, mas nunca havia deixado de caminhar no rumo de seu sonho.
 - E eu - disse ela -, no me pergunta como cheguei a isto?
 - No me atrevo a interrog-la - disse ele constrangido. - Sei bem que voc desposou a contragosto um homem espantoso e temvel. Nosso pai estava entusiasmado com 
esse casamento, mas todos ns tnhamos pena de voc, minha pobre Anglica. Pelo que vejo, voc foi muito infeliz.
 - No. Agora  que eu sou infeliz.
 Ela hesitava  beira das confidncias. Por que perturbar aquele rapaz, indiferente a tudo que no fosse o seu trabalho fascinante? Quantas vezes havia pensado em 
sua irmzinha Anglica, no decorrer daqueles anos? Raramente, sem dvida, e somente quando estava desconsolado por no poder reproduzir o verde das folhas. Ele nunca 
precisara dos outros, embora fizesse estreitamente parte do crculo da famlia.
 - Em Paris, fui parar em casa de Hortnsia - disse ela ainda, procurando em sua alma transida o calor da fraternidade.
 - Hortnsia? Uma megera. Quando cheguei aqui, procurei v-la, mas, que serenata me custou! Ela morria de vergonha ao verme entrar em sua casa com meus grosseiros 
sapatos. "Nem sequer usa mais espada!", gritava ela. Nada me distinguia dos rudes artesos! E verdade! Voc me v usando espada com meu avental de couro? E, se eu, 
um nobre, gosto de pintar, voc cr que vo deter-me preconceitos desta espcie? Boto-os abaixo com um pontap.
 - Creio que somos todos feitos para a revolta - disse Anglica com um suspiro.
 Tomou carinhosamente a mo calosa de seu irmo.
 - Voc deve ter passado muita misria...
 - No mais do que se tivesse ido para o exrcito, com uma espada ao lado, dvidas at a cabea e agiotas a me perseguirem. Sei o que ganho. No espero nenhuma penso 
do bom humor de um senhor distante. Meu mestre no pode enganar-se, porque a Corporao me protege. Quando a vida se mostra muito dura, dou um pulinho ao Temple, 
em busca do nosso querido irmo jesuta, para pedir-lhe alguns escudos.
 - Raimundo est em Paris? - exclamou Anglica.
 - Est. Reside no Temple, mas  capelo de no sei quantos conventos, e eu no me espantaria se ele chegasse a ser confessor de algumas grandes personagens da corte.
 Anglica refletia. Da ajuda de Raimundo era que ela necessitava. Um eclesistico que talvez tomasse a coisa a srio, porque se tratava de sua famlia...
 No obstante a lembrana ainda acerba dos perigos que havia corrido, malgrado as palavras do rei, Anglica no pensava, um s momento, em abandonar a partida. Compreendia 
somente que devia usar de muita prudncia.
 -        Gontran - disse em tom decidido -, voc vai levar-me  Taberna dos Trs Malhos.
 Gontran no ps embaraos  deciso de Anglica. No havia ela sido sempre uma criatura original? Com que nitidez voltava a v-la em sua lembrana, de ps descalos, 
arranhada pelos espinheiros, voltando esfarrapada de suas expedies atravs dos campos, das quais nunca falava a ningum, ensanguentada, arisca, misteriosa!
 O pintor Van Ossel aconselhou que esperassem a noite, ou pelo menos o anoitecer, que esfuma os semblantes. No tinha grande experincia dos dramas e das intrigas 
daquele palcio cujos ecos vinham sussurrar, pela voz dos seus. nobres modelos, em torno do seu cavalete?
 Mariedje emprestou a Anglica uma de suas saias e um corpete de pano simples bege-escuro, a cor que chamavam rosa-seca. Meteu-lhe os cabelos em um leno de cetim 
negro, como usavam as mulheres do povo. Anglica divertia-se ao sentir que a saia, mais curta que as das grandes damas, batia-lhe nos tornozelos.
 Quando, acompanhada de Gontran, deixou o Louvre pela pequena porta que se chamava "porta das lavadeiras", porque durante o dia inteiro as lavadeiras das casas principescas 
iam e vinham entre o Sena e o palcio, mais parecia uma graciosa mulherzinha de arteso conduzida pelo brao do esposo do que a grande dama que ainda na vspera 
falara com o rei.
 Para l do Pont Neuf o Sena espalhava os ltimos raios do sol. Os cavalos que eram levados a beber entravam na gua at o peitoral e sacudiam a crina relinchando. 
Embarcaes carregadas de feno depositavam ao longo das margens a grande fila de seus molhos odorantes. Uma barca ainda vinda de Rouen deixava nas margens lodosas 
seu contingente de soldados, monges e amas-de-leite.
 Os sinos tocavam o ngelus. Os vendedores de pastis e barqui-lhos percorriam as ruas com seus cestos cobertos de panos brancos, interpelando, assim, os jogadores 
das tabernas:
 "Ei! Quem chama o barquilheiro,
 Quando cada um de vocs perdeu?
 Barquilhos! Barquilhos! Muito baratos".
 Passava um coche precedido por seus batedores e ces. E o Louvre, macio e lgubre, violceo pela aproximao da noite, estendia sob o cu vermelho sua interminvel 
galeria.
 
 O SUPLICIADO DE NOTRE-DAME (setembro de 1660 - fevereiro de 1661)
 
 CAPTULO XII
 
 A Taberna dos Trs Malhos
 
 Uma trovoada de canes provinha da taberna, cuja tabuleta enorme brandia sobre a cabea dos transeuntes trs malhos de ferro forjado.
 Anglica e seu irmo Gontran desceram os degraus e viram-se numa atmosfera viciada pela fumaa do tabaco e pelo forte cheiro dos molhos. Ao fundo da sala, uma porta 
aberta deixava ver a cozinha, onde, diante dos fogos avermelhados, giravam lentamente os espetos bem providos de aves.
 Os dois jovens sentaram-se a uma mesa um pouco retirada, perto de uma janela, e Gontran pediu vinho.
 -        Escolha uma boa garrafa - disse Anglica, esforando-se por sorrir. - Sou eu quem paga.
 E mostrou a bolsa em que guardava preciosamente as mil e quinhentas libras ganhas no jogo.
 Gontran disse que no era grande conhecedor de vinhos. Em geral, contentava-se com um bom vinhozinho dos vinhedos de Paris. E aos domingos ia saborear vinhos mais 
clebres nos arrabaldes, onde o hordeaux e o borgonha, por no terem pago ainda direitos de entrada em Paris, custavam mais barato. Chamavam guinguet quele vinho, 
por se beber nas tabernas chamadas guin-guettes. Esse passeio aos domingos era sua nica distrao.
 Anglica perguntou-lhe se ia com amigos. Ele respondeu que no. No tinha amigos, mas gostava de, sentado num caramancho, observar em torno de si os rostos dos 
trabalhadores e de suas famlias. A humanidade parecia-lhe boa e simptica.
 -        Voc  feliz - murmurou Anglica, que de sbito sentiu na lngua o sabor amargo do veneno.
 No se sentia doente, mas cansada e nervosa.
 Com os olhos brilhantes e aconchegando ao corpo o manto de grossa l que lhe havia emprestado Mariedje, contemplava aquele espetculo, novo para ela, de uma taberna 
da capital.
 Era verdade que ali se respirava,  falta de ar puro, um clima de liberdade e familiaridade que cumulava de satisfao os frequentadores.
 Ali o gentil-homem vinha fumar e esquecer a etiqueta das antecmaras reais, o burgus enchia a pana longe do olhar suspicaz de sua mal-humorada esposa, o mosqueteiro 
jogava dados, o artfice bebia o salrio e, durante algumas horas, esquecia suas penas.
 Na Taberna dos Trs Malhos, situada na Place de Montorgueil, no longe do Palais-Royal, viam-se comediantes que, com os rostos ainda lustrosos de cosmticos e exibindo 
narizes postios, vinham, no fim das soires, "umedecer as entranhas" e refrescar as gargantas fatigadas pelos rugidos da paixo. Mimos italianos com ouropis brilhantes, 
exibidores de feira e at, s vezes, bomios suspeitos com olhos de brasa misturavam-se  clientela habitual do bairro.
 Naquela noite um velho italiano com o rosto oculto por uma mscara de veludo vermelho e cuja barba branca descia at a cintura mostrava  assembleia um macaquinho 
muito gracioso. O animalzinho, depois de haver observado um dos clientes, imitava comicamente sua maneira de fumar o cachimbo, ou de pr o chapu, ou de levar o 
copo  boca.
 Ondas de riso sacudiam as panas.
 Gontran, com os olhos brilhantes, observava a cena.
 -        Olha que maravilha essa mscara vermelha e essa barba de neve resplandecente!
 A jovem, cada vez mais nervosa, perguntava a si mesma quanto tempo ainda teria de esperar naquele lugar.
 Enfim, ao abrir-se a porta uma vez mais, apareceu o enorme co dinamarqus do advogado Desgrez.
 Um homem envolto em ampla capa cinza acompanhava o advogado. Anglica reconheceu com assombro o jovem Cerbalaud, que dissimulava seu plido rosto sob um chapu 
profundamente enterrado na cabea e com a gola levantada.
 Ela pediu a Gontran que fosse ao encontro dos recm-chegados e os convidasse discretamente para sua mesa.
 -        Meu Deus, senhora - suspirou o advogado aproximando-se dela no banco. - Desde esta manh eu a vi degolada dez vezes, afogada vinte vezes e enterrada cem 
vezes!
 - Uma s teria bastado, maitre - disse ela, rindo.
 No podia, porm, deixar de sentir certo prazer ao verificar sua emoo.
 - Temia, pois, tanto assim, ver desaparecer uma cliente que lhe paga to mal e o compromete to perigosamente? - perguntou.
 Ele assumiu um ar tristonho.
 -  O sentimentalismo  uma doena da qual a gente no se cura facilmente. Quando se lhe junta o gosto da aventura, tanto vale dizer que se est destinado a acabar 
estupidamente. Em resumo, quanto mais se complica o seu caso, mais ele me apaixona. Gomo vai seu ferimento?
 - J soube?
 -  o dever de um advogado-polcia. Mas o senhor aqui presente foi-me muito precioso, confesso-o.
 Cerbalaud, com olheiras de insnia em um rosto de cera, contou o fim da tragdia do Louvre, na qual, pela mais estranha das casualidades, ele se tinha visto envolvido.
 Estava de guarda aquela noite, nas cavalarias das Tulherias, quando um homem arquejante, que perdera a peruca, foi ali ter, procedente dos jardins. Era Bernardo 
d'Andijos. Acabava de atravessar correndo a grande galeria, acordando com a galopada de seus taces de madeira os ecos do Louvre e das Tulherias, fazendo com que 
se precipitassem para as portas dos quartos e dos apartamentos rostos espantados e empurrando ao passar os guardas que procuravam det-lo.
 Enquanto selava apressadamente um cavalo, explicara que a Sra. de Peyrac escapara de ser assassinada e que ele prprio, Andijos, acabava de se bater com o Sr. d'Orlans. 
Alguns instantes depois, saa a galope desenfreado para a Porte Saint-Honor, gritando que partia para sublevar o Languedoc contra o rei.
 -        Oh! Pobre Marqus d'Andijos! - disse Anglica, rindo. - Ele... sublevar o Languedoc contra o rei?
 -        Ei! Acredita que ele no o far? - perguntou Cerbalaud.
Levantou gravemente um dedo:
 - Senhora, ainda no compreendeu a alma dos gasces: o riso e a clera se sucedem depressa, mas nunca se sabe como as coisas acabaro. E quando acaba em clera, 
por Deus, tenha cuidado!
 - E verdade que devo a vida aos gasces. Sabe o que foi feito do Duque de Lauzun?
 - Est na Bastilha.
 - Meu Deus - suspirou Anglica -, que no o esqueam por l durante quarenta anos!
 - No receie, no se deixar esquecer. Tambm vi, levado por dois lacaios, o cadver de seu antigo mordomo.
 - O Diabo tenha a sua alma!
 - Afinal, como eu no mais duvidava da sua morte, fui  casa de seu cunhado, o procurador, Matre Fallot de Sanc. Encontrei ali o Sr. Desgrez, seu advogado. Juntos, 
fomos ao Chtelet a fim de examinar os corpos de todos os afogados ou assassinados encontrados esta manh em Paris. Mesquinha tarefa, da qual ainda tenho embrulhado 
o estmago. E aqui estou! Que farei, senhora?  preciso que fuja o mais depressa possvel.
 Anglica olhou suas mos, que tinha apoiado sobre a mesa, perto do grande copo em que o vinho no provado brilhava como um rubi escuro.
 Suas mos pareciam-lhe extraordinariamente pequenas e de uma brancura frgil. Maquinalmente, comparou-as s fortes mos masculinas de seus companheiros.
 Desgrez, como habitual fregus da taberna, tinha posto diante de si uma caixinha de chifre e picava um pouco de tabaco para encher o cachimbo.
 Anglica sentiu-se muito sozinha e muito dbil.
 Gontran disse abruptamente:
 - Se bem compreendi, voc se encontra envolvida numa histria equvoca, na qual corre o risco de perder a vida. No o estranho, em voc. Nunca fez outra coisa!
 - O sr. de Peyrac est na Bastilha, acusado de feitiaria - explicou Desgrez.
 - No o estranho em voc! - repetiu Gontran. - Mas ainda pode salvar-se. Se no tem dinheiro, eu lhe emprestarei. Fiz algumas economias para a minha excurso pela 
Frana, e Raimundo, nosso irmo jesuta, certamente tambm a ajudar. Rena seus ob-jetos e tome a diligncia para Poitiers. De l ir para Monteloup. Em nossa casa 
nada ter que temer!
 Por um instante Anglica entreviu o asilo do Castelo de Monteloup, a calma dos pntanos e dos bosques. Florimond brincaria com os perus da ponte levadia...
 Houve um pesado silncio, interrompido pela gritaria de alguns bbados e pelas exclamaes dos que reclamavam suas ceias batendo nos pratos com as facas. A apario 
do taberneiro Corbas-son, transportando no alto um ganso assado, aplacou as reclamaes. O barulho diminuiu e, por entre os murmrios de satisfao, ouviu-se o rudo 
dos dados de um quarteto de jogadores.
 Desgrez, impassvel, enchia seu cachimbo holands.
 - Importa-se tanto com seu marido? - perguntou Gontran. Anglica cerrou os dentes.
 - Vale mais uma ona de seu crebro que suas trs cacholas
      reunidas - afirmou, sem rodeios. -  ridculo diz-lo, j o sei. Mas, embora seja meu marido, embora seja coxo e desfigurado, eu o amo. Sacudiu-a um soluo 
seco. - E, no entanto, fui eu que causei sua perda. Por causa desta srdida histria do veneno. E ontem, falando com o rei, assinei sua condenao...
 De repente os olhos de Anglica se paralisaram e suas faces se congelaram de pavor. Uma viso horrenda acabava de inscrever-se no vidro da janela que lhe ficava 
defronte: uma cara de pesadelo, afogada sob longas mechas de cabelo engordurado. A face lvida estava marcada por um lobinho violeta. Uma venda negra ocultava-lhe 
um olho; o outro brilhava como o de um lobo, e a espantosa apario olhava Anglica rindo.
 -Que  que h? - perguntou Gontran, que, de costas, nada via.
Desgrez seguiu a direo do olhar terrificado da jovem, e subitamente saltou para a porta, assobiando para seu co.
 O rosto desapareceu da vidraa. Alguns instantes depois, o advogado voltou sem ter podido encontrar o homem.
 - Desapareceu como um rato na toca.
 - Conhece essa triste personagem? - indagou Cerbalaud.
 - Conheo-as todas. Este  Calembredaine, ilustre libertino, rei dos ladres do Pont Neuf e um dos maiores chefes de bandidos da capital.
 - No lhe falta atrevimento para vir olhar as pessoas honradas que esto ceando.
 - Talvez tivesse um cmplice na sala, ao qual quisesse fazer um sinal...
 - Era para mim que ele olhava - disse Anglica, com o quei xo tremendo.
      Desgrez lanou-lhe um rpido olhar.
 -Ora essa! no se assuste. Aqui no estamos longe da Rue de la Truanderie e do Faubourg Saint-Denis.  o quartel-general dos mendigos e de seu prncipe, o grande 
Coesre, o rei dos argotiers.
 Enquanto falava, Desgrez havia passado o brao em torno da cintura de Anglica e atraa-a firmemente contra si. Anglica sentia o calor e o vigor daquela mo masculina. 
Seus nervos transtornados se acalmaram. Sem demonstrar vergonha, ela se encostou em Desgrez. Que importava que ele fosse um advogado plebeu
 e pobre? No estava ela a ponto de converter-se em uma repudiada, uma perseguida, sem teto nem proteo, talvez sem nome?
 -        Ora! - disse Desgrez em tom jovial. - Ningum vem a uma taberna para falar em tom lgubre. Comamos, senhores; depois faremos planos. Ol, Corbasson, taberneiro 
do diabo, vai deixar-nos morrer de fome?
 Corbasson aproximou-se, solcito.
 -        Que pode propor a trs grandes senhores que nas ltimas vinte e quatro horas cearam apenas emoes, e a uma dama jovem e frgil cujo apetite necessita 
de estmulo?
 Corbasson apoiou o queixo nas mos e tomou um ar inspirado:
 - Pois bem... a vocs, senhores, eu proporia um grande fil de vaca bem sangrento, condimentado com pepinos e pepininhos, trs franguinhos assados na brasa e uma 
boa tigela de leite. Quanto  senhora que dir ela de um cardpio mais leve? Vitela cozida e uma salada, o tutano de um osso, gelia de mas, uma pra em conserva 
e um barquilho. Para terminar, uma colheradazinha de confeitos de funcho, e estou persuadido de que as rosas voltaro a misturar-se s aucenas de sua face.
 - Corbasson, voc  o homem mais indispensvel e amvel da criao. Da prxima vez que eu for  igreja rezarei por voc a Santo Honrio. Alm disso,  um grande 
artista, no s como fabricante de molhos mas tambm pelo esprito das suas palavras.
 Pela primeira vez na vida Anglica no tinha fome. Apenas beliscou as preparaes culinrias de mestre Corbasson.
 Seu corpo lutava contra os efeitos do veneno que ela havia absorvido na noite anterior. Parecia haverem transcorrido alguns sculos aps a espantosa aventura. Entorpecida 
pelo mal-estar e, talvez, pelo forte odor de tabaco de que estava impregnado o ambiente, o sono a invadia. Com os olhos fechados, ela dizia a si mesma que Anglica 
de Peyrac estava morta.
 Quando despertou, ao amanhecer, uma nuvem de fumo estagnava na sala da taberna.
 Anglica moveu-se e percebeu que sua face descansava sobre um duro travesseiro, que outra coisa no era seno os joelhos do advogado ao longo do banco. Viu por 
cima de si o rosto de Desgrez, que com os olhos semicerrados continuava a fumar com ar pensativo.
 Anglica levantou-se precipitadamente, o que a obrigou a fazer uma cara de dor.
 - Oh! desculpe-me - balbuciou ela. - Eu... eu devo ter-lhe incomodado enormemente.
 - Dormiu bem? - perguntou Desgrez com voz lenta, em que se misturavam o cansao e um pouco de embriaguez. A bilha que tinha diante de si estava quase vazia.
 Cerbalaud e Gontran, com os cotovelos apoiados na mesa, compunham um quadro semelhante, alongados sobre os bancos.
 Anglica lanou um olhar para a janela. Recordava qualquer coisa horrvel. Mas no viu seno o reflexo de uma manh plida e chuvosa que molhava as vidraas.
 Na sala dos fundos ouviam-se as ordens de mestre Corbasson e o rudo de grandes pipas que algum fazia rolar sobre as lajes.
 Um homem abriu a porta com um pontap e entrou, com o chapu sobre a nuca. Tinha uma campainha na mo e usava por cima das roupas uma espcie de blusa de um azul 
desbotado, na qual se distinguiam algumas flores-de-lis e o escudo de So Cristvo.
 -        Sou Picard, pregoeiro de bebidas. Precisa de mim, taberneiro?
 - Chegou a tempo, amigo. Acabam de trazer-me de Greve seus tonis de vinho do Loire. Trs de branco e trs de tinto. Abro dois por dia.
 Cerbalaud acordou sobressaltado e desembainhou a espada.
 -        Escutem, senhores, todos vocs! Lano-me  guerra contra o rei.
 -        Cale-se, Cerbalaud! - suplicou Anglica, assustada.
Ele lanou-lhe um olhar suspicaz de bbado maldesperto.
 -        Cr que no o farei? No conhece os gasces, senhora. Guerra ao rei! Convido-os a todos! Guerra ao rei! Avante, revoltosos do Languedoc!
 Brandindo a espada, foi tropear nos degraus da entrada, e saiu.
 Indiferentes a seus gritos, os adormecidos continuavam roncando, e o taberneiro, bem como o pregoeiro de vinhos, ajoelhados diante dos tonis, provavam o vinho 
novo, estalando alto a lngua antes de fixar o preo. Um odor fresco e capitoso expulsava o cheiro de cachimbo apagado, de lcool e de molhos ranosos.
 Gontran esfregou os olhos.
 -        Meu Deus - disse bocejando -, faz longo tempo que no comia to bem, exatamente desde o ltimo banquete da Confraria de So Lucas, que, infelizmente, s 
se realiza uma vez por ano...
No  o ngelus que estou ouvindo?
 -        Bem poderia ser - disse Desgrez.
Gontran ps-se de p e espreguiou-se.
 -        Tenho de ir embora, Anglica, seno meu patro vai ficar de cara feia. Escute, v procurar Raimundo no Temple, com Matre Desgrez. Esta noite passarei 
pela' casa de Hortnsia, embora correndo o risco de ser injuriado por aquela encantadora irm. Repito-lhe, deixe Paris. Mas eu sei bem que voc  a pior de todas 
as mulas que nosso pai criou.
 -        Como voc  o pior de seus mulos - replicou Anglica.
Saram todos juntos, seguidos pelo co, que atendia pelo nome de Sorbonne. No riacho do meio da rua corria uma gua barrenta. Tinha chovido. O ar continuava carregado 
de gua, e um vento brando fazia ranger as tabuletas de ferro no alto das tendas.
 -        Diretamente da barca! Marisco fresco! - gritava uma insinuante vendedora de ostras.
 Um mercador de aguardente apregoava sua mercadoria.
 Gontran deteve o homem, e de um trago esvaziou um copo de lcool. Depois limpou a boca no dorso da mo, pagou e, tirando o chapu para saudar o advogado e sua irm, 
afastou-se entre a nultido, semelhante a todos os obreiros que quela hora iam para o trabalho.
 "A que ponto chegamos!", pensou Anglica vendo-o afastar-se. "Samos melhor que a encomenda, ns, os herdeiros de Sanc. Quanto a mim, no estou nesta situao 
seno pela fora das circunstncias, mas ele, por que quis descer to baixo?"
 Um pouco envergonhada de seu irmo, olhou para Desgrez.
 -        Ele sempre foi extravagante - disse ela. - Poderia ser oficial, como todos os jovens nobres, mas s gostava de fabricar cores. Minha me dizia que, quando 
o estava esperando, tinha passado oito dias tingindo de preto as roupas da famlia para o luto dos meus avs. Talvez seja por isso...
 Desgrez sorriu.
 - Vamos ver o irmo jesuta - disse ele -, quarto espcime dessa estranha famlia.
 - Oh! Raimundo  uma personagem.
 - Espero-o, pela senhora.
 - No  mais preciso chamar-me senhora - disse Anglica. - Olhe-me, Matre Desgrez.
 Ergueu para ela seu pattico, pequeno rosto, plido como cera. A fadiga clareava seus olhos verdes e dava-lhes uma cor dificilmente imaginvel: a das folhas na 
primavera.
 -        O rei me disse: "No quero tornar a ouvir falar de voc".
Compreende o que tal ordem significa? E que no mais existe a Sra. De Peyrac. Eu no devo mais existir. Eu no existo mais. Compreende?
 - Compreendo sobretudo que est doente - disse Desgrez. - Renova sua afirmao do outro dia?
 - Qual afirmao?
 - Que no tem nenhuma confiana em mim?
 - Neste momento s posso confiar em voc.
 - Ento, venha. Vou lev-la a um lugar onde cuidaro de voc. No pode aproximar-se de um formidvel jesuta sem estar na plena posse de todas as suas faculdades.
 Tomou-a pelo brao e levou-a atravs da tumultuosa Paris matinal. A bulha era ensurdecedora. Todos os vendedores se punham a um s tempo em movimento e lanavam 
seus preges.
 Anglica tinha dificuldade em proteger seu ombro ferido dos empurres da multido e cerrava os dentes para sufocar os gemidos que lhe subiam aos lbios.
 
 CAPTULO XIII
 
 Na casa do barbeiro-banheiro
 
 Na Rue Saint-Nicolas, Desgrez parou diante de uma enorme tabuleta que ostentava uma bacia de cobre sobre um fundo azul-rei. Nuvens de vapor saam pelas janelas 
do primeiro andar.
 Anglica compreendeu que estava no estabelecimento de um barbeiro-banheiro, e experimentou uma sensao de alvio ante a ideia de mergulhar numa tina de gua quente.
 Mestre Jorge, o patro, mandou que se sentassem e esperassem alguns minutos. Estava barbeando um mosqueteiro com amplos gestos enquanto discursava sobre as desventuras 
da paz, uma das calamidades que podem abater um valoroso guerreiro.
 Afinal, deixando o "valoroso guerreiro" ao seu aprendiz, com a misso de lavar-lhe a cabea, o que no era tarefa insignificante, mestre Jorge, enquanto limpava 
a navalha no avental, aproximou-se de Anglica com sorriso solcito.
 - Ah! Ah! Vejo do que se trata. Mais uma vtima das enfermidades galantes. Quer que a deixe nova antes de us-la, incorrigvel levantador de saias?
 -- No, no  isso - disse o advogado com muita calma. - Esta jovem acaba de ser ferida e eu queria que lhe proporcionasse algum alvio. Depois faa-a tomar um 
banho.
 Anglica, a quem as palavras do barbeiro haviam feito ruborizar apesar da sua palidez, sentiu-se horrivelmente embaraada ante a ideia de se despir diante daqueles 
dois homens. Sempre fora atendida por mulheres e, como nunca estivera doente, no conhecia os exames mdicos, e muito menos os dos barbeiros-cirurgies.
 Mas, antes de haver podido esboar um movimento de protesto, Desgrez, com a maior naturalidade deste mundo e com habilidade de um homem para quem as roupas femininas 
no tinham segredos, desacolchetou seu corpete e, desfazendo o lao que sustentava a camisa, f-la deslizar ao longo dos braos at a cintura. Mestre Jorge inclinou-se 
e levantou delicadamente o emplastro que Mariedje havia posto sobre o extenso corte feito pela espada do Cavaleiro de Lorena.
 - Hum, hum! - resmungou o barbeiro. - J vi tudo. Um galante senhor achou que lhe cobrava demasiado caro e a pagou em "moeda de ferro", como dizemos. Ento no 
sabe, formosa, que  preciso esconder-lhes a espada debaixo da cama at que eles tenham levado a mo  bolsa?
 - E que lhe parece a ferida? - perguntou Desgrez sempre fleu-mtico, enquanto Anglica estava em suplcio.
 - Hum! Hum! No est bem nem mal. Vejo aqui o unguento salino de um boticrio ignorante. Vamos limp-lo e substitu-lo por uma pomada regeneradora e refrescante.
 Afastou-se para ir buscar um pote numa prateleira.
 Anglica sofria ao ver-se sentada, meio desnuda, naquela botica onde o odor suspeito das drogas se misturava com o dos sabes.
 Entrou um cliente para fazer a barba e exclamou, lanando um olhar sobre ela:
 -        Oh! que belas mamas! Que pena no t-las nas mos para acarici-las quando a lua desponta!
 A um sinal imperceptvel de Desgrez o co Sorbonne, que estava a seus ps, levantou-se e, de um salto, foi enterrar os dentes nas calas do recm-vindo.
 - Oh! Ai! Pobre de mim! - exclamou o cliente. -  o homem do co!  voc, Desgrez, vagabundo do diabo, o proprietrio dessas divinas pomas?
 - Se no o desgosta, senhor - disse Desgrez, impassvel.
 - Ento eu no disse nada, eu no vi nada. Oh! Senhor, perdoa-me e diga a seu co que solte minhas pobres calas rasgadas.
 Com um leve assobio, Desgrez chamou o co.
 -        Oh! Quero ir embora daqui! - disse Anglica, que procurou desajeitadamente vestir-se e cujos lbios tremiam.
 Com firmeza, o jovem obrigou-a a sentar-se de novo. Ele disse com rudeza, embora em voz baixa:
 -        Nada de pudiccia, pequena tola! Ser preciso recordar-lhe o adgio dos soldados: "Guerra  guerra"? Est empenhada em uma batalha em que se jogam a vida 
de seu marido e a sua. Deve fazer todo o possvel por sair-se bem. No  hora para melindres.
 Mestre Jorge aproximou-se com uma faquinha brilhante na mo.
 -        Creio que vou ter de cortar a carne - disse. - Vejo sob a pele um humor esbranquiado que  preciso extrair. Nada deve temer, minha pequena - ajuntou ele 
falando-lhe como a uma criana. - Ningum tem a mo mais leve que mestre Jorge.
 Malgrado sua apreenso, Anglica teve de reconhecer que ele falava a verdade, porque a operou muito bem. Aps derramar sobre o ferimento um lquido que a fez dar 
um pulo e que outra coisa no era seno aguardente, ordenou-lhe que subisse para as estufas, onde acabaria de pens-la.
 As estufas de mestre Jorge constituam um dos ltimos estabelecimentos de banho, tais como ex"istiam na Idade Mdia, quando os cruzados, ao voltarem do Oriente, 
trouxeram, com o gosto dos banhos turcos, o de se lavarem. As estufas naquele tempo abundavam em Paris. No somente se suava e limpava o corpo nelas, mas tambm 
se praticava uma total depilao. Entretanto sua reputao se tornou logo suspeita, porque elas juntavam s suas mltiplas especialidades as que interessavam principalmente 
s casas de m fama da Rue du Vai d'Amour. Sacerdotes inquietos, hu-guenotes severos e mdicos que viam nelas a causa das doenas da pele haviam-se ligado para suprimi-las. 
E, dali em diante, a no ser os srdidos estabelecimentos de alguns barbeiros, no existia em Paris quase nenhum meio de uma pessoa banhar-se. As pessoas pareciam 
aceitar o fato com facilidade.
 As estufas propriamente ditas compreendiam dois grandes aposentos lajeados, providos de pequenas cabines de madeira. Ao fundo de cada sala, um auxiliar aquecia 
grandes bolas de pedra em um forno.
 Anglica foi despida inteiramente por uma das criadas que se ocupavam da sala das mulheres. Encerraram-na em uma das cabines, onde se encontrava um banco e uma 
pequena bacia d'gua, na qual acabavam de lanar as bolas de pedra incandescentes. A gua fumegava e desprendia um vapor escaldante.
 Anglica, sentada no banco, sufocava, arquejava e acreditava que ia morrer. Tiraram-na da cabine, alagada de suor.
 A criada ordenou-lhe que mergulhasse em uma tina de gua fria. Depois, envolvendo-a numa toalha, conduziu-a para um compartimento vizinho, onde se encontravam outras 
mulheres to desprovidas de roupa quanto ela. Algumas servilhetas, na maioria velhas de aspecto bastante desagradvel, raspavam os plos das clientes ou penteavam 
seus longos cabelos, pairando o tempo todo. Pelo timbre de suas vozes e pelo assunto das conversas, Anglica percebeu que a maior parte das clientes era de condio 
humilde, criadas ou vendedoras que, depois de assistir  missa, passavam pelos banhos para recolher os ltimos mexericos antes de se dirigirem para o trabalho.
 Mandaram-lhe que se estendesse sobre outro banco.
 Ao cabo de um instante, mestre Jorge apareceu, sem que a reunio se perturbasse nem um pouco.
 Tinha na mo uma lanceta e estava acompanhado de uma mocinha que conduzia um cesto cheio de ventosas e um pau de isca.
 Anglica protestou energicamente.
 -        No me ir sangrar! J perdi bastante sangue. No v que estou grvida? Vai matar meu filho!
 Inflexvel, o barbeiro-cirurgio fez-lhe sinal para que se voltasse.
 -        Fique quieta ou chamo seu amigo para lhe dar umas palmadas.
Aterrada com a ideia de ver o advogado em tal papel, Anglica deixou de protestar.
 O barbeiro escarificou-lhe o dorso em trs pontos com a lanceta e colocou-lhe as ventosas.
 - Veja - dizia encantado - como sai negro o sangue! Um sangue to negro em uma moa to branca,  possvel?
 - Por piedade, deixe-me algumas gotas! - suplicou Anglica.
 - Tenho ganas de esvazi-la completamente - disse o barbeiro revirando dois olhos ferozes. - Depois lhe darei a receita para encher as veias com sangue fresco e 
generoso. Ei-la: um bom copo de vinho tinto e uma noite de amor.
 Deixou-a, afinal, depois de hav-la pensado solidamente. Duas moas ajudaram-na a se pentear e vestir. Anglica deu-lhes uma gorjeta que as fez escancarar os olhos 
embasbacados.
 -        Eh! marquesa - exclamou a mais 'jovem -,  seu prncipe da chicana, o da capa sovada, que lhe d to belos presentes?
 Uma das velhas afastou a criada com um empurro e, depois de ter olhado fixamente Anglica, que procurava, com as pernas bambas, descer a escada de madeira, cochichou 
ao ouvido de sua colega:
 - Ento no v que  uma grande dama que vem descansar um pouco da insipidez de seus nobrezinhos?
 - Geralmente elas no se disfaram - protestou a outra. - Pem uma mscara, e mestre Jorge as faz entrar pela porta dos fundos.
 No pavimento trreo, Anglica reencontrou Desgrez, recm-barbeado e com a pele rosada.
 -        Ela est no ponto - disse o barbeiro ao advogado, piscando um olho. - Mas no seja bruto como de costume, enquanto no cicatrizar a ferida que ela tem 
no ombro.
 Desta vez Anglica preferiu rir. Sentia-se absolutamente incapaz da mnima revolta.
 - Como se sente? - perguntou Desgrez quando se encontraram de novo na rua.
 - Sinto-me fraca como um gatinho - respondeu Anglica -, mas, no fundo, no  to desagradvel. Tenho a impresso de encarar a vida com grande filosofia. No sei 
se o enrgico tratamento que acabo de receber  excelente para a sade, mas certamente tem o dom de acalmar os nervos. Pode estar tranquilo que, qualquer que seja 
a atitude de meu irmo Raimundo, ele ter diante de si uma irm humilde e dcil.
 - Perfeito! Sempre receio a dentada no seu esprito rebelde. Passar pelas estufas da prxima vez que comparecer diante do rei?
 - Ai de mim! Antes o tivesse feito! - suspirou Anglica completamente vencida. - No haver prxima vez. Nunca mais voltarei  presena do rei.
 - No se deve dizer "nunca mais". A vida  mutvel, o mundo d muitas voltas.
 Uma rajada de vento arrancou o leno que envolvia a cabeleira da jovem. Desgrez deteve-se e, suavemente, tornou a at-lo.
 Anglica tomou entre as suas as duas mos morenas e quentes do advogado, cujos longos dedos no eram desprovidos de delicadeza.
 -        Voc  muito gentil, Desgrez - murmurou ela erguendo para ele os olhos acariciantes.
 -        Engana-se redondamente, senhora. Olhe esse co.
Apontava com o dedo para Sorbonne, que dava saltos em torno deles. Deteve-lhe o passo, segurando-lhe a cabea, e descobriu a poderosa dentadura do animal.
 - Que pensa desta fila de dentes?
 - E uma coisa terrificante!
 - Sabe o que eu ensinei a esta co? Quando a noite cai sobre Paris, samos os dois a caar. Fao-o cheirar um pedao de sobretudo, um objeto qualquer pertencente 
ao bandido que persigo. E pomo-nos a caminhar. Descemos at as margens do Sena, vagamos sob as pontes e nos pilotis, erramos pelos arrabaldes e pelas velhas muralhas, 
entramos nos ptios, mergulhamos nas tocas cheias de vagabundos e bandidos. De repente, Sorbonne se atira para a frente. Quando o alcano, ele tem o meu homem pela 
garganta, oh! muito delicadamente, nada mais que o necessrio para que o outro no se possa mover. Eu digo ao co: "Warte", que significa "espera", em lngua germnica, 
pois ele me foi vendido por um mercenrio alemo. Inclino-me para o homem, interrogo-o, e depois fao o meu juzo. s vezes deixo-o ir embora, s vezes chamo os 
da ronda para que o levem ao Chtelet, e s vezes digo a mim mesmo: para que entulhar as prises e incomodar os senhores da justia? Ento digo a Sorbonne: "Zang!", 
que significa-"aperta com fora". E existe um bandido a menos em Paris.
 -        E... faz isso amide? - indagou Anglica, que no pde evitar um estremecimento.
 -        Bastante amide. Bem se v que no sou nada gentil.
Aps um momento de silncio, ela murmurou:
 - Existem tantas coisas diferentes em um homem! Pode-se ser ao mesmo tempo muito mau e muito gentil. Por que desempenhar esse terrvel ofcio?
 - J lhe disse isso: sou muito pobre. Meu pai no me deixou seno sua banca de advogado e dvidas. Mas, da maneira como vo as coisas, creio que acabarei dentro 
da pele coricea de um terrvel malvolo, de um grimaud da pior espcie.
 - E que  isso?
 - O nome que os sditos de Sua Majestade o grande Coesre, prncipe dos miserveis, do s pessoas da polcia.
 - Eles j o conhecem?
 - Conhecem principalmente o meu co.
 A Rue du Temple abria-se diante deles, cortada de pauis lamacentos, sobre os quais haviam colocado pranchas. Alguns anos antes, aquele bairro no compreendia seno 
hortas chamadas "culturas do Temple", e agora entre as casas novas se viam ainda canteiros de couves e pequenos rebanhos de cabras.
 A muralha fortificada, dominada pelo lgubre torreo dos antigos templrios, apareceu diante deles."
 Desgrez pediu a Anglica que o esperasse um segundo e entrou na tenda de um merceeiro. Saiu alguns instantes depois com uma volta imaculada mas sem rendas, e atada 
com um cordo violeta. Tinha ornado com punhos brancos os seus pulsos. O bolso de sua casaca apresentava um volume estranho. Tirou dele um leno, e quase deixou 
cair um grosso tero. Sem haver mudado de roupa, seu sobretudo e sua cala surrada haviam adquirido um aspecto extremamente decente. A expresso de seu rosto para 
isso contribuiu, sem dvida, pois Anglica hesitou subitamenteem lhe falar com a mesma familiaridade.
 - Voc parece um magistrado devoto - disse ela um tanto desconcertada.
 - No  este o aspecto que deve ter um advogado que acompanha uma jovem senhora que vai ver seu irmo jesuta? - perguntou Desgrez tirando o chapu em atitude de 
humilde respeito.
 
 CAPTULO XIV
 
 Anglica volta a encontrar seu Irmo Raimundo, jesuta - Projeto para salvar o Conde de Peyrac
 
 Ao aproximar-se dos altos muros ameados do recinto do Tem-ple, do qual surgia todo um conjunto de torres gticas dominadas pelo sinistro torreo dos templrios, 
Anglica no suspeitava que ia penetrar no local de Paris onde se tinha mais certeza de viver em liberdade.
 Aquele recinto fortificado, que antigamente era o feudo dos monges guerreiros chamados templrios, e, depois, o dos cavaleiros de Malta, gozava de antigos privilgios, 
diante dos quais o prprio rei se inclinava: no se pagavam impostos, no se estava sujeito a nenhum entrave administrativo ou policial, e os devedores in-solvveis 
achavam ali asilo contra as sentenas de priso. Por vrias geraes, o Temple tinha sido apangio dos grandes bastardos da Frana. O atual gro-prior, Duque de 
Vendme, descendia em linha reta de Henrique IV e de sua mais clebre amante, Gabriela d'Estres.
 Anglica, que no conhecia a jurisdio especial daquela pequena cidade isolada no seio da grande cidade, experimentou uma impresso penosa ao franquear a ponte 
levadia.
 Mas, do outro lado da porta arqueada, ela encontrou uma calma surpreendente.
 O Temple perdera havia muito suas tradies militares. J no era mais que uma espcie de retiro tranquilo, que oferecia a seus felizes habitantes toda sorte de 
vantagens para uma vida ao mesmo tempo recolhida e mundana. Do lado do quarteiro aristocrtico, Anglica percebeu alguns coches estacionados diante dos belos palcios 
de Guise, de Boufflers e de Boisbourdran.
 A sombra da macia torre de Csar, os jesutas possuam uma casa confortvel, onde moravam e a que vinham recolher-se mais particularmente os membros da congregao 
agregados como capeles das grandes personagens da corte.
 No vestbulo, Anglica e o advogado cruzaram com um eclesistico de tez morena que a ela no pareceu desconhecido. Era o confessor da jovem Rainha Maria-Teresa, 
que viera do Bidassoa com os dois anes, a camareira-mor Molina e a pequena Filipa.
 Desgrez pediu ao seminarista que os havia introduzido que avisasse o Reverendo Padre Sanc de que um homem da lei desejava falar-lhe acerca do Conde de Peyrac.
 -        Se seu irmo no estiver a par do assunto, os jesutas no podero fazer nada - declarou o advogado a Anglica, enquanto esperava em um pequeno locutrio. 
- Amide tenho pensado que, se acaso tivesse de encarregar-me de reorganizar a polcia, eu me inspiraria em seus mtodos.
 Pouco depois o Padre Sanc entrou com passo firme. Num simples relance, reconheceu Anglica.
 -        Minha querida irm! - disse ele.
 E, aproximando-se dela, abraou-a fraternalmente.
 - Oh! Raimundo! - murmurou ela reconfortada pela acolhida. O jesuta fez sinal para que se sentassem.
 - At onde voc est envolvida nesse penoso caso? Desgrez tomou a palavra em lugar de Anglica, que a emoo
 de rever seu irmo, reunida a todas as que tinha experimentado em menos de trs dias e ao enrgico.tratamento de mestre Jorge, tornava incapaz de coordenar as ideias.
 Num tom douto resumiu a situao. O Conde de Peyrac estava na Bastilha sob acusao - secreta - de bruxaria. Isso era agravado pelo fato de que ele tinha desagradado 
ao rei e atrado suspeitas de pessoas influentes.
 -        Eu sei! Eu sei! - murmurou o jesuta.
 No disse quem o tinha informado to bem, mas, depois de pousar sobre Desgrez um olhar escrutador, concluiu  queima-roupa:
 - Qual  sua-opinio, matre, sobre o caminho que devemos seguir para salvar meu infeliz cunhado?
 - Penso que, neste caso, o melhor caminho seria pior que o simplesmente bom. O Conde de Peyrac  certamente vtima de uma cabala de corte, da qual o prprio rei 
no pode suspeitar, mas que uma poderosa personagem dirige. No direi qualquer nome.
 - Faz bem - disse vivamente o Padre Sanc, enquanto Anglica via passar diante de si o perfil ladino do temvel esquilo, emblema do Superintendente Nicolau Fouquet.
 - Mas seria desastroso tentar frustrar as manobras de pessoas que tm a seu favor dinheiro e influncias. Por trs vezes a Sra. de Peyrac esteve a ponto de perecer 
em atentados. A experincia deve bastar-nos. Inclinemo-nos e falemos do que nos  permitido expor  luz do dia. O Sr. de Peyrac  acusado de bruxaria. Pois bem, 
que o entreguem a um tribunal eclesistico. E a, padre, que sua ajuda ser extremamente preciosa, pois no lhe oculto que a minha influncia de advogado pouco conhecido 
seria nula no caso. Para fazer aceitar minhas razes como advogado do Conde de Peyrac, seria preciso ao menos que se decidisse a realizao do julgamento e que lhe 
fosse concedido um advogado. Inicialmente, creio que ningum pensava nisso. Mas as diferentes intervenes da Sra. de Peyrac agitaram a conscincia do soberano. 
No mais duvido agora que o processo ser instaurado. Ao senhor, meu padre, cabe obter a nica forma aceitvel e que evitar os abusos e as falsificaes dos senhores 
da justia civil.
 - Vejo, maitre, que o senhor no tem iluses sobre sua corporao.
 - No tenho iluses sobre ningum, meu padre.
 - Faz bem - aprovou Raimundo de Sanc.
 Depois do que, ele prometeu procurar algumas pessoas cujos nomes no mencionou, e manter o advogado e sua irm ao corrente das conversas.
 - Creio que voc foi  casa de Hortnsia...
 - Sim - disse Anglica suspirando.
 - A propsito - interveio Desgrez -, ocorreu-me uma ideia. No poderia, meu padre, utilizar suas relaes a fim de obter para a senhora sua irm, minha cliente, 
um alojamento modesto neste recinto? No ignora que a sua vida est ameaada, mas, no Tem-ple, ningum ousaria cometer um crime.  bem sabido que o Sr. Duque de 
Vendme, gro-prior da Frana, no admite bandidos neste recinto, e que favorece a todos os que lhe pedem asilo. Um atentado perpetrado sob sua jurisdio teria 
uma publicidade que ningum deseja. Enfim, a Sra. de Peyrac poderia-inscrever-se sob nome falso, o que apagaria sua pista. Acrescento que assim ela gozaria de um 
pouco de repouso, coisa de que sua sade muito precisa.
 - Seu projeto parece-me muito prudente - aprovou Raimundo, que, depois de ter refletido um instante, saiu e voltou com um pequeno papel em que tinha escrito um 
endereo: "Senhora Cordeau, viva, hospedeira no Careau du Temple". - Este alojamento  modesto e mesmo bastante pobre. Mas voc ter um grande aposento e poder 
comer em casa dessa Sra. Cordeau, que est encarregada de guardar a casa e alugar suas trs ou quatro peas. Sei que voc est acostumada ao luxo, mas creio que 
este alojamento corresponde  obscuridade necessria que lhe deseja Ma-:re Desgrez.
 -        Est bem, Raimundo - aprovou cordatamente Anglica, que voltou a encontrar um pouco de calor para ajuntar: - Obrigada por acreditar na inocncia de meu 
marido, e por nos ajudar a combater a injustia de que ele  vtima.
 O rosto do jesuta tornou-se severo.
 -        Anglica, no quis acabrunh-la, porque seu rosto fatigado e sua pobre vestimenta me inspiraram piedade. Mas no creia que tenho a mnima indulgncia para 
com a vida escandalosa de seu rido, para a qual ele a arrastou e que hoje voc expia bem duramente. No entanto,  natural que eu ajude um membro de minha famlia.
 A jovem abriu a boca para replicar. Depois, pensou melhor. Decididamente estava domada.
 Apesar de tudo, no pde conter a lngua at o fim. Quando Raimundo os reconduzia ao vestbulo, comunicou a Anglica que sua irm mais jovem, Maria Ins, havia 
obtido, graas  sua interveno, um dos muito procurados cargos de donzelas-de-honor da rainha.
 - Em boa hora! - exclamou a jovem. - Maria Ins no Louvre! Estou certa de que ali se formar rpida e completamente.
 - A sra. de Navailles ocupa-se especialmente das donzelas-de-honor.  uma pessoa amvel, mas sabia e prudente. H pouco estive conversando com o confessor da rainha, 
e ele me disse da grande importncia que Sua Majestade d  excelente conduta de suas donzelas-de-honor.
 - Ser voc ingnuo?...
 -  um defeito que os nossos superiores no admitem.
 -        Ento no seja hipcrita! - concluiu Anglica.
Raimundo continuou a sorrir com afabilidade.
 - Vejo com alegria que voc continua a mesma, cara irm. Desejo que encontre tranquilidade na moradia que lhe indiquei. Anda, rezarei por voc.
 - Estes jesutas so decididamente pessoas notveis - declarou Desgrez um pouco mais tarde. - Por que no me tornei um jesuta?
 Absorveu-se nesse pensamento at a Rue Saint-Landry. Hortnsia recebeu sua irm e o advogado com uma expresso francamente hostil.
 -        Muito bem! Muito bem! - disse ela procurando dominar-se. - Observo que a cada uma de suas fugas voc volta num estado mais lamentvel. E sempre acompanhada, 
naturalmente.
 -        Hortnsia,  o Matre Desgrez.
 Hortnsia voltou as costas ao advogado, cuja presena no podia tolerar por causa de sua roupa lamentvel e sua reputao de homem desregrado.
 -        Gasto! - chamou. - Venha ver sua cunhada. Espero que se cure dela para o resto da vida!
 Matre Fallot de Sanc apareceu, bastante descontente com as palavras de sua mulher, mas,  vista de Anglica, seus lbios se entreabriram de estupor.
 -        Minha pobre menina, em que estado!...
Bateram  porta, e Brbara fez entrar Gontran.
 Sua presena aumentou a irritao de Hortnsia, que prorrompeu em imprecaes.
 -        Que fiz eu ao Senhor para que me acabrunhe assim com um irmo e uma irm desta espcie? Quem poder crer agora que mi
nha famlia seja realmente de antiga nobreza? Uma irm que volta para casa vestida como trapeira! Um irmo que, de degradao em degradao, se v reduzido a converter-se 
em um grosseiro trabalhador manual, que nobres e burgueses podem tratar com desdm e sovar com uma bengala!... No  s esse horrvel bruxo coxo que deveriam encerrar 
na Bastilha, mas a vocs todos com ele!...
 Anglica, indiferente aos gritos da irm, chamava sua criadinha bearnesa para vir ajud-la a preparar sua bagagem. Hortnsia interrompeu-se e tomou flego.
 - Pode cham-la at se cansar. Ela foi embora.
 - Como assim? Foi embora?
 - Tal patroa, tal criada! Foi embora ontem com um larapio de pronncia espantosa, que veio busc-la.
 Anglica, aterrada, pois sentia-se responsvel pela adolescente arrancada por ela  sua terra natal, voltou-se para Brbara.
 - Brbara, no deveria t-la deixado partir.
 - E que sabia eu, senhora? - Ela se ps a chorar. - A rapariga tinha o diabo no corpo. Jurou-me pelo crucifixo que o homem que a veio buscar era seu irmo.
 - Sim, seu irmo  maneira gasconha. Ali h uma expresso: "irmo de minha terra", usada entre si pelos da mesma provncia. Afinal, pouco importa. No terei de 
gastar dinheiro para sustent-la...
 Naquela mesma noite, Anglica e seu filhinho instalaram-se no modesto alojamento da viva Cordeau, no Carreau du Temple.
 Chamavam assim  praa do mercado,  qual afluam os vendedores de aves, de pescado, de carne fresca, de alho, de mel e de agrio, pois cada um tinha o direito, 
mediante mdico pagamento, de nela instalar-se e vender ao preo que quisesse, sem impostos nem fiscalizao.
 O lugar era animado e popular. A viva Cordeau era uma velha mais camponesa que citadina, que fiava l diante do escasso fogo e tinha aparncia de bruxa.
 Mas Anglica achou o quarto limpo, recendendo a lixvia, e o leito confortvel. Uma boa quantidade de palha cobria o solo para atenuar o frio das lajes naquele 
princpio de inverno.
 A Sra. Cordeau havia feito subir um bero para Florimond, uma proviso de lenha e uma panela de caldo.
 Quando Desgrez e Gontran a deixaram, Anglica ocupou-se de alimentar o bebe e deit-lo. Florimond chorava, chamando Brbara e seus priminhos. Para distra-lo, ela 
cantarolava uma cano de que ele gostava: O mocinho verde. O ferimento quase j no lhe doa, e os cuidados que tinha de dispensar ao menino a distraam. Embora 
se houvesse acostumado a ter em torno de si numerosas domsticas, sua infncia tinha sido rude o bastante para que ela no se perturbasse com a desapario de sua 
ltima criada.
 Alm disso, as religiosas que a educaram no a tinham acostumado a todos os trabalhos pesados, "por causa das provaes que o cu pode enviar-nos"?
 Assim, depois que o menino adormeceu e ela se estendeu entre os lenis ordinrios mas limpos, e que o vigilante noturno passou sob as janelas gritando: "So dez 
horas. A porta est fechada. Boa gente do Temple, durma em paz...", ela experimentou um momento de bem-estar e de repouso.
 A porta estava fechada. Enquanto em redor a grande cidade despertava para o horror da noite com suas tabernas ruidosas, seus bandidos em tocaia, seus assassinos 
e arrombadores, a pequena populao do Temple, ao abrigo de jias falsas, os devedores insolventes e os impressores clandestinos fechavam as plpebras certos de 
um amanh tranquilo. Do palcio do gro-prior, isolado entre jardins, ouviam-se as notas de um cravo, e das bandas da capela e do claustro, rezas em latim, enquanto 
alguns cavaleiros de Malta, em hbito negro com cruz branca, voltavam para suas celas.
 Caia a chuva. Anglica adormeceu tranquilamente.
 Havia-se inscrito no bailado com o nome pouco comprometedor de Sra. Martin. Ningum lhe fez perguntas. Nos dias seguintes conservou a impresso nova, mas agradvel, 
de ser uma jovem me de ambiente simples, que se misturava com seus vizinhos e no tinha outra preocupao que no fosse cuidar de Florimond. Em casa da Sra. Cordeau, 
comia em companhia desta, de seu filho, rapaz de quinze anos, que era aprendiz na cidade, e de um velho comerciante arruinado que se escondia no Temple para fugir 
aos credores.
 A desgraa da minha vida - costumava dizer -  que meu pai e minha me me educaram mal. Sim, senhora, ensinaram-me a honradez.  o maior defeito que algum pode 
ter quando se dedica ao comrcio.
 Florimond recebia muitos agrados, e Anglica se orgulhava com isso. Aproveitava-se do menor raio de sol para lev-lo a passear atravs do mercado, onde as vendedoras 
o comparavam ao Menino Jesus do prespio.
 Um dos ourives, que tinha sua lojinha perto da casa em que vivia Anglica, ofereceu-lhe uma cruz de pedras vermelhas, imitao de rubis.
 Anglica emocionou-se ao pendurar ao pescoo do filho a pobre jia. Onde estava o diamante de seis quilates que o pequeno Florimond havia quase engolido no dia 
do casamento do rei em Saint-Jean-de-Luz?
 Os fabricantes de jias de imitao faziam parte dos artfices de todas as espcies que se estabeleciam no recinto para subtrair-se s exigncias tirnicas das 
corporaes. Como a fabricao dessas jias era proibida pela Corporao dos Ourives de Paris, s no Temple se podiam comprar todos aqueles objetos que eram as jias 
das moas do povo. Vinham elas de todos os cantos da capital, frescas e bonitas em seus pobres trajes de tecido sem brilho, cinzento na maioria das vezes, o que 
fazia com que fossem denominadas grisettes.
 Naqueles passeios, Anglica evitava aproximar-se dos belos palcios onde pessoas ricas e de alta linhagem tinham vindo estabelecer-se, algumas por gosto, outras 
por economia. Temia um pouco que a reconhecessem os visitantes, homens e mulheres, cujas carruagens atravessavam o porto com grande estrondo, e preferia sobretudo 
poupar-se a penas inteis. Uma ruptura total Com sua vida passada era prefervel de todos os pontos de vista. E, alm disso, no era ela a mulher de um pobre prisioneiro 
abandonado de todos?
 
 CAPITULO-XV
 
 A casa no Temple - Venda do escravo Kuassi-Ba
 
 No entanto, um dia em que descia a escada com Florimond nos braos, cruzou com sua vizinha de quarto e teve a impresso de que aquele rosto no lhe era desconhecido. 
A Sra. Cordeau havia-lhe dito que tambm albergava uma jovem viva muito pobre, mas bastante reservada, e que preferia acrescentar algumas moedas  sua modesta penso 
para que lhe servissem as refeies em seu aposento. Anglica entreviu, ao passar, um rosto encantador de mulher morena, com olhos lnguidos que se baixaram rpido, 
e ao qual no pde ligar um nome, embora tivesse a certeza de hav-lo visto antes. Ao voltar do passeio, a mulher parecia esper-la.
 -        No  a Sra. de Peyrac? - perguntou.
 Contrariada, um tanto inquieta, Anglica fez-lhe sinal para que entrasse em seu quarto.
 -        Ia na carruagem de minha amiga Atenas de Tonay-Charente,
no dia da entrada do rei em Paris. Sou a sra. Scarron.
 Anglica reconheceu, enfim, aquela criatura ao mesmo tempo bela e discreta, que as tinha acompanhado vestida pobremente e que lhes tinha causado um pouco de vergonha. 
A Sra. "Scarron, o Aleijado", como dizia malignamente o irmo de Atenas.
 Quase no havia mudado, desde ento. Unicamente seu traje estava pouco mais usado e recosido. Mas usava gola branca imaculada e conservava um ar de decncia bastante 
enternecedor.
 Feliz, apesar de tudo, por poder conversar com algum do Poitou, Anglica f-la sentar-se em frente  lareira, e ambas partilharam, com Florimond, alguns barquilhos 
e folhados.
 Francisca d'Aubign lhe disse que tinha vindo alojar-se no Temple porque ali se podia viver trs meses sem pagar aluguel. E ela estava completamente sem recursos, 
a tal ponto que fora posta na rua pelos credores. Esperava, no transcurso dos trs meses, poder obter do rei ou da rainha-me que se renovasse para ela a penso 
de duas mil libras que Sua Majestade concedera a seu marido quando ele vivia.
 - Vou quase todas as semanas ao Louvre e ponho-me no caminho da capela. Voc sabe que Sua Majestade, deixando seus apartamentos para ir  missa, atravessa uma galeria 
onde permite ser abeirado pelos solicitantes. V-se l uma quantidade de monges, rfos de guerra e velhos militares sem penso. As vezes esperamos longo tempo. 
Finalmente, o rei aparece. Confesso que, cada vez que deponho meu memorial em suas mos reais, meu corao bate de tal maneira que eu receio que ele oua.
 - At agora, entretanto, no ouviu sua splica!
 -  verdade, mas eu ainda espero que algum dia ele d uma olhada no meu papel.
 A jovem viva estava ao corrente de todos os mexericos da corte. Falava com muita graa e esprito, e, quando abandonava seu ar dolorido, tinha um encanto extraordinrio. 
No parecia achar estranho tornar a ver a brilhante Sra. de Peyrac em to triste vesturio, e tagarelava como se se encontrasse em um salo.
 Para prevenir qualquer indiscrio, Anglica a ps resumidamente a par de sua situao.
 Esperava, sob um nome suposto, que seu marido fosse julgado e reabilitado, para reaparecer aos olhos do mundo. Evitou dizer de que era acusado o Conde de Peyrac, 
pois, no obstante a frivolidade das histrias que contava, Francisca Scarron parecia muito piedosa. Era uma protestante convertida e que buscava na devoo um consolo 
para as suas provaes.
 Anglica concluiu:
 - Veja voc que minha situao  ainda mais precria que a sua, senhora. E no lhe oculto que no s no posso ser-lhe de qualquer utilidade nas tentativas que 
empreende junto s pessoas que tm influncia na corte, mas tambm que muitas pessoas que h alguns meses me eram inferiores tm agora o direito de olhar-me por 
cima do ombro.
 - Com efeito,  preciso dividir as pessoas em duas categorias - respondeu a viva do espirituoso invlido: - os que so teis  gente e os que nos so inteis. 
Os primeiros, ns os frequentamos para obter proteo; os segundos, por prazer.
 As duas riram bastante alegremente.
 - Por que se deixa ver to pouco? - perguntou Anglica. - Poderia comer conosco.
 - Oh!  mais forte que eu - disse a viva estremecendo. - Mas confesso que o aspecto dessa me Cordeau e de seu filho me faz morrer de medo!...
 Anglica abriu a boca assombrada com aquela declarao, quando um rudo estranho, uma espcie de grunhido animal vindo da escada, as interrompeu.
 A sra. Scarron foi abrir a porta e recuou fechando-a precipitadamente.
 - Meu Deus, h um demnio na escada!
 - Que quer dizer?
 - Na realidade,  um homem negro.
 Anglica deu um grito e precipitou-se para o patamar.
 - Kuassi-Ba! - chamou.
 - Sim, sou eu, mdme - respondeu o mouro.
 Ele emergia, como sombrio espectro, da pequena escada escura. Estava vestido de farrapos informes, seguros por cordis. Sua pele estava cinzenta e flcida. Mas, 
ao ver Florimond, soltou uma risada selvagem e, precipitando-se para o encantador menino, esboou uma dana endiabrada.
 Francisca Scarron, com um gesto de horror, lanou-se para fora do quarto e se refugiou no seu.
 Anglica segurava a cabea com as duas mos para refletir. Quando... mas quando havia desaparecido Kuassi-Ba? No lhe ocorria. Tudo se embrulhava. Lembrou-se, por 
fim, de que ele a acompanhara ao Louvre na manh daquele terrvel dia em que ela vira o rei e escapara de morrer nas mos do prprio Duque d'Orlans. A partir desse 
momento, devia confessar, tinha-se esquecido completamente de Kuassi-Ba!
 Lanou lenha ao fogo para que pudesse secar os andrajos encharcados de chuva, e deu-lhe para comer tudo o que pde encontrar. Ele contou-lhe sua odisseia.
 Naquele grande castelo em que mora o rei da Frana, Kuassi-Ba ,tinha estado muito tempo, muito tempo esperando mdme. As criadas que passavam zombavam dele.
 Depois chegou a noite. Depois ele tinha recebido muitas pauladas. Depois ele acordara dentro da gua, sim, dentro da gua que corre diante do grande castelo...
 "Moeram-no de pancadas e jogaram-no ao Sena", interpretou Anglica.
 Kuassi-Ba tinha nadado; depois havia encontrado uma praia.
 Quando acordou, estava feliz, porque acreditou ter voltado ao seu pas. Trs mouros inclinavam-se sobre ele. Homens como ele, e no negrinhos como os que tm as 
damas para servir-lhes de pajens.
 -        Tem certeza de que no sonhou? - perguntou Anglica, surpresa. - Mouros em Paris! Pude verificar que havia poucos que fossem adultos.
 De tanto interrogar, ela acabou por compreender que ele tinha sido recolhido por negros que estavam sendo apresentados como fenmenos na feira de Saint-Germain, 
ou que eram exibidores de ursos amestrados. Mas Kuassi-Ba no tinha querido viver entre eles. Tinha medo dos ursos.
 Terminado seu relato, o negro tirou de sob seus andrajos um cesto e, ajoelhando-se diante de Florimond, apresentou-lhe dois pezinhos tenros cuja cdea estava dourada 
por gema de ovo e salpicada com gros de trigo. Desprendiam delicioso aroma.
 - Como pde comprar isso?
 - Oh! No comprei. Entrei na padaria e fiz assim - e esboou uma careta aterrorizante. - As duas mulheres esconderam-se debaixo do balco e eu apanhei os bolos 
para traz-los ao meu pequeno amo.
 - Meu Deus! - suspirou Anglica, aterrada.
 - Se eu tivesse meu grande sabre curvo...
 -        Vendi-o ao merca-tudo - apressou-se a dizer Anglica. .
Ela perguntava a si mesma se os archeiros da ronda estavam j no encalo de Kuassi-Ba. Pareceu-lhe mesmo ouvir um rumor l fora. Chegando  janela, viu um grupo 
parado diante da casa. Uma personagem de ar respeitvel, de roupa escura, discutia com a viva Cordeau. Anglica entreabriu a janela, procurando compreender de que 
se tratava. A Sra. Cordeau gritou:
 -        Parece que em seu quarto h um homem completamente negro.
 Anglica desceu precipitadamente.
 -         exato, Sra. Cordeau. Trata-se de um mouro, de um... de um antigo servo.  uma excelente criatura.
 A personagem respeitvel apresentou-se, ento. Era o bailio do Temple, encarregado de aplicar a justia alta, mdia e baixa, em nome do gro-prior, dentro do recinto. 
Disse ser impossvel a permanncia do mouro ali, tanto mais que estava vestido como um mendigo.
 Depois de ter discutido por longo tempo, Anglica prometeu que Kuassi-Ba deixaria o recinto antes da noite.
 Tornou a subir, contrariada.
 - Que vou fazer de voc, meu pobre Kuassi-Ba? Sua presena provoca verdadeiro motim. E quanto a mim, j no tenho bastante dinheiro para aliment-lo e vesti-lo. 
Voc est habituado ao luxo e a no sentir falta de nada!...
 - Venda-me, senhora!
 Como ela o olhasse com surpresa, ele acrescentou:
 -        O conde me comprou muito caro, e no entanto eu era ainda pequeno. Agora eu valho pelo menos mil libras. Com isso a senhora ter muito dinheiro para tirar 
meu amo da priso.
 Anglica achou que o negro tinha razo. Afinal de contas, Kuassi-Ba era tudo o que lhe restava de seus haveres. Repugnava-lhe vend-lo, mas no era essa a melhor 
maneira de propiciar um abrigo ao pobre selvagem perdido entre as torpezas do mundo civilizado?
 -        Volte amanh - disse ela. - Terei achado uma soluo. E tenha cuidado para no deixar que os guardas da ronda o apanhem.
, - Oh! Eu conheo a maneira de me esconder. Tenho muitos
amigos nesta cidade. Fao assim, e ento os amigos dizem: "Voc  dos nossos", e me levam para suas casas.
 Ele mostrou como era preciso cruzar os dedos de certa maneira para se fazer reconhecer por tais amigos.
 Anglica deu-lhe uma manta e viu afastar-se sob a chuva aquela comprida carcaa errante. Logo depois de sua ida, decidiu pedir conselho ao irmo, mas o Reverendo 
Padre de Sanc estava ausente.
 Anglica voltava preocupada ao seu alojamento, quando um rapaz com uma caixa de violino debaixo do brao se lhe adiantou saltando de poa em poa.
 -        Giovanni!
 Decididamente, era o dia dos reencontros! Arrastou o pequeno msico para o abrigo do claustro da velha igreja e perguntou-lhe o que se passava com ele.
 -        Ainda no estou na orquestra do Sr. Lulli - disse ele -, mas a Srta. de Montpensier, ao partir para Saint-Fargeau, cedeu-me  Sra. de Soissons, que foi 
nomeada intendente da casa da rainha. De sorte que eu tenho excelentes relaes - concluiu ele com ar importante -, graas s quais posso aumentar meus emolumentos 
dando lies de msica e de dana a moas de boa famlia. Venho precisamente da casa da Srta. de Svign, que mora no Palcio de Boufflers.
 E acrescentou timidamente, depois de lanar um olhar embaraado sobre a roupa modesta de sua antiga patroa:
 -        E quanto  senhora, posso perguntar como vo os seus negcios? Quando tornaremos a ver o senhor conde?
 - Breve.  uma questo de dias - respondeu Anglica, que pensava em outra coisa. - Giovanni - prosseguiu ela segurando o rapaz pelos ombros -, tomei a deciso de 
vender Kuassi-Ba. Lembro-me de que a Condessa de Soissons desejava adquiri-lo, mas eu no posso sair do Temple e muito menos ir s Tulherias. Quer intervir neste 
negcio?
 - Estou sempre ao seu servio, senhora - respondeu gentilmente o pequeno msico.
 Ele agiu depressa, pois, menos de duas horas depois, enquanto Anglica preparava a comida de Florimond, bateram-lhe  porta. Ela foi abrir e encontrou-se diante 
de uma mulher alta e ruiva, de aspecto arrogante, e um lacaio trajado de libr vermelho-cereja, da casa do Conde de Soissons.
 -        Vimos da parte de Giovanni - disse a mulher, cuja pelerine deixava entrever um elegantssimo uniforme de camareira.
 Tinha o ar ao mesmo tempo astuto e insolente de criada predi-leta de uma grande dama.
 - Estamos dispostos a discutir - continuou, depois de examinar Anglica de alto a baixo e relancear os olhos pelo aposento. - Mas antes queremos saber quanto ficar 
para ns.
 - Vamos devagar, minha jovem - disse Anglica com um tom que restabeleceu imediatamente as distncias.
 Sentou-se e deixou os visitantes em p diante dela.
 - Como se chama? - perguntou ela ao lacaio.
 - La Jacinthe, senhora condessa.
 - Muito bem. Voc ao menos tem olhos vivos e presena de esprito. Por que devo pagar a duas pessoas?
 - Ora essa! Porque nos negcios desta espcie sempre trabalhamos juntos.
 - E uma sociedade, percebo. E sorte que toda a casa do senhor conde no participe dela! Eis o que devem fazer: digam  senhora condessa que eu desejo vender-lhe 
meu mouro, Kuassi-Ba. Mas no posso ir s Tulherias. Seria, pois, necessrio que sua patroa me procurasse no Temple, na casa por ela escolhida. Mas insisto em que 
tudo deve ser feito muito discretamente e que meu nome no seja pronunciado.
 - No parece muito difcil - disse a criada depois de olhar seu comparsa.
 - Para vocs haver duas libras em cada dez. Quanto mais alto for o preo, mais ganharo. E preciso tambm que a Sra. de Soissons tenha tal desejo de adquirir o 
mouro que no hesite diante de qualquer soma.
 - Disso me encarrego eu - prometeu a criada. - Alis, a senhora condessa, outro dia, enquanto eu a penteava, lamentava no ter em seu squito esse espantoso demnio! 
Que lhe faa bom proveito! - concluiu erguendo os olhos.
 Anglica e Kuassi-Ba esperavam em um pequeno quarto prximo  copa do Palacete de Boufflers.
 Vozes risonhas e exclamaes mundanas vinham dos sales onde a Sra. de Svign recebia naquele dia em sua ruelle. Pequenos lacaios passavam, carregando nos braos 
bandejas de pastis.
 Embora no quisesse admiti-lo, Anglica sofria por se ver assim relegada, enquanto as mulheres de seu mundo, a alguns passos dela, continuavam sua vida frvola. 
Havia sonhado tanto em conhecer Paris e aquelas ruelles de alcova onde os brilhantes espritos da poca se encontravam!
 A seu lado, Kuassi-Ba revirava os grandes olhos cheios de apreenso. Ela havia alugado para o negro, em casa de um roupavelheiro do Temple, uma velha libr de gales 
dourados bastante gastos, com a qual ele fazia um papel um tanto ridculo.
 Por fim abriu-se a porta diante da criada da Sra. de Soissons, e esta, fechando com rudo o leque, fez uma apario rumorosa e animada.
 -        Ah!  a mulher de quem me falou, Bertlia...
 Ela se interrompeu para examinar Anglica com ateno.
 - Deus me perdoe - exclamou -, ento  voc minha cara?
 - Sou eu - disse Anglica rindo -, mas suplico-lhe que no se espante. Sabe que meu marido est na Bastilha;  difcil para mim estar em melhor situao que a dele.
 - Ah, sim! - aprovou Olmpia de Soissons, adaptando-se s circunstncias. - No temos todos ns conhecido nossos momentos de infelicidade? Quando meu tio, o Cardeal 
Mazarino, teve de fugir da Frana, minhas irms e eu andvamos com as saias rotas, e o povo nas ruas lanava pedras sobre nossa carruagem e nos chamava "as p... 
Mancini". Agora que o pobre cardeal est a ponto de morrer, as pessoas da rua esto certamente mais impressionadas do que eu. Veja como a roda gira!... Mas esse 
 o seu mouro, minha cara? A primeira vista, ele me pareceu mais belo! Mais gordo e tambm mais negro.
 - E porque tem frio e fome - apressou-se em dizer Anglica. - Mas ver, quando ele comer, que se tornar outra vez negro como carvo.
 A formosa mulher fez uma cara de decepo. Kuassi-Ba ergueu-se num salto felino.
 -        Eu continuo forte! Olha!
 Arrancou a velha libr, e seu busto apareceu, repleto de curiosas tatuagens em relevo. Distendeu os ombros e, pondo em tenso os msculos, levantou os braos para 
o alto, como os lutadores de feira. Reflexos movedios brilhavam em sua pele bronzeada.
 Ereto e imvel, parecia ter crescido de repente. Sua presena selvagem, embora ele se conservasse impassvel, invadia o pequeno aposento e nele introduzia estranhos 
mistrios. Um plido raio de sol atravessou os vitrais e ps uma luz dourada sobre aquele filho exilado da Africa.
 Por fim, suas grandes plpebras egpcias desceram sobre as pupilas de marfim, e de seu olhar no restou seno um estreito raio que pousou sobre a Condessa de Sossons. 
Depois, um lento sorriso, ao mesmo tempo arrogante e suave, estirou os lbios grossos do mouro.
 Nunca Anglica tinha visto Kuassi-Ba to belo, e nunca, nunca o havia visto to... terrvel.
 O negro, em toda a sua fora primitiva, analisava sua presa. Tinha percebido, por instinto, o que desejava aquela mulher branca, vida de prazeres novos.
 Com os lbios entreabertos, Olmpia de Soissons parecia subjugada. Seus olhos escuros brilhavam com um fogo extraordinrio. A pulsao de sua bela garganta, a sensualidade 
de sua boca traam o desejo com tal despudor, que a prpria criada, no obstante seu atrevimento, baixou depressa a cabea, e Anglica teve mpetos de fugir batendo 
a porta.
 Finalmente a condessa pareceu controlar-se. Abriu o leque e abanou-se maquinalmente.
 - Quanto?... Quanto quer por ele?
 - Duas mil e quinhentas libras.        
    Os olhos da servilheta fulguraram.
 Olmpia de Soissons sobressaltou-se, regressando  terra.
 - Est louca!
 - Duas mil e quinhentas libras, ou fico com ele - declarou friamente Anglica.
 - Minha cara...
 - Oh! senhora! - exclamou Bertlia, que acabava de pr um dedo tmido sobre o brao de Kuassi-Ba. - Como sua pele  suave! Jamais se poderia imaginar que um homem 
tivesse uma pele assim. Dir-se-ia uma ptala de flor seca.
 Por sua vez, a condessa passou o dedo ao longo do brao liso,  de pele esticada e flexvel. Um estremecimento voluptuoso a sacudiu. Animando-se, apalpou as tatuagens 
do peito e ps-se a rir.
 -  Est resolvido: eu o compro.  uma loucura, mas sinto que j no poderia passar sem ele. Bertlia, diga a La Jacinthe que traga meu cofre.
 A um simples sinal, o lacaio entrou, trazendo um cofrezinho de couro trabalhado.
 Enquanto o homem, que devia desempenhar o papel de intendente da condessa para seus prazeres secretos, contava o dinheiro, a criada, obedecendo a uma ordem da patroa, 
fez sinal a Kuassi-Ba para que a acompanhasse.
 - At a vista, mdme, at a vista - disse o mouro aproximando-se de Anglica -, e para o meu pequeno amo Florimond, a senhora lhe dir...
 - Est bem, v - disse-lhe ela duramente.
 Mas conservou como uma punhalada no corao o olhar de co surrado que o escravo lhe lanou antes de sair do aposento...
 Nervosamente, ela contou as moedas e guardou-as na bolsa. Agora s tinha pressa de ir embora.
 - Oh! Minha querida, tudo isto  muito penoso, eu imagino - suspirou a Condessa de Soissons, que se abanava com ar satisfeito. - No entanto, no se desconsole, 
a roda est sempre girando. Entra-se na Bastilha,  verdade, mas tambm se sai dela. Sabia que Pguilin de Lauzun voltou s graas do rei?
 - Pguilin! - exclamou Anglica, a quem aquele nome e aquela notcia serenaram subitamente. - Oh! Estou encantada. Que se passou?
 - Sua Majestade, que aprecia as insolncias desse atrevido gentil-homem, procurou um pretexto para cham-lo. Contam que Lauzun foi enviado para a Bastilha por ter-se 
batido com Filipe d'Or-lans. H quem chegue mesmo a dizer que Lauzun se bateu com Monsieur por sua causa.
 Anglica estremeceu  recordao da espantosa cena. Uma vez mais suplicou  Sra. de Soissons que fosse discreta a seu respeito e no revelasse o lugar de seu retiro. 
A Sra. de Soissons, a quem uma longa experincia tinha ensinado a tratar com circunspeco as pessoas cadas em desgraa enquanto o rei no decidisse sua sorte, 
prometeu tudo que se lhe pedia, e separou-se de Anglica com um beijo.
 
 CAPTULO XVI
 
 Corda-ao-Pescoo - A viva Scarron
 
 A venda de Kuassi-Ba distraiu Anglica das preocupaes imediatas concernentes a seu marido. Agora que a sorte do Conde de Peyrac no dependia mais unicamente de 
seus esforos isolados, ela se sentia invadida por uma espcie de fatalismo ao qual seu estado no era estranho. Sua gravidez prosseguia normalmente, ao contrrio 
do que ela havia suposto. O menino que tinha no ventre estava bem vivo.
 Gontran foi ver sua irm. Partia para sua "excurso pela Frana". Tinha comprado um muar, "no to formoso como os de nossa casa", disse. Nas cidades, as confrarias 
secretas dos companheiros o acolheriam. Sofria por aquela ruptura com seu mundo? No lhe parecia.
 Anglica viu-o afastar-se com melancolia.
 Certa manh voltava" ela, com Florimond, de um curto passeio pelas vizinhanas da torre grande. Ali havia encontrado os rebanhos de cabras que um pastor de Belleville 
amide levava ao Templo. Ele punha as cabras a pastar no terreno baldio prximo da torre, e ordenhava-as  proporo que os fregueses apareciam. Segundo ele, o leite 
de cabra era excelente para as amas, e o leite de jumenta "para os organismos debilitados pela incontinncia e pela devassido". Embora ela certamente no estivesse 
no segundo caso, comprava sempre um pequeno boio de leite de jumenta. Levando pela mo Florimond, que ia aos pulinhos, chegava em frente  casa quando ouviu gritos. 
Viu ento o filho de sua hospedeira que corria protegendo a cabea contra uma chuva de pedras atiradas por alguns meninos que o perseguiam.
 -        Cordeau! Cor-de-au.l Corra! Ponha a lngua para fora, Corda-ao-Pescoo!
 O rapaz, sem tentar fazer frente a seus agressores, entrou na casa.
 Um pouco mais tarde,  hora do almoo, Anglica voltou a encontr-lo na cozinha, comendo calmamente sua poro de ervilhas.
 O filho da viva Cordeau no interessava particularmente a Anglica. Era um forte rapaz de quinze anos, gorducho e taciturno, cuja fronte estreita no revelava 
inteligncia superior. Mas era amvel para com sua me e os locatrios. Aparentemente, sua nica distrao aos domingos era brincar com Florimond, a quem satisfazia 
todas as vontades.
 -        Que foi que lhe aconteceu na,rua, meu pobre Cordeau? - perguntou a jovem sentando-se diante da ordinria escudela em que a hospedeira se dispunha a servir 
as ervilhas com toucinho de baleia. - Por que no castigou com seus pesados punhos os moleques que lhe jogavam pedras?
 O adolescente encolheu os ombros, e sua me explicou:
 -        Com o tempo ele j se acostumou! Eu mesma, sem o perceber, s vezes lhe chamo Corda-ao-Pescoo. E pedradas, desde que ele era pequeno, sempre lhe atiraram. 
No lhes d importncia. O importante ser tornar-se mestre! Mais tarde o respeitaro. Quanto a isso, estou tranquila.
 E a velha soltou uma risota que acentuou sua aparncia de bruxa. Anglica lembrou-se da averso que a Sra. Scarron sentia tanto pelo filho como pela me, e olhou-os 
com assombro.
 -        Ento  verdade? No sabia? - continuou a Sra. Cordeau pondo de novo a frigideira sobre o fogo. - Pois bem, no tenho motivo para esconder: meu filho trabalha 
com o mestre Aubin.
 E como Anglica continuava sem compreender, ela explicou:
 -        Mestre Aubin, o carrasco!
 O jovem sentiu um estremecimento que lhe comeou na nuca e lhe percorreu toda a espinha. Em silncio, comeou a comer a grosseira refeio. Estava-se no perodo 
de jejum que precede as festas do Natal, e todos os dias aparecia na mesa aquele pedao de baleia cozido com ervilhas, o prato de penitncia dos pobres.
 -        Sim,  aprendiz de verdugo - prosseguiu a velha indo sentar-se a mesa. - Que queria? Precisa-se de tudo pra fazer um mundo!
Mestre Aubin  irmo de meu defunto marido, e tem apenas filhas. Quando meu marido morreu, mestre Aubin escreveu-me para a pequena vila onde morvamos, dizendo que 
se encarregaria do meu filho para ensinar-lhe o ofcio, e que talvez mais tarde lhe deixasse o cargo. E a senhora sabe: ser verdugo em Paris  alguma coisa! Quisera 
viver o bastante para ver meu filho vestindo a cala e a malha vermelhas...
 Lanou um olhar de ternura  cabea redonda de seu espantoso rebento, que continuava tragando sua pitana.
 "E pensar que esta manh mesmo ele talvez tenha passado a corda ao pescoo de um enforcado!", pensava Anglica horrorizada. "Os meninos da rua no esto errados. 
No se pode ter tal nome quando se tem tal ofcio."
 A viva, que tomava o silncio de Anglica por atenta simpatia, continuou falando:
 - Meu marido tambm era verdugo. Mas no campo no  a mesma coisa, porque as execues capitais se fazem nas cidades principais de cada provncia. Na realidade, 
salvo alguma vez em que aplicava a questo a algum ladro, dedicava^-se a esfolar animais e enterrar bichos mortos...
 Falava e sentia-se feliz de no ser interrompida com protestos de horror.
 Erraria quem pensasse que o ofcio de verdugo fosse simples. A variedade de processos empregados para arrancar confisses aos pacientes tinha feito dele um ofcio 
complicado. Ao menino Corda-ao-Pescoo no faltava trabalho! Tinha de aprender a fazer saltar uma cabea de um s golpe de espada ou machado, a manejar o ferro quente, 
a furar a lngua, a enforcar, a afogar, a rodar,, e saber, enfim, aplicar os suplcios do esquartejamento, dos borzeguins, da gua e da pol...
 Naquele dia Anglica deixou o prato cheio e subiu rapidamente para o seu quarto.
 Sabia Raimundo o ofcio do filho da viva Cordeau quando mandou a irm alojar-se em sua casa? Sem dvida que no. Entretanto, Anglica no pensou nem uma vez que 
seu marido, embora prisioneiro, tivesse algum dia de se haver com o verdugo. Joffrey de Peyrac era um gentil-homem! Havia certamente uma lei ou um privilgio que 
proibia torturar os nobres. Teria de perguntar a Des-grez... O verdugo era para as pobres criaturas, aqueles que eram expostos no pelourinho da praa do mercado, 
aqueles que eram aoitados, despidos nas encruzilhadas das ruas, ou enforcados na Place de Greve, malfeitores que forneciam as melhores distraes  gentalha. Nada 
disso era para Joffrey de Peyrac, ltimo descendente dos condes de Toulouse...
 Desde ento Anglica frequentou menos a cozinha da Sra. Cordeau.
 Aproximou-se de Francisca Scarron e, dispondo de algum dinheiro aps a venda de Kuassi-Ba, comprava lenha para fazer um bom fogo e convidava a jovem viva para 
ir ao seu quarto.
 A Sra. Scarron, sempre  espera de que o rei um dia lesse suas peties, saa algumas frias manhs para ir ao Louvre, e voltava desesperanada, mas trazendo um 
vasto repertrio de mexericos da corte, que a distraam durante o dia inteiro.
 Afastou-se do Temple por uns dez dias, porque tinha encontrado um emprego de governanta em casa de uma grande dama. Depois voltou, sem dar explicaes,  sua vida 
apagada e fria  sombra do recinto.
 As vezes recebia a visita de algumas pessoas de alta posio, com quem tivera contato quando seu marido presidia um pequeno cenculo de brilhantes espritos.
 Um dia, atravs do tabique, Anglica reconheceu a estridente voz de Atenas de Tonnay-Charente. Soube que a bela filha do Poitou levava uma vida bastante agitada 
em Paris, mas que ainda no tinha encontrado marido com bom ttulo e boa renda.
 De outra vez, quem veio foi uma mulher loura e animada, muito formosa apesar dos quase quarenta anos. Quando j ia embora, Anglica ouviu-a dizer:
 -        Que voc quer, minha amiga? E preciso gozar enquanto posso. Tenho pena de v-la neste quarto frio, vestida com roupas pobres e usadas. No  concebvel 
semelhante misria quando se tem olhos to belos.
 Francisca murmurou qualquer coisa, que Anglica no conseguiu distinguir.
 -        De acordo - retorquiu a voz harmoniosa e alegre -, mas de 
pende somente de ns que uma servido, no mais humilhante do que andar mendigando penses, no se converta em escravido. O "pagante", que atualmente me permite 
andar de coche, conforma-se muito facilmente com duas visitinhas por ms. "Por quinhentas
libras", disse-lhe eu, " impossvel que eu d mais." Resignou-se, gor saber sobejamente que de outra maneira no teria nada. Oh!
E um bom homem! Sua nica qualidade  conhecer carnes admiravelmente, pois seu av era aougueiro. Ele me orienta quando dou uma recepo. Tambm o avisei de que 
ele faria muito mal em se  mostrar ciumento, pois no posso renunciar a meus pequenos caprichos. Escandaliza-se, querida? Vejo-o pela maneira de cerrar seus bonitos 
lbios. Escute-me: nada existe to variado na natureza co
mo os prazeres do amor, embora sejam sempre os mesmos.
 Quando tornou a ver sua amiga, no pde deixar de perguntar-lhe quem era aquela dama.
 - No suponha que seja do meu agrado receber mulheres dessa espcie - respondeu Francisca com embarao. - Mas  preciso reconhecer que Ninon de Lenclos  a mais 
encantadora e a mais espirituosa das amigas. Ajudou-me muito e faz o possvel para arranjar-me protees. Pergunto-me, contudo, se no me causar mais dano que proveito.
 - Eu gostaria de aproximar-me dela e falar-lhe - disse Anglica. - Ninon de Lenclos... - repetiu pensativa, pois o nome da clebre cortes no lhe era desconhecido. 
- Quando eu soube que viria a Paris, pensei: "Oxal eu possa fazer-me admitir no salo de Ninon de Lenclos!"
 - Que um anjo me leve, se minto! - exclamou a viuvinha, cujo olhar brilhou de entusiasmo. - No existe em Paris lugar onde a gente possa sentir-se mais  vontade. 
O tom ali  divino, a decncia notvel, e no h maneira de algum se aborrecer. O salo de Ninon de Lenclos , verdadeiramente, uma das armadilhas do Diabo, porque 
ningum acreditaria que  dirigido por uma pessoa de costumes to reprovveis. Voc bem sabe o que dizem dela: "Ninon de Lenclos foi para o leito com o reino de 
Lus XIII e dispe-se a fazer o mesmo com o de Lus XIV". Isso, alis, no me surpreenderia, pois sua juventude parece eterna.
 Naquele dia, ao entrar pela segunda vez no pequeno locutrio dos jesutas, Anglica esperava encontrar ali seu irmo, que a tinha mandado chamar, e o advogado Desgrez, 
com quem havia muito tempo no se avistava.
 Mas s se achava l um homenzinho de meia:idade, vestido de negro e com uma peruca feita de crina,  qual estava cosido um pequeno barrete de couro negro.
 Ele se levantou, saudou canhestramente, de maneira antiquada, e apresentou-se depois como escrivo do tribunal, cujos servios tinham sido solicitados por Desgrez 
para o caso de Sieur Peyrac.
 -        No me ocupo disso seno h trs dias, mas j falei demoradamente com Maitre e Maitre Fallot, que me instruram acerca deste assunto e me encarregaram 
das escrituras ordinrias e da introduo de seu processo.
 Anglica soltou um suspiro de alvio.
 -        Finalmente o processo! - exclamou.
 O bom homem olhou com ar escandalizado para aquela cliente que, pelo visto, nada entendia de processos judiciais.
 -        Se Matre Desgrez me concedeu a insigne honra de pedir-me que o ajude,  porque esse jovem percebeu que, apesar de todos os pergaminhos que conquistou 
com sua alta inteligncia, precisava de um homem familiarizado com as peculiaridades do processo. E esse homem, senhora, sou eu.
 Anglica viu-o cerrar os olhos, engolir saliva e pr-se, em seguida, a observar o p que danava em um raio de luz. Ficou um tanto desconcertada.
 - Mas o senhor deu-me a entender que o processo fora instaurado!        
 - Devagar, devagar, minha bela senhora. Eu disse somente que estava trabalhando na abertura do dito processo e que...
 Interrompeu-o a chegada do advogado e do jesuta.
 - Que pssaro  este que voc me trouxe? - disse Anglica baixinho a Desgrez.
 - No receie, ele no  perigoso.  um pequeno inseto que vive de papeladas, mas um pequeno deus em seu gnero.
 - Fala de deixar que meu marido apodrea na priso durante vinte anos!
 - Sr. Clopot, o senhor tem a lngua demasiadamente comprida e molestou a senhora - disse o advogado.
 O pequeno homem fez-se ainda menor e foi refugiar-se em um canto, como uma barata. Anglica teve de conter uma gargalhada.
 - Voc trata muito duramente seu deusinho de papelrio.
 -  a nica superioridade que tenho sobre ele. Na realidade,  cem vezes mais rico que eu. Agora, sentemo-nos e examinemos a situao.
 - Decidiram instaurar o processo?
 - Decidiram.
 A jovem olhou as caras de seu irmo e do advogado, que exprimiam certa reticncia.
 - A presena do Sr. Clopot deve ter-lhe dado a entend-lo - disse Raimundo finalmente -, mas foi-nos impossvel obter que seu marido comparea ante um tribunal 
eclesistico.
 - No entanto... j que se trata de uma acusao de bruxaria...
 - Recorremos a todos os argumentos e pusemos em jogo todas as influncias, pode acreditar. Mas, segundo penso, o rei tem desejos de mostrar-se mais papista que 
o papa. Na realidade, quanto mais se inclina para o tmulo o Cardeal de Mazarino, mais pretende o jovem monarca tomar a si todos os negcios do reino, inclusive 
os religiosos. No basta que a nomeao dos bispos dependa de sua escolha e no da autoridade religiosa? Por fim, no conseguimos seno a instaurao de um processo 
civil.
 -        Essa deciso  prefervel ao esquecimento, no  certo? - disse Anglica, mendigando um alento nos olhos de Desgrez.
 Mas^ este permaneceu impassvel.
 -  sempre melhor saber a verdade acerca de sua sorte do que viver na incerteza durante longos anos - disse ele.
 -  intil ficarmos a lamentar o malogro - retrucou Raimundo. - Agora trata-se de saber como influir na direo do processo. O rei pessoalmente vai nomear os juzes-jurados. 
Nosso papel ser fazer-lhe compreender que deve obrar com nimo de imparcialidade e justia. Trabalho delicado iluminar a conscincia de um rei!...
 Esta frase recordou a Anglica uma expresso distante pronunciada pelo Marqus du Plessis-Belliere a respeito do Sr. Vicente de Paulo. Dizia ele: " a conscincia 
do reino".
 - Oh! - exclamou ela. - Por que no pensei nisso antes? Se o Sr. Vicente pudesse falar de Joffrey  rainha ou ao rei, estou certa de que os convenceria.
 - Ah! O Sr. Vicente morreu h um ms em sua casa de So Lzaro.
 - Meu Deus! - suspirou Anglica, cujos olhos se encheram de lgrimas e decepo. - Oh! Por que no pensei nisso quando ele ainda vivia? Ele teria sabido falar-lhes. 
Teria obtido a jurisdio religiosa...
 - Acredita que no empregamos todos os meios possveis para obter essa deciso? - perguntou com certa acrimnia o jesuta.
 Os olhos de Anglica brilharam.
 -        Sim - murmurou. - Mas o Sr. Vicente era um santo...
Houve um breve silncio; depois o Padre de Sanc suspirou.
 -        Tem razo; efetivamente, s um santo poderia dobrar o orgulho do rei. At seus cortesos mais ntimos ainda conhecem mal a verdadeira alma desse jovem 
que, sob uma aparente reserva, devorado por um terrvel desejo de poder. No duvido que seja um grande rei, mas...
 Interrompeu-se, julgando talvez que era perigoso proferir semelhantes comentrios.
 -        Soubemos - continuou dizendo - que alguns sbios residentes em Roma, dois dos quais pertencem  nossa congregao, preocupam-se com a priso do Conde Joffrey 
de Peyrac e diz-se que protestaram... em segredo, evidentemente, pois o assunto continua secreto. Seria possvel reunir seus testemunhos e pedir ao papa uma interveno 
por meio de uma carta ao rei. Essa voz augusta, pondo-o em face de suas responsabilidades e suplicando-lhe que examine bem o caso de um acusado que os maiores espritos 
esto de acordo em julgar inocente do delito de bruxaria, poderia comov-lo.
 - Cr que se pode obter essa carta? - perguntou Anglica sem muita esperana. - A Igreja no aprecia muito os sbios.
 - Parece-me que no compete a uma mulher de sua conduta julgar as faltas ou os erros da Igreja - disse Raimundo mansamente.
 Anglica no se enganou com a suavidade do tom. Ficou silenciosa.
 -        Tenho a impresso de que hoje havia algo que no ia bem entre Raimundo e mim - disse ela quando, um pouco mais tarde, acompanhou o advogado at a poterna. 
- Por que falou de minha conduta naquele tom acerbo? Parece-me que levou uma vida
pelo menos to exemplar como a criatura em cuja casa me alojou.
 Desgrez sorriu.
 - Suponho que seu irmo j deve ter recolhido algum dos papis que desde esta manh circulam em Paris. Cludio le Petit, o famoso poeta do Pont Neuf, que h seis 
anos perturba a digesto dos grandes, teve conhecimento do processo de seu marido e aproveitou o assunto para molhar a pena no vitrolo.
 - Que ter dito ele? Por acaso voc leu esses panfletos?
 O advogado fez um sinal ao Sr. Clopot, que os seguia, para que se aproximasse e lhe desse a bolsa que levava. Tirou dela um mao de papis grosseiramente impressos.
 Tratava-se de pequenas canes em verso. O libelista, com uma verve que parecia espontnea mas buscava manifestamente a injria mais baixa e os termos mais vulgares, 
apresentava Joffrey de Pevrac como "o grande coxo, o guedelhudo, o grande corno do Languedoc"...
 Depois de ironizar o aspecto do acusado, terminava um dos seus libelos com a seguinte estrofe:
 "E a bela Sra. de Peyrac
 Roga a Deus que no se abra a Bastilha
 E que ele permanea em seu encerramento,
 Enquanto ela se faz de p... no Louvre".
 Anglica pensou que fosse ruborizar-se, mas, ao contrrio, empalideceu.
 - Oh! Maldito poetastro! - exclamou, atirando ao cho as folhas. - A lama  demasiado limpa para ele!
 - Psiu, senhora! No deve praguejar - protestou Desgrez, assumindo um ar escandalizado, enquanto o escrivo se benzia. - Sr. Clopot, digne-se recolher essas porcarias 
e reintroduzi-las na bolsa.
 - Quisera saber por que no metem na priso esses malditos pasquineiros, em vez de prenderem as pessoas honradas - disse Anglica tremendo de clera. - E ouvi dizer 
que vo para a Bastilha, como se fossem dignos de considerao! Por que no os levam para o Chtelet, como verdadeiros bandidos que so?
 - No  fcil pr a mo em um pasquineiro.  a raa mais escorregadia que existe. Esto em toda parte e ao mesmo tempo em nenhuma. Cludio le Petit escapou de ser 
enforcado dez vezes e, no entanto, sempre reaparece e lana suas flechas no momento em que menos se espera. Ele v tudo, sabe tudo, e ningum jamais o encontra. 
Eu nunca o vi, mas suponho que deve ter orelhas maiores que bacias de barbeiro, pois todos os mexericos da capital encontram asilo nelas. Em vez de persegui-lo, 
deveriam pagar-lhe como espio.
 - O que deveriam fazer era enforc-lo de uma vez!
 -  verdade que nossa querida e pouco eficiente polcia classifica os jornalistas-pasquineiros entre os mal-intencionados. Mas jamais apanhar o pequeno poeta do 
Pont Neuf se no interviermos, meu co e eu.
 - Faa isso, imploro-lhe! - exclamou Anglica segurando Des-grez com as duas mos. - Que Sorbonne o traga a mim entre os dentes, morto ou vivo.
 - Mais me valeria ir oferec-lo ao Sr. de Mazarino, porque, acredite-me, antes de voc, o cardeal  seu primeiro inimigo.
 - Como se tem podido tolerar por tanto tempo que um mentiroso se, manifeste assim impunemente?
 - Ah! A tremenda fora de Cludio le Petit  que ele no mente nunca, e raramente se equivoca.
 Anglica abriu a boca para protestar, mas, recordando-se do Marqus de Vardes, calou-se, engolindo sua raiva e sua vergonha.
 
 CAPITULO XVII
 
 Nomeao dos juzes para o processo de Peyrac
 
 Alguns dias antes do Natal, a neve comeou a cair. A cidade vestiu suas roupas de festa. Nas igrejas personagens da Natividade reencontravam seus lugares, o Menino 
Jesus entre o boi e o jumento.
 Os estandartes das confrarias continuavam puxando pelas ruas cobertas de neve e lama suas grandes procisses cantantes.
 Segundo a tradio, os agostinianos do Htel-Dieu puseram-se a fabricar milhares de filhoses, temperados com suco de limo, que uma multido de garotos saa vendendo 
por toda Paris. S com tais filhoses se podia quebrar o jejum, e o dinheiro proveniente, de sua venda ajudava a celebrar o Natal dos pobres enfermos.
 Simultaneamente, os acontecimentos se precipitaram para Anglica. Arrastada nos lgubres meandros do espantoso processo, a custo percebeu que se estavam vivendo 
as horas benditas do Natal e os primeiros dias do Ano-Novo.
 Para comear, Desgrez veio v-la certa manh no Temple e transmitiu-lhe as notcias que tinha podido obter acerca da nomeao dos juzes-jurados do processo.
 - A nomeao dos juzes foi precedida de longa pesquisa. No devemos ter iluses, porque parece terem sido escolhidos no pelo seu esprito de justia, mas pelo 
grau de adeso  causa do rei. Alm disso, deixaram de lado alguns que, embora leais ao rei, sabe-se terem bastante coragem para eventualmente opor-se  presso 
real. Como, por exemplo, Matre Gallemand, que  um dos advogados mais clebres de nosso tempo e cuja situao  muito segura, pois, durante a Fronda, tomou resolutamente 
o partido da causa real, com perigo mesmo de ser preso. Mas  um lutador que no teme ningum, e suas tiradas imprevistas fazem tremer o palcio. Esperei durante 
muito tempo que o escolhessem, mas decididamente no querem seno pessoas em quem possam confiar.
 - Era de prever, depois do que cheguei a compreender ultimamente - disse Anglica com coragem. - Sabe os nomes de alguns que j estejam designados?
 - O Presidente Sguier, primeiro presidente, far pessoalmente o interrogatrio para cumprir as formalidades judicirias e revestir o processo de um grande brilho 
para exemplo e publicidade.
 - O Presidente Sguier! E mais do que eu me atrevia a esperar.
 - No nos iludamos - disse o advogado. - O Presidente Sguier paga suas altas funes com o preo da sua independncia moral. Tambm ouvi dizer que ele visitou 
o prisioneiro, e que a entrevista foi tempestuosa. O conde negou-se a prestar juramento, porque a Cmara de Justia , a seus olhos, disse ele, incompetente para 
julgar um membro do Parlamento de Toulouse, e s a Grande Cmara do Parlamento de Paris poderia julgar um antigo relator de peties de um parlamento provincial.
 - No dizia que a soluo parlamentar no era tambm desejvel, por causa da submisso dos parlamentares ao Sr. Fouquet?
 - Certamente, senhora, e procurei advertir disso seu marido. Mas, ou porque meu aviso no lhe chegou s mos, ou porque seu orgulho se ope a receber conselhos, 
s posso repetir-lhe a resposta que deu ao grand-maitre da justia do rei.
 - E que resultou disso? - perguntou ansiosamente Anglica.
 - Suponho que o rei decidiu passar por cima do costume e que seu marido ser julgado de qualquer maneira, se necessrio at "como mudo".
 - Que quer dizer isso?
 O advogado explicou que isso consistia em julg-lo como um ausente, "por contumcia", e que, nesse caso, a situao se se agravaria, porque na Frana sempre se 
presumia culpado o ru, enquanto na Inglaterra, por exemplo, o promotor pblico tinha de apresentar as provas da culpabilidade de toda pessoa detida, a qual,  falta 
de uma acusao por escrito, ficava em liberdade depois de vinte e quatro horas.
 - Sabe-se quem ser o futuro promotor do processo?
 - So dois. Primeiro, Dionsio Talon, advogado-geral do prprio rei, e, como eu previ, seu cunhado Fallot de Sanc, nomeado juiz. Este ltimo fingiu renunciar, 
alegando um lao de parentesco convosco, mas deve ter sido convencido por Talon ou outros, porque nos corredores do Palcio da Justia se diz que foi muito astuto 
em escolher entre seus deveres de famlia e sua lealdade ao rei, a quem tudo deve.
 Anglica engoliu a saliva e seu rosto se contraiu. Mas dominou-se e quis saber o resto.
 - H tambm Massenau, um parlamentar de Toulouse.
 - Sem dvida tambm esse obedecer a qualquer ordem do rei e, sobretudo, querer vingar-se de um nobre insolente...
 - Eu o ignoro, senhora, embora seja possvel, j que Massenau foi designado nominalmente pelo rei. No entanto, recordo que h poucos dias teve ele uma conversa 
com a Grande Mademoiselle sobre o caso de seu marido, conversa da qual parece resultar que ele no seria totalmente hostil ao Sr. De Peyrac e em que lamentava muitssimo 
que o tivessem nomeado.
 Anglica fez um esforo de memria.
 - A Duquesa de Montpensier me disse, realmente, qualquer coisa nesse sentido. Pensando bem, no me parece possvel tal atitude favorvel, porque eu ouvi Massenau 
injuriar meu marido e meu marido responder-lhe no mesmo tom.
 - Circunstncia que, sem sombra de dvida, motivou sua designao nominal pelo rei. Porque ele e o advogado-geral so os nicos nomeados. Os outros so escolhidos 
por Sguier ou pelo prprio Talon.
 - Haver, ento, ainda mais juzes-jurados?
 - Haver o presidente dos jurados. Falaram-me do Presidente Mesmon, mas eu estranho isso.  um ancio que tem apenas um sopro de vida. No consigo v-lo presidindo 
um debate que provavelmente ser tempestuoso. Talvez o tenham escolhido por sua debilidade fsica, pois sabe-se que  homem justo e consciencioso. Se puder encontrar 
foras para esse processo,  um dos que podemos esperar convencer.
 Desgraz prosseguiu:
 - Tambm haver Bouri, secretrio do Conselho de Justia, que tem reputao de falsrio, e um tal Delmas, homem da lei muito obscuro, que  talvez escolhido por 
ser tio de Colbert, agente de Mazarino, ou talvez tambm simplesmente por ser protestante e o rei desejar dar todas as aparncias legais  sua justia e conservar 
a reputao de fazer a religio reformada participar em p de igualdade na distribuio da justia secular do reino...
 - Suponho - disse Anglica - que esse huguenote vai surpreender-se de se achar envolvido num processo de bruxaria, no qual se tratar de exorcismo e de possesso 
diablica. Mas afinal de contas no nos ser proveitoso haver entre os jurados um esprito talvez mais penetrante e que rejeita incontinenti qualquer superstio?
 - Sem dvida - disse o advogado, movendo a cabea preocupado. - A propsito do exorcismo e possesso, diga-me se conhece um monge chamado Conan Bcher e uma freira 
que, antes de vestir o hbito, se chamava Carmencita de Mrecourt.
 - Se os conheo! - exclamou Anglica. - Esse monge Bcher  um alquimista meio louco, que jurou arrancar a meu marido o segredo da pedra filosofal. Quanto a Carmencita 
de Mrecourt,  uma pessoa vulcnica que foi outrora... amante de Joffrey e no lhe perdoa que j o no seja. Mas, que tm eles que ver com esta histria?
 - Trata-se de uma sesso de exorcismo que, segundo dizem, Bcher presidiu e na qual tomou parte essa senhora.  tudo muito vago. O documento acaba de ser anexado 
ao dossi da acusao e constitui, parece, uma prova de capital importncia.
 - Voc chegou a l-lo?
 - No li nada do enorme dossi em que trabalha ativamente o Conselheiro Bouri. Creio que no ter escrpulos em utilizar seus dotes de falsrio.
 - Mas, afinal, j que se vai realizar o processo, como advogado do acusado voc deve conhecer os detalhes dos outros atos de acusao.
 - Infelizmente, no! E j me disseram vrias vezes que ser recusada a seu marido a assistncia de um advogado. De maneira que eu agora me ocupo sobretudo em obter 
uma declarao escrita dessa negativa.
 - Mas voc est louco!
 - Nada disso. A rotina judicial estabelece que no se pode recusar a assistncia de advogado seno a uma pessoa acusada do crime de lesa-majestade. E, como a existncia 
de semelhante crime , da mesma forma, difcil de sustentar no caso de que nos estamos ocupando, se eu conseguir essa declarao escrita de que se lhe recusa um 
advogado, posso alegar uma falha no processo, o que me dar imediatamente uma forte posio moral. Finalmente, creio que, por meio desse estratagema, poderei obrigar 
essa gente a nomear-me defensor.
 Quando Desgrez voltou, passados dois dias, tinha pela primeira vez um ar de satisfao que fez saltar de esperana o corao de Anglica.
 -        O truque produziu efeito - exclamou exultante. - O prirneiro presidente da Cmara de Justia, Sguier, acaba de designar-me advogado de defesa do Sr. Peyrac, 
acusado de bruxaria.  uma vitria obtida graas  chicana. Malgrado seu desejo cego de comprazer ao rei, esses altos lacaios da justia encontraram-se muito em 
desacordo com seus prprios princpios. Em resumo, viram-se obrigados a nomear um advogado. No entanto, eu lhe advirto, senhora, de que ainda tem tempo de escolher 
um advogado mais clebre para lhe entregar a causa de seu esposo.
 Anglica olhava pela janela. O recinto estava quase deserto e como adormecido sob o lenol de neve. A Sra. Scarron passou, envolta no seu velho casaco, para ir 
 missa na capela do gro-prior. Os sons de um pequeno sino eram abalados sob o cu cinzendo.
 Junto  casa, Sorbonne girava melancolicamente sobre si mesmo, esperando seu dono.
 Anglica lanou um olhar de esguelha ao advogado, que assumia um ar grave e afetado.
 -        No vejo ningum mais qualificado a quem possa confiar esta causa que tem tanta importncia para mim - disse ela. - Voc preenche todas as condies desejveis. 
Quando meu cunhado Falot o recomendou a mim, ele me disse: " um dos mais hbeis espritos da magistratura, e, alm disso, no lhe custar muito caro".
 -        Agradeo-lhe a boa opinio que tem a meu respeito, senhora - disse Desgrez, que no pareceu aborrecer-se de maneira alguma.
 Anglica, maquinalmente, desenhava com o dedo sobre o vidro embaado. "Quando eu voltar a Toulouse com Joffrey", pensou ela, "recordar-me-ei ainda do advogado Desgrez! 
As vezes recordarei que estivemos juntos nos banhos e isso me parecer incrvel!..."
 De repente ela se voltou, transfigurada.
 -        Se compreendi bem, voc poder ver meu marido todos os dias. No poderia levar-me?
 Mas Desgrez a dissuadiu do intento de forar as severssimas ordens de segredo absoluto aplicadas ao prisioneiro. Ainda no estava certo de ser-lhe, a ele prprio, 
permitido v-lo, mas estava decidido a batalhar para logr-lo por intermdio da Ordem dos Advogados, que se compunha de sessenta e cinco membros ao todo, alm dos 
advogados parlamentares, dos do Conselho do rei, dos das Cmaras de Justia, e da Cmara de Auxiliares, da qual fazia parte o prprio Desgrez. Explicou que, por 
pertencer a este ultimo organismo, pouco brilhante, tinha talvez mais probabilidades de xito que um advogado de grande renome, do qual desconfiariam os poderosos. 
Agora era preciso agir muito depressa, pois, como sua designao para defensor havia sido arrancada por meio de astcia  justia real, era de esperar que lhe mostrassem 
o dossi da acusao muito pouco tempo antes do processo, e talvez somente em parte.
 -        Neste gnero de processos, sei que os documentos so, muitas vezes, folhas soltas, e que o ministro da Justia, o Cardeal Mazarino ou o rei se reservam 
o direito de examin-los e retir-los a qualquer momento, e at de juntar outros. Certamente no se faz isso de maneira ordinria, mas, como este assunto  um tanto 
especial...
 Apesar destas ltimas palavras decepcionantes, Anglica cantarolava, aquela noite, ao preparar a sopa de Florimond, e at chegou a achar saboroso o pedao de baleia 
da viva Cordeau. Os meninos do Htel-Dieu haviam passado, naquele dia, pelo recinto e ela provara os excelentes filhoses; seu apetite satisfeito ajudava-a a enxergar 
o porvir com mais sorridentes cores.
 Sua confiana foi recompensada. Na tarde seguinte, o advogado voltou com duas notcias extraordinrias: haviam-lhe mostrado parte do dossi e ele tinha obtido autorizao 
para ver o prisioneiro.
 Ouvindo isso, Anglica se precipitou para Desgrez, lanou-lhe os braos ao pescoo e beijou-o com mpeto. Durante um segundo sentiu o amplexo de um par de braos 
vigorosos e experimentou um prazer breve e intenso. Retrocedeu confusa e murmurou, enxugando os olhos marejados de lgrimas, que no sabia o que fazia.
 Com muito tato, Desgrez pareceu no dar nenhuma importncia ao incidente.
 Disse que sua visita  Bastilha teria lugar no dia seguinte por volta do meio-dia. S podia falar com o prisioneiro na presena do governador, mas esperava poder 
mais tarde conferenciar cora o Conde de Peyrac a ss.
 -        Eu irei com voc - decidiu Anglica. - Esperarei diante da priso. Sinto que seria incapaz de ficar aqui tranquilamente encerrada durante esse tempo.
 O advogado falou depois das peas do processo das quais tinha tido conhecimento. De uma bolsa de pelcia surrada tirou algumas folhas em que anotara os principais 
artigos de acusao.
 -        Ele  essencialmente acusado de bruxaria e malefcios. Declarado como perito em venenos e destilador de drogas. Ru convicto de fatos mgicos tais como 
o conhecimento do futuro e dos meios de recorrer a bruxarias para impedir os efeitos dos venenos. Diz-se que descobriu por meio de sortilgios a arte de fascinar 
muitas pessoas consideradas ss de esprito e de transmitir "a invocao diablica e ridcula", isto , o sortilgio e o encantamento, a outras pessoas de sua escolha... 
Tambm  acusado de ensinar o uso de ps e de flores para se fazer amar, etc. A acusao afirma que uma de suas... antigas amantes est morta e que desenterrado 
o seu cadver, descobriram-lhe na boca o retrato-talism do Conde de Peyrac...
 - Que amontoado de sandices! - exclamou Anglica estupefada. - Certamente voc no pretender que juzes respeitveis se ocupem dessas baboseiras em plena audincia.
 - Provavelmente sim, e, de minha parte, felicito-me do excesso de tais bobagens, pois me ser mais fcil demoli-las. O prosseguimento da acusao abrange o crime 
de alquimia, a busca de tesouros, a transmutao do ouro e - atende bem! - "a pretenso hertica de haver criado a vida". Podia esclarecer-me, senhora, o que isso 
pode significar?
 Desamparada, Anglica refletiu longamente e acabou por colocar a mo sobre o ventre, onde se agitava seu segundo filho.
 -        Pensa que  a isto que fazem aluso? - perguntou rindo.
O advogado fez um gesto dubidativo e resignado. E continuou a leitura.
 - "... Aumentou seus bens por meio de bruxaria, sem negligenciar a transmutao, etc." E, por fim, isto: "... exigia direitos que no lhe eram devidos. Vangloriava-se 
abertamente de ser independente do rei e dos prncipes. Recebia estrangeiros hereges e suspeitos, e servia-se de livros proibidos provenientes de pases estrangeiros". 
Agora - continuou Desgrez com certa hesitao -, chego  pea deste dossi que me pareceu mais inquietante e mais assombrosa. Trata-se de um ato de exorcismo praticado 
sobre a pessoa de seu marido por trs eclesisticos, os quais declararam que ele fora convicto de possesso certa e de trato com o Diabo.
 - Mas isso  inconcebvel! - exclamou Anglica, que sentiu um suor frio molhar-lhe as tmporas. - Quem so esses sacerdotes?
 - Um deles  o monge Bcher, do qual lhe falei h dias. Ignoro se ele pde penetrar na Bastilha como representante do juiz eclesistico. Mas o que  certo  que 
a cerimnia realmente foi efetua-a e que as testemunhas afirmam que todas as reaes do conde provam de maneira eloquente suas relaes com Satans.
 -  inconcebvel! - repetiu Anglica. - Voc, pelo menos, voc no acredita no ? ~- Eu sou um incru, senhora. No acredito em Deus nem no Diabo.
 -        Cale-se - balbuciou ela benzendo-se precipitadamente.
Gorreu para Florimond e abraou-o.
 -        Voc ouve o que ele diz, meu anjo? - murmurou ela. - Oh! Os homens so loucos.
 Aps um instante de silncio, Desgrez aproximou-se de Anglica.
 - No se alarme - disse -, existe certamente algo de suspeito em tudo isso, e  o que precisamos descobrir a tempo. Mas insisto no fato de que esta pea  muito 
inquietante, porque  ela talvez que mais impressionar os juzes. O exorcismo foi executado de acordo com os ritos do juiz eclesistico de Roma. As reaes do acusado 
so acabrunhadoras para ele. Notei em particular a rea-o aos sinais diablicos e o encantamento sobre outrem.
 - Que  isso exatamente?
 - Quanto aos sinais diablicos, os demonlogos assinalam que certos pontos do corpo de um possesso se tornam sensveis ao toque de um puno de prata previamente 
exorcismado. Ora, no decurso dessa prova, as testemunhas constataram os gritos espantosos e "verdadeiramente infernais" que o acusado lanou em certos momentos, 
enquanto, um homem comum no pode em nada ser incomodado pelo leve toque desse instrumento inofensivo. Quanto ao encantamento sobre outrem, trouxeram uma pessoa 
 sua presena e ela manifestou todos os sinais conhecidos da possesso.
 - Se  de Carmencita que se trata, estou certa de que ter desempenhado muito bem seu papel de comediante - disse Anglica sarcasticamente.
 -  provvel que se trate dessa religiosa, mas seu nome no foi mencionado. De qualquer maneira, eu lhe repito, h em tudo isso algo suspeito. No entanto, como 
prevejo que os juzes-jurados se referiro a esse fato repetidas vezes, preciso poder demoli-lo. Infelizmente, at agora nada encontrei que o possa tornar ilegal.
 - Talvez meu marido lhe possa esclarecer.
 - Esperemo-lo - suspirou o advogado.
 
 CAPTULO XVIII
 
 O conde vtima de uma cena de exorcismo - Ruptura entre Roma e Lus XIV
 
 Com seu brilhante revestimento de neve, a enorme fortaleza da Bastilha parecia ainda mais sinistra e mais negra. Sob o cu baixo, elevavam-se, da plataforma das 
torres, delgadas espirais de fumaa cinzenta. Sem dvida tinham acendido fogo na casa do governador e nos aposentos do corpo da guarda, mas Anglica imaginava facilmente 
a umidade glacial dos calabouos em que os prisioneiros "esquecidos" se encarquilhavam sobre a palha mida.
 Desgrez a tinha deixado, at seu regresso, em uma pequena taberna do Faubourg Saint-Antoine, cujo proprietrio e principalmente a filha deste pareciam seus amigos.
 Do seu posto de observao junto  janela, Anglica podia ver tudo sem ser notada. Via muito claramente os soldados do bastio avanado, que sopravam os dedos batendo 
com as solas em torno dos canhes. s vezes, algum de seus camaradas os chamavam do alto das ameias, e suas vozes sonoras ecoavam no ar gelado.
 - Finalmente, Anglica viu Desgrez, que, havendo atravessado a ponte levadia, voltava para ela. Seu corao comeou a pulsar com apreenso maldefinida.
 Pareceu-lhe que o advogado caminhava de modo estranho e que a expresso de seu rosto tambm era estranha. Desgrez procurou sorrir e falou muito depressa e num tom 
que pareceu a Anglica falsamente alegre. Disse que tinha conseguido sem grande dificuldade ver o Sr. de Peyrac e que o governador os tinha deixado a sos durante 
alguns instantes. Haviam-se posto de acordo em que desgrez fizesse a sua defesa.
 O conde, a princpio, no queria advogado, achando que aceit-
 lo era aceitar implicitamente a deciso de ser julgado perante um tribunal ordinrio, e no, como ele pedia, pela corte parlamentar. Ele queria defender-se sozinho, 
mas, depois de alguns instantes de conversao, aceitou a assistncia que se lhe oferecia.
 -        Surpreende-me que um homem to suspicaz tenha cedido to facilmente - disse Anglica, admirada. - Esperava que voc tivesse de travar uma verdadeira batalha. 
Porque, voc sabe, no h ningum como ele para encontrar argumentos lgicos com que defender sua opinio!
 O advogado franziu a testa como se tivesse forte enxaqueca, e pediu  filha do taberneiro que lhe trouxesse um pouco de cerveja. Afinal ele disse:
 - Seu marido cedeu logo  vista da sua carta.
 - Ele a leu? Ficou feliz?
 - Eu a li para ele.
 - Por qu? Ele...? Interrompeu-se e murmurou angustiada:
 -        Quer dizer que ele no estava em condies de l-la? Por qu? Ele est doente? Fale! Tenho o direito de saber.
 Inconscientemente, ela havia agarrado ao pulso do jovem causdico e enterrava-lhe as unhas na carne. Desgrez esperou que a moa que o servia se afastasse.
 -        Tenha coragem - disse com piedade que no era fingida. - Afinal de contas,  melhor que o saiba. O governador da Bastilha no me escondeu que o Conde de 
Peyrac fora submetido  questo preliminar.
 Anglica ia ficando lvida.
 - Que lhe fizeram? Acabaram por quebrar-lhe os pobres membros?
 - No. Mas  verdade que a tortura dos borzeguins e do potro o enfraqueceram demasiado, e desde ento  obrigado a permane-1 cer deitado. No entanto, isso no  
o pior. Aproveitando a ausn-l cia do governador, ele pde dar-me alguns detalhes sobre a sesso I de exorcismo da qual foi vtima por parte do monge Bcher. Afir-I 
mou que o puno de que o monge se serviu para uma das provas I estava preparado de maneira que podia enterrar-lhe, por instan-j tes, uma longa agulha nas carnes. 
Inopinadamente surpreendia" I por um sofrimento atroz, no pde deixar de lanar varias veztfl um grito de dor que foi interpretado muito desfavoravelmente pel#l 
testemunhas. Quanto  religiosa possessa, ele no a reconhecei! formalmente, porque estava meio desmaiado.
 - Ele sofre? Ser que se desespera?
 -        Ele tem muita coragem, embora esteja exausto e tenha sofri
do mais de trinta interrogatrios.
 Depois de ter ficado pensativo durante alguns momentos, Des-grez acrescentou:
 - Ser que devo confess-lo? Seu aspecto surpreendeu-me no primeiro instante. Eu no podia imaginar que voc fosse a mulher daquele homem. Mas depois das primeiras 
palavras trocadas, quando seus olhos brilhantes se fixaram sobre os meus, compreendi perfeitamente... Ah! Ia-me esquecendo! O Conde de Peyrac me encarregou de um 
recado para seu filho Florimond. Ele o avisa de que, quando voltar, lhe trar, para distra-lo, duas aranhas que ensinou a danar.
 - Que nojo! Espero que Florimond no lhes toque - disse Anglica, que fazia os maiores esforos para no prorromper em soluos.
 - Agora vemos mais claro - declarou o reverendo Padre de Sanc depois de ouvir o relato que lhe fizera o advogado sobre os ltimos acontecimentos. - Em sua opinio, 
maitre, a acusao se limitar aos atos ditos de bruxaria e se apoiar no auto lavrado pelo monge Bcher?
 - Estou convencido disso, porque alguns rumores sobre a suposta traio do Conde de Peyrac contra o rei foram considerados sem fundamento. Em desespero de causa, 
voltam  primitiva acusao:  urn feiticeiro que esse tribunal civil pretende julgar.
 - Perfeito!  preciso ento convencer os juzes, por um lado, de que nada existe de sobrenatural nos trabalhos de minerao a que se entregava meu cunhado, e para 
isso voc precisa obter os testemunhos dos obreiros com quem ele operava. Por outro lado,  importante reduzir a nada o valor do exorcismo sobre o qual a acusao 
pensa em apoiar-se.
 - Teramos a partida ganha se os juzes, todos eles crentes, pudessem ser convencidos de que se trata de um falso exorcismo.
 - Ns o ajudaremos a prov-lo.
 Raimundo de Sanc bateu com a palma da mo na mesa do locutrio e voltou para o advogado seu fino rosto cor de mate. Aquele gesto e aqueles olhos semicerrados transformavam-no 
subitamente no av De Ridou. Anglica ficou emocionada e seu corao se aquecia ao sentir estender-se sobre seu lar ameaado a sombra Ptotetora de Monteloup.
 -        Porque h uma coisa que o senhor no sabe, senhor advogado --- escandiu o jesuta com voz firme -, como tambm a ignoraram muitos prncipes da Igreja da 
Frana, cuja educao religiosa   na verdade, s vezes, mais deficiente que a de um pobre cura de aldeia. Pois bem, sabia que na Frana no exite seno um homem 
que, por determinao do papa, est autorizado a julgar os casos de possesso e as manifestaes de Satans. Este homem faz parte da Companhia de Jesus. Somente 
depois de uma vida prudente, de estudos profundos e ridos, foi que ele recebeu de Sua Santidade, o papa, o tremendo privilgio de conversar face a face com o Prncipe 
das Trevas. Matre Desgrez, estou certo de que o senhor persuadir cabalmente os juzes quando lhes ensinar que somente um auto de exorcismo assinado pelo reverendo 
Padre Kir-cher, grande exorcista da Frana, tem valor aos olhos da Igreja.
 - Realmente - exclamou Desgrez, muito agitado - confesso que suspeitava de alguma coisa desse gnero, mas esse monge B-cher agiu com habilidade infernal e conseguiu 
fazer-se acreditar pelo Cardeal de Gondi, Arcebispo de Paris. Denunciarei esta trapaa no processo religioso! - exclamou o advogado, que j se via no tribunal. - 
Denunciarei os sacerdotes sem mandato que, por um simulacro blasfematrio, procuraram ridicularizar a Igreja.
 - Tenha a pacincia de esperar-me alguns instantes - disse o Padre de Sanc levantando-se.
 Voltou pouco depois acompanhado de outro jesuta, que apresentou como sendo o Padre Kircher.
 Anglica ficou vivamente impressionada por avistar-se com o grande exorcista da Frana. No sabia ao certo o que esperava. Mas com certeza no tinha pensado em 
achar-se diante de um homem de aspecto to modesto. No fora pela sotaina negra, ornada ao peito por uma cruz de cobre, poder-se-ia tomar aquele grande jesuta pouco 
falador por um pacfico campons, e nunca por um religioso acostumado a conversar com o Diabo.
 Anglica sentiu que o prprio Desgrez, malgrado seu fundamental ceticismo, no deixava de sentir-se intrigado com a personalidade do recm-vindo.
 Raimundo disse que j tinha posto o Padre Kircher a par do assunto, e informou-o sobre os ltimos acontecimentos.
 O grande exorcista escutava com um sorriso tranquilizador.
 - A coisa me parece simples - disse ele afinal. - Tenho de realizar, por minha vez, um exorcismo em regra. A leitura que dele far o senhor na audincia, e que 
apoiarei com o meu testemunho, colocar, sem dvida, em uma situao espinhosa a conscincia desses senhores.
 - No  to simples - disse Desgrez coando vigorosamente a cabea. - Fazer-lhe penetrar na Bastilha, mesmo como capelo, e  para ver esse prisioneiro que est 
severamente vigiado, parece-me um problema...
 - Sobretudo porque  preciso que sejamos trs.
 - Por que isso?
 - O Demnio  demasiado hbil para que um s homem, mesmo fortalecido pelas oraes, possa provoc-lo impunemente. Para abeirar um homem que tem trato com o Diabo, 
preciso ser assistido pelo menos por dois de meus aclitos habituais.
 - Mas meu marido no tem trato com o Diabo! - protestou Anglica.
 Ela cobriu o rosto com as mos para dissimular um sbito ataque de riso. De tanto ouvir dizer que seu marido lidava com Satans, acabou por imaginar Joffrey de 
p diante do balco de uma loja, falando com o Demnio chifrudo e sorridente. Ah! Quando se encontrassem de novo em sua casa, em Toulouse, como ririam de todas aquelas 
bobagens! Imaginava-se sobre os joelhos de Joffrey, afundando os lbios na espessa cabeleira perfumada de violeta, enquanto as mos maravilhosas de Joffrey reencontrariam 
com prolongadas carcias o corpo que ele amava.
 Seu riso intempestivo acabou num breve soluo.
 -        Coragem, minha querida irm - disse Raimundo suavemente. - O nascimento de Cristo traz-nos a esperana: paz aos homens de boa vontade.
 Mas aquelas alternativas de esperana e desespero consumiam a jovem. Quando se transportava em pensamento ao ltimo Natal que havia passado entre as festas de Toulouse, 
sentia-se horrorizada diante do caminho percorrido.
 Um ano antes, teria podido ela imaginar que se encontraria, nessa noite de Natal, enquanto os sinos de Paris repicavam sob o cu cinzento, sem outro asilo que no 
fosse o lar da viva Cordeau? Junto  velha que fiava sua roca, e do aprendiz de verdugo que brincava inocentemente com o pequeno Florimond, ela s tinha animo de 
estender as mos para o fogo. Sentada ao seu lado no mesmo banco, a viva Scarron, tambm jovem e bela, tambm pobre e desventurada como ela prpria, passava s 
vezes, docemente, o brao em volta da cintura da companheira e estreitava-a na nsia friorenta de sentir outra carne contra sua carne solitria. , O velho vendedor 
de fazendas de senhoras, tambm perto do unico fogo da triste moradia, cochilava em uma poltrona estofada que tinha trazido de seu quarto. Murmurava dormindo e fazia 
somas, procurando obstinadamente as razes de sua falncia. Quando um estalo da lenha o acordava, ele sorria e exclamava com esforo:
 -        No nos esqueamos de que Jesus vai nascer. O mundo inteiro est contente. E se cantssemos um hino?
 E, para grande satisfao de Florimond, entoava com voz tremula, mas com fervor:
 ''ramos trs pastorinhas 
 s margens de um regato, 
 Guardando as ovelhinhas, 
 que pastavam pelo prado".
 Algum bateu  porta. Viu-se uma sombra negra que disse algumas palavras a Corda-ao-Pescoo.
 -        Procuram a Sra. Anglica - disse o rapaz.
 A jovem ergueu-se, supondo que fosse Desgrez. Na entrada viu um cavaleiro de botas, envolto numa grande capa e cujo chapu de feltro descido lhe ocultava o rosto.
 Era Raimundo.
 - Para onde voc vai? - perguntou surpresa.
 - Para Roma... No posso dar-lhe pormenores da misso de que fui incumbido, mas amanh mesmo todos sabero que as relaes entre a embaixada francesa e o Vaticano 
pioraram. O embaixador negou-se a acatar as ordens do Santo Padre, que pedia que somente o pessoal diplomtico fosse admitido no recinto da embaixada. E Lus XIV 
mandou dizer que responderia com a fora a quem quer que procurasse impor-lhe outras decises que no as suas. Estamos em vspera de uma ruptura entre a Igreja da 
Frana e o papado.  preciso, a qualquer custo, evitar essa catstrofe. Tenho de correr a toda a brida para Roma, a fim de procurar negociar um acordo e apaziguar 
os nimos.
 - Ento voc me deixa? - disse ela aterrada. - Voc tambm me abandona? E a carta para Joffrey?
 - Ah! minha pobre irm, receio muito que nestas condies qualquer pedido do Sumo Pontfice no seja bem acolhido por nosso monarca. Mas pode contar comigo para 
tratar deste caso durante minha estada em Roma. Toma, aqui tem algum dinheiro. E agora, escute: eu vi Desgrez h cerca de uma hora. Seu marido acaba de ser transferido 
para a priso do Palcio da Justia.
 - Que significa isso?
 - Que vai ser julgado brevemente. E isso no  tudo. Matre Desgrez espera poder introduzir no Palcio da Justia o Padre Kircher e seus aclitos. Esta noite mesmo 
devero ir ter com o prisioneiro. No duvido que a.prova seja decisiva. Tenha confiana!
 Ela ouviu com o corao gelado, incapaz de recobrar a esperana.
 O religioso, tomando-a pelos ombros delicados, atraiu-a para si e beijou-lhe fraternalmente as faces frias.
 -        Tenha confiana, minha querida irm - repetiu.
Anglica sentiu cada vez menos, abafado pelo tapete de neve,
 o passo dos dois cavalos, que, tendo franqueado a poterna docin-to, se afastavam do Temple:
 O advogado Desgrez habitava no Petit Pont, que liga a Cite ao quarteiro da universidade, numa dessas velhas casas de fachada estreita com empena aguda, cujos alicerces 
mergulhavam no Sena havia sculos, e que no desmoronavam apesar das inundaes.
 Anglica, louca de impacincia, acabou por decidir-se a ir  casa dele. Conseguira seu endereo com o taberneiro dos Trs Malhos.
 Ao chegar ao local que lhe haviam indicado, hesitou um pouco. A casa se parecia com Desgrez: pobre, desengonada, muito pouco arrogante.
 Subiu a escada em caracol, cujos corrimos de madeira podre estavam adornados de curiosas esculturas semelhantes a carrancas.
 No ltimo andar havia apenas uma porta. Ouviu farejar, por baixo dela, o co Sorbonne. Bateu.
 Uma jovem corpulenta, de rosto pintado, e cujo leno de pescoo formava uma nesga sobre um peito generoso, veio abrir.
 Anglica retrocedeu um pouco. Ela no tinha pensado nisso.
 - Que quer? - perguntou a outra.
 -  aqui que mora Matre Desgrez?
 Algum se moveu no interior, e apareceu o advogado com uma pena de ganso na mo.
 -        Entre, senhora - disse em tom muito natural.
Depois fez sair a moa e fechou a porta de novo.
 - No tem o mnimo de pacincia? - tornou ele, em tom de censura. - E preciso que me venha importunar em minha casa, arrscando-se a perder a vida?
 - No tinha nenhuma notcia desde...
  - H seis dias somente.
 -  Qual foi o resultado do exorcismo?
 -        Sente-se a - disse Desgrez sem a menor compaixo -, e deixe-me terminar o que estou escrevendo. Depois conversaremos.
 Anglica ocupou o assento que lhe fora indicado e que no era seno uma simples arca de madeira, destinada, sem dvida, a guardar roupas. Olhou em derredor e disse 
a si mesma que jamais tinha visto um alojamento to miservel. A luz penetrava nele por pe quenos vidros esverdeados, encaixilhados de chumbo. Na lareira, um fogo 
escasso no chegava a dissipar a umidade vinda do rio, que se ouvia correr mais abaixo, entre as estacas do Petit Pont. A um canto amontoavam-se livros no cho. 
Desgrez nem sequer tinha mesa. Sentado num escabelo, escrevia numa tbua colocada sobre os joelhos. O tinteiro estava no solo, a seus ps.
 -        O nico mvel importante era o leito, mas as cortinas de sarja azul e as cobertas estavam esburacadas. No entanto, s lenis eram  brancos, surrados, 
mas limpos. Contra a vontade dela, seus olhos se voltavam sem cessar para aquela cama revolta, cuja desordem traa abertamente a cena que devia ter-se desenrolado 
alguns momentos antes, entre o advogado e a jovem, to expeditamente afastada. Anglica sentiu que o sangue lhe subia s faces.
 Uma longa continncia, vivida entre as alternativas de esperana e desalento que lhe exasperavam os nervos, tornava-a sensvel quela evocao.
 Sentiu o desejo intenso de aconchegar-se a um peito masculino e tudo esquecer em um abrao exigente, um tanto brutal, como devia ser o do rapaz cuja pena rangia 
no silncio.
 Olhou-o. Absorto em seu trabalho, enrugava a fronte e movia j as negras sobrancelhas sob o esforo do pensamento.
 Ela sentiu um pouco de vergonha e, para dissimular a sua per-j turbao, acarinhou maquinalmente a grande cabea que o co di-j namarqus havia pousado sobre seus 
joelhos.
 - Uf! - exclamou Desgrez, levantando-se e espreguiando-se. - Em toda a minha vida nunca falei tanto de Deus e da Igreja. Sabe voc o que representam todas essas 
folhas que v esparsas sobre as lajes?
 - No.
 - A defesa que Matre Desgrez, advogado, pronunciar no processo do Sr. de Peyrac, acusado de feitiaria, processo cujo julga-l mento se realizar no Palcio da 
Justia, a 20 de janeiro de 1661.
 - Est marcada a data? - exclamou Anglica, empalidecendo. - Oh! No quero deixar de assistir. Disfarce-me de homem togado ou de monge.  verdade que estou grvida 
- disse, lhando-se com aborrecimento. - Mas mal se percebe. A Sra. Cordeau aftirma que terei uma menina, porque o beb est muito no alto. Posso passar por um escrivo 
que aprecia a boa mesa...
 Desgrez ps-se a rir.
 -        No sei se isso daria para desconfiar. Ocorre-me algo melhor. Algumas religiosas sero admitidas  audincia. Disfar-la-ei com touca e escapulrio.
 -  Desta vez eu me pergunto se a boa reputao das freiras no ser prejudicada pela minha obesidade.
 - Ora essa! Com um hbito folgado e um bom manto, no se notar. Mas, cuidado, posso contar com o seu sangue-frio?
 - Prometo-lhe que serei a mais discreta das ouvintes.
 - Ser um duro trabalho - disse Dsgrez. - No posso absolutamente prever como correro as coisas. Todo tribunal tem isto de bom:  sensvel a um depoimento sensacional 
feito diante dele. Tenho, pois, como reserva a demonstrao artesanal da fabricao do ouro, para reduzir a nada as acusaes de alquimia, e sobretudo o auto do 
Padre Kircher, nico acreditado pela Igreja e que declara que seu marido no apresenta nenhum sinal de possesso.
 -        Obrigada, meu Deus! - suspirou Anglica.
Estaria prximo o fim de suas provaes?
 -  Venceremos, no  verdade? Ele fez um gesto dubitativo.
 -        Vi esse Fritz Hauer que voc mandou chamar - disse ele aps um instante de silncio. - Chegou com todos os seus tachos e retortas. Impressionante o bom 
homem,  pena! Pouco importa! Escondo-o no convento dos cartuxos,, no Faubourg Sanit-Jacques. Quanto ao mouro, com quem j pude conversar introduzindo-me nas Tulherias 
sob o disfarce de um comerciante de vinagre, seu concurso nos est assegurado.  preciso que voc no fale do meu plano a ningum. Pode custar a vida a esses pobres 
homens.
E o xito depende de suas demonstraes.
 A recomendao pareceu suprflua * infeliz Anglica, que comeava a ter a boca seca de tanto recear e esperar.
 -        Vou acompanh-la - disse o advogado. - Paris  perigosa para voc. No deixe o Temple antes da manh do julgamento.
Uma religiosa ir busc-la com as vestes, e a acompanhar at o Palcio da Justia. Previno-a de que essa respeitvel freira  pouco amvel.  minha irm mais velha. 
Ela me educou,.e entrou para o convento quando viu que suas enrgicas admoestaes no me
tinham impedido de me afastar do bom caminho. Ela reza pela remisso dos meus pecados. Em uma palavra, ela faria fosse o que
rosse por mim. Pode confiar cegamente nela.
 Na rua, Desgrez tomou o brao de Anglica. Ela consentiu, feliz por aquele apoio.
 Quando chegaram  extremidade de Petit Pont, Sorbonne parou de repente e aguou as orelhas.
 A alguns passos, um grande atleta andrajoso, em atitude insolente, parecia esperar o casal. Sob seu chapu desbotado, a que estava presa uma pluma, entrevia-se 
um rosto marcado por um lo-binho violeta e atravessado pela faixa negra que lhe tapava um olho. O homem sorria.
 Sorbonn avanou para ele. O meliante deu um salto para o lado, com flexibilidade de acrobata, e enfiou-se pela porta de uma das casas do Petit Pont. O co correu 
atrs dele.
 Ouviu-se um "pluf" sonoro.
 - Maldito Calembredaine! - resmungou Desgrez. - Saltou ao Sena, apesar do gelo, e aposto que neste momento est escapulindo entre as estacas. H verdadeiros esconderijos 
de ratos sob todas as pontes de Paris. Ele  um dos mais audaciosos bandidos da cidade.
 Sorbonn voltou de orelhas murchas.
 Anglica procurou dominar seu temor, mas no podia defender-se contra uma angustiosa apreenso. Parecia-lhe que aquele miservel surgido de repente em seu caminho 
era smbolo de um destino espantoso.
 
 CAPITULO XIX
 
 Inicia-se o julgamento de Peyrac
 
 Comeava a clarear quando Anglica, em companhia da religiosa, atravessou o Pont au Change e se encontrou na ilha da Cite.
 O frio era insuportvel. O Sena arrastava grandes blocos de gelo, que faziam estalar sinistramente as estacas das velhas pontes de madeira.
 A neve cobria os telhados, orlava as cornijas das casas e fazia florescer como um ramo primaveril a flecha da Santa Capela, na mole compacta do Palcio da Justia.
 Se no fosse o piedoso difarce, Anglica teria pedido com prazer um copinho ao vendedor de aguardente. De nariz vermelho, corria este a despertar os bisonhos artesos, 
os pobres escreventes, os aprendizes, todos os que devem levantar-se primeiro para abrir a loja, a oficina ou o escritrio.
 Soaram as seis no grande relgio da torre da esquina. Seu incomparvel mostrador, com fundo azul e flores-de-lis de ouro, tinha sido, na poca do Rei Henrique III, 
uma estranha novidade. O relgio era a jia do palcio. Suas figurinhas de terracota colorida, sua pomba que representava o Esprito Santo e abrigava sob as asas 
a Piedade e a Justia, brilhavam na manh cinzenta com todos os seus esmaltes vermelhos, brancos e azuis.
 Depois de atravessar o grande ptio e subir alguns degraus, Anglica e sua companheira foram afinal abeiradas por um magistrado em quem Anglica reconheceu com 
assombro o advogado Desgrez. Ele assustou-a com sua ampla toga negra, sua volta imaculada e sua peruca de rolos brancos, cuidadosamente superpostos uns aos outros 
sob o barrete quadrado. Tinha na mo uma bolsa de processos nova e que parecia abarrotada de papis. Muito grave, disse-lhe que acabava de ver o prisioneiro no crcere 
do palcio.
 - Ele sabe que eu estarei na sala? - interrogou Anglica.
 - No! Correria o risco de se emocionar. E voc?... Promete-me no perder o sangue-frio?
 - Prometo.
 - Ele est... est em pssimas condies fsicas - disse Desgrez com voz alterada. - Torturaram-no odiosamente. Espero que os abusos flagrantes dos que instruram 
o processo possam impressionar os juzes. Voc ser forte, acontea o que acontecer?
 Com um aperto na garganta, Anglica inclinou afirmativamente a cabea.
 A entrada da sala, guardas do rei exigiram os passes assinados. Anglica no teve grande surpresa quando a religiosa apresentou um, murmurando ao mesmo tempo:
 -        Servio de Sua Eminncia o Cardeal Mazarino!
 Um meirinho encarregou-se imediatamente das duas freiras e conduziu-as ao centro de uma sala j cheia de gente, na qual as togas negras do pessoal da justia se 
misturavam com as batinas dos religiosos, padres seculares e monges.
 Alguns nobres ocupavam a segunda fila do hemiciclo. Entre eles Anglica no distinguiu nenhum conhecido. Era de presumir que os cortesos no tinham conseguido 
permisso para entrar, ou que ignoravam aquele processo a portas fechadas, ou, ainda, que no queriam comprometer-se.
 A Condessa de Payrac e sua acompanhante sentaram-se um pouco  parte, mas num lugar de onde podiam tudo ver e tudo ouvir, e Anglica ficou surpresa de se encontrar 
ao lado de um grupo de religiosas de diferentes ordens, que um capelo de alta categoria vigiava discretamente. Perguntou a si mesma o que estariam fazendo aquelas 
monjas num processo de alquimia e bruxaria.
 A sala, que devia pertencer a uma das partes mais antigas do Palcio da Justia, tinha profundas abbadas ogivais, cujos flores esculpidos deixavam pender suas 
massas de folhas de acanto. Estava escuro, por causa dos vitrais e algumas velas tornavam ainda mais lgubre o ambiente. Dois ou trs grandes foges alemes, de 
brilhante faiana, emitiam um pouco de calor.
 Anglica lamentou no ter perguntado a Desgrez se ele havia podido encontrar Kuassi-Ba e entender-se com o velho metalrgico saxo.
 Debalde procurou entre a multido rostos familiares.
 Nem o advogado, nem o prisioneiro, nem os jurados tinham chegado ainda. No entanto, a sala j estava repleta, e muitas pessoas, a despeito da hora matinal, atravancavam 
as passagens. Via-se que algumas tinham vindo ali como a um espetculo, ou antes como uma espcie de curso pblico de justia, pois, visivelmente a maior parte da 
assistncia era composta de jovens funcionrios da judicatura.
 Diante de Anglica havia um grupo particularmente ruidoso, em meio  reserva geral, o qual se entregava a comentrios feitos
 A meia voz, os quais, sem dvida, eram.destinados a instruir um auditrio prximo e ainda inexperiente.
 -  Que esto esperando ainda? - reclamava com impacincia um jovem magistrado de cabelos profusamente empoados.
 Seu vizinho, cuja cara redonda e cheia de espinhas mergulhava numa gola de pele, respondeu, bocejando:
 - Esperam que se fechem as portas da sala e que, em seguida, o ru seja introduzido e colocado no banquinho.
 - E aquele banco isolado l embaixo, que nem ao menos tem encosto?
 Um escrevente zombeteiro e sujo voltou-se para o grupo e protestou.
 - No haveriam de querer que se reservasse uma poltrona para um partidrio de Satans!
 - Ao que parece, um bruxo pode manter-se de p sobre um alfinete ou uma chama - disse o magistrado.
 Seu gordo companheiro interveio gravemente:
 - No lhe pediro tanto, mas ter de ficar de joelhos sobre aquele escabelo, sob um crucifixo colocado ao p da estante do presidente do jri.
 - E ainda muito luxo para semelhantes monstros! - exclamou o escrevente de cabelos imundos.
 Anglica estremeceu. Se o sentimento geral da multido, composta do escol da judicatura, j era to parcial e hostil, que podia esperar-se dos juzes cuidadosamente 
escolhidos pelo rei e seus servidores?
 Mas a voz grave do homem da gola de pele replicou:
 -        Para mim, tudo isso  pura invencionice. Esse homem  to feiticeiro como vocs ou eu, mas deve ter simplesmente transtor
nado alguma grossa intriga dos grandes, que quiseram ter um pretexto legal para suprimi-lo.
 Anglica inclinou-se um pouco para ver melhor o rosto daquele homem que ousava exprimir to abertamente uma opinio perigosa Ardia por perguntar-lhe seu nome. Sua 
companheira tocou-lhe levemente a mo para traz-la novamente a uma atitude discreta.
 O  vizinho do homem de gola de pele, depois de haver lanado Uum olhar em torno, murmurou:
 -  Se verdadeiramente os nobres quisessem suprimi-lo creio que no se dariam ao incmodo de instaurar um processo.
 -  preciso satisfazer ao povo e demonstrar de quando em quando que o rei tambm pune, s vezes, alguns poderosos.
 - Se sua hiptese de satisfazer a vindita pblica, como o fazia Nero outrora, fosse a verdadeira, Maitre Gallemand, ter-se-ia ordenado uma grande audincia pblica 
e no a portas fechadas - retorquiu impaciente o jovem.
 - V-se que voc  principiante nesta m profisso - disse o clebre advogado cujas tiradas, segundo Desgrez, faziam parte do Palcio da Justia. - Em uma sesso 
pblica, corre-se o risco de provocar verdadeiros motins, pois o povo  sentimental e no estpido como parece. Pois bem, o rei j  um perito em matria de processo 
e receia sobretudo que as coisas cheguem a passar-se como na Inglaterra, onde o povo soube pr a cabea de um rei sobre um cepo. Entre ns, suprimem calmamente e 
sem rudo os que tm ideias pessoais ou incomodas. Depois, oferecem seus restos ainda palpitantes como pasto aos mais baixos instintos da gentalha. Acusam-na de 
bestialidade. Os padres falam-lhe da necessidade de dominar suas tendncias mais vis, e, certamente, reza-se uma missa antes e outra depois.
 -        A Igreja nada tem a ver com tais excessos - protestou o capelo inclinando-se para os conversadores. - Far-lhes-ei mesmo observar, senhores, que muito 
amide leigos que ignoram as leis cannicas tm a pretenso de substituir-se  lei divina. E eu creio poder assegurar-lhes que a maior parte dos religiosos que aqui 
vem inquietam-se pelas incurses do poder civil no direito religioso. Eu, que acabo de chegar de Roma, vi o quarteiro de nossa embaixada no Vaticano transformar-se 
pouco a pouco em um refgio de todos os tratantes da pior espcie. O prprio Santo Padre no  dono de sua casa, pois o nosso rei, para caracterizar essa desavena, 
no vacilou em enviar tropas de reforo, efetivos militares franceses, com ordem de atirar sobre as tropas do papa se estas passassem  ao, isto , se se apoderassem 
dos bandidos e ladres italianos e suos refugiados na embaixada da Frana.
 - Mas toda embaixada deve ser inviolvel em territrio estrangeiro - sentenciou um velho burgus com ar prudente.
 - Sem dvida. No entanto, tampouco deve servir de asilo para toda a canalha de Roma e contribuir para solapar a unidade da Igreja.
 - Mas a prpria Igreja tambm no deve solapar a unidade do Estado da Frana, cujo defensor  o rei - replicou teimosamente o velho burgus.
 Os demais entreolharam-se e pareceram perguntar a si mesmos o que ele fazia ali. Quase todos assumiam uma atitude suspicaz, visivelmente lamentando haver pronunciado 
palavras ousadas diante de um desconhecido que podia ser um espio do Conselho de Sua Majestade. S Matre Gallemand, depois de encar-lo, replicou:
 -        Pois bem, senhor, vigie atentamente este processo. Ver nele sem dvida, um pequeno aspecto desse grande conflito muitoreal que j existe entre o rei e 
a Igreja de Roma.
 Anglica acompanhava com espanto aquela troca de palavras. Agora compreendia melhor as reticncias dos jesutas e o malogro da carta do papa, na qual durante muito 
tempo havia posto toda a sua esperana. Assim, o rei j no reconhecia nenhum senhor. No havia seno uma possibilidade para Joffrey de Peyrac: era que a conscincia 
dos juzes fosse mais forte que o seu servilismo.
 Um silncio enorme, caindo sobre o anfiteatro, trouxe a jovem  realidade. Seu corao deixou de pulsar.
 Ela acabava de ver Joffrey.
 Entrava o conde caminhando com dificuldade e apoiando-se em duas muletas. Sua coxeadura havia-se acentuado e a cada passo tinha-se a impresso de que ele ia perder 
o equilbrio.
 Pareceu-lhe ao mesmo tempo muito alto e muito curvado, terrivelmente magro. Ela teve um choque tremendo. Depois dos longos meses de separao, que haviam esfumado 
em sua memria os contornos da querida silhueta, ela o revia com os olhos do pblico e, terrificada, descobria seu aspecto inslito e mesmo inquietador. A abundante 
cabeleira negra de Joffrey a emoldurar um rosto destroado, de uma palidez de espectro, e no qual as cicatrizes traavam sulcos vermelhos, suas roupas gastas, sua 
magreza, tudo contribua para impressionar a multido.
 Quando ergueu a fronte e lentamente correu os olhos negros e brilhantes pelo hemiciclo, com uma espcie de segurana zombeteira, a piedade que havia tocado alguns 
desapareceu e um murmrio hostil percorreu a assistncia. A viso sobrepujava o que haviam esperado. Era um verdadeiro bruxo!
 Ladeado pelos guardas, o Conde de Peyrac permaneceu de p diante do banquinho, sobre o qual no podia ajoelhar-se.
 Nesse momento, uns vinte guardas reais armados penetraram no recinto pelas duas portas e ficaram espalhados pela sala imensa. Ia iniciar-se o julgamento. Uma voz 
anunciou:
 -        Senhores, o tribunal!
 Todos os assistentes se levantaram e, pela porta do estrado, entraram os meirinhos-alabardeiros em uniforme do sculo XVI, com golinhas enrocadas e barretes emplumados. 
Precediam uma procisso de juzes de toga e colarinho de arminho, a cabea coberta com o barrete quadrado.
 O que entrou primeiro era bastante idoso, estava inteiramente vestido de negro, e Anglica teve dificuldade em reconhecer nele o Chanceler Sguier, a quem vira, 
to imponente, no desfile da entrada do rei em Paris. A personagem que o seguia era alta e seca, trajada de vermelho. Vinham depois seis homens de negro. Um deles 
trazia um mantelete vermelho. Era o Sieur Massenau, presidente do Parlamento de Toulouse, mais austeramente vestido do que no encontro do caminho de Salsigne.
 Diante de Anglica, Matre Gallemand comentava a meia voz:
 - O velho de preto que caminha na dianteira  Sguier, primeiro-presidente do tribunal. O homem de vermelho  Dionsio Talon, advogado-geral do Conselho do rei 
e acusador principal. O mantelete vermelho pertence a Massenau, um parlamentar de Toulouse e que foi nomeado, para este julgamento, presidente dos jurados. Entre 
estes, o mais jovem  o ProcuradorEallot, que se intitula Baro de Sanc e no hesita em insinuar-se nas boas graas da corte aceitando julgar o acusado, que se 
diz ser um de seus parentes prximos por afinidade.
 - Um caso corneliano, em suma - observou o rapazinho de cabelo empoado.
 - Meu amigo, vejo que, como todos os jovens frvolos de sua gerao, voc comparece a esses espetculos teatrais que um homem da lei que se respeite no poderia 
frequentar sem passar por um esprito leviano. Pois bem, escute-me: jamais ver melhor comdia que esta a que vai assistir agora mesmo...
 No burburinho, Anglica nada mais ouviu.   
 Gostaria de saber quem eram os outros juzes. Desgrez no tinha dito que eram tantos. Pouco importava o resto, pois ela no conhecia seno Massenau e Fallot.
 Onde estava seu advogado?
 Viu-o surgir pela mesma porta por onde haviam entrado os outros jurados. Seguiam-no diversos religiosos desconhecidos, dos quais a maior parte foi sentar-se na 
primeira fila dos espectadores oficiais, onde, evidentemente, lhes tinham reservado lugares.
 Anglica inquietou-se por no ter reconhecido entre eles o Padre Kircher. Mas o monge Bcher tampouco estava ali, e a jovem suspirou de alvio.
 Agora o silncio era total. Um dos religiosos pronunciou uma bno, depois aproximou o crucifixo do acusado, que o beijou e fez o sinal-da-cruz.
 Diante desse gesto de submisso e piedade, uma onda de decepo percorreu a sala. Iriam priv-la de um espetculo de magia e oferecer-lhe apenas o julgamento de 
uma querela entre gentis-homens?
 Uma voz aguda gritou:
 -        Mostre-nos as faanhas de Lcifer!
 Houve uma agitao nas filas. Os guardas atiraram-se sobre o espectador irreverente, e o rapaz, com alguns colegas seus, foi duramente agarrado e imediatamente 
levado para fora.
 Restabeleceu-se o silncio.
 -        Acusado, preste juramento! - disse o Presidente Sguier, enquanto desamarrotava um papel que um pequeno escremente de joelhos lhe estendera.
 Anglica fechou os olhos. Joffrey ia falar. Ela esperava que o timbre de sua voz se houvesse quebrado, enfraquecido, e sem dvida todos os espectadores esperavam 
o mesmo, pois, quando a voz profunda e lmpida se elevou, produziu-se um movimento de surpresa.
 Abalada at as entranhas, Anglica reconheceu a voz sedutora que, nas noites quentes de Toulouse, lhe tinha murmurado tantas palavras de amor.
 -        Juro dizer toda a verdade. No entanto, senhores, sei que a lei me autoriza a recusar a competncia deste tribunal, pois, como relator de peties e parlamentar 
que sou, considero que devo ser julgado pela grande corte do Parlamento...
 O grand-maitre da justia pareceu hesitar um pouco. Depois disse com certa precipitao:
 - A lei no autoriza um juramento restritivo: jure simplesmente, e o tribunal estar ento habilitado a julg-lo. Se no jurar, ser julgado por contumcia, como 
se estivesse ausente.
 - Vejo, senhor presidente, que as cartas esto marcadas. Pelo que, para facilitar sua tarefa, renuncio a tirar proveito das normas judicirias que me permitem recusar 
este tribunal no seu todo ou em parte. Confio, pois, em seu esprito de justia e confirmo o juramento.
 O velho Sguier no ocultou uma satisfao maliciosa.
 -        A corte apreciar em sua justa medida a limitada honra que parece tributar-lhe aceitando sua competncia. Antes do senhor, o prprio rei decidiu confiar 
em sua boa justia, e  isso o que importa. Quanto a vocs, senhores do tribunal, no percam de vista por um instante a confiana que Sua Majestade depositou nos 
senhores. Lembrem-se, senhores jurados, que tm a grande honra de representar aqui o gldio que nosso monarca empunha com suas mos augustas. Ora, existem duas justias: 
a que se aplica s aoes dos simples mortais, ainda quando sejam pessoas bem-nascidas, e a que se aplica s decises de um rei cujo ttulo procede do direito divino. 
Que a gravidade dessa origem no lhes escape, senhores. Ao julgar em nome do rei, arcam com a responsabilidade da sua grandeza. Mas tambm, ao honrar o rei, honraro 
o primeiro defensor da religio neste reino.
 Depois desse discurso bastante confuso, no qual sua natureza de demagogo parlamentar se conjugava com a de corteso para formular uma advertncia ambgua, Seguier 
retirou-se majestosamente, procurando dissimular seu apressuramento. Quando ele saiu, todos se sentaram. As velas que ainda ardiam sobre as estantes foram apagadas. 
Uma luz de cripta alumiava agora a sala e, quando o plido sol de inverno entrou pelas vidraas coloridas, os tons azuis e vermelhos modificaram subitamente o aspecto 
de alguns semblantes.
 Matre Gallemand, com a mo em concha sobre a boca, soprava a seus vizinhos:
 - O velho zorro no quer arcar com a responsabilidade de notificar o ato de acusao. Faz como Pncio Pilatos e, em caso de condenao, no hesitar em lanar a 
culpa sobre a Inquisio ou os jesutas.
 - Mas ele ho poder faz-lo, porque se trata de um processo secular.
 - Ora essa! A justia cortes deve estar s ordens do amo e ao mesmo tempo saber enganar o povo quanto aos seus motivos.
 Anglica ouvia essas conversaes sediciosas em um estado de semi-inconscincia. Por um momento pareceu-lhe que nada daquilo podia ser verdade. Estava sonhando 
acordada ou, talvez, assistindo a uma pea de teatro... Ela no tinha olhos seno para seu marido, que se mantinha de p, um pouco curvado e pesadamente apoiado 
nas duas muletas. Uma ideia ainda vaga comeava a se formar em seu esprito. "Eu o vingarei. Tudo o que esses torturadores lhe fizeram, eu o farei a eles, e se o 
Demnio existe, como ensina a religio, gostaria de ver Satans levar suas almas de falsos cristos."
 Aps a sada no muito dignificante do primeiro-presidente da corte, o Advogado-Geral Dionsio Talon, alto, seco e solene, subiu  tribuna e quebrou os selos de 
um grande envelope. Com voz acre comeou a ler o ato de acusao.
 -        O Sieur Joffrey Peyrac, j declarado destitudo de todos os seus ttulos e desapossado de todos os seus bens por um julgamento privado do Conselho do rei, 
foi enviado  nossa Corte de Justia para ser julgado por atos de bruxaria e sortilgios e outros atos ofensivos tanto  f religiosa como  segurana do Estado 
e da Igreja, por serem prticas de fabricao alqumica de metais preciosos.
 Por todos esses fatos e outros semelhantes que constam do dossi de acusao, solicito que ele e seus eventuais cmplices sejam queimados na Place de Greve, e suas 
cinzas espalhadas como se faz com os rus convictos de trato com o Demnio. Antecipadamente, solicito que a questo ordinria e extraordinria lhe seja aplicada 
para que revele seus cmplices..,
 O sangue latejava to precipitadamente nas orelhas de Anglica que o final da leitura no chegou at ela.
 Recuperou os sentidos quando a voz sonora do acusado se elevou pela segunda vez:
 -        Juro que tudo isso  falso e tendencioso, e que tenho meios de prov-lo aqui mesmo a todas as pessoas de boa f!
 O procurador do rei comprimiu seus finos lbios e dobrou o papel como se o resto da cerimnia no lhe dissesse respeito. Em seguida, esboou um movimento de retirada, 
quando o advogado Desgrez se ergueu e disse com voz de clarim:
 -        Senhores do tribunal, o rei e os senhores mesmos fizeram-me a grande honra de nomear-me defensor do acusado. Assim, antes da retirada do senhor procurador-geral, 
permitir-me-ei fazer uma pergunta: como  que este ato de acusao foi preparado de antemo e apresentado deste modo, j pronto e at selado, quando nada semelhante 
 previsto nas leis processuais?
 O severo Dionsio Talon olhou de alto a baixo o jovem advogado e disse com altivez desdenhosa:
 - Jovem maitre, vejo que, em sua pouca experincia, o senhor no se informou das vicissitudes desta procurao. Sabe que inicialmente no foi o Sr. Massenau quem 
esteve encarregado pelo rei de instruir e presidir este processo, mas o Presidente Mesmon...
 - A regra exigia, senhor alto conselheiro, que fosse o Presidente Mesmon que aqui estivesse para apresentar ele mesmo a acusao!
 - Ignora, ento, que o Presidente Mesmon morreu ontem repentinamente? No entanto, teve tempo de redigir o presente ato de acusao, que , por assim dizer, o seu 
testamento. Devem enxergar nisto, senhores, um belssimo exemplo do esprito do dever de um grande magistrado do reino.
 Toda a sala se ps de p para honrar a memria de Mesmon, mas ouviram-se alguns gritos entre a multido:
 -        Diabo de morte sbita!
 -        Assassinado com veneno!
 - Comea bem!
 Os guardas intervieram de novo.
 O Presidente Massenau tomou a palavra e lembrou que se tratava de um julgamento a portas fechadas.  menor manifestao faria sair da sala todos os que nada tivessem 
que desempenhar no julgamento.
 O auditrio se acalmou.
 O advogado Desgrez contentou-se com a explicao que lhe deram, j que era caso de fora maior. Acrescentou que aceitava os termos do ato de acusao, com a condio 
de que seu cliente fosse estritamente julgado sobre essa base.
 Depois de algumas palavras trocadas em voz baixa, chegou-se a um acordo.
 Dionsio Talon apresentou Massenau como presidente da Corte de Justia e saiu da sala majestosamente.
 O Presidente Massenau comeou imediatamente o interrogatrio.
 - Reconhece os feitos de bruxaria e sortilgios que lhe so atribudos?
 - Nego-os por junto!
 - No tem direito.  preciso responder a cada uma das perguntas que contm o dossi de acusao. Interessa-lhe, alis, muitssimo faz-lo assim, porque h alguns 
pontos que no podem ser negados em absoluto, e  melhor que convenha nisso, pois jurou dizer toda a verdade. Assim, reconhece haver fabricado venenos?
 - Reconheo ter fabricado s vezes produtos qumicos, alguns dos quais poderiam ser nocivos, se ingeridos. Mas nunca os destinei ao consumo, nem os vendi, nem deles 
me servi para envenenar quem quer que fosse.
 - Ento reconhece haver utilizado e fabricado venenos como o vitrolo verde e o vitrolo romano?
 - Perfeitamente. Mas, para que exista delito nesse fato, seria necessrio provar que efetivamente envenenei algum.
 - Por enquanto, basta-nos verificar que no nega ter fabricado produtos venenosos entregando-se  alquimia. Os fins, precis-los-emos mais tarde.
 Massenau inclinou-se sobre o grosso dossi colocado diante dele e comeou a folhe-lo. Anglica receou que ele formulasse em seguida a acusao de envenenamento. 
Lembrava-se de que Desgrez lhe havia falado de um tal Bouri, que tinha sido nomeado juiz-jurado no processo porque tinha a reputao de hbil fals-rio. Os juzes 
estavam a um tempo encarregados da instruo, das verificaes, das apreenses, dos interrogatrios e das pesquisas preliminares referentes ao caso.
 Anglica inclinou-se para ver se reconhecia Bouri entre os magistrados.
 Massenau continuava compulsando as folhas. Por fim, tossiu fracamente e pareceu tomar coragem.
 Comeou murmurando, mas sua voz se foi aclarando e acabou por tornar-se audvel.
 - ...Para demonstrar, se fosse necessrio, quo equitativa  a justia do rei e como sabe cercar-se de todas.as garantias de imparcialidade, e antes de prosseguir 
a enumerao das acusaes que cada um dos juzes comissrios do rei tem diante dos olhos, devo declarar e fazer saber quo difcil e semeada de ciladas foi nossa 
investigao preliminar.
 - E de intervenes em favor de um acusado nobre e rico! - disse uma voz zombeteira entre os assistentes.
 Anglica esperou que os oficiais de justia detivessem imediatamente o perturbador. Com grande surpresa viu um meirinho, postado perto, repreender com energia um 
oficial de polcia.
 "A polcia", pensou, "deve ter na sala pessoas pagas para provocar incidentes hostis a Joffrey."
 A voz do presidente prosseguiu como se ele nada tivesse ouvido:
 -        ...Para demonstrar, pois, a todos que a justia do rei no somente  imparcial, mas tambm generosa, aqui declaro que, dentre as numerosssimas peas de 
acusao apresentadas e recolhidas em diversos locais e cuidadosamente examinadas, tive, depois de maduras reflexes e debates comigo mesmo, de desprezar um grande 
nmero.
 Fez uma pausa, pareceu tomar flego e terminou com voz um tanto surda:
 -        Exatamente trinta e quatro peas foram por mim postas de lado como duvidosas e aparentemente falsificadas, provavelmente com a finalidade de vingana pessoal 
contra o acusado.
 A declarao foi recebida com um sussurro, no s no auditrio, mas tambm entre os juzes, que, sem dvida nenhuma, no esperavam semelhante gesto de coragem e 
benevolncia por parte do presidente do tribunal. Entre eles, um homenzinho de nariz adunco e ar matreiro no pde conter-se e exclamou:
 - A dignidade do tribunal e mais ainda sua soberania, na aplicao da justia, ficam achincalhadas se seu prprio presidente se considera livre de subtrair ao julgamento 
de cada um dos comissrios as peas de acusao que talvez sejam as principais...
 - Sr. Bouri, em minha qualidade de presidente, chamo  ordem e proponho-lhe que escolha entre sua prpria recusa de continuar como jurado e o prosseguimento da 
sesso.
 Elevou-se um alarido ensurdecedor.
 -        O presidente est vendido ao acusado. Sabemos o que  o ouro de Toulouse - uivava o espectador que antes tinha intervindo.
 O escrevente de cabelos sujos, que estava diante de Anglica, gritava:
 - Da nica vez que se entrega  justia por seus crimes um nobre e um rico...
 - Senhores, a sesso est suspensa e, se no puserem fim a essa desordem, farei evacuar a sala! - disse aos gritos o Presidente Massenau.
 Indignado, ps o barrete sobre a peruca e saiu, acompanhado pelos outros membros do tribunal.
 Anglica achou que todos aqueles juzes solenes pareciam marionetes que entravam, davam trs voltinhas e iam embora. Se ao menos no voltassem!...
 Os assistentes iam-se acalmando e esforavam-se por ser cordatos para que voltasse a corte e prosseguisse o espetaculo. Todos se puseram de p ao ouvir o bater 
das alabardas dos suos da guarda sobre as lajes, precendendo o regresso do tribunal.
 Em meio a um silncio religioso, Massenau voltou a ocupar seu posto.
 - Senhores, o incidente terminou. As peas que julguei suspeitas foram juntadas ao dossi, que cada um dos comissrios pode estudar  vontade. Assinalei-as com 
uma cruz vermelha, e assim cada jurado poder formar uma ideia pessoal sobre o meu julgamento.
 - Essas peas se referem sobretudo a fatos atentatrios s Sagradas Escrituras - declarou Bouri, dissimulando sua satisfao.  - Trata-se especialmente da fabricao, 
por processos alqumicos, de pigmeus e outros seres de essncia diablica.
 A multido bateu com os ps de alegria contida.
 -        Vamos ver as peas de convico? - gritou uma voz.
 O aparteante foi expulso imediatamente pelos guardas e a sesso continuou. O advogado Desgrez levantou-se ento:
 -        Como defensor do acusado - disse -, estou de acordo em que todas as peas de convico figurem no processo.
 O presidente reiniciou o interrogatrio.
 - Para acabar de uma vez com esta histria de venenos que reconhece haver fabricado, como  que, se no pensava em utiliz-los contra outras pessoas, se havia jactado 
publicamente de absorv-los todos os dias "para evitar a ameaa do veneno"?
 - E perfeitamente exato, e minha resposta de ento ainda hoje  vlida: gabo-me de que no podem envenenar-me nem com vitrolo nem com arsnico, porque j tomei 
deles suficientes quantidades para no sofrer nenhum mal no caso de quererem enviar-me para o outro mundo por esse meio.
 - E semelhante declarao de invulnerabilidade aos venenos ainda a mantm hoje?
 - Se no  necessrio seno isso para satisfazer o tribunal do rei, no vejo o menor inconveniente, como sdito fiel, em tragar diante dos senhores uma dessas drogas.
 - Ento, por esse mesmo fato, admite que tem um sortilgio contra todos os venenos.
 - No , absolutamente, um sortilgio;  a prpria base da cincia dos contravenenos. Sortilgio e bruxaria  utilizar a pedra-de-sapo e outras tolices inofensivas, 
como fazem quase todos vocs, senhores, nesta sala, pensando que isso os preserva dos venenos.
 - Acusado, faz muito mal em zombar de usos respeitveis. No entanto, no interesse da justia, que deseja se faa toda a luz, no me deterei em semelhantes pormenores. 
Somente considerarei, se assim o quiser, o fato de que se reconhece como perito em venenos.
 - No sou mais perito em venenos que em qualquer outra coisa. Alis, no estou imunizado seno contra certos venenos comuns, como os j citados: arsnico e vitrolo. 
Mas que  este conhecimento infinitamente pequeno comparado com o de todos os milhares de venenos vegetais e animais, venenos exticos, venenos florentinos ou chineses, 
que nenhum dos cirurgies do reino saberia combater nem mesmo descobrir?
 - E tem conhecimento de algum desses venenos?
 - Tenho flechas das que os ndios utilizam para a caa do biso. E tambm pontas de pequenas flechas usadas pelos pigmeus da frica, e cujo ferimento basta para 
matar animais to gigantescos como os elefantes.
 - Em suma, agrava sua prpria acusao de ser experto em venenos.
 - De modo algum, senhor presidente, mas explico-lhe isto para lhe provar que, se alguma vez eu houvesse tido a inteno de mandar para o outro mundo algumas pobres 
pessoas que me houvessem olhado de esguelha, no me teria dado ao trabalho de fabricar esses produtos de arsnico e vitrolo, to vulgares e fceis de reconhecer.
 - Ento, por que os fabrica?
 - Para fins cientficos e no decurso de experincias qumicas sobre minerais que s vezes exigem a formao desses produtos.
 - No desviemos o debate. E bastante convir espontaneamente em que  muito versado nesses assuntos de venenos e de alquimia. Assim  que, segundo o que diz, poderia 
fazer desaparecer qualquer pessoa sem que ningum pudesse ser sabedor nem confundir-se. Quem nos garante que j no o fez?
 - Seria preciso prov-lo!
 - Acusam-no de duas mortes suspeitas, mas, apresso-me em diz-lo, incidentalmente: a primeira  a morte do sobrinho de Monsenhor de Fontenac, Arcebispo de Toulouse.
 - Um duelo precedido de provocao e diante de testemunhas ter-se- convertido hoje em ato de bruxaria?
 - Sr. de Peyrac, aconselho-o a que no persista em sua atitude irnica para com um tribunal que no faz outra coisa seno procurar a verdade. Quanto  segunda morte 
que se lhe imputa, seria devida a seus venenos invisveis ou a sortilgios propriamente ditos. Sobre o cadver exumado de uma de suas antigas amantes, diante de 
testemunhas, encontrou-se este medalho que  seu retrato de meio corpo. O senhor o reconhece?
 Anglica pde ver o Presidente Massenau passar a um suo um pequeno objeto, que este apresentou ao Conde de Peyrac, que continuava de p, apoiado nas duas muletas, 
diante do banquinho que lhe era destinado.
 - Reconheo, com efeito, a miniatura que aquela pobre menina exaltada mandara fazer da minha pessoa.
 - Essa pobre exaltada, como diz, e que era tambm uma de suas to numerosas amantes, a senhorita de...
 Joffrey de Peyrac ergueu a mo num gesto imperativo.
 - Por piedade, no profane publicamente esse nome, senhor presidente. Essa infeliz morreu!
 - De uma enfermidade lenta, da qual se comea suspeitar que o senhor foi o autor e que teria provocado por meio de sortilgios.
 - Isso  falso, senhor presidente.
 - Por que ento se encontrou seu medalho na boca da morta e como que atravessado por um alfinete no lugar correspondente ao corao?
 - Ignoro-o absolutamente, mas, pelo que me diz, inclino-me bastante a supor que dever ter sido ela, muito supersticiosa, quem procurou encantar-me dessa maneira. 
Pelo que, de feiticeiro, passo a enfeitiado.  bastante divertido, senhor presidente.
 E aquele alto espectro, que mal podia manter-se de p, apoiado em suas muletas, ria a mais no poder.
 Aps alguma hesitao dos assistentes, estrondearam algumas gargalhadas.
 Mas Massenau continuava srio.
 -        Ignora, acusado, que o fato de se encontrar um medalho na boca de uma morta  indcio certo de encantamento?
 -        Ao que tudo indica, sou muito menos versado do que o senhor em matria de supersties, senhor presidente.
 O magistrado passou por cima da insinuao.
 - Jura, ento, que nunca as praticou?
 - Juro-o por minha mulher, por meu filho e pelo rei que nunca me entreguei a tal gnero de necedades, pelo menos como so compreendidas neste reino!
 - Explique-se sobre a restrio que acaba de fazer em seu juramento.
 - Quero dizer que, tendo viajado muito, fui testemunha, na China e nas ndias, de fenmenos estranhos que provam que a magia e a feitiaria existem realmente, mas 
no tm nenhuma relao com o charlatanismo praticado em geral com esse nome nos pases da Europa.
 - Em suma, reconhece que acredita nela?
 - Na verdadeira feitiaria, sim... A qual compreende, alis, bom nmero de fenmenos naturais que os sculos vindouros explicaro sem dvida. Mas, da a acreditar 
ingenuamente nos charlates de feira ou nos supostos sbios alquimistas...
 - O senhor mesmo vem, pois, a parar na alquimia! Segundo o senhor, existem, como no caso da bruxaria, a verdadeira e a falsa alquimia?
 - Sem dvida. Certos rabes e espanhis comeam a designar a verdadeira alquimia por um nome  parte, a qumica, que  uma cincia experimental, onde todas as trocas 
de substncias podem ser reproduzidas e so independentes do operador, sob a condio,  certo, de que este aprenda seu ofcio. Mas um alquimista convencido, em 
compensao,  pior que um feiticeiro!
 - Muito me agrada ouvir-lhe diz-lo, porque assim facilita a tarefa do tribunal. Mas, segundo o senhor, que pode haver pior que um feiticeiro?
 -        ...Um nscio e um iluminado, senhor presidente.
 Pela primeira-vez naquela audincia solene, o Presidente Massenau pareceu perder o domnio de si mesmo.
 -        Acusado, adjuro-o a que no perca o respeito, que o seu prprio interesse, alis, requer. J basta que em seu juramento, h pouco, tenha cometido a insolncia 
de invocar o nome de Sua Majestade, nosso rei, depois dos nomes de sua mulher e de seu filho. Se continuar demonstrando tanta arrogncia, o tribunal pode negar-se 
a ouvir-vos...
 Anglica viu o advogado aproximar-se rapidamente de seu mando, tentando dizer-lhe algo, sendo impedido pelos guardas. Viu tambm a interveno de Massenau, que 
procurava deixar plena "berdade ao advogado para assegurar seu trabalho de defensor.
 -        Longe de mim a inteno, senhor presidente, de procurar com minhas palavras aludir a sua pessoa ou qualquer outro dos senhores que formam o tribunal - 
disse o Conde de Peyrac quando o sussurro acalmou um pouco. - Como cientista, combato aqueles que praticam essa cincia nefasta a que se d o nome de alquimia, e 
no creio que nenhum dos senhores, assoberbado de preocupaes to srias, a elas se entregue em segredo...
 Esta pequena perorao agradou aos magistrados, que moveram gravemente a cabea.
 O interrogatrio continuou em uma atmosfera mais serena.
 Massenau, depois de escarafunchar a montanha de papis, conseguiu extrair dela uma folha.
 -  acusado de utilizar em suas prticas misteriosas, que, para se desculpar, designa pelo novo nome de qumica, pedaos de esqueletos. Como explica uma prtica 
to pouco crist?
 -  preciso, senhor presidente, no confundir prtica oculta com prtica qumica. Os ossos de animais servem-me simplesmente para produzir cinza, que possui a propriedade 
especial de absorver a escria do chumbo fundido, deixando livres o ouro e a prata que nele se contm.
 - E os ossos humanos possuem a mesma propriedade? - perguntou Massenau insidiosamente.
 - Sem dvida, senhor presidente, mas confesso que a cinza de animais me d plena satisfao, e que me contento com ela.
 - Para convir a suas prticas, esses animais devem ser queimados vivos?
 - De modo nenhum, senhor presidente. Cozinha vivos seus frangos?
 A face do magistrado contraiu-se, mas ele se dominou e observou que era pelo menos surpreendente que, em todo o reino, a cinza de ossos no fosse utilizada seno 
por uma pessoa e para fins que um "homem sensato" s poderia julgar extravagantes, para no dizer sacrlegos.
 E, como Peyrac encolhesse os ombros desdenhosamente, Massenau acrescentou que a acusao de sacrilgio e impiedade existia, mas que no tinha por fundamento o simples 
emprego de ossos de animais, e que ela seria examinada em tempo e lugar oportunos.
 E continuou:
 - O papel real de sua cinza de ossos no tem, de fato, o fim oculto de regenerar matria vil como o chumbo para voltar a dar-lhe vida, transformando-a em metal 
nobre, como o ouro e a prata?
 - Esse ponto de vista aproxima-se muito da dialtica especiosa dos alquimistas, que pretendem operar por meio de smbolos obscuros, quando na realidade no  possvel 
criar matria.
 - Acusado, reconhece, no entanto, o fato de ter fabricado ouro e prata de maneira que no fosse retirando-os da areia dos rios?
 - Nunca fabriquei ouro nem prata. Apenas os extra.
 - Contudo, nas rochas das quais pretende extrair esses metais, ainda que elas sejam modas e lavadas, no se encontra ouro nem prata, dizem as pessoas entendidas.
 -- E exato, mas o chumbo fundido aspira os metais nobres contidos nelas, embora invisveis, e mistura-se com eles.
 - Pretende, pois, que pode extrair ouro de qualquer rocha?
 - De modo nenhum. A maior parte das rochas no o contm ou contm-no em pequena quantidade. Alm disso,  difcil reconhecer, no obstante pesquisas longas e complicadas, 
essas rochas, que so muito raras na Frana.
 - Pois bem, se esse descobrimento  to difcil, como  possvel ser o senhor o nico no reino a saber faz-lo?
 O conde respondeu com irritao:
 -        Dir-lhe-ei, senhor presidente, que isto  uma habilidade, ou, melhor, uma cincia e uma laboriosa profisso. Eu poderia tambm tomar a liberdade de lhe 
perguntar por que  Lulli, no mo
mento, o nico a escrever peras na Frana, e por que no as escreve o senhor tambm, j que qualquer um pode estudar as notas musicais.
 O presidente fez uma cara de desagrado, mas nada respondeu. O jurado de ar matreiro levantou a mo.
 - Pode falar, Sr. Conselheiro Bouri.
 - Perguntarei ao acusado, senhor presidente, como  que, havendo descoberto um processo secreto referente ao ouro e  prata, e sendo um gentil-homem que protesta 
sua fidelidade ao rei, no julgou conveniente comunicar seu segredo ao senhor deslumbrante deste pas, isto , Sua Majestade o rei, o que era no somente seu dever 
mas ainda um meio de aliviar o povo e mesmo a nobreza de tantos encargos esmagadores, embora indispensveis, que constituem os impostos, e aos quais esto sujeitos 
at os homens da lei, embora sob a forma de taxas diversas.
 Um murmrio aprovador percorreu a assistncia. Cada um sentia-se visado e achava que aquele coxo depreciador e insolente havia cometido um agravo contra todos, 
pretendendo bneficiar-se sozinho de sua miraculosa riqueza.
 Anglica sentiu o dio do auditrio concentrar-se sobre o homem alquebrado pela tortura e que comeava a vacilar de fadiga sobre as suas muletas.
 Pela primeira vez Peyrac olhou fixamente a assistncia. Mas pareceu a Anglica que esse olhar era distante e ele no enxergava ningum. "No sente que estou aqui 
e sofro com ele?", pensou ela.
 O conde pareceu hesitar. E disse lentamente:
 - Jurei dizer-lhe toda a verdade. Essa verdade  que, neste reino, no somente o mrito pessoal no  encorajado, mas  explorado por um bando de cortesos que 
no se preocupam seno com seus prprios interesses, suas ambies ou suas querelas. Nestas condies, o melhor que pode fazer algum que deseje de fato criar alguma 
coisa  ocultar-se e proteger sua obra com o silncio. Pois "no se devem dar prolas a porcos".
 - O que diz  muitssimo grave. Faz ao rei um desservio e... a si mesmo - disse Massenau brandamente.
 Bouri saltou.
 - Senhor presidente, na minha qualidade de jurado, protesto contra a maneira demasiado indulgente com que o senhor parece acolher o que, a meu juzo, deve registrar-se 
como prova de um crime de lesa-majestade.
 - Senhor conselheiro, agradecer-lhe-ia muitssimo, se tem a inteno de continuar, se me recusasse a presidncia deste tribunal, recusa que j pedi antecipadamente 
e que nosso rei no quis conceder, o que parece demonstrar que deposita em mim a sua confiana.
 Bouri enrubesceu e voltou a sentar-se, enquanto o conde, com voz cansada mas grave, explicava que cada qual compreendia seu dever  prpria maneira. Como no era 
corteso, no se sentia com foras para fazer triunfar seus pontos de vista sobre todos e contra todos. J no bastava que, de sua provncia distante, houvesse entregue 
ao Tesouro Real mais da quarta parte do que dava  Frana o Langue-doc inteiro? E no era compreensvel que, trabalhando assim pelo bem geral, ainda que tambm pelo 
seu, preferisse no dar nenhuma publicidade s suas descobertas, pelo receio de ter de expatriar-se como muitos sbios e inventores mal compreendidos?
 -        Confessa, em suma, ao falar assim, um estado de esprito amargo e denegridor para com o reino - deixou cair com a mesma brandura o presidente.
 Anglica tremeu de novo.
 O advogado levantou o brao.
 -        Senhor presidente, perdoe-me. Sei que ainda no chegou a hora da minha defesa, mas quero recordar-lhe de que meu constituinte  um dos mais fiis sditos 
de Sua Majestade, que o honrou com uma visita em Toulouse e depois o convidou pessoalmente para o seu matrimnio. No pode o senhor, sem desconsiderar Sua Majestade, 
sustentar que o Conde de Peyrac trabalhou contra o rei e contra o reino.
 -        Silncio, matrel Fui demasiado benevolente permitindo-lhe dizer tudo isso, e acredite que tomamos nota do que disse. Mas no interrompa o que ainda no 
 seno um interrogatrio, que permitir esclarecer todos os jurados sobre o ru e seus negcios.
 Desgrez tornou a sentar-se. O presidente reafirmou que o desejo de justia do rei queria que tudo pudesse ser ouvido, inclusive as crticas justificadas, mas que 
somente ao rei competia julgar sua conduta.
 - H crime de lesa-majestade... - tornou a gritar Bouri.
 - No vejo crime de lesa-majestade - respondeu categoricamente Massenau.
 
 CAPTULO XX
 
 Interrogatrio sobre o encantamento das mulheres e a suposta transmutao do ouro
 
 Massenau continuou seu interrogatrio dizendo que, alm da transmutao do ouro, que o prprio acusado no negava, mas que pretendia ser um fenmeno natural e de 
maneira nenhuma diablico, numerosos testemunhos asseguravam que ele tinha o poder infalvel de fascinar as pessoas, principalmente as mulheres jovens. E que, nas 
reunies mpias e dissolutas por ele organizadas, havia geralmente uma grande maioria de mulheres, "sinal certo de interveno satnica, pois nos sabs dos feiticeiros 
o nmero de mulheres  sempre maior que o de homens".
 E como Peyrac ficasse calado e pensativo, Massenau impacientou-se.
 -        Que responde a esta precisa pergunta sugerida pelo estudo das causas do juiz eclesistico e que, segundo parece, b deixa em grave embarao?
 Joffrey estremeceu como se despertasse.
 -        J que insiste, senhor presidente, responderei duas coisas. A primeira  que no estou certo de que conhea bem as concluses do juiz de Roma, cujos detalhes 
no podem ser divulgados fora dos tribunais eclesisticos; a segunda  que seu conhecimento desses fatos singulares no pode resultar seno de experincias pessoais, 
isto , que lhe foi necessrio, pelo menos, assistir a um desses sabs de Sat, que, de minha parte, confesso nunca ter encontrado em minha vida rica, no entanto, 
de aventuras.
 O presidente alterou-se diante do que considerou um insulto. Permaneceu algum tempo sem flego, e depois proferiu com cal-^ ma ameaadora:
 -        Acusado, eu poderia aproveitar esta circunstncia para dei'xar de escut-lo para julg-lo por contumcia e at priv-lo de qualquer meio de defesa por 
terceiros. Mas no desejo que aos olhos de certos mal-intencionados passe por mrtir de no sei que causa tenebrosa. E por isso que permitirei a outros jurados prosseguirem 
neste interrogatrio esperando que no lhes faa perder a vontade de ouvi-lo. Fale, senhor conselheiro dos protestantes!
 Um homem de alta estatura e rosto severo levantou-se.
 O presidente do jri fez-lhe uma reprimenda.
 -        Hoje o senhor  juiz, Sr. Delmas. Deve, pela majestade de justia escutar sentado o ru.
 Delmas tornou a sentar-se.
 - Antes de iniciar o interrogatrio - disse - quero dirigir ao tribunal um pedido, no qual afirmo no pr a menor indulgncia parcial para com o acusado, mas somente 
uma preocupao de humanidade. Ningum ignora que o ru  aleijado desde a infncia, como consequncia das guerras fratricidas que durante muito tempo assolaram 
nosso pas e particularmente as regies do sudoeste, de onde  originrio. Como a sesso dever prolongar-se, peo ao tribunal que autorize o acusado a sentar-se, 
porque ele corre o risco de desfalecer.
 -  impossvel! - berrou o desagradvel Bouri. - O acusado deve assistir  sesso de joelhos, sob o crucifixo. A tradio  formal. J  bastante consentir que 
fique em p.
 - Reitero o meu pedido - insistiu o conselheiro dos protestantes.
 - Naturalmente - ladrou Bouri -, ningum ignora que considere o condenado um quase correligionrio, porque mamou o leite de uma ama huguenote e pretende ter sido 
maltratado na infncia por catlicos, coisa que seria preciso provar.
         Repito que  uma questo de humanidade e prudncia. Os crimes de que se acusa esse homem causam-me tanto horror quanto ao senhor mesmo, Sr. Bouri, mas 
se ele desmaiar no acabaremos nunca este processo.
 - No desmaiarei, e muito lhe agradeo, Sr. Delmas. Continuemos, peo-lhe - disse o acusado em tom autoritrio que, depois de alguma hesitao, o tribunal obtemperou.
 - Sr. de Peyrac - continuou Delmas -, creio em seu juramento de dizer a verdade e tambm acredito no senhor quando afirma no haver tido contatos com o esprito 
maligno. No entanto, restam muitos pontos obscuros para que sua boa f se torne manifesta aos olhos da justia. Por isso peo-lhe que responda s perguntas qlue 
vou fazer-lhe, sem ver de minha parte outra coisa que no seja o desejo de dissipar as espantosas dvidas que pairam sobre seus atos. Pretende haver extrado ouro 
de rochas que, segundo os entendidos, no o contm. Admitamo-lo. Mas por que se entregou a esse trabalho estranho, penoso, e ao qual seu ttulo de gentil-homem no 
destinava?
 -        Em primeiro lugar, tinha o desejo de enriquecer trabalhando e fazendo frutificar os dons intelectuais que recebera. Outros solicitam penses, ou vivem 
 custa do vizinho, ou continuam pobres. Como no me convinha nenhuma dessas trs solues, procurei tirar de mim mesmo e de minhas poucas terras o mximo de benefcios. 
No que penso no ter faltado aos ensinamentos do prprio Deus, pois ele disse: "No enterrars teu talento". O que eu creio significar que, se possumos um dom ou 
um talento, no temos a faculdade de empreg-lo ou no empreg-lo, mas a obrigao divina de faz-lo frutificar.
 O rosto do magistrado petrificou-se.
 - No lhe compete, senhor, falar-nos de obrigaes divinas. Prossigamos... Por que se rodeou de libertinos, de pessoas misteriosas vindas do estrangeiro e que, 
embora no convictas de espionagem contra o nosso pas, no so precisamente amigas da Frana nem mesmo de Roma, ao que me dizem?
 - Essas pessoas que consideram misteriosas so geralmente sbios estrangeiros, suos, italianos ou alemes, cujos trabalhos eu comparava com os meus. Discutir 
acerca da gravitao terrestre e universal  um passatempo inofensivo. Quanto  libertinagem que se me reprova, no ocorreram no meu palcio mais escndalos do que 
no tempo em que o amor corts, segundo os prprios eruditos, "civilizava a sociedade", e certamente no mais do que hoje, todas as noites, na corte e nas tabernas 
da capital.
 Ante aquela declarao audaciosa, os membros do tribunal franziram o sobrolho. Mas Joffrey de Peyrac, levantando a mo, exclamou:
 -        Senhores magistrados e homens da lei que compem em parte esta assembleia: no ignoro que representem, pela pureza de seus costumes e prudncia de sua 
vida, um dos elementos mais sadios da sociedade. No faam cara feia a uma declarao que tem por alvo outra classe que no a sua, e s palavras que amide tm murmurado, 
em seu corao.
 Essa habilidade sincera desconcertou os juzes e escreventes, secretamente lisonjeados ao ver que se rendia pblica homenagem  sua honrada e pouco divertida existncia.
 Delmas tossiu fracamente e fingiu examinar o dossi.
 - Dizem que conhece oito lnguas.
 - Pico delia Mirandola, no sculo passado, conhecia dezoito, e ningum em sua poca insinuou que Satans se tivesse dado ao trabalho de ensin-las a ele.
 - Mas, enfim, todo mundo reconhece que o senhor enfeitia as mulheres. No gostaria de humilhar inutilmente um ser desventurado, mas  difcil, ao olh-lo, admitir 
que somente com sua aparncia fsica atraa as mulheres a ponto de se matarem e carem em transe quando o viam.
 - No se deve exagerar - disse, modestamente o conde, sorrindo. - No se deixaram enfeitiar, como diz seno aquelas que o quiseram; quanto a algumas mocinhas exaltadas, 
todos ns as conhecemos. A essas convm unicamente o convento, ou, melhor, o hospital, e no se devem julgar todas as mulheres pelo exemplo de algumas loucas.
 Delmas assumiu um ar ainda mais solene.
 -  de pblica notoriedade, e numerosos informest) atestam, que em suas "Cortes de Amor" de Toulouse, instituio mpia j quanto ao seu princpio, porque Deus 
disse: "Amars para procriar", glorificava publicamente o ato carnal.
 - O Senhor no disse nunca: "Procriars como um co ou uma cadela", e eu no vejo por que seja diablico ensinar a cincia do amor.
 - Seus sortilgios  que o so!
 - Seu fosse to forte em sortilgios como pensam, no estaria aqui.
 O Juiz Bouri levantou-se e fulminou:
 - Em suas "Cortes de Amor" o senhor pregava o desrespeito s leis da Igreja; dizia que a instituio do matrimnio prejudica os sentimentos de amor, e que no h 
mrito nenhum em ser devoto.
 - Eu disse, com efeito, que o mrito no consiste simplesmente em mostrar-se algum devoto, se em compensao for avaro e no tiver corao, e que o verdadeiro 
mrito que agrada s mulheres  ser alegre, poeta, amante hbil e generoso. E se eu tambm disse que o matrimnio prejudica os sentimentos de amor, nao me referi 
ao casamento como instituio abenoada por Deus, mas porque nosso tempo fez dele um verdadeiro trfico de interesses, um vergonhoso mercado em que os pais discutem 
terras e dotes e onde frequentemente se faz pela fora, ou debaixo de arrieaas, a unio de jovens que nunca se viram. Com tais processos arruna-se o princpio 
sagrado do matrimnio, pois os esposos ligados por tais elos no podem seno desejar libertar-se deles por meio do pecado.
 - Agora o senhor tem at a insolncia de fazer-nos sermes! - protestou Delmas, desconcertado.
 - Ai! Ns os gasces, somos sempre um pouco impertinentes e inclinados  crtica - reconheceu o conde. - Esta disposio de esprito me levou a pr-me em guerra 
contra os absurdos de meu tempo. Imitei nisto um clebre fidalgo: Dom Quixote de la Mancha, que se batia contra os moinhos de vento, e receio ter sido to tolo quanto 
ele.
 Passou mais uma hora, durante a qual diversos juzes fizeram ao acusado uma srie de perguntas idiotas. Perguntaram-lhe que processo se empregava para tornar as 
flores "encantadoras", de tal sorte que, com apenas o envio de um buque, fazia cair em transe qualquer pessoa que o recebia. Perguntaram-lhe a frmula dos afrodisacos 
que derramava sobre seus convidados das "Cortes de Amor" e que neles produziam um "delrio lbrico", e, por fim, com quantas mulheres simultaneamente podia copular.
 O Conde de Peyrac respondia a tais indagaes com desdm ou com um sorriso irnico.
 Ningum acreditou em sua afirmao de que no amor ele nunca se ocupava com mais de uma mulher de cada vez.
 Bouri, a quem os outros juzes deixavam conduzir to delicado debate, observou com um risinho malicioso:
 - Sua capacidade amorosa tem tanta fama que no nos admira havermos sabido que praticava tantas diverses vergonhosas.
 - Se sua experincia fosse to grande quanto a minha capacidade amorosa - respondeu o Conde de Peyrac com um sorriso mordaz -, saberiam que a busca de tais diverses 
deriva quase sempre de uma impotncia que procura necessria excitao nos prazeres anormais. Quanto a mim, confesso-lhes, senhores, que uma s mulher na solido 
de uma noite discreta basta para satisfazer plenamente os meus desejos. Acrescentarei mesmo - disse em tom mais grave - que desafio as ms lnguas de Toulouse e 
do Lan-guedoc a provar que, depois do meu casamento, eu pudesse ser considerado amante de outra mulher que no fosse a minha.
 - A instruo reconhece, com efeito, esse detalhe - aprovou o Juiz Delmas.
 - Oh! Detalhe bem pequeno! - disse Joffrey rindo.
 O tribunal agitava-se, constrangido. Massenau fez sinal a Bouri para que mudasse de assunto, mas este, que no perdoava a sistemtica rejeio das peas que ele 
havia to cuidadosamente falsificado, no se dava por vencido.
 - No respondeu  acusao, que contra o senhor se formulou, de haver posto nas bebidas de seus convidados produtos excitantes que os levavam a cometer atrozes 
pecados contra o sexto mandamento.
 - Sei que existem produtos destinados a esse fim, como a cantrida, por exemplo. Mas nunca fui partidrio de forar, por uma tenso artificial, o que somente deve 
ser mantido pelas pulsaes de uma vida generosa e pelas naturais aspiraes do desejo.
 - Informaram-nos, entretanto, de que o senhor dispensava muito cuidado ao que dava a comer e beber a seus convidados..
 - No era normal? Qualquer homem que deseje agradar a quem convida no faz a mesma coisa?
 - Pretendia o senhor que o que se comia e se bebia tinha grande importncia para seduzir aquela ou aquele que se desejava conquistar. Ensinava encantamentos...
 - Por modo nenhum. Ensinava que se devem fruir as ddivas que a terra nos oferece, mas que em todas as coisas, para se chegar aos fins desejados,  preciso aprender 
regras que a isso conduzem.
 - Precise-nos alguns de seus ensinamentos.
 Joffrey olhou em derredor e Anglica viu brilhar o seu sorriso.
 -        Vejo que tais questes os fascinam, senhores juzes, tanto quanto aos adolescentes. Seja-se estudante ou magistrado, no se sonha sempre em conquistar 
sua bela? Ai de rnim, senhores! Muito receio desapont-los. Como para obteno do ouro, no possuo frmula mgica. Meu ensinamento  a humana prudncia. Quando, 
jovem advogado, senhor presidente, o senhor penetrava neste grave recinto, no lhe parecia normal instruir-se em tudo aquilo que um dia lhe permitiria alcanar o 
posto que hoje ocupa? Parecer-lhe-ia loucura subir  tribuna e tomar a palavra sem haver estudado longamente sua defesa. Durante muitos anos esteve o senhor atento 
para evitar os obstculos que pudessem surgir em seu caminho.
Por que no haveramos de pr o mesmo cuidado nas coisas do amor? Em todos os assuntos a ignorncia  prejudicial, para no dizer censurvel. Meus ensinamentos nada 
tinham de oculto. E ja que o Sr. Bouri me solicita que exponha com preciso,
aconselhar-lhe-ei, por exemplo, que, quando voltar para sua casa com espirito alegre e boa disposio para acariciar sua mulher, no de detenha na taberna para beber, 
copo sobre copo, vrios jarros e loura cerveja. Correria o risco, um pouco mais tarde, de ficar eriamente arrependido entre os lenis, enquanto sua esposa, decepcionada, 
teria tentaes de corresponder aos olhares galantes dos gentis mosqueteiros com quem se encontrasse no dia seguinte...
 - Ouviram-se alguns risos e os jovens aplaudiram.
 - Reconheo - continuou a voz sonora de Joffrey - que me encontro num estado bem deplorvel para falar desta maneira. Mas, j que  preciso responder  sua acusao, 
concluirei repetindo isto: para se entregar algum aos trabalhos de Vnus, acho que no existe melhor excitante do que uma bela jovem cuja compleio sadia incite 
a no desdenhar o amor carnal.
 - Acusado - disse severamente Massenau -, recordo-lhe uma vez mais a decncia. Leve em conta que nesta sala existem santas mulheres que, sob o hbito de religiosas, 
consagraram a Deus sua virgindade.
 - Senhor presidente, permito-me fazer-lhe observar que no fui eu quem conduziu... a conversa, se posso expressar-me assim para este terreno escorregadio... e encantador.
 Ouviram-se risos novamente. Delmas ponderou que aquela parte do interrogatrio deveria ser em latim, mas Fallot de Sanc, que abria a boca pela primeira vez, objetou, 
no sem bom senso, que todos os homens da lei, sacerdotes e religiosas que se achavam na sala compreendiam o latim, e que no valia a pena inquietarem-se pelos castos 
ouvidos dos soldados, archeiros e alabardeiros.
 Vrios juzes tomaram por sua vez a palavra para resumir brevemente certas acusaes.
 Anglica teve a impresso de que o debate, embora confuso no conjunto, resumia-se entretanto na acusao nica de bruxaria, de sortilgio diablico sobre as mulheres 
e de "poder tornar verdadeiro" o ouro obtido por meios alqumicos e satnicos.
 Suspirou aliviada: com aquela nica acusao de pacto com Satans, seu marido tinha probabilidade de escapar s garras da justia real.
 O advogado podia solicitar o testemunho da agulha oculta no puno, para demonstrar o vcio processual no falso exorcismo de que Joffrey tinha sido vtima.
 Afinal, para mostrar em que consistia o "aumento do ouro", a demonstrao do velho saxo Fritz Hauer talvez convencesse os juzes.
 Ento Anglica sentiu seus nervos se relaxarem e fechou por um momento os olhos.
 
 CAPTULO XXI
 
 Testemunha de acusao Bcher - A monja enfeitiada
 
 Quando tornou a abri-los, teve uma viso de pesadelo: o monge Bcher acabava de surgir no estrado.
 Prestou juramento sobre o crucifixo que outro frade lhe apresentou.
 Em seguida, com voz entrecortada e surda, comeou a contar como tinha sido diabolicamente enganado pelo grande mago Jof-frey de Peyrac, que tinha feito brotar diante 
dele, de uma rocha fundida, ouro verdadeiro, utilizando uma pedra filosofal trazida sem dvida do Pas das Trevas Cimricas, que o conde, alis, lhe tinha descrito 
como uma terra absolutamente virgem e glacial, onde ruge o trovo de dia e de noite, onde o vento sucede ao granizo e onde constantemente uma montanha de fogo vomita 
lava derretida, que cai sem cessar sobre as neves eternas que, apesar do calor, no chegam a derreter-se.
 -        Este ltimo ponto  uma inveno de visionrio - observou o Conde Peyrac.
 -        No interrompa a testemunha - ordenou o presidente.
O monge prosseguiu o depoimento. Confirmou que o conde havia fabricado diante dele um lingote de ouro puro de mais de duas libras que, constatado mais tarde por 
vrios especialistas, foi reconhecido como bom e verdadeiro.
 -        O senhor no disse que o ofertei ao Arcebispo de Toulouse Para suas obras pias - interveio o acusado.
 -   exato - confirmou lugubremente o monge. - Esse ouro resistiu mesmo a trinta e trs exorcismos. O que no impede que o mago guarde para si o poder de faz-lo 
desaparecer, quando quiser em um estrondo de trovo. O prprio Monsenhor de Toulouse foi testemunha desse espantoso fenmeno, que o abalou muitssimo. O mago jactava-se 
disso falando de "ouro fulminante". Tambm se vangloria de poder transmutar o mercrio pela mesma forma. Tudo isso est, alis, consignado numa memria que se encontra 
em seu poder. Massenau procurou assumir um tom brincalho:
 -        Pelo que diz, meu padre, o acusado teria poderes para fazer desmoronar este grande Palcio da Justia como Sanso derrubou as colunas do Templo.
 Anglica sentiu invadi-la uma onda de simpatia para com o parlamentar tolosano. Bcher, revirando os olhos, benzeu-se precipitadamente.
 -        Ah! No provoque o mago! Ele  certamente to forte como Sanso.
 A voz zombeteira do conde ergueu-se de novo:
 - Se eu tivesse o poder que me atribui esse monge inquo, antes de faz-lo desaparecer por sortilgio, a ele e a seus semelhantes, comearia por me servir de uma 
frmula mgica para suprimir a maior fortaleza do mundo: a burrice a credulidade humanas. Descartes no tinha razo quando dizia que o infinito no  humanamente 
concebvel: pois a estupidez dos homens fornece-nos um belssimo exemplo.
 - No se esquea, acusado, de que no estamos aqui para dissertar sobre filosofia, e que nada ganha esquivando-se com piruetas.
 - Ento continuemos a escutar esse digno representante da Idade Mdia - disse com ironia Joffrey de Peyrac.
 O Juiz Bouri perguntou:
 -        Padre Bcher, o senhor, que assistiu a essas operaes alqumicas sobre o ouro e  um sbio de renome, qual , na sua opinio, o objetivo do acusado ao 
entregar-se a Satans? A riqueza?
O amor? O qu, afinal?
 Bcher endireitou o corpo magro e pareceu a Anglica um anjo do inferno que alava voo. Ela benzeu-se rapidamente, no que foi imitada por toda a fila de religiosas, 
que comeavam a ficar fascinadas pela atmosfera daquela cena.
 Com voz aguda, Bcher exclamou:
 - Seu objetivo, eu o conheo. A riqueza e o amor? No!... O poder e a conspirao contra o Estado e o rei? Tambm no! O que ele quer  tornar-se forte como o prprio 
Deus. Estou certo de que ele  sabe criara Vida, isto , que procura equiparar-se ao prprio Criador. 
 - Padre - disse com deferncia o protestante Delmas -, tem  provas dos fatos incrveis que revela?
 -        Eu vi com estes olhos sarem homnculos de seu laboratrio, e tambm gnomos, quimeras, drages. Numerosos camponeses, tambm, cujos nomes anotei, viram-no 
rondar em algumas noites de tormenta e sair desse famoso antro-laboratrio, que um dia foi destrudo quase completamente pela exploso do que o conde chama ouro 
fulminante e que eu chamo ouro instvel ou satnico.
 Todo o auditrio arquejava, oprimido. Uma religiosa desmaiou e foi carregada para fora.
 O presidente dirigiu-se  testemunha, insistindo solenemente. Afirmou que desejava saber toda a verdade, mas que, chamado a julgar sobre sortilgios to extraordinrios 
como a insulao da vida em seres, que ele sempre havia considerado pura lenda, pedia  testemunha que refletisse e pesasse suas palavras.
 Perguntou-lhe igualmente, dirigindo-se ao frade como homem versado nas cincias hermticas e autor de livros conhecidos e autorizados pela Igreja, como aquilo podia 
ser possvel e, sobretudo, se conhecia precedentes.
 O monge Bcher entesou-se e pareceu crescer de novo. Por pouco no se esperou que ele voasse dentro de sua larga batina preta, como um corvo sinistro.
 Exclamou com voz inspirada:
 -        No faltam escritos clebres sobre o assunto. Paracelso, em seu De natura rerum, j afirmou que os pigmeus, os faunos, as ninfas e os stiros no engendrados 
pela qumica. Outros escritos dizem que se podem encontrar homnculos ou homenzinhos, amide no maiores que um polegar, na urina das crianas... O homnculo, no 
incio  invisvel, e ento se alimenta de vinho e gua de rosas: um pequeno grito anuncia seu verdadeiro nascimento. Unicamente os magos de primeira ordem podem 
operar tal sortilgio de nascimento diablico, e o Conde de Peyrac, aqui presente,  um desses magos de supremo poder, pois ele mesmo afirmou no necessitar de pedra 
filosofal para realizar a transmutao do ouro. Sem dvida que tinha  sua disposio essa semente da vida e dois metais nobres, que foi buscar, segundo ele prprio 
disse, no ou tro extremo da Terra.
 O Juiz Bouri levantou-se, muito excitado, e gaguejou em sua alegria perversa:
 -  Que tem o senhor para responder a tal acusao?
 Peyrac encolheu os ombros de impacincia e acabou por dizer entediado:
 -        Como quer que eu refute as vises de um indivduo manifestamente louco?
 -        No tem o direito, acusado, de esquivar-se a uma resposta -interveio calmamente Massenau. - Reconhece haver "dado a vida", como diz esse sacerdote, aos 
seres monstruosos de que se trata?
 - Evidentemente no, e, ainda que a coisa fosse possvel, no vejo em que ela pudesse interessar-me.
 - Acha, pois, que  possvel engendrar a vida artificialmente?
 - Como sab-lo, senhor? A cincia ainda no disse a ltima palavra, e no nos oferece a natureza exemplos desconcertantes? Quando eu estava no Oriente, vi a transformao 
de certos peixes em trites. Eu mesmo trouxe algumas espcies para Toulouse, mas aquela mutao jamais se renovou, o que, sem dvida, se deve a uma questo de clima.
 - Em resumo - disse Massenau com um dramtico tremolo na voz -, no atribui nenhum papel ao Senhor na criao dos seres vivos?
 - Eu nunca disse isso, senhor - respondeu calmamente o conde. - No somente conheo o meu credo, mas tambm creio que Deus criou tudo. Somente no vejo por que 
lhe haver de negar o direito de ter previsto certas condies de passagem entre os vegetais e os animais, ou do girino  r. No entanto, nunca "fabriquei" esses 
seres a que chamam homnculos.
 Conan Bcher tirou ento das amplas dobras de sua batina um pequeno frasco e entregou-o ao presidente.
 O frasco passou de mo em mo entre os jurados. Do seu lugar, Anglica no podia distinguir o que ele continha, mas viu que a maior parte dos homens togados se 
persignavam e ouviu um dos juzes chamar um pequeno contnuo e mand-lo buscar gua-benta na capela.
 Todos os componentes do tribunal assumiram uma expresso horrorizada. O Juiz Mouri esfregava as mos sem parar, mas no se podia saber se era de satisfao ou 
para apagar os traos de poluio sacrlega.
 Somente Joffrey, com a cabea voltada para outro lado, no parecia interessar-se pela cerimnia.
 O frasco voltou ao Presidente Massenau. Este, para examin-lo, ps uns culos de grossos aros de tartaruga e por fim rompeu o | silncio.
 -        Esta espcie de monstro mais se parece com um lagarto seco -        disse num tom decepcionado.
 -        Descobri dois desses homnculos apergaminhados e que deviam servir de feitios, introduzindo-me com risco da prpria vida no laboratrio alqumico do conde 
- explicou modestamente o monge Bcher. Massenau interpelou o acusado:
 -        Reconhece este... esta coisa? Guarda, leve o frasco ao acusado!
O colosso de uniforme que recebera a ordem foi acometido de urn tremor convulso. Gaguejou, hesitou, acabou por tomar o frasco com deciso, mas deixou-o escapar to 
desastradamente que ele se partiu.
 Um "ah..." de desapontamento percorreu o auditrio, que manifestou o desejo de ver mais de perto e se moveu para diante.
 Mas os archeiros se tinham colocado na frente da primeira fila e contiveram os curiosos.
 Por fim adiantou-se um alabardeiro e fisgou com a arma um pequeno objeto, quase imperceptvel, que foi colocar sob o nariz do Conde de Peyrac.
 -        Sem dvida  um dos trites que eu trouxe da China - disse este com calma. - Devem ter escapado do aqurio em que mer
gulhei meu alambique de laboratrio para que a gua em que os conservava estivesse constantemente morna. Pobres bichinhos!...
 Anglica teve a impresso de que de toda aquela explicao sobre os lagartos exticos o auditrio s retivera a palavra "alambique", e um "ah!" de angstia se lhe 
ouviu de novo.
 -        Eis aqui uma das ltimas perguntas do interrogatrio - disse Massenau. - Acusado, reconhece p papel que lhe apresento?
Nele esto enumeradas obras herticas e alqumicas. Esta lista, ao que parece,  cpia fiel de uma das prateleiras de sua biblioteca
que mais amide consultava. Vejo nesta enumerao especialmente o De natura rerum de Paracelso, onde a passagem referente  fabricao satnica de seres monstruosos, 
tais como esses homnculos cuja existncia me revelou o sbio Padre Bcher, est sublinhada por um trao vermelho com algumas palavras escritas por sua mo.
 O conde respondeu com voz enrouquecida pelo cansao:
 -  exato. Recordo-me de ter sublinhado certo nmero de coisas absurdas.
 - Nesta lista encontramos livros que no tratam de alquimia, mas que so proibidos. Cito: A Frana galante se tornou italiana, As intrigas galantes da corte de 
Frana, etc. Estes livros foram impressos em Haia ou em Lige, onde sabemos que se refugiam os mais perigosos panfletrios e jornalistas expulsos do reino. So introduzidos 
na Frana clandestinamente, e quem os adquire torna-se grandemente culpado..Observo tambm nesta lista nomes de autores como Galileu e Coprnico, cujas teorias cientficas 
a Igreja desaprovou.
 - Suponho que essa lista - disse De Peyrac - lhe foi entregue por um mordomo chamado Clemente, espio a soldo de no sei que grande personagem e que esteve alguns 
anos em minha casa. Ela  exata. Mas far-lhe-ei notar, senhores, que dois motivos podem levar uma pessoa a incluir tal ou qual livro em sua biblioteca. Ou porque 
deseja ter um testemunho da inteligncia humana, e este  o caso quando possui obras de Coprnico e Galileu, ou porque anseia poder medir pela escala da estupidez 
humana os progressos que a cincia j realizou aps a Idade Mdia e os que ainda falta realizar.  o caso quando examina as lucubraes de Paracel-so ou de Conan 
Bcher. Acredite-me, senhores, a leitura de tais obras j  em si uma grande penitncia.
 - Desaprova a condenao regular pela Igreja de Roma das teorias mpias de Coprnico e de Galileu?
 - Sim, porque a Igreja se equivocou palpavelmente. O que no quer dizer que eu a acuse quanto a outros pontos. Certamente eu teria preferido fiar-me nela e no seu 
conhecimento dos exorcismos e da feitiaria a ver-me envolvido em um processo que se perde em discusses sofsticas...
 O presidente fez um gesto teatral como para mostrar que era impossvel chamar  razo um acusado de tanta m f.
 Consultou depois seus colegas e anunciou que o interrogatrio tinha terminado e que iriam ser ouvidas algumas testemunhas de acusao.
 A um sinal seu, dois guardas deixaram seus lugares e ouviu-se um rumor de vozes por trs da pequena porta pela qual haviam entrado os membros do tribunal.
 Passaram ento ao pretrio dois religiosos de hbito branco, em seguida quatro monjas e, por ltimo, dois frades recoletos de burel pardo.
 O grupo colocou-se em fila diante da tribuna dos jurados.
 O Presidente Massenau levantou-se.
 -        Senhores, entramos na parte mais delicada do processo. Chamados pelo rei, defensor da Igreja de Deus, para julgar um processo de bruxaria, foi-nos mister 
procurar as testemunhas que, segundo o ritual de Roma, pudessem provar-nos de maneira flagrante que o Sieur de Peyrac mantinha pacto com Satans. Principalmente 
no que diz respeito ao terceiro ponto do ritual, que diz que... - inclinou-se para ler um texto - ...que diz que a pessoa que mantm trato com o Diabo, e  qual 
se chama tradicionalmente "verdadeiro energmeno", possui "as foras sobrenaturais dos corpos e o imprio sobre o esprito e o corpo alheios", retivemos os seguintes 
fatos.
 Apesar do rigorosssimo frio que reinava na grande sala, Masse-nau enxugou discretamente o suor "e reencetou a leitura, balbuciando um pouco:
 -        ...Chegaram at ns as queixas da prioresa do convento das filhas de So Leandro, em Auvergne. Declarou ela que uma das novias, que ingressara fazia pouco 
tempo na comunidade e que at ento tinha dado plena satisfao, manifestava perturbaes diablicas das quais acusava o Conde de Peyrac. No ocultou que outrora 
se tinha deixado arrastar por ele a licenciosidades, e que foi o remorso de suas faltas que a levou a retirar-se para o claustro. Mas no encontrava a paz, pois 
este homem continuava a tent-la de longe e a tinha certamente encantado. Pouco tempo depois, trouxe ao captulo um buque de rosas que pretendeu ter-lhe sido lanado 
por um desconhecido por cima dos muros do convento. Esse desconhecido tinha a silhueta do Conde de Peyrac, mas era com certeza um demnio, pois averiguou-se que 
na mesma poca o citado gentil-homem se encontrava em Toulouse. O buque em questo produziu estranhas perturbaes na comunidade. Outras religiosas viram-se acometidas 
de transportes extraordinrios e obcenos. Quando voltavam a si, falavam de um diabo coxo cuja sim
ples apario lhes causava um gozo sobre-humano e acendia em suas carnes um fogo inextinguvel. A novia causadora de tal desordem permanecia em transe quase permanentemente. 
Alarmada, a prioresa acabou por dirigir-se a seus superiores. Justamente por essa poca a instruo do processo do Sieur de Peyrac acabava de comear, e o Cardeal-Arcebispo 
de Paris me comunicou o
dossi. As testemunhas que vo ouvir agora so as religiosas do citado convento.
 Inclinando-se sobre sua estante, dirigiu-se respeitosamente a uma das freiras.
 -        Soror Carmencita de Mrecourt, reconhece neste homem aquele que a persegue a distncia e que a teria lanado "a invocao diablica e ridcula" do encantamento?
 Ergueu-se uma pattica voz de contralto:
 -        Reconheo meu s e nico senhor!
 Estupefata, Anglica descobriu, sob os vus austeros, o rosto sensual da bela espanhola. Massenau pigarreou e pronunciou com evidente esforo:
 - No entanto, irm, a senhora no tomou o hbito para consagrar-se exclusivamente a Deus?
 - Quis fugir da imagem de quem me enfeitiou. Foi em vo. Persegue-me at durante a missa.
 -  a senhora, Soror Lusa de Rennefonds, reconhece aquele que lhe apareceu durante as cenas de delrio de que foi vtima?
 Uma voz juvenil e trmula respondeu debilmente:
 -        Sim, eu... eu creio que sim. Mas o que eu vi tinha chifres...
Uma onda de risos sacudiu o auditrio e um gaiato exclamou:
 -        Pode ser que lhe tenham brotado durante sua estada na Bastilha!
 Anglica estava vermelha de clera e humilhao. Sua companheira apertou-lhe a mo para lhe comunicar que devia conservar o sangue-frio, e ela dominou-se.
 Massenau dirigiu-se  abadessa do convento:
 -        Madre, embora esta audincia seja demasiado penosa para a senhora, vejo-me obrigado a pedir-lhe que confirme o que disse perante o tribunal!
 A velha religiosa, que no parecia emocionada, mas unicamente indignada, no se fez rogar e declarou com voz clara:
 -        O que se passa h alguns meses no convento de que h trinta anos sou a prioresa  uma verdadeira vergonha. E preciso viver nos claustros, senhores, para 
saber a que faccias grotescas pode entregar-se o Demnio quando lhe  possvel manifestar-se por intermdio de um feiticeiro. No escondo que o dever que hoje me 
cabe  penoso, pois sofro ao ter de expor perante um tribunal secular aes to ofensivas  Igreja, mas Sua Eminncia o cardeal-arcebispo ordenou-me que assim o 
fizesse. No entanto, pedirei para ser ouvida reservadamente.
 O presidente acedeu ao pedido, com grande satisfao da prioresa e decepo do auditrio.
 Os juzes retiraram-se, acompanhados da abadessa e das outras religiosas, para uma sala dos fundos, que habitualmente servia de escritrio.
 Somente Carmencita ficou, guardada pelos quatro monges que a tinham trazido e por dois guardas suos.
 Anglica olhava agora sua antiga rival. A espanhola nada perdera de sua beleza. Talvez a vida no claustro lhe houvesse afinado o rosto, no qual as grandes pupilas 
negras pareciam perseguir um sonho arrebatado.
 O pblico parecia embevecido na contemplao da bela encantada.
 Anglica ouviu a voz zombeteira de Maitre Gallemand dizer:
 -  Caramba! O Grande Coxo sobe no meu apreo!
 A jovem viu que seu marido no tinha honrado com um olhar sequer aquela cena espetacular. Agora que os juzes no estavam jli, ele tentava, sem dvida, descansar 
um pouco. Procurou aconiodar-se da melhor maneira possvel no assento infamante que era o banco dos rus. Conseguiu-o, contorcendo a fisionomia. Sua demorada postura 
de p, sobre as muletas, e, sobretudo, o tormento da agulha que lhe tinham inflingido na Bastilha, haviam feito dele um mrtir.
 Doa o corao de Anglica como se estivesse transformado em pedra.
 At aqui, seu marido havia demonstrado uma coragem sobre-humana. Tinha conseguido falar com calma, sem poder conter, em todos os momentos, sua costumada ironia. 
Infelizmente no parecia haver impressionado favoravelmente nem os juzes nem o pblico.
 Agora voltava ostensivamente as costas  sua antiga amante... Tinha-a visto ao menos?
 Soror Carmencita, inerte por um instante, deu subitamente alguns passos na direo do ru. Os guardas interpuseram-se aos dois e fizeram-na recuar.
 De repente seu esplndido rosto de madona espanhola transformou-se, contorceu-se todo. Por um momento assemelhou-se a uma viso infernal.
 Abria e fechava a boca como um peixe fora da gua. Depois levou bruscamente a mo aos lbios. Viram-na cerrar os dentes e revirar os olhos, e uma espuma branca 
apareceu e cresceu-lhe na comissura dos lbios.
 Desgrez saltou, furioso.
 - Olhem! A a temos! A grande cena das bolhas de sabo!
 Mas foi brutalmente agarrado e levado para fora.
 Seu grito isolado no provocou nenhum eco na multido, que se esticava para presenciar o espetculo do rosto alucinado.
 Um tremor convulso agitava todo o corpo da monja. Deu alguns passos vacilantes na direo do acusado, mas os religiosos voltaram a det-la. Parou, ento, e levou 
as mos  touca e comeou a arranc-la com gestos entrecortados, enquanto girava sobre si mesma, cada vez mais depressa.
 Os quatro religiosos atiraram-se sobre ela e tentaram domin-la. mas, ou porque no se atreviam a mostrar-se enrgicos, ou porque no conseguiam sujeit-la, ela 
lhes escapava como uma enguia, com movimentos precisos de lutadora consumada e verdadeira acrobata.
 Depois lanou-se ao solo, e, arrastando-se e contorcendo-se com uma agilidade de serpente, avanou entre as pernas dos sacerdotes, sob seus hbitos, e derrubou-os. 
Fazia gestos indecentes e tentava levantar-lhes as sotainas. Por duas ou trs vezes, os pobres religiosos rolaram pelo cho em posturas bem pouco edificantes. Os 
archeiros, com a boca aberta diante daquela confuso de batinas e teros, no se animavam a intervir.
 Finalmente, a possessa, rodopiando e retorcendo-se em todos os sentidos, logrou libertar-se de seu escapulrio, depois de seu hbito, e subitamente mostrou na luz 
glauca do pretrio seu corpo magnfico, inteiramente nu.
 O pandemnio era indescritvel. Muitos uivavam sem poder conter-se. Uns queriam ir embora, outros queriam ver.
 Um respeitvel magistrado, que estaya sentado na primeira fila, ergueu-se, despiu a toga e, saltando para o estrado somente de gibo e cala, jogou.a vestimenta 
sobre a cabea de Carmencita e conseguiu cobrir a impudica desatinada.
 A toda a pressa as monjas que se achavam perto de Anglica puseram-se em movimento, guiadas por sua superiora. Todos lhes abriam passagem, pois haviam reconhecido 
as religiosas do Hospital Geral. Cercaram Carmencita e, com cordas tiradas no se sabe de onde, ataram-na como se fosse um salsicho. Depois saram em procisso, 
levando sua presa, que deitava espuma.
 Ento um grito agudo partiu da multido excitada:
 -        Vejam, o Diabo esta rindo!
Braos estendidos apontavam o ru.
 Realmente, Joffrey de Peyrac, a alguns passos do qual se havia desenrolado a cena, dava livre curso a sua hilaridade. Em seu riso sonoro Anglica reconhecia a manifestao 
daquela alegria natural espontnea que lhe tinha encantado a vida. Mas os espritos tacanhos viram nela a provocao mesma do inferno.
 Uma vaga de indignao e horror impeliu para a frente o auditrio. Os guardas precipitaram-se e cruzaram suas alabardas. Se no fossem eles, sem dvida o acusado 
teria sido feito em pedaos.
 -        Venha comigo - cochichou a companheira de Anglica. E como esta, aturdida, vacilasse, ela insistiu:
 -        De qualquer maneira, a sala vai ser evacuada. E preciso saber o que foi feito do Matre Desgrez. Ele nos dir se o julgamento
continuar esta tarde.
 CAPTULO XXII
 
 Testemunhas de defesa - Demonstrao sobre metalurgia
 
 Encontraram o advogado na cantina que o genro e a filha do verdugo haviam instalado no ptio do palcio. O advogado, com a peruca torta, estava muito nervoso.
 - Viram como me fizeram sair, aproveitando a ausncia dos juzes?... Asseguro-lhes que, se eu estivesse presente, teria feito aquela louca cuspir o pedao de sabo 
que havia metido na boca! Mas no importa. Os prprios exageros dessas duas testemunhas me serviro para a defesa!... Se ao menos o Padre Kircher no se fizesse 
esperar tanto, eu teria o esprito tranquilo. Vamos, venham sentar-se a esta mesa, perto do fogo. Eu pedi  pequena verduga ovos e salsichas. No ter posto no molho 
suco de cabeas de mortos, minha linda?
 - No, senhor - respondeu graciosamente a jovem. - Isso s se usa na sopa dos pobres...
 Anglica, com os cotovelos apoiados na mesa, escondia o rosto entre as mos. Desgrez lanava-lhe olhares perplexos, acreditando que ela chorava. Mas percebeu que 
a sacudia um riso nervoso.
 - Oh! Essa Carmencita - balbuciou ela, com os olhos brilhantes de lgrimas contidas. - Que atriz! Nunca vi em minha vida papel to cmico! Acha que o fez de propsito?
 - Quem pode saber alguma coisa acerca das mulheres? - resmungou o advogado.
 A uma mesa vizinha, um velho homem da lei comentava para seus colegas:
 -        Se a monja representou uma comdia, foi uma comdia de primeira classe. Em minha juventude assisti ao processo do Abade Glandier, que foi queimado por 
ter enfeitiado as religiosas de Loundun. As coisas se passaram como agora. No havia na sala capas bastantes para cobrir todas aquelas belas moas que arrancavam 
as roupas quando viam Glandier. No se tinha tempo nem para dizer "uf"! Hoje vocs no viram nada. Nas audincias de Loun-dun havia as que, completamente nuas, se 
deitavam no cho e...
 Inclinou-se para cochichar pormenores escabrosos.
 Anglica ia serenando aos poucos.
 - Perdoe-me o riso. Os nervos me derrotam.
 - Ria, minha pobre jovem - murmurou sombriamente Des-grez. - Sempre haver tempo para chorar. Se ao menos o Padre Kircher estivesse aqui!... Que diabo lhe ter 
acontecido?...
 Ao ouvir o prego de um vendedor de tinta que rondava pelo ptio, com o tonel a tiracolo e penas de ganso na mo, f-lo aproximar-se. Sobre um canto da mesa rabiscou 
um bilhete e encarregou um contnuo de lev-lo sem demora ao tenente de polcia, Sr. d'Aubray.
 - Esse d'Aubray  um amigo de meu pai. Digo-lhe que se pagar o que for necessrio para mobilizar toda a sua gente a fim de trazer o Padre Kircher ao palcio, por 
bem ou pela fora.
 - Mandou procur-lo no Temple?
 - Por duas vezes j mandei o pequeno Corda-ao-Pescoo com uma carta. Voltou sem conseguir nada. Os jesutas com quem falou garantem que o padre saiu esta manh 
para vir ao palcio.
 - Que teme voc? -interrogou Anglica, alarmada.
 - Oh, nada! Gostaria que ele estivesse aqui,  tudo. Em princpio, a demonstrao cientfica da extrao do ouro deve convencer os magistrados, por muito obtusos 
que sejam. Mas convenc-los no  tudo:  preciso ainda confundi-los. S a voz do Padre Kircher  bastante autorizada para decidi-los a passar por cima das... preferncias 
reais. Venha agora, pois a audincia vai ser reiniciada e voc correria o risco de encontrar as portas fechadas.
 A sesso da tarde foi aberta por uma declarao do Presidente Mas-senau. Disse que a convico dos juzes, aps o interrogatrio das testemunhas de acusao, tinha 
ficado suficientemente esclarecida sobre os diferentes aspectos do difcil processo, bem como sobre o carter particular do acusado, e que agora iam ser ouvidas 
as testemunhas de defesa.
 Desgrez fez sinal a um dos guardas, e viu-se aparecer um garoto parisiense com ar esperto.
 Declarou chamar-se Roberto Devesne e ser aprendiz de serralheiro na Rue de la Ferronnerie, na oficina Chave de Cobre, do mestre Dasron. Com voz clara, pronunciou 
o juramento de dizer toda a verdade e tomou por testemunha Santo Eli, padroeiro da confraria dos serralheiros.
 Depois aproximou-se do Presidente Massenau e entregou-lhe um pequeno objeto, que^ este mirou com surpresa e desconfiana.
 - Que  isto? - E uma agulha de mola, senhor - respondeu o menino sem se perturbar. - Como sou hbil de mos, meu patro encarregou-me de fabricar um objeto semelhante, 
encomendado por um monge.
 - Que histria  essa? - perguntou o magistrado, drigindo-se a Desgrez.
 - Senhor presidente, a acusao mencionou as reaes do meu cliente no ato de exorcismo que se teria realizado nas prises da Bastilha, sob os auspcios de Conan 
Bcher, ao qual me nego a dar seus ttulos eclesisticos por uma questo de respeito para com a Igreja. Conan Bcher disse-nos que na prova dos "sinais diablicos" 
o acusado tinha reagido de maneira que no deixava nenhuma dvida sobre suas relaes com Satans. Em cada um dos pontos cruciais previsto pelo ritual de Roma, o 
acusado teria lanado uivos que fizeram estremecer os prprios guardas. Pois bem, desejo fazer notar que o puno com o qual se efetuou a prova foi fabricado pelo 
mesmo modelo que o senhor tem nas mos. Senhores, o falso "exorcismo" sobre o qual a Corte de Justia se arrisca a apoiar seu veredicto realizou-se com um puno 
doloso. Isto , o citado puno, sob uma aparncia inofensiva, encerrava uma comprida agulha de mola, a qual, feita saltar por um imperceptvel empurro de unha, 
se enterrava nas carnes no momento desejado. Desafio qualquer homem de sangue-frio a submeter-se a essa prova sem lanar por instantes uivos de possesso. Algum de 
vocs, senhores jurados, teria a coragem de experimentar em si mesmo a requintada tortura a que foi submetido meu cliente e na qual se apoiam para acus-lo de possesso 
certa?
 Muito rgido e plido, Fallot de Sanc ergueu-se e estendeu o brao. Mas Massenau interveio com impacincia:
 - Basta de comdia! Este puno  o mesmo da prova de exorcismo?
 -  a sua cpia exata. O original foi levado por este mesmo aprendiz, h cerca de trs semanas,  Bastilha, e entregue a Bcher. O aprendiz pode testemunh-lo.
 Nesse momento o menino, maliciosamente, moveu a mola do instrumento e a agulha saltou sob o nariz de Massenau, que deu um pulo para trs.
 -        Como presidente do tribunal, recuso este testemunho de ltima hora e que nem mesmo figura na primeira lista do escrivo. Alm disso  um menino, e seu 
testemunho no merece crdito. Enfim,  por certo um testemunho interessado. Quanto lhe pagaram para vir aqui?
 -        Nada por enquanto, senhor, mas prometeram-me o dobro do que deu o monge, isto , vinte libras.
 Massenau, furioso, voltou-se para o advogado:
 -        Previno-lhe de que, se insiste no registro de semelhante testemunho, serei forado a recusar ouvir as demais testemunhas de defesa.
 Desgrez baixou a cabea em sinal de submisso, e o menino desapareceu pela pequena porta, como se tivesse o Diabo no seu encalo.
 -        Faam entrar as outras testemunhas - ordenou o presidente secamente.
 Ouviu-se um rudo comparvel ao tropel de um forte grupo de carregadores. Precedido por dois meirinhos, surgiu um curioso cortejo. Vinham em primeiro lugar vrios 
homens dos mercados centrais, suaremos e desabotoados, que conduziam embrulhos de formas estranhas, dos quais saram tubos de ferro, foles de forja e outros objetos 
extravagantes. Vinham depois dois pequenos sa-boianos, arrastando cestos de carvo vegetal e vasos de barro com etiquetas estranhas.
 Em seguida, atrs dos guardas viu-e entrar um gnomo que parecia empurrar diante de si o imenso negro Kuassi-Ba, muito impressionado. O mouro, com o torso nu, tinha-se 
adornado com listas de caulim branco. Anglica lembrou-se de que ele fazia isso em Toulouse, nos dias de festa. Mas sua apario, como a de todo o estranho cortejo, 
arrancou ao auditrio exclamaes em que a surpresa se mesclava com o terror.
 Anglica, em compensao, deu um suspiro de alvio e seus olhos marejaram.
 "Oh! Que boa gente!", pensou ela ao olhar Fritz Hauer e Kuassi-Ba. "E no entanto eles sabem o perigo que correm vindo em socorro de seu amo."
 Depois de depositarem no cho os seus pacotes, os carregadores se retiraram. Permaneceram somente o velho saxo e o mouro. Procederam  desembalagem e  instalao 
da forja porttil, bem como dos foles de p. Instalaram, igualmente, dois cuisis e uma grande capela feita com cinza de ossos. Depois o saxo abriu dois sacos. 
De um, tirou com dificuldade uma pesada chapa negra que parecia escria; do outro, um lingote aparentemente de chumbo.
 A voz de Desgrez se fez ouvir:
 -        Conforme o desejo unnime, manifestado pelo tribunal, de tudo ver e tudo ouvir que se relacione com a acusao de sortilgios na transmutao do ouro, 
eis as testemunhas e "cmplices" - em nossos termos de Justia - da operao pretensamente mgica. Rogo-lhes notar que sua presena  completamente voluntria. Eles 
vieram em socorro de seu antigo amo e de modo algum porque seus nomes tenham sido arrancados pela tortura ao meu constituinte, o Conde de Peyrac... Agora, senhor 
presidente, quer permitir ao acusado fazer diante do senhor, com seus ajudantes habituais, a demonstrao da experincia do que no ato de acusao se denomina "sortilgio 
mgico", quando,-segundo o acusado, se trata de uma extrao de ouro invisvel, revelado por processo cientfico? Matre Gallemand cochichou a seu vizinho:
 -        Estes senhores debatem-se entre a curiosidade, a atrao do fruto proibido e as severas recomendaes que vm muito do alto.
Se fossem verdadeiramente astutos, recusar-se-iam a deixar-se influir.
 Anglica estremeceu ante o temor de que a nica prova visual da inocncia de seu marido fosse proibida no ltimo momento. Mas a curiosidade ou talvez o esprito 
de justia prevaleceu. Mas-senau convidou Joffrey de Peyrac a dirigir a operao e a responder a todas as perguntas teis.
 -        Antes de tudo, jura, conde, que, com estas histrias de ouro fulminante, nem este palcio nem as pessoas que aqui se encontram correm o menor perigo?
 Anglica, cuja ironia estava sempre alerta, notou que, em seu temor do ato misterioso que se preparava, aqueles juzes infalveis devolviam o ttulo a quem tinha 
sido despojado dele sem qualquer forma de processo.
 Joffrey afirmou que no havia nenhum perigo.
 O Juiz Bouri pediu que fizessem voltar o Padre Bcher, a fim de confront-lo com o acusado durante a pretendida experincia e evitar, dessa forma, qualquer embuste.
 Massenau inclinou gravemente a peruca e Anglica no pde dominar o tremor nervoso que sempre a acometia ao ver aquele monge, que no s era a verdadeira alma danada 
daquele processo, mas devia ter sido o inventor da agulha de tortura e provavelmente o instigador da comdia de Carmencita. Monstruosamente lcido, procurava simplesmente 
justificar seu pungente fracasso na alquimia? Ou tratava-se de um visionrio nebuloso, que tinha, como certos loucos, momentos de lucidez? No fundo, pouco importava. 
Era o monge Bcher!
 Ele representava tudo o que Joffrey de Peyrac havia combatido, o resduo de um mundo maluco, aquela Idade Mdia que se tinha espraiado como um formidvel oceano 
sobre a Europa e que, ao retirar-se, deixava estagnada no novo sculo a escuma estril da sofstica e da dialtica.
 Com as mos nas amplas mangas do hbito, Bcher estendeu o pescoo e fitou os olhos no saxo e em Kuassi-Ba, que, depois de instalar a forja e vedar com barro as 
juntas da tubulao, comearam a ativar o fogo. Atrs de Anglica um sacerdote falava com um de seus colegas:
 -        E certo que tal reunio de monstros humanos, e mais particularmente esse mouro pintado como para uma cerimonia mgica, no  muito apropriada para' tranquilizar 
as almas fracas. Felizmente, Nosso Senhor saber sempre reconhecer os seus. Ouvi dizer que um exorcismo secreto, mas regular, realizado por ordem da diocese de Paris, 
teria concludo que nada havia de diablico na acusao que se faz injustamente contra este gentil-homem, que, talvez, castigado somente por sua falta de piedade...
 A angstia e a esperana lutavam entre si no dolorido corao de Anglica. Certamente o eclesistico tinha razo... Por que havia de ser corcunda o bom Fritz Hauer 
e ter aquele rosto azulado, e por que havia de ser to terrificante o negro Kuassi-Ba?
 E quando Joffrey de Peyrac ergueu o longo corpo enfraquecido para aproximar-se, coxeando, da forja avermelhada, no fez seno aumentar o sinistro da cena.
 O acusado pediu a um dos meirinhos que apanhasse o bloco de escria, de aparncia porosa e negra, e o apresentasse primeiro ao presidente e depois a todos os jurados. 
Outro oficial de Justia estendia-lhes uma forte lupa, para que pudessem examinar melhor a pedra.
 -        Vejam, senhores, isto  a matte de pirita aurfera fundida, extrada da mina de Salsigne - observou Peyrac.
 Bcher confirmou:
 - De fato,  a mesma matria negra que eu triturei e lavei, e onde no encontrei ouro.
 - Pois bem, meu padre - continuou, o acusado com uma deferncia que Anglica admirou -, ir mostrar de novo sua habilidade de lavador de ouro. Kuassi-Ba, d-lhe 
um almofariz.
 O monge arregaou as largas mangas e comeou a quebrar e pisar ativamente a rocha negra, que se reduzia facilmente a p.
 -        Senhor presidente, tenha a gentileza de mandar buscar agora
um grande balde de gua e uma bacia de estanho bem limpa e areada.
 Enquanto os dois suos iam buscar o necessrio, o prisioneiro fez apresentar do mesmo modo aos juzes um lingote de metal.
 - Isto  o chumbo com que se fazem balas ou canos de gua, chumbo denominado "pobre" pelos especialistas, porque no contm praticamente nem ouro nem prata.
 - Como podemos estar certos disso? - perguntou judiciosamente o protestante Delmas.
 -        Posso demonstr-lo ao senhor pela copelao.
 O saxo apresentou a seu antigo amo uma grossa vela de sebo e dois cubos brancos de trs ou quatro polegadas quadradas. Com um canivete, Joffrey fez pequena cavidade 
numa face de um dos cubos.
 - Que matria branca  essa?  caulim? - perguntou Massenau.
 -  uma copela feita de cinza de- ossos, essa mesma cinza que o deixou to impressionado no incio da audincia. De fato, ir ver que esta matria branca serve 
simplesmente para absorver a escria do chumbo quando ele for aquecido com a chama da vela de sebo...
 A vela foi acesa e Fritz Hauer trouxe um pequeno tubo em ngulo reto, no qual o conde se ps a soprar, dirigindo a chama para o pedao de chumbo incrustado na copela.
 Viu-se a chama inclinar-se e tocar o chumbo, que comeou a fundir-se e a emitir vapores de um azul lvido.
 Conan Bcher ergueu um dedo doutoral.
 -        Os sbios autorizados chamam a isto "soprar a pedra filosofal" - comentou com voz estridente.
 O conde interrompeu por um instante a operao.
 -        Se dermos ouvidos a este imbecil, todas as chamins se transformaro logo em bofes de Satans.
 O monge assumiu um ar de mrtir e o presidente chamou  ordem o acusado.
 Joffrey de Peyrac recomeu a soprar. Na penumbra do entardecer que comeava a invadir a sala, viu-se ferver o chumbo fundido, levado ao rubro, logo acalmar-se e, 
afinal, obscurecer-se, enquanto o prisioneiro-operador cessava de soprar em seu canudinho. De sbito, a pequena nuvem de fumo acre dissipou-se e viu-se que o chumbo 
fundido tinha desaparecido completamente.
 -  um jogo de prestidigitao, que nada prova - observou Massenau.
 - Demonstra unicamente que a cinza de ossos absorveu, ou, se preferir, bebeu todo o chumbo pobre oxidado. E isso indica que esse chumbo est privado de metais preciosos, 
coisa que eu tinha empenho em demonstrar-lhes mediante esta operao, que os me-talurgistas saxes chamam "ensaio em branco". Vou agora pedir ao Padre Bcher que 
termine a lavagem desse p negro que eu sustento ser aurfero, e depois procederemos  extrao do ouro.
 Os dois suos tinham voltado com um balde de gua e uma bacia.
 Depois de ter lavado, fazendo-o girar, o p que tinha modo, o monge, com ar triunfante, mostrou ao tribunal o escassssimo resduo dos dementes pesados que se 
tinham depositado no fundo da bacia.
 -  o que eu afirmei - disse. - Nenhum trao de ouro, mesmo nfimo. No se pode faz-lo aparecer seno por magia.
 - O ouro est invisvel - repetiu Joffrey. - Desta rocha triturada meus ajudantes vo extra-lo com a nica ajuda do chumbo e do fogo. Eu no tomarei parte na operao. 
Assim ficaro convencidos de que no fao intervir nela nenhum novo elemento, nem acompanh-la de qualquer forma cabalstica, e que no se trata seno de um processo 
quase artesanal, praticado por obreiros to pouco bruxos como qualquer forjador ou caldeireiro.
 Maitre Gallemand murmurou:
 -        Fala com simplicidade e muitssimo bem. Dentro em pouco vo acus-lo de ter enfeitiado o jri e todo o auditrio.
 Novamente Kuassi-Ba e Fritz Hauer puseram-se a trabalhar. Bcher, visivelmente reticente, mas entusiasmado por sua "misso" e o papel dominante que pouco a pouco 
assumia naquele processo em que,  sua maneira, acreditava defender a Igreja, acompanhava, sem contrariar, o abastecimento da forja com carvo de lenha.
 O saxo tomou um grande cadinho de terracota. Colocou nele o chumbo e em seguida o p negro da escria triturada. Cobriu tudo com um sal branco que devia ser brax. 
Finalmente, ps carvo por cima, e Kuassi-Ba comeou a mover com o p os dois foles.
 Anglica admirava a pacincia com que seu marido, to orgulhoso e arrogante havia alguns momentos, se prestava quela comdia.
 O conde mantinha-se bastante distanciado da forja, perto do banco dos rus, mas o fogo alumiava-lhe o rosto magro e plido, meio oculto na opulenta cabeleira.
 Havia em toda aquela cena alguma coisa de sinistro e opressivo.
 No grande fogo da forja, a massa de chumbo e escria se derretia. O ar encheu-se de fumaa e de um cheiro acre de enxofre. Nas primeiras filas, vrias pessoas puseram-se 
a tossir e espirrar.
 O jri inteiro desaparecia, por instantes, atrs de uma nuvem de vapores escuros.
 Anglica comeou a dizer consigo mesma que os juzes revelavam, afinal de contas, algum mrito ao se exporem daquela forma, se no a sortilgios, pelo menos a uma 
prova muitssimo desagradvel.
 O Juiz Bouri levantou-se e pediu autorizao para aproximar-se. Massenau a concedeu. Mas Bouri, que muitos acusavam de falsrio e de quem o advogado havia dito 
que o rei lhe prometera trs abadias caso o processo terminasse por uma condenao severa, acabou por ficar de p entre a forja,  qual voltava as costas, e o acusado, 
a quem fitava sem cessar.
 O fumo da forja se dirigia s vezes para Bouri e fazia-o tossir, mas ele permaneceu naquela posio exposta e pouco cmoda, sem tirar os olhos do conde.
 O Juiz Fallot, dito De Sanc, parecia estar sentado sobre carves ardentes. Evitava os olhares de seus colegas e agitava-se nervosamente na grande poltrona de veludo 
vermelho.
 "Pobre Gasto! ", pensou Anglica. Depois deixou de interessar-se por ele.
 O cadinho, pela ao do fogo, que um guarda alimentava incessantemente com carvo vegetal, tornou-se rubro e depois quase branco.
 -        Parem! - ordenou o mineiro saxo, que, coberto de fuligem, suor e cinza de ossos, tinha cada vez mais o aspecto de um monstro sado dos infernos.
 Aproximou-se de um dos sacos e dele tirou uma grande tenaz redonda, de que se utilizou para segurar o pesado crisol entre as chamas. Arqueado, apoiando-se solidamente 
em suas pernas tortas, levantou-o sem esforo aparente.
 Kuassi-Ba apresentou-lhe ento um molde de areia. Apareceu um jorro brilhante como prata e foi cair na lingoteira, exalando uma fumaa branca.
 O Conde de Peyrac pareceu sair de seu torpor e comentou com voz cansada:
 -        Est feita a moldagem do chumbo que captou os metais preciosos da matte aurfera. Vamos partir .o molde e, em seguida, copelaremos esse chumbo no fundo 
do forno.
 Fritz Hauer mostrou um grande tijolo branco com uma cavidade e colocou-o sobre o fogo. Depois, para desprender o lingote do crisol, teve de utilizar uma bigorna, 
e no augusto palcio reboaram por alguns instantes sonoras marteladas. Por fim, depositou com cuidado o chumbo na cavidade, e o fogo foi ativado. Quando o tijolo 
e o chumbo estavam vermelhos, Fritz fez parar os foles, e Kuassi-Ba retirou o carvo que ainda havia na forja.
 Restou apenas o tijolo avermelhado, cheio de chumbo fundido e incandescente, que fervia e ia ficando cada vez mais claro.
 Kuassi-Ba apanhou um pequeno fole porttil e com ele produziu vento sobre o chumbo.
 O ar frio, ao invs de extinguir a incandescncia, avivou-a, e o metal lquido chegou a tornar-se deslumbrante de luminosidade.
 -        A est o sortilgio! - disse Bcher com sua voz aguda. - Ja no h carvo, mas o fogo do inferno comea a operar a Gran de Obra! Vejam as trs cores!
 O mouro e o saxo, alternadamente, continuavam soprando sobre o chumbo derretido, que se agitava formando remoinhos e tremendo como um fogo-ftuo. Um ovo desenhou-se 
na massa. Depois, quando o negro retirou o fole, o ovo se ergueu sobre seu eixo maior e, girando como um pio, comeou a perder o brilho e a fazer-se cada vez mais 
escuro.
 Mas, de sbito, o ovo tornou-se a iluminar-se vivamente, fez-se branco, estremeceu, saltou fora da cavidade e, com rudo surdo, rolou pelo solo at os ps do conde.
 -        O ovo de Satans junta-se a quem o criou! - exclamou Bcher. - E o raio! E o ouro fulminate! Vai explodir sobre ns!
 O auditrio gritava. Massenau, na semi-escurido em que se encontrou repentinamente mergulhado, pedia velas. No meio daquele pandemnio, o frade Bcher continuava 
falando em "ovo filosfico" e de "frango do sbio", at que um assistente zombeteiro subiu a um banco e lanou um sonoro "cocoroc!"
 "Oh, meu Deus! No compreendem nada!", pensava Anglica torcendo as mos.
 Finalmente apareceram oficiais de polcia em diversos pontos da sala, com candelabros de trs braos, e o tumulto se acalmou um pouco.
 Com a ponta de sua muleta, o conde, que no se havia movido, tocou o pedao de metal.
 -        Apanha esse lingote, Kuassi-Ba, e entrega-o ao juiz.
 Sem vacilar, o negro pegou o ovo metlico e apresentou-o, brilhante, na palma da mo negra.
 -         ouro! - balbuciou o Juiz de Bouri, que parecia petrificado.
Quis apoderar-se dele, mas ao toc-lo soltou um grito espanto so e retirou a mo queimada.
 - O fogo do inferno!
 - Como  possvel, conde - disse Massenau procurando firmar a voz -, que o calor desse ouro no queime o vosso criado negro?
 - Todo mundo sabe que os mouros suportam uma brasa na palma da mo, como os carvoeiros de Auvergne.
 Sem que ningum o solicitasse, Bcher surgiu com os olhos fora das rbitas e despejou um vidro de gua-benta sobre o incriminado pedao de metal.
 -        Senhores do tribunal, viram fabricar, diante de si e contra todos os exorcismos rituais, ouro do Diabo. Julguem vocs mesmos at que ponto  eficaz o sortilgio!
 -        Acredita que esse ouro  verdadeiro? - perguntou Massenau.
O monge fez um trejeito e tirou de seu bolso inesgotvel outro frasquinho, que destampou com precauo.
 - Isto  gua-forte, que ataca no s o lato e o bronze, mas tambm a liga de ouro e prata. Mas estou certo de antemo de que  purum aurum.
 - Na realidade - interveio o conde -, este ouro extrado da rocha sob seus olhos no  absolutamente puro. Do contrrio, o metal no teria produzido o claro que 
o alumiou no final da co-pelao e que, acompanhando uma sbita mudana de estado, produziu outro fenmeno que fez saltar o lingote. Berzelius foi o primeiro sbio 
que descreveu esse estranho fenmeno.
 A voz mal-humorada do Juiz Bouri perguntou:
 - Esse Berzelius  pelo menos catlico romano?
 - Sem dvida - respondeu calmamente Peyrac -, pois foi um sueco que viveu na Idade Mdia.
 Bouri teve um riso sarcstico.
 -        O tribunal apreciar o valor de um testemunho to distante.
Houve um momento de indeciso durante o qual os juzes, inclinando-se uns para os outros, se consultaram sobre a necessidade de continuar a sesso ou suspend-la 
at o dia seguinte.
 J era tarde. Os assistentes mostravam-se ao mesmo tempo cansados e superexcitados. Ningum queria ir embora.
 Anglica no sentia qualquer fadiga. Estava como desprendida de si mesma. Por trs de seu pensamento, desenrolava-se um pequeno raciocnio febril cujos meandros 
ela seguia sem poder domin-lo. No era possvel que a demonstrao que acabavam de fazer pudesse interpretar-se como desfavorvel ao acusado... Os prprios excessos 
do monge Bcher no haveriam desagradado aos juzes? Massenau havia proclamado sua neutralidade, mas no fundo parecia evidente que era favorvel ao conterrneo gasco... 
Mas, por outro lado, todo aquele tribunal no era composto de rudes e rgidas pessoas do norte? E entre o pblico s o irreverente Matre Gallemand se atrevia a 
manifestar sentimentos um tanto hostis s decises do rei. Quanto  religiosa que a acompanhava, era til, mas  maneira de um pedao de gelo colocado sobre a fronte 
escaldante de um enfermo.
 Ah! Se tudo aquilo se houvesse realizado em Toulouse!
 E quele advogado, tambm ele filho de Paris, desconhecido e alm disso pobre, quando lhe concederiam a palavra? No iria renunciar a defesa? Por que no intervinha 
mais? E o Padre Kircher, onde estava? Anglica procurou em vo descobrir, entre os espectadores da primeira fila, o rosto de aldeo sagaz do grande exorcista da 
Frana.
 Cochichos hostis cercavam Anglica como ronda infernal:
 -        Parece que prometeram a Bouri a posse de trs dioceses se obtiver a condenao deste homem. Peyrac no cometeu outro crime seno adiantar-se ao seu sculo. 
Vero como o condenam... O Presidente Massenau tossiu fracamente.
 -        Senhores - disse -, a audincia continua. Acusado, tem algo a acrescentar ao que vimos e ouvimos?
 O Grande Coxo do Languedoc endireitou-se sobre as muletas e sua voz se elevou, plena, sonora, impregnada de uma sinceridade que fez passar um estremecimento pelas 
filas do pblico.
 -        Juro perante Deus e sobre as cabeas benditas de minha mulher e de meu filho que no conheo nem o Diabo nem seus sortilgios, que nunca pratiquei a transmutao 
do ouro nem criei a vida segundo conselhos satnicos, e que jamais procurei prejudicar o meu prximo com encantos e malefcios.
 Pela primeira vez, na interminvel sesso, Anglica percebeu um sentimento de simpatia pelo homem que acabava de falar. Uma voz clara, infantil, sada do seio da 
multido, gritou:
 -        Acreditamos em voc!
 O Juiz Bouri ergueu-se agitando as mangas.
 -        Cuidado! Eis aqui o efeito de um encantamento de que no se falou bastante. No esqueam: a Voz de Ouro do Reino... A voz temvel que seduzia as mulheres.
 O mesmo timbre infantil gritou:
 -        Canta! Canta!
 Desta vez o sangue meridional do Presidente Massenau subiu-lhe ao rosto e ele comeou a esmurrar a estante.
 -        Silncio, ou fao evacuar a sala! Guardas, expulsem os perturbadores!... Sr. Bouri, sente-se! Basta de interrupes! Acabemos! Matre Desgrez, onde se 
encontra?
 -        Estou aqui, senhor presidente - respondeu o advogado.
Massenau recuperou o flego e fez um esforo para dominar-se.
 Continuou, em tom mais calmo:
 -        Senhores, a Justia do rei tem para consigo mesma o dever de tomar todas as precaues. Eis por que, embora este processo se realize a portas fechadas, 
o rei, em sua magnanimidade, no quis privar o acusado de nenhum meio de defesa. Consenti, portanto, em que ele fizesse qualquer demonstrao, ainda que perigosa, 
para lanar luz sobre os processos mgicos de que e acusado de ser detentor. Afinal - suprema clemncia do prncipe -, obtive a assistncia de um advogado, ao qual 
concedo, portanto, a palavra.
 
 CAPTULO-XXIII
 
 Defesa do advogado Desgrez -  ena fatal
 
 Desgrez ps-se de p, saudou o tribunal, agradeceu ao rei em nome de seu constituinte, depois subiu os dois degraus do pequeno estrado de onde devia falar.
 Vendo-o ergur-se, muito ereto e grave, Anglica teve dificuldade em imaginar que aquele homem vestido de negro fosse o mesmo rapaz alto e farejador que, com as 
costas abauladas sob um casaco surrado, ia pelas ruas de Paris assobiando ao seu co.
 O velho e pequeno escrivo Clopot, que tinha "procurado" as peas do processo, foi ajoelhar-se diante dele, de acordo com o costume.
 O advogado olhou o tribunal e depois o pblico. Parecia procurar algum na multido. Anglica teve a impresso de que ele estava plido como um morto. Seria por 
causa da luz amarela das velas?   No entanto, quando ele falou, tinha a voz clara e composta.
 - Senhores: aps tantos esforos desenvolvidos tanto pela acusao como pelos jurados, durante os quais o seu conhecimento da lei esteve  altura de sua erudio 
clssica - tudo isto, repitamo-lo enfaticamente, com o nico fim de iluminar a Justia do rei, a fim de fazer surgir toda a verdade -, exauriram, senhores jurados, 
para desdita deste pobre defensor principiante, toda a luz dos astros para esclarecer o presente processo. Depois das clarividentes citaes latinas ou gregas dos 
senhores comissrios do rei, que resta a um obscuro advogado, cuja primeira grande causa  esta, para descobrir ainda alguns tnues raios capazes de alumiar toda 
a verdade sepultada no fundo do poo da mais atroz das acusaes? Esta verdade me parece, ai de mim! de tal modo distante e to perigosa de revelar, que eu estremeo 
e quase desejaria que esta pobre flama se apagasse e me deixasse na tranquila obscuridade em que me encontrava antes. Mas agora  demasiado tarde! Eu vi com os prprios 
olhos e devo falar. E devo exclamar-lhes: cuidado, senhores! Cuidado, para que a deciso que vo tomar no arraste sua responsabilidade at os sculos futuros. No 
sejam daqueles por cujo erro os filhos de nossos filhos, voltando-se para o nosso sculo, digam: "Era um sculo de hipcritas e ignaros. Pois houve", diro eles, 
"naquela poca um grande e nobre gentil-homem que foi acusado de feitiaria pela nica razo de ser um grande sbio." Fez uma pausa. Depois continuou, mais, brandamente: 
- Imaginem, senhores, uma cena dos tempos passados, daquela poca tenebrosa em que nossos antepassados no empregavam seno grosseiras armas de pedra. Eis que, entre 
eles, um homem -tem a ideia de recolher a lama de certos terrenos, lana-a ao fogo e dela extrai uma substncia cortante e dura, desconhecida at ento. Seus companheiros 
gritam que aquilo  bruxaria e o condenam. No entanto, alguns sculos mais tarde,  com aquela matria desconhecida, o ferro, que so fabricadas nossas armas. Vou 
ainda mais longe. Se, em nossos dias, senhores, vocs penetrassem no laboratrio de um fabricante de perfumes, recuariam de horror gritando "bruxaria!" por terem 
visto retortas e filtros dos quais se exalam vapores que nem sempre cheiram bem? No, no quereriam cair no ridculo. E, no entanto, que mistrio se trama no antro 
desse artfice! Ele materializa, sob a forma de lquido, a coisa mais invisvel que existe: o odor. No sejam daqueles a quem se podero aplicar as terrveis palavras 
do Evangelho: "Tm olhos e no vem. Tm ouvidos e no ouvem". Na realidade, senhores, no duvido que a mera acusao de se entregar a trabalhos inusitados tenha 
podido inquietar seus espritos abertos pelo estudo a toda sorte de perspectivas. Mas circunstncias perturbadoras e uma reputao estranha rodeiam a personalidade 
do acusado. Analisemos, senhores, sobre quais fatos assenta essa reputao, e vejamos se cada um, desligado dos demais, pode razoavelmente fundamentar a acusao 
de feitiaria. Menino catlico, confiado a uma ama huguenote, Joffrey de Peyrac foi precipitado de uma janela, com quatro anos de idade, por fanticos, no ptio 
de um castelo. Ficou aleijado e desfigurado. Poderamos, senhores, acusar de feitiaria todos os coxos e todos aqueles cujo aspecto nos assusta? No entanto, embora 
desfavorecido pela natureza, o conde possui uma voz maravilhosa, que cultivou com mestres italianos. Poderamos, senhores, acusar de feitiaria todos esses cantores 
com garganta de ouro, diante dos quais as nobres damas e at nossas mulheres jeSmaiam de arrebatamento? De suas viagens, o conde trouxe mil histrias curiosas. Estudou 
novos costumes, deu-se ao prazer de estudar filosofias estrangeiras. Poderamos condenar todos os viajantes e os filsofos? Oh! eu sei. Tudo isto reunido no cria 
uma personagem das mais simples. Chego ao fenmeno mais surpreendente: este homem, que adquiriu uma cincia profunda e enriqueceu graas ao seu saber, este homem 
que fala maravilhosamente, e canta de maneira soberba, este homem, apesar de seu fsico, consegue atrair as mulheres. Ele ama as mulheres e no faz segredo disso. 
Enaltece o amor e teve numerosas aventuras. Que entre essas mulheres enamoradas se encontrem neurticas e desavergonhadas,  moeda corrente em uma vida libertina 
que a Igreja certamente reprova, mas que  muitssimo comum. Se fssemos queimar, senhores, todos os nobres que amam as mulheres e aqueles que so perseguidos por 
suas amantes desiludidas, creio, em verdade, que a Place de Greve no seria suficientemente vasta para conter suas fogueiras...
 Houve um movimento de aprovao. Anglica estava confundida pela habilidade de Desgrez. Com que tato evitava aludir  riqueza de Joffrey, que tantas invejas havia 
despertado, para acentuar, em troca, um fato lamentvel, mas contra o qual nada podiam os austeros burgueses: a vida dissoluta que era apangio dos nobres.
 . Aos poucos ele reduzia a acusao a simples propores de mexericos de provncia e breve todos se assombrariam por ter sido feito tanto barulho por nada.
 -        Ele atrai as mulheres - repetiu brandamente Desgrez -, e a ns, representantes do sexo forte, espanta-nos que, com sua triste figura, as damas do sul sintam 
por ele tanta paixo. Oh! senhores, no sejamos to precipitados. Desde que o mundo  mundo, quem j soube explicar o corao das mulheres e o porqu de suas paixes? 
Detenhamo-nos, respeitosos,  beira do mistrio. Seno, seramos obrigados a queimar todas as mulheres!...
 A interveno de Bouri, que saltou de sua poltrona, cortou os risos e os aplausos:
 -        Basta de comdia - gritou o juiz, cuja face se tornava cada vez mais amarela. - O senhor est zombando do tribunal e da Igreja. Esquece que a acusao 
de bruxaria foi inicialmente formulada por um arcebispo? Esquece que a principal testemunha de acusao  um religioso, e que um exorcismo em regra foi praticado 
sobre o ru, demonstrando que ele  um servo de Satans? 
 - No esqueo nada, Sr. Bouri - respondeu gravemente Des-grez -, e vou responder-lhe.  bem verdade que o Arcebispo de Toulouse lanou a primeira acusao de bruxaria 
contra o Sr. Pey-rac, ao qual o contrapunha uma antiga rivalidade. Esse prelado no lamentar agora um gesto em que, com o seu ressentimento, no pusera bastante 
ponderao? Quero crer sim,, pois tenho aqui volumoso dossi no qual o Monsenhor de Fontenac reclama insistentemente que o ru seja entregue a um tribunal eclesitico 
e declina qualquer responsabilidade pela deciso que a respeito dele venha a tomar um tribunal civil. Tambm deixa de solidarizar-se - tenho aqui a carta, senhores, 
e posso l-la - com os fatos e palavras do que o senhor chama primeira testemunha de acusao, o monge Conan Bcher. Quanto a este ltimo, cujo frenesi deve parecer 
pelo menos suspeito a qualquer pessoa que esteja em seu juzo, lembro que ele  responsvel pelo nico exorcismo no qual parece fundar-se agora a acusao. Exorcismo 
que foi realizado na priso da Bastilha a 4 de dezembro ltimo, em presena dos padres Frelat e Jonathan, aqui presentes. No contesto a realidade desse auto de 
exorcismo, que foi, de fato, lavrado pelo tal monge e seus aclitos, sobre os quais no me pronuncio porque no sei se so crdulos, ignorantes ou cmplices. Mas 
contesto a validade desse exorcismo! - gritou Desgrez com voz tonitruante. - No quero entrar em pormenores sobre as incongruncias dessa sinistra cerimnia, mas 
destacarei somente dois pontos. O primeiro  que a religiosa que naquela ocasio simulara, em presena do acusado, sintomas de possesso  a mesma Carmencita de 
Mrecoun que nos deu h pouco uma demonstrao de suas habilidades de comediante, e que um homem do cartrio pde testemunhar ter visto cuspir ao sair da sala o 
pedao de sabo com que simulava a espuma da epilepsia, processo bem conhecido dos farsantes que nas ruas procuram despertar a piedade pblica. Segundo ponto: volto 
ao puno doloso, agulha infernal que se negaram a tomar em considerao por insuficincia de provas. Mas se isso, senhores, fosse verdade, se realmente um louco 
sdico houvesse submetido um homem a semelhante tortura com a inteno de induzir em erro seu julgamento e carregar sua conscincia com a morte de um inocente?... 
Tenho aqui a declarao do mdico da Bastilha, feita alguns dias depois da espantosa experincia.
 Com voz entrecortada, Desgrez leu um relatrio do Sieur Ma-linton, mdico da Bastilha, que, chamado  cabeceira de um prisioneiro cujo nome ignorava, mas que tinha 
no rosto grandes cicatrizes, havia verificado que ele trazia pelo corpo todo pequenas feridas inflamadas que pareciam ter sido feitas por profundas alfinetadas.
 No completo silncio que se seguiu  leitura, o advogado continuou, com voz grave e lenta:
 -        E agora, senhores, chegou a hora de fazer-lhes ouvir uma voz grandiosa, da qual sou indigno representante, uma voz que, acima da; torpezas humanas, nunca 
procurou seno iluminar com prudncia os seus fiis. Chegou a hora para mim, humilde causdico de fazer-lhes ouvir, neste processo, a voz da Igreja. Ela lhes dir 
isto:
 Desgrez abriu uma grande folha de papel e leu:
 -        "Nesta noite de 25 de dezembro de 1660, na priso do Palcio da Justia de Paris, realizou-se uma cerimonia de exorcismo sobre a pessoa do Sieur Joffrey 
de Peyrac de Morens, acusado de inteligncia e de pacto com Satans. Levando em conta que, segundo o ritual da Igreja de Roma, os verdadeiros processos do demnio 
devem dispor de trs poderes extraordinrios: 1) o conhecimento de lnguas que no aprenderam; 2) o poder de adivinhar e conhecer as coisas secretas; 3) as foras 
sobrenaturais do corpo, submetemos, nesta noite de 25 de dezembro de 1660, em nossa qualidade de nico exorcista regularmente autorizado pelo juiz eclesistico de 
Roma para toda a diocese de Paris, mas assistido por dois outros sacerdotes de nossa santa congregao, o preso Conde Joffrey de Peyrac aos exerccios interrogatrios 
previstos pelo ritual. Do que se concluiu que o exorcismado s tinha conhecimento de lnguas que estudara, e particularmente nenhum do hebraico e do caldeu, que 
dois de ns conhecemos; que este homem parece um grande sbio, mas de modo nenhum adivinho, que no mostrou qualquer fora sobrenatural do corpo, mas simplesmente 
feridas provocadas por picadas profundas e infeccionadas e antigos defeitos fsicos; pelo que, declaramos que o examinado Joffrey de Peyrac no , de modo algum, 
possesso de demnio..." Seguem-se as assinaturas do Reverendo Padre Kircher, da Companhia de Jesus, grande exorcista da diocese de Paris, e as dos reverendos padres 
de Marsan e de Montaignat, que o assistiam.
 Podia ouvir-se o vo de uma mosca. O estupor e a turbao do auditrio eram quase tangveis, e, no entanto, ningum se movia nem falava.
 Desgrez olhou para os juzes.
 -        Depois desta voz, que posso acrescentar? Senhores jurados, vo os senhores pronunciar o seu veredicto. Mas f-lo-o pelo menos com pleno conhecimento desta 
coisa certa: a Igreja em cujo nome lhes pedem que condenem este homem, considera-o inocente do crime de feitiaria pelo qual o arrastaram at aqui... Senhores, deixo-lhes 
face a face com a sua conscincia.
 Compostamente, Desgrez apanhou seu barrete, p-lo na cabea e desceu os degraus do pequeno estrado.
 Ento o Juiz Bouri se levantou e sua voz penetrante ressoou no silncio:
 - Que venha ele! Que venha, pois, ele mesmo! O Padre Kir-cher  quem deve dar testemunho sobre essa cerimnia secreta, suspeita em mais de um ponto, pois foi realizada 
sem conhecimento da Justia.
 - O Padre Kircher vir - afirmou Desgrez com voz muito calma. - Ele j deveria estar aqui. Mandei que o procurassem.
 - Pois eu lhe digo que ele no vir - exclamou Bouri -, porque o senhor mentiu, inventou do princpio ao fim essa complicada histria de um exorcismo secreto, 
com o fim de impressionar os juzes. Escudou-se, com os nomes das personalidades eclesisticas importantes, a fim de torcer o veredicto... O embuste seria descoberto, 
mas muito tarde...
 Com a sua costumeira agilidade, o jovem advogado investiu sobre Bouri.
 -        O senhor me insulta, Sr. Bouri. Eu no sou, como o senhor, um falsrio. Lembro-me do juramento que prestei perante o Conselho da Ordem do Rei ao receber 
meu cargo de advogado.
 A assistncia tornou a manifestar-se ruidosamente. Massenau, de p, procurava fazer-se ouvir. A voz de Desgrez voltou a dominar:
 -        Solicito... solicito a suspenso do julgamento at amanha. O Reverendo Padre Kircher ratificar suas declaraes, eu o juro.
 Naquele instante uma porta abriu-se com violncia e uma corrente de ar frio, misturada com flocos de neve, atravessou uma das entradas do hemiciclo que comunicava 
com o ptio. Todos se voltaram para essa abertura, onde acabavam de aparecer dois cocheiros cobertos de neve. Estes se afastaram para deixar passar um homem gordo 
e baixo, de cor trigueira, vestido com esmero, e cuja peruca e sobretudo quase secos, indicavam que ele acabava de descer de uma carruagem.
 - Senhor presidente - disse com voz spera -, como soube que continuavam em sesso a esta hora avanada, acreditei no dever esperar para lhe trazer uma notcia 
que julgo importante.
 - Ser ouvido, senhor tenente de polcia - respondeu Massenau, espantado.
 O Sr. d'Aubray voltou-se para o advogado.
 - Matre Desgrez, aqui presente, solicitou-me que fizesse buscas na capital para encontrar um reverendo padre jesuta chamado Kircher. Aps destacar vrios agentes 
para os diversos lugares em que ele poderia achar-se e onde ningum o encontrou, avisaram-me de que acabava de ser transportado -para o necrotrio do Ch-telet o 
cadver de um homem encontrado entre os blocos de gelo do Sena. Fui at l, acompanhado por um padre jesuta da casa do Temple. Este reconheceu formalmente seu colega, 
o Padre Kircher. Sua morte deve ter ocorrido s primeiras"horas da manh...
 - De maneira que no recua nem mesmo diante do crime! - uivou Bouri estendendo o brao para o advogado.
 Os outros juzes se agitavam, protestavam contra Massenau. A multido gritava:
 -        Basta! Acabemos com isso!
 Anglica, mais morta que viva, no conseguia perceber a quem eram lanados os apupos. Tapou os ouvidos com as mos. Viu Massenau levantar-se e esforou-se por ouvi-lo.
 - Senhores, a sesso continua: tendo sido encontrada morta a testemunha principal de ltima hora anunciada pelo advogado de defesa, o reverendo padre jesuta Kircher, 
e no havendo podido o senhor tenente de polcia, aqui presente, descobrir sobre ele nenhum documento capaz de atestar post mortem o que Matre Desgrez nos comunicou; 
e como, igualmente, s o prprio Padre Kircher poderia dar f a uma suposta ata redigida secretamente, o tribunal, em sua sabedoria, considera este incidente como 
nulo e no acontecido, e vai simplesmente retirar-se para pronunciar o veredicto.
 - No faa isso! - gritou a voz desesperada de Desgrez. - Adie o veredicto. Encontrarei testemunhas. O Padre Kircher foi assassinado.
 - Pelo senhor! - assacou Bouri.
 - Acalme-se, matre - disse Massenau. - Confie nas decises dos juzes.
 A deliberao durou alguns minutos ou horas?
 Parecia a Anglica que aqueles juzes no se tinham mexido, que ali haviam permanecido com seus barretes quadrados e suas togas vermelhas e negras, e que ali ficariam 
eternamente... Mas agora eles estavam de p. Os lbios do Presidente Massenau moviam-se. Com voz trmula, articulavam:
 -        Em nome do rei, peo que Joffrey de Peyrac de Morens seja  declarado convicto dos crimes de rapto, seduo, impiedade, magia, bruxedo e outras abominaes 
mencionadas no processo, e para cuja reparao ele ser entregue s mos do executor da Alta Justia, conduzido por todos ao adro de Notre-Dame, onde far confisso 
pblica de suas faltas, com a cabea descoberta e os ps descalos, a corda ao pescoo e tendo na mo um crio de quinze libras. Isso feito, ser conduzido  Place 
de Greve e queimado vivo numa fogueira que para esse fim ser preparada, at que seu corpo e seus ossos sejam consumidos e reduzidos a cinzas, as quais sero dispersadas 
e lanadas ao vento. E todos os seus bens sero confiscados pelo rei. E, antes de executado, ser-lhe-o aplicadas as questes ordinria e extraordinria. Peo que 
o saxo Fritz Hauer seja declarado seu cmplice e como reparao condenado a morrer numa forca para esse fim erguida na Place de Greve. Peo que o mouro Kuassi-Ba 
seja declarado seu cmplice e como reparao condenado a gals perptuas.
 Junto ao banco dos rus, a alta figura, apoiada sobre duas muletas, vacilou. Joffrey de Peyrac ergueu para o tribunal uma face lvida.
 -        Sou inocente!
 Seu grito ressou num silncio de morte. Com voz calma e surda, ele continuou:
 -        Senhor Baro de Massenau de Pouillac, compreendo que -no  mais ocasio para eu protestar minha inocncia. Calar-me-ei, portanto. Mas, antes de me retirar, 
quero publicamente render-lhe homenagem pela preocupao de equidade que procurou manter
neste processo, cuja presidncia e concluso lhes foram impostas. Receba de um nobre de velha cepa a segurana de que o senhor  mais digno do seu braso do que 
aqueles que o governam.
 O rosto avermelhado do parlamentar tolosano crispou-se. Bruscamente ele levou a mo aos olhos e exclamou naquela lngua d'oc que somente Anglica e o condenado 
podiam entender:
 -        Adeus! Adeus, irmo de minha terra!
 
 CAPTULO XXIV
 
 O veredicto - Anglica abandonada por todos
 
 L fora, na noite profunda mas que j se aproximava da alvorada, a neve caa e o vento soprava enormes flocos. Tropeando no espesso tapete branco, os assistentes 
deixavam o Palcio da Justia. Lanternas balanavam nas portinholas das carruagens.
  Anglica se foi, um vulto solitrio atravs das ruas tenebrosas de Paris. Ao sair do palcio, no meio da multido, perdeu-se da religiosa.
 Maquinalmente, voltou a tomar o caminho do Temple. No pensava em nada; aspirava somente a voltar ao seu pequeno quarto e inclinar-se sobre o bero de Florimond.
 Quanto tempo durou essa marcha vacilante? As ruas estavam desertas. Com aquele tempo medonho, at os assaltantes se escondiam. As tabernas estavam pouco ruidosas, 
pois j se aproximava o fim da noite, e os bbados que no tinham regressado a casa roncavam debaixo das mesas ou confiavam suas desditas a alguma prostituta sonolenta. 
A neve mergulhava a cidade num silncio triste.
 Ao acercar-se do recinto fortificado do Temple, Anglica lembrou-se de que as portas deviam estar fechadas, mas ouviu os sons abafados do relgio de Notre-Dame 
de Nazareth e contou cinco pancadas. Dentro de uma hora, o bailio faria abrir. Transps a ponte levadia e foi abrigar-se debaixo do arco da poterna. Flocos de neve 
se derretiam no seu rosto. Afortunadamente, o amplo hbito de religiosa, feito de grossa l, com suas mltiplas saias, a grande touca e o manto com capuz a tinham 
protegido bem. Mas os ps estavam gelados.
 O menino se agitava em suas entranhas. Levou as mos ao ventre e apertou-o com sbita raiva. Por que se obstinava aquela criana em viver, enquanto Joffrey ia morrer?
 Naquele instante, uma forma monstruosa surgiu atravs da neve e saltou para perto de Anglica.
 Passado o primeiro momento de susto, a jovem reconheceu o co Sorbonne.
 Ele havia-lhe pousado as patas dianteiras sobre os ombros e lambia-lhe o rosto com sua spera lngua.
 Anglica o afagou, sondando as trevas onde continuava a cerrada dana dos flocos de neve. Sorbonne significava Desgrez. Desgrez ia chegar e, com ele, a esperana. 
Ele teria alguma ideia. Dir-lhe-ia o que era necessrio fazer ainda para salvar Joffrey.
 Ouviu os passos do jovem na ponte de madeira. Ele avanou cautelosamente.
 - Est a? - cochichou.
 - Estou.
 O advogado aproximou-se. Ela no o via, mas ele falava-lhe de to perto que o aroma de tabaco de seu hlito lhe recordou atrozmente os beijos de Joffrey.
 -        Tentaram prender-me quando eu saa do Palcio da Justia.
Sorbonne estrangulou um dos policiais. Consegui fugir. O co seguiu sua pista e guiou-me at aqui. Agora  preciso que voc desaparea. Compreendeu? No use seu 
nome, no faa diligncias, nada, nada. Do contrrio, ser lanada ao Sena, como o Padre Kircher, e seu filho ser duplamente rfo. Quanto a mim, havia previsto 
o espantoso desenlace. Um cavalo me espera na Porte
Saint-Martin. Em algumas horas, estarei longe.
 Anglica, batendo o queixo, agarrava-se ao casaco do advogado.
 -        Ento vai embora?... Vai abandonar-me?
 Desgrez segurou os delicados punhos de Anglica e desprendeu-se de suas mos crispadas.
 - Joguei tudo por voc e tudo perdi, menos a pele.
 - Mas diga-me... Diga-me o que posso fazer ainda por meu marido.
 -        Tudo que pode fazer com ele...
Hesitou, e depois falou precipitadamente:
 -        Procure o verdugo e d-lhe trinta escudos para que o estrangule.... antes da fogueira. Assim no sofrer. Tome os trinta escudos.
 Anglica sentiu que ele lhe passava s mos uma bolsa. Sem acrescentar palavras o advogado se afastou. O co vacilava em seguir as pisadas de seu dono. Voltava 
para Anglica e levantava para ela seus olhos cheios de simpatia. Desgrez assoviou. O co ergueu as orelhas e desapareceu galopando na escurido.
 
 CAPITULO XXV
 
 Visita ao carrasco
 
 O carrasco, mestre Aubin, residia na Place de Greve em frente ao mercado de peixes. Tinha de morar ali e em nenhuma outra parte. A carta de investidura de executor 
da Alta Justia estipulava esse detalhe desde tempos imemoriais. Pertenciam-lhe todas as lojas e tendas da praa, que alugava a pequenos comerciantes. Alm disso, 
por direito de extrao, podia levar de cada banca do mercado um bom punhado de legumes ou cereais, um peixe de gua doce, um peixe de mar e um molho de feno.
 Se as peixeiras eram as rainhas do mercado, o verdugo era-lhe oculto e maldito.
 Anglica dirigiu-se  casa dele ao cair .da noite. O jovem Cor-deau a guiava. Apesar da hora avanada, o quarteiro estava muito animado. Pelas ruas de la Poterie 
e de la Fromagerie, Anglica penetrou naquele bairro caracterstico, onde ressoavam os preges das vendedoras do mercado, que, clebres por suas faces robicun-das 
e sua linguagem pitoresca, formavam uma corporao privilegiada. Os ces disputavam detritos nas valas. Carroas de feno e lenha obstruam as ruas. Sobre tudo aquilo 
reinava o cheiro das bancas de pescado.
 Exalaes nauseabundas, procedentes do vizinho Cimetire des Saints Innocents e de seus espantosos ossurios, onde se amontoavam havia quinhentos anos os ossos 
dos parisienses, misturavam-se aos fortes odores de peixe, carne e queijo.
 O pelourinho no meio da praa. Era uma espcie de pequena torre octogonal com teto pontudo. A construo constava de um rs-do-cho com altas janelas ogivais, pelas 
quais se podia ver a grande roda de ferro colocada no centro da torre.
 Naquela noite estava exposto nela um ladro, com a cabea e as mos metidas nos buracos da roda. De quando em quando um dos ajudantes do verdugo a punha em movimento. 
Apareciam ento o rosto azulado pelo frio e as mos pendentes do ladro, passando de janela em janela, como figura macabra de um relgio de autmatos. Os basbaques 
reunidos na praa riam-se de suas caretas.
 -        E Jactncia - diziam -, o maior "rapa-bolsas" do mercado.
 Havia enorme muldito junto ao pelourinho. Mas, se se comprimia naquele lugar, era menos para contemplar o ladro do que para entender-se com dois auxiliares do 
carrasco que, no rs-do-cho, distribuam fichas.
 -        Veja, senhora - disse Corda-ao-Pescoo com certo orgulho.
- So pessoas que procuram conseguir lugar para a execuo de amanh. Certamente no haver lugar para todo mundo.
 Com a insensibilidade inerente  sua profisso e que permitiria fazer dele um excelente verdugo, mostrou-lhe o aviso que os pregoeiros haviam trombeteado naquela 
manh em todas as esquinas:
 "O Sieur Aubin, executor ordinrio da Alta e Baixa Justia da cidade de Paris e de seus arrabaldes, anuncia que alugar lugares sobre o cadafalso, a preo razovel, 
a quem queira ver a fogueira que ser acesa para um feiticeiro, amanh, na Place de Greve. Os bilhetes sero vendidos no pelourinho, pelos seus ajudantes. Os lugares 
estaro marcados com uma flor-de-lis, e as fichas, com a cruz de Santo Andr".
 - Quer que lhe alugue um lugar? - props o rapaz com solicitude.
 - No, no! - disse Anglica, horrorizada.
 - No entanto, tem direito - disse o outro com filosofia. - Por que sem isso no poder aproximar-se, previno-lhe. Para ver enforcamento no vm muitos curiosos: 
j esto todos acostumados. Mas as fogueiras so mais raras. Vai haver aperto. Oh! mestre Aubin diz que fica perturbado antecipadamente. No gosta que haja muita 
gente gritando em seu redor. Diz que nunca se sabe o que lhe pode acontecer.  aqui, senhora. Entre.
 O aposento em que Corda-ao-Pescoo a introduziu estava limpo e bem arrumado. Acabavam de acender as velas. Em redor da mesa, trs meninas de cabelos louros sob 
os gorrinhos de l, limpamente vestidas, comiam papas em escudelas.
 Junto  lareira, a mulher do carrasco remendava a malha escarlate de seu marido.
 -        Salve, patroa! - disse o aprendiz. - Eu trouxe esta mulher porque quero falar com o patro.
  - Est no Palcio da Justia, mas no demorar. Sente-se, minha bela.
 Anglica sentou-se num banco encostado  parede. A mulher observava-a de soslaio, mas no lhe dirigia perguntas, como teria feito qualquer outra. Quantas mulheres 
amarguradas, mes aflitas, filhas desesperadas, tinha visto sentarem-se naquele banco, vindas para implorar do carrasco um ltimo socorro, o alvio das dores de 
um ser amado!... Quantas, com as mos repletas de ouro ou com a boca cheia de ameaas, tinham penetrado naquele interior tranquilo, para solicitar ao verdugo uma 
suprema e impossvel cumplicidade na evaso do prisioneiro!
 Por indiferena ou compaixo, a mulher permanecia calada e s se ouviam os risos discretos das meninas que buliam com Corda-ao-Pescoo.
 Ouvindo passos na entrada, Anglica ergueu-se um pouco. Mas ainda no era quem ela esperava. O recm-vindo era um jovem sacerdote, que, antes de entrar, limpou 
demoradamente seus gro-sos sapatos enlameados.
 - Mestre Aubin no est?
 - No tardar. Entre, senhor padre, e acerque-se do fogo, se desejar.
 -  muito amvel, senhora. Sou um sacerdote da Misso e designaram-me para assistir o condenado de amanh. Vim ver mestre Aubin para apresentar-lhe minhas credenciais, 
firmadas pelo senhor tenente de polcia, e pedir-lhe que me deixe entrar para ver esse pobre homem. Uma noite de oraes no  excessiva para quem se prepara para 
morrer.
 - Claro que no - disse a mulher do carrasco. - Sente-se, reverendo, e seque seu casaco. E voc, Corda-ao-Pescoo, ponha lenha no fogo.
 Ps de lado a malha vermelha e tomou a roca.
 - O senhor tem coragem - disse. - No o amedronta um feiticeiro?
 - Todas as criaturas de Deus, at as mais culpadas, merecem a nossa piedade para quando chega a hora de sua morte. Mas este homem no  culpado.  inocente do crime 
espantoso que o acusam.
 - Todos dizem isso! - afirmou a mulher do verdugo com filosofia.
 - Se o Sr. Vicente ainda vivesse, amanh no haveria fogueira. Algumas horas antes de sua morte, ouvi-o falar com ansiedade da mjustia que se ia cometer com um 
gentil-homem do reino. Se fosse vivo, subiria  fogueira juntamente com o condenado, para gritar ao povo que desejava ser queimado em lugar de um inocente.
 - Ai, isso  o que atormenta o meu pobre homem! - exclamou a mulher. - No pode imaginar, senhor padre, como se apoquenta pensando na execuo de amanh... Mandou 
rezar seis missas na Igreja de Santo Eustquio, uma em cada capela lateral. E mandar dizer outra no altar-mor, se tudo correr bem.
 - Se o Sr. Vicente estivesse aqui!...
 - ... No haveria mais ladres nem feiticeiros e ns ficaramos sem trabalho.
 - Poderia vender arenques no mercado ou flores no Pont Neuf, se no ficaria pior.
 - Isso ... - disse a mulher, rindo.
 Anglica olhava o sacerdote. Pelas palavras que ele acabava de pronunciar, gostaria de levantar-se, declarar-lhe seu nome, pedir-lhe o auxlio de sua caridade. 
Era jovem, mas a chama do Sr. Vicente transparecia nele; tinha as mos grandes, a atitude modesta e simples das pessoas do povo. Teria tido a mesma atitude perante 
o rei. Anglica, no entanto, no se mexia. Seus olhos ardiam das lgrimas que durante dois dias derramara na solido do pequeno quarto, em que ocultava sua misria. 
Mas agora j no tinha lgrimas. Nenhum blsamo podia suavizar-lhe a ferida aberta. De seu desespero nascera uma flor m: o dio. "O que lhe fizeram sofrer, eu lhes 
farei pagar centuplicadamente." Havia extrado de tal resoluo o propsito de continuar vivendo e agindo. Seria possvel perdoar a um Bcher?...
 Permaneceu imvel, rgida, com as mos crispadas sob o casaco, segurando a bolsa que Desgrez lhe havia dado.
 - Pode ser que no me d crdito, senhor padre - disse a mulher do carrasco -, mas meu pecado maior  o orgulho.
 - A senhora me deixa estupefato! - exclamou o sacerdote batendo com as mos nos joelhos. - Sem faltar  caridade, minha filha, perguntou-lhe onde encontra motivo 
para o orgulho e a soberba, a senhora que  detestada por causa da profisso de seu marido, a senhora cujas vizinhas viram o rosto resmungando quando passa por elas!
 - Oh, isso  certo! - suspirou a pobre mulher. - Contudo, quando vejo meu homem, bem plantado sobre as pernas, levantar seu grande machado e pum! de um s golpe 
fazer saltar uma cabea, no posso deixar de sentir-me orgulhosa dele. Deve saber que no  fcil conseguir isso de uma s machadada, senhor padre.
 - Minha filha, voc me faz estremecer - disse o sacerdote.
 E acrescentou, pensativo:
 -        O corao humano  insondvel.
 Naquele momento abriu-se a porta e chegou at eles o rumor da praa. Um gigante de ombros quadrados entrou e avanou com passo pesado e tranquilo. Saudou com um 
grunhido, lanando em torno o olhar imperioso daquele que sempre e em qualquer lugar est no seu direito. Seu rosto cheio, marcado pela varola, apresentava aspecto 
rude e impassvel. No parecia perverso, mas simplesmente frio e duro como uma mscara de pedra. Sua face era a dos homens que no devem rir nem chorar em certas 
circunstncias, o rosto dos gatos-pingados... e dos reis, pensou Anglica, que subitamente, apesar de seu grosseiro casaco de trabalhador, achou-o um tanto parecido 
com Lus XIV.
 Era o carrasco.
 Anglica levantou-se, e o sacerdote fez o mesmo, entregando sem pronunciar palavra a carta de apresentao do tenente de polcia.
 Mestre Aubin aproximou-se de uma vela para l-la.
 - Est bem - disse. - Ao amanhecer o senhor ir comigo at l.
 - No poderia ir agora?
 - Impossvel. Tudo est fechado. S eu posso introduzi-lo junto ao condenado, senhor cura, e na verdade preciso comer alguma coisa. Os outros obreiros esto proibidos 
de trabalhar depois do toque de silncio. Mas para mim no existe dia nem noite. Quando lhes d na veneta fazer confessar um paciente, esses senhores da Alta Justia, 
cabeudos e raivosos, so capazes de instalar-se ali para dormir. Hoje tudo se teve de empregar: a gua, os borzeguins, o potro. O sacerdote juntou as mos.
 -        Pobre homem! Sozinho nas trevas de um calabouo, com seu sofrimento e a angstia da morte prxima! Meu Deus, socorra-o!
 O carrasco lanou-lhe um olhar suspcaz.
 -        No ir dar-me aborrecimentos? - disse. - Basta-me ter de levar agarrado  cala esse frade Bcher, a quem parece que nunca fao o suficiente. Por So 
Cosme e Santo Eli, creio que  ele quem est possesso do Diabo!
 Enquanto falava, mestre Aubin ia esvaziando os vastos bolsos de seu casaco. Jogou alguns objetos sobre a mesa e, de sbito, as meninas deram um grito de admirao. 
Um grito de horror lhes respondeu".
 Anglica, com os olhos escandelados, reconheceu, entre os objetos de ouro, o pequeno estojo com incrustaes de prolas em que Joffrey colocava, outrora, os rolos 
de tabaco que fumava. Com um gesto vivo, que no pde dominar, apoderou-se dele e apertou-o ao peito.
 Sem se zangar, o verdugo abriu-lhe os dedos e reapoderou-se do estojo.
 - Calma, minha filha. O que eu encontro nas algibeiras dos supliciados pertence-me de direito.
 - O senhor  um ladro! - disse ela, anelante. - Um corvo ignbil, um despojador de cadveres!
 Imperturbavelmente, o homem foi buscar na beira da chamin uma caixinha de prata cinzelada, e nela colocou seu butim sem responder. A mulher continuava a fiar, 
balanando a cabea. Murmurou em tom de escusa, olhando o padre:
 - Bem sabe o senhor: todas dizem a mesma coisa. No lhes queremos mal por isso. Mas esta deveria compreender que de um queimado no se pode esperar muito lucro. 
Nem ao menos se pode recuperar o corpo para ganhar alguma coisa com a gordura, que os boticrios nos encomendam, e com os ossos que...
 - Oh! piedade, minha filha - disse o padre tapando os ouvidos com as mos.
 Olhava para Anglica com grandes olhos transbordantes de compaixo. Mas ela no o via. Tremia e mordia os lbios. Havia insultado o carrasco! Agora ele iria recusar 
a splica macabra que ela lhe vinha fazer.
 Com seu passo pesado e bamboleante, mestre Aubin deu volta  mesa e aproximou-se dela. Com os polegares metidos no largo cinturo, olhou-a de alto a baixo com calma.
 -        Que posso fazer em seu favor?
 Tremula, incapaz de pronunciar uma palavra, ela estendeu-lhe a bolsa. Ele pegou-a, sopesou-a; depois, com seus olhos inexpressivos, voltou a encarar Anglica.
 -        Quer que o estrangule?
Ela fez que sim com a cabea.
 O homem abriu a bolsa, deixou cair na larga mo alguns escudos e disse:
 -        Est bem, farei o que me pede.
 Percebendo o olhar de espanto do jovem eclesistico franziu o sobrolho.
 -        No contar nada, hem, cura? Como bem compreende, corro grande risco. Se algum o percebesse poderia trazer-me aborrecimentos. Tenho de me arranjar no 
ltimo momento, quando a fumaa estiver ocultando um pouco o poste aos olhos do pblico.
 para fazer um bem, compreende?
 - Claro... Nada direi - disse o padre com esforo. - Pode contar comigo.
 - Causo-lhe medo, hem? - disse o carrasco. -  a primeira vez que d assistncia a um condenado?
 - Durante as batalhas, quando eu ia levar os socorros recolhidos pelo Sr. Vicente, muitas vezes acompanhei at o p da rvore os infelizes que iam ser enforcados. 
Mas era a guerra, o horror e a febre da guerra... Enquanto aqui...
 Com um gesto aflito apontou as meninas louras sentadas diante de suas escudelas.
 -        Aqui  a justia - disse o carrasco, no sem grandeza.
Apoiou-se  mesa, familiarmente, como que ansioso por conversar.
 -        O senhor me  simptico, padre. Faz-me lembrar um capelo das prises com quem trabalhei muito tempo. Todos os condenados que juntos levamos ao patbulo 
morreram beijando o crucifixo. Quando tudo terminava, ele chorava como se houvesse perdido um filho e estava to plido que muito amide tive de for-lo a tomar 
um copo de vinho para se reanimar. Sempre levo uma jarra de bom vinho. Nunca se sabe o que pode acontecer, principalmente com os aprendizes. Meu pai era ajudante, 
quando esquartejaram Ravaillac, o regicida, na Place de Greve. Ele contou-me... Bem, afinal de contas, no so histrias que lhe dem prazer. Contar-lhe-ei mais 
tarde, quando estiver habituado. Em resumo, algumas vezes eu perguntava ao capelo: "Acredita que eu irei para o inferno?" "Se for assim, pedirei a Deus que me mande 
com voc", respondia-me ele. Olhe, padre - continuou o verdugo -, vou mostrar-lhe alguma coisa que o tranquilizar um pouco.
 Depois de revolver seus numerosos bolsos, mestre Aubin exibiu um pequeno frasco.
 -         uma receita que me deixou meu paij que a recebeu de seu tio, carrasco nos tempos de Henrique IV.  aviada secretamente para mim por um boticrio amigo, 
a quem em troca forneo crnios humanos para fabricar seu p de "magistrio". Ele diz que o p de magistrio  muito bom para o mal-de-pedra e a apoplexia, mas  
preciso que o crnio seja de um homem jovem morto de morte violenta. Afinal de contas...  esse o seu negcio. Forneo-lhe um crnio ou dois, e ele me fabrica minha 
poo sem dar com a lngua nos dentes. Se ministro algumas gotas dela a um supliciado, ele fica todo alegre e sofre menos. No o emprego seno com aqueles que tm 
famlia que paga. No deixa de ser um servio, no , senhor padre?
 Anglica escutava boquiaberta. O carrasco voltou-se para ela.
 - Quer que eu lhe d um pouco amanh cedo? Anglica conseguiu articular, com os lbios brancos.
 - Eu... eu no tenho mais dinheiro.
 -        Vai includo no total - disse mestre Aubin fazendo saltar a bolsa na mo.
 Apanhou de novo a pequena caixa de prata para guardar nela a bolsa.
 Murmurando uma vaga frmula de saudao, Anglica dirigiu-se para a porta e saiu.
 Tinha nuseas, doa-lhe de maneira estranha o corpo todo. Entretanto, a animao da praa, onde os risos e as vozes continuavam a cruzar-se, parecia-lhe menos penosa 
de suportar do que a sinistra atmosfera da casa do verdugo.
 Apesar do frio, as portas das lojas permaneciam abertas. Era a hora dos colquios entre vizinhos. Archeiros levavam para a priso do Chtelet o ladro que acabavam 
de fazer descer do pelourinho; uma nuvem de garotos o perseguia, atirando-lhe bolas de neve.
 Anglica sentiu passos precipitados atrs de si. Apareceu esbaforido o pequeno sacerdote.
 -        Minha irm... minha pobre irm - balbuciou ele. - No posso deix-la ir assim!
 Anglica recuou bruscamente. Na plida luz produzida pela fraca lanterna de uma loja, o assustado eclesistico viu um rosto de brancura translcida em que duas 
pupilas verdes apresentavam um brilho quase fosforescente.
 - Deixe-me - disse Anglica com voz metlica. - Nada pode fazer por mim.
 - Minha irm, rogue a Deus...
 -  em nome de Deus que vo queimar amanh meu marido inocente.
 - Minha irm, no agrave sua dor rebelando-se contra o cu. Lembre-se de que foi em nome de Deus que crucificaram Nosso Senhor.
 - Suas frioleiras me enlouquecem! - gritou Anglica com voz aguda, que a ela prpria pareceu vir de muito longe. - No ficarei tranquila enquanto no esmagar, por 
minha vez, um de seus colegas, enquanto no o fizer perecer nos mesmos tormentos...
 Apoiou-se  parede, levou as mos ao rosto e um soluo atroz a sacudiu.
 -        J que o ir ver... diga-lhe que o amo, que o amo... Diga-lhe... Ah! que ele me tornou feliz. E depois... pergunte-lhe que nome Jevo dar ao menino que 
vai nascer. S-' Farei o que me pede, minha irm.
 Ele quis tomar-lhe a mo, mas Anglica se esquivou e prosseguiu.
 O sacerdote no voltou a insistir. Curvado ao peso das tristezas Jiumanas, ele se foi pelas ruas estreitas onde ainda rondava a sombra do Sr. Vicente.
 Anglica apressou-se rumo ao Temple. Parecia-lhe que seus ouvidos zumbiam, pois de repente ouviu gritar em derredor.
 -        Peyrac! Peyrac!
 Ela parou e viu que desta vez no sonhava.
 -        ... O terceiro chamava-se Peyrac... Quem ganhou foi Satans.
 Encarapitado em uma das pedras que serviam aos cavaleiros para subir  sela, um garoto magro berrava com voz rouca os ltimos versos de uma cano de que tinha 
debaixo do brao um mao efe exemplares.
 A jovem voltou e pediu-lhe uma folha. O grosseiro papel cheirava ainda a tinta fresca. Anglica no podia ler a cano em uma ruela escura. Dobrou o papel e reencetou 
a caminhada. A medida que se aproximava do Temple, comeou novamente a pensar em Florimond. Causava-lhe inquietao deix-lo sozinho, agora que ele estava sempre 
em movimento. Era quase preciso amarr-lo ao bero, o que desagradava muito ao menino. Muitas vezes, ele chorava durante toda a ausncia de sua me e ela sempre 
o encontrava tossindo e febril. No ousava pedir  Sra. Scarron que o vigiasse, porque, depois da condenao de seu marido, a viva do paraltico a evitava e s 
faltava benzer-se quando passava por ela.
 Na escada, Anglica ouviu os soluos da criana e acelerou o passo.
 -        Estou aqui, meu tesouro, meu pequeno prncipe. Por que voc ainda no  um rapaz grande?
 Lanou lenha ao fogo, com vivacidade, e ps-se a preparar a papa. Florimond berrava a mais no poder, com os braos estendidos. Finalmente, quando sua me o tirou 
da priso, ele se calou como por encanto e comeou a sorrir graciosamente.
 -        Voc  um pequeno bandido - disse Anglica, enxugando-lhe o rosto banhado de lgrimas.
 Subitamente seu corao se derreteu. Ergueu Florimond nos braos e contemplou-o  luz das chamas, que punham cintilaes vermelhas nos olhos negros do menino.
 -        Pequeno rei! Admirvel deusinho! Somente voc me resta. Como voc  belo!
 Florimond parecia compreender o que sua me lhe dizia. Dobrava seu pequeno corpo e sorria com uma espcie de orgulho e seguro de si mesmo. Proclamava muito alto, 
com sua atitude,, que sabia ser o centro do mundo. Anglica acariciou-o e brincou com ele. O menino gorjeava feito um passarinho. A Sra. Cordeau costumava dizer 
que, para falar, era um menino muito adiantado. Sua sintaxe no era perfeita, mas ele sabia muito bem fazer-se compreender. Quando sua me o banhou e o deitou, ele 
exigiu que Anglica lhe entoasse uma cano de ninar, O moinho verde.
 A jovem cantava com dificuldade. O canto foi feito para exprimir a alegria. Pode-se falar tendo no corao uma grande dor, mas cantar exige um esforo sobre-humano.
 -        Outra vez! Outra vez! - reclamava Florimond.
 Depois meteu o polegar na boca, com ar ditoso. Ela no se importava de que ele se mostrasse to tirnico e inconsciente. Receava o instante em que teria de ficar 
sozinha,  espera de que a noite terminasse. Quando Florimond adormeceu, ela o contemplou demoradamente e, afinal, estirou o corpo dolorido. Seriam as torturas sofridas 
por Joffrey que assim repercutiam nela? As palavras do carrasco voltavam, lancinantes: "Hoje tudo se teve de empregar: a gua, os borzeguins, o potro". Ela no conhecia 
exatamen-te os horrores que aquelas palavras escondiam, mas sabia que tinham feito sofrer o homem que ela amava. Ah! que aquilo terminasse logo!
 Disse em voz alta:
 -        Amanh voc descansar em paz, meu amor. Estar afinal, liberto dos homens ignaros...
 Em cima da mesa, a folha da cano que ela comprara estava desdobrada. Aproximou-se da vela e leu:
 "No fundo de seu negro abismo
 Satans consultou seu espelho
 E pareceu-lhe no ser to feio
 Como os homens fingiam crer..."
 O poema continuava narrando, em termos s vezes cmicos e s vezes licenciosos, a perplexidade de Satans ao se perguntar se. afinal de contas, seu rosto, to maltratado 
pelos fazedores de imagens de catedrais, no podia sustentar honrosamente a comparao com a dos humanos. O inferno havia-lhe proposto organizar f um concurso de 
beleza com os primeiros que chegassem da terra.
 "Estavam justamente lanando ao fogo
 Trs cmplices, bruxos de magia negra,
 Que acabavam de chegar
 Ao inferno.
 Um deles tinha a cara toda azul,
 O outro tinha a cara toda negra,
 o terceiro chamava-se Peyrac
 E no assombrarei a ningum
 Confessando que aquelas gorgonas,
 Que eram machos e no fmeas,
 Fizeram voar com grande barulho de asas
 O prprio inferno espantado,
 E que o prmio de beleza
 Quem ganhou foi Satans
 Os olhos de Anglica correram para a assinatura: "Cludio le Petit, poeta pobre".
 Com a boca amarga, amassou o papel. 
 "Esse eu tambm matarei!", pensou ela.
 
 CAPITULO XXVI
 
 O justiado de Notre-Dame
 
 "A mulher deve seguir seu marido", disse Anglica consigo mesma quando a aurora surgiu e um cu de pureza irisada se estendeu sobre os campanrios da cidade.
 Ela iria, pois. Ela o acompanharia at a ltima etapa. Teria de acautelar-se para no se trair, pois corria o risco de ser presa. Talvez ele a visse, a reconhecesse...
 Desceu com Florimond adormecido nos braos e foi bater  porta da Sra. Cordeau, que j estava acendendo o fogo.
 -        Posso deix-lo com a senhora por algumas horas, Sra.
Cordeau?
 A velha voltou para ela seu rosto de feiticeira triste.
 -        Coloque-o em minha cama, e eu olharei por ele.  apenas justia, pobre cordeiro! Um verdugo ocupa-se do pai. A viva de um verdugo se ocupar do filho. 
V, minha filha, e ore a Nossa Senhora das Sete Dores, para que lhe ampare em sua provao. 
 Da soleira ela disse:
 -        No se preocupe com as compras. Tomar a sopa comigo quando voltar.
 Anglica respondeu com esforo que no valia a pena e que no tinha fome. A velha sacudiu a cabea desgrenhada e entrou resmungando.
 Como uma sonmbula, Anglica atravessou a porta do Temple e dirigiu-se para a Place de Greve.
 A bruma do Sena comeava a dissipar-se, deixando ver os belos edifcios do Hotel de Ville que emolduravam o vasto logradouro. Fazia muito frio, mas j o cu azul 
prometia aos parisienses utn dia de sol.
 Na primeira parte da praa havia uma alta cruz erguida sobre um suporte de pedra, junto ao patbulo em que balanava o corpo de um enforcado.
 Uma grande multido comeava a chegar e a reunir-se em torno da forca.
 - E o mouro - diziam.
 - No;  o outro. Foi executado ainda de noite. O feiticeiro o ver, quando chegar na carreta.
 - Mas ele tem a cara toda negra.
 -         porque foi enforcado. Tinha o rosto azul. Voc conhece a cano?
 Algum comeou a cantarolar:
 "Um deles tinha a cara toda azul,
 O outro tinha a cara toda negra,
 O terceiro chamava-se Peyrac...
 Quem ganhou foi Satans".
 Anglica levou a mo  boca para sufocar um grito. No disforme cadver que ali balouava, com o rosto e a lngua tumefatos, acabava de reconhecer o saxo Fritz 
Hauer.
 Um menino andrajoso olhou-a e disse rindo:
 - A moa j comea a desmaiar. Que dir quando vir tostar o bruxo?
 - Parece que as mulheres se grudavam nele como as moscas no mel.
 - Pudera! Ele era mais rico que o reif
 -        Era por meios diablicos que ele fabricava todo aquele ouro.
Tremendo, a jovem aconchegou o manto ao corpo.
 Um gordo charcuteiro que estava  porta de seu negcio disse-lhe com simpatia:
 : - Seria melhor voc ir daqui, minha filha. O que aqui acontece no  espetculo para uma mulher que est prestes a ser me.  Anglica sacudiu a cabea teimosamente.
 Depois de reparar em seu rosto plido e nos seus grandes olhos de louca, o charcuteiro encolheu os ombros. Familiarizado com a praa, conhecia as pobres silhuetas 
que vinham rondar as forcas e os cadafalsos.
 -  aqui a execuo? - perguntou Anglica com voz sumida.
 - Depende da que voc vai presenciar. Sei que.daqui a pouco vo enforcar um pasquineiro no Chtelet. Mas se  a do feiticeiro, ser aqui, sim, na Place de Greve. 
Olhe, ali adiante est a fogueira.
 A fogueira estava armada a grande distncia, quase na margem do rio. Era um enorme estrado de achas empilhadas, no cimo do qual se via um poste. Para subir a ela 
era necessria uma pequena escada de mo.
 A alguns metros, estava o cadafalso que servia para as decapitaes, rodeado de tamboretes que os primeiros compradores de lugares j iam ocupando.
 Um vento seco soprava de vez em quando e fustigava os rostos avermelhados com uma fina poeira de neve. Uma velhinha procurou abrigo sob o toldo da charcutaria.
 - Est fria esta manh - disse. - Melhor seria que eu ficasse tranquilamente vendendo meus peixes no mercado junto do meu braseiro. Mas prometi a minha irm levar-lhe 
um pedao de osso de feiticeiro para o seu reumatismo.
 - Dizem que  bom remdio - comentou o charcuteiro.
 - Realmente. O barbeiro da Rue de la Savonnerie me disse que o triturar com leo de dormideira, e que no h nada melhor para as dores.
 - No ser fcil consegui-lo. Mestre Aubin, o carrasco, pediu que duplicassem a guarda de archeiros.
 - Certamente ele deseja ficar com os bons pedaos, esse carniceiro, esse patibular do diabo! Mas, com verdugo ou sem verdugo, cada um ter sua parte - disse a velha 
mostrando com ar perverso os dentes podres.
 - Em Notre-Dame talvez seja mais fcil a senhora conseguir um pedao de sua camisa.
 Anglica sentiu que um suor frio lhe molhava a espinha dorsal. Tinha esquecido a primeira parte do horrvel programa: a confisso pblica em Notre-Dame.
 Comeou a correr precipitadamente para a Rue de la Coutelle-rie, mas a onda de gente que se espraiava pela praa, como um formigueiro, barrou-lhe a passagem e atirou-a 
para trs. No poderia, de maneira alguma, chegar a tempo!
 O ndio charcuteiro deixou sua porta e aproximou-se de Anglica.
 -  a Notre-Dame que quer ir? - perguntou em voz baixa, com ar compassivo.
 - Sim - balbuciou ela -, eu no me lembrava mais... eu...
 - Escute, eu lhe direi o que deve fazer. Atravesse a praa e desa at as docas do vinho. Ali, pedir a um barqueiro que a leve at Saint-Landry. E, por trs, alcanar 
Notre-Dame em cinco minutos.
 Ela agradeceu e correu novamente. O charcuteiro a tinha informado bem. Por alguns soldos, um bateleiro admitiu-a em seu barco e, com trs remadas, levou-a ao Quais 
Saint-Landry. Ao ver as altas casas de madeira que mergulhavam nos restos de frutas podres, lembrou vagamente a clara manh em que Brbara lhe dissera: "L embaixo, 
diante do Hotel de Ville,  a Place de Greve. Ali eu vi queimar um feiticeiro..."
 Anglica corria. A rua passava diante das casas canonicais da ab-side de Notre-Dame e estava quase deserta. Mas o bramido da multido chegou at ela, cortado pelas 
notas graves e sinistras dos sinos que dobravam pelos supliciados. Anglica corria. Jamais soube que fora sobre-humana a fez atravessar as filas apertadas dos curiosos, 
nem a que milagre deveu encontrar-se na primeira fila de espectadores, no adro da catedral.
 Naquele instante, um prolongado clamor anunciou a chegada I do condenado. A multido era to densa que o cortejo avanava com dificuldade. Os ajudantes do carrasco 
procuravam arredar o povo a grandes chicotadas.
 Afinal, apareceu uma pequena carroa de madeira. Era uma dessas grosseiras viaturas que recolhia o lixo da cidade e estava suja de barro e palha.
 Dominando a ignomnia de tal veculo, mestre Aubin, de p, com os punhos apoiados nos quadris, vestido com cala e gibo vermelho, o peito adornado com as armas 
da cidade, deixava cair sobre aquela massa ululante seu olhar pesado. O sacerdote ia sentado na beira da carroa. Gritos do povo reclamavam o bruxo, que no se podia 
ver.
 -        Deve estar estendido no fundo - disse uma mulher junto a Anglica. - Dizem que est meio morto.
 -        Espero que no - exclamou espontaneamente sua vizinha, uma linda moa de faces frescas.
 Entrementes, a carroa tinha parado perto da colossal esttua I do Grande Jejuador.
 Archeiros a cavalo, com as alabardas apontadas para o populacho, mantinham-no a distncia. Alguns agentes policiais, rodeados por uma multido de monges de diferentes 
confrarias, avanaram para o adro.
 Uma sbita vaga jogou Anglica para trs. Ela gritou e, como uma fria, agatanhando os que lhe estavam prximos, recuperou seu lugar.
 Os sinos continuavam dobrando por cima da multido, que subitamente se tornou silenciosa. A entrada do adro, uma apario fantstica se ergueu e subiu os degraus. 
Os olhos turvos de Angelica no viam seno aquela silhueta de brancura deslumbrante. Depois, de repente, percebeu que o condenado tinha um brao por cima dos ombros 
do verdugo e o outro sobre os do sacerdote, e que estes na realidade o arrastavam, pois no podia utilizar as pernas. A cabea, de longos cabelos negros, caa para 
a frente.
 Precedia-os um monge que s vezes andava para trs, levando um enorme crio, cuja chama o vento inclinava. Anglica reconheceu Conan Bcher, cujo rosto era contorcido 
pelo xtase e por uma alegria perversa. Levava ao pescoo um pesado crucifixo branco que lhe descia at os joelhos e o fazia tropicar. Parecia, assim, entregar-se, 
diante do condenado, a uma grotesca dana macabra.
 A procisso avanava com uma lentido de pesadelo. Finalmente, ao chegar ao alto do adro, o grupo se deteve diante do prtico do Juzo Final.
 Uma corda pendia do pescoo do condenado. Do camiso branco saa um p desnudo, pousado sobre o lajedo glacial.
 "No  Joffrey", disse Anglica para si.
 No era realmente aquele que ela conhecera, aquele homem de hbitos to requintados, que frua todos os prazeres da vida. Era um miservel como todos os miserveis 
que tinham vindo quele lugar, com os ps descalos, de camisa, a corda ao pescoo...
 Naquele momento, Joffrey de Peyrac levantou a cabea. Em seu rosto macerado, incolor, deformado, somente os olhos, imensos, brilhavam com um fogo sombrio.
 Uma mulher soltou um grito penetrante:
 -        Ele me olha! Vai-me enfeitiar!
 Mas o Conde de Peyrac no olhava para o pblico. Contemplava diante de si, na fachada cinzenta de Notre-Dame, os velhos santos de pedra ali reunidos.
 Que prece lhes dirigia? Que promessa recebia deles? Contemplava-os somente?
 Um escrivo havia-se colocado  sua esquerda e relia com voz fanhosa a condenao. Os sinos tinham-se calado. No entanto, ouviam-se mal as palavras.
 -        ...dos crimes de rapto, seduo, impiedade, magia... ser entregue s mos... da Alta Justia... onde far confisso pblica de suas faltas, com a cabea 
descoberta e os ps descalos... tendo na mo um crio de quinze libras...
 Quando o escrivo enrolou o pergaminho, soube-se que tinha terminado a leitura. Conan Bcher enunciou ento os termos do pedido de perdo.
 "Reconheo os crimes de que sou acusado. Peo perdo a Deus. Aceito meu castigo em expiao de minhas faltas."
 O capelo segurava o crio, que o condenado no podia sustentar.
 Esperava-se que se erguesse a voz do culpado, e a multido impacientava-se.
 - Falar ou no, escravo do Diabo?
 - Quer arder no inferno, com seu amo?
 Anglica teve de repente a impresso de que seu marido reunia suas ltimas foras. Uma onda de vida reanimou-lhe a face lvida. Apoiou-se mais firmemente nos ombros 
do carrasco e do sacerdote, e pareceu crescer a tal ponto que ultrapassou mestre Aubin. Um segundo antes de ele abrir a boca, Anglica, por intuio do seu amor, 
percebeu o que ele ia fazer.
 E subitamente, no ar gelado, uma voz profunda, vibrante, extraordinria, se fez ouvir.
 Pela ltima vez elevava-se a Voz de Ouro do Reino.
 Cantava, em lngua d'oc, um refro bearns que Anglica reconheceu.
 "Les genols flexez am lo cap encli
 A voz reclan la regina plazent
 Flor de las flors, on Jhsus prs nayssena
 Vulhatz guarda la cietal de Tbolouza..."
 Somente Anglica compreendia o sentido:
 "Com os joelhos fletidos e a cabea inclinada, A vs me recomendo, rainha graciosa, Flor das flores em que Jesus nasceu. Guardai a cidade de Toulouse... Dulcssima 
flor em que nos refugiamos... Dulcssima flor em que todo o bem floresce... Conservai Toulouse sempre bem florida..."
 Anglica sentiu trespass-la uma dor semelhante a uma punhalada e lanou um grito.
 Aquele grito elevou-se solitrio num repentino e terrvel silncio, pois a voz do cantor havia emudecido. O monge Bcher erguera seu crucifixo de marfim e golpeara 
com ele a boca do condenado, cuja cabea tornou a tombar para a frente, enquanto de seus lbios escorria uma saliva vermelha. Mas logo em seguida Joffrey endireitou-se.
 -        Conan Bcher - gritou com o mesmo timbre alto e claro -, dentro de um ms nos encontraremos diante do tribunal de Deus!
 Um estremecimento de terror passou pelo populacho, que prorrompeu em uivos furiosos, que sufocaram a voz do Conde de Peyrac.
 Uma convulso de clera, uma indignao demente havia-se apoderado dos espectadores. Mas aquela exploso era provocada menos pelo gesto do monge que pela arrogncia 
do condenado. Nunca se tinha visto semelhante escndalo no adro de Notre-Dame! Cantar!... Ele tinha ousado cantar! Se ao menos houvesse sido um cntico! Mas o condenado 
cantara em lngua estrangeira, em lngua diablica...
 O tumulto da populaa ergueu Anglica como uma vaga monstruosa. Carregada, esmagada, pisoteada, encontrou-se no ngulo de um prtico. Sentiu sob a mo a folha de 
uma porta, que empurrou. Foi acolhida, arquejante, pela sombra da catedral deserta.
 Procurou dominar-se, vencer a dor que a subjugava. O beb mexia-se no seu ventre. Quando Joffrey cantara, ele dera literalmente um salto, a ponto de faz-la uivar.
 Os gritos do exterior lhe chegavam amortecidos. Durante alguns minutos os clamores se mantiveram em uma espcie de paroxismo; depois, gradualmente, se acalmaram.
 "Devo partir... Preciso ir  Place de Greve", pensou Anglica.
 Deixou o refgio do santurio.
 No adro, um grupo de homens e mulheres lutavam no lugar em que Bcher havia golpeado o Conde de Peyrac.
 -        Tenho-o comigo, tenho o dente do feiticeiro! - exclamou um, que foi perseguido pelos outros.
 Uma mulher brandia um farrapo branco.
 -        Cortei-lhe um pedao da camisa. Quem quer? Traz boa sorte.
 Anglica corria. Alm do Pont de Notre-Dame, alcanou a multido que escoltava o carro do sentenciado. Mas nas ruas de la Van-nerie e de la Coutellerie, foi-lhe 
quase impossvel avanar. Anglica suplicava que a deixassem passar. Ningum a ouvia. As pessoas pareciam estar em transe. Sob os raios do sol, a neve escorregava 
dos telhados e caa pesadamente sobre cabeas e ombros. Mas ningum se importava.
 Finalmente, Anglica conseguiu alcanar a esquina da praa. No mesmo instante, viu brotar da fogueira uma chama enorme. Com os braos levantados, gritou como uma 
louca:
 -        Ele arde! Ele arde!...
 Desesperada, abriu o caminho at o lugar do suplcio. Atingiu-a o calor das labaredas. Atiado pelo vento, o fogo rugia.
 Um rudo de tormenta ou de granizo elevava-se com violncia. Que significavam aquelas formas humanas que se agitavam no claro amarelo das chamas misturado com 
a luz do sol? Quem era aquele homem vestido de escarlate que se movia em torno da fogueira e introduzia um archote aceso nos interstcios do monte de lenha?
 Quem era aquele homem de sotaina preta agarrado  escada, com as sobrancelhas queimadas, e que, estendendo horizontalmente um crucifixo, gritava: "Esperana! Esperana!"
 Quem era aquele homem encerrado na fornalha? O Deus! Podia haver uma criatura viva no meio daquele incndio? No, no era um ser vivo, pois o verdugo o tinha estrangulado!
 - Ouviu como berra? - diziam os espectadores.
 - No, ele no berra, ele est morto - repetia a jovem alucinadamente.
 Tapou as orelhas com as mos, acreditando ter ouvido, proveniente da cortina de fogo, no sabia que clamor dilacerante.
 - Como berra! Como berra! - continuava dizendo a multido. E alguns reclamavam:
 - Por que lhe cobriram a cabea? Queremos ver suas caretas! Inmeros   papis   brancos,   arrastados   por   um   turbilho,
 escaparam-se da fogueira e vieram espalhar-se, convertidos em cinzas, por cima das cabeas.
 -        So os livros diablicos que queimaram com ele...
 De repente, o vento inclinou as labaredas. Anglica, no lapso de um relmpago, vislumbrou o monto de livros da biblioteca da Gaia Cincia e tambm o poste em que 
estava amarrada uma forma negra, imvel, cuja cabea se achava coberta por um capuz escuro.
 Ela desmaiou.
 
 CAPITULO XXVII
 
 A fogueira da Place de Greve
 
 Voltou a si na charcutaria da Place de Greve. "Oh!, como estou mal", pensou, endireitando-se. Tinha ficado cega? Por que estava tudo to escuro? Uma mulher, que 
trazia um castial, inclinou-se sobre ela.
 - J ir melhorar, minha filha! Eu pensava que voc estava quase morta. Veio um mdico e lhe fez uma sangria. Mas, se quer minha opinio, parece-me que voc est 
em trabalho de parto.
 - Oh, no! - disse Anglica, levando a mo ao ventre. - Espero o meu filho para daqui a trs semanas. Por que est to escuro?
 - Ora essa!  porque j  tarde. Acabam de tocar o ngelus.
 - E a fogueira?
 - Acabou-se - disse a mulher do charcuteiro baixando a voz. - Mas durou muito. Que dia, meus amigos! O corpo s acabou de ser consumido por volta das duas horas. 
E no momento em que dispersaram as cinzas houve uma verdadeira batalha. Todos queriam seu quinho. Quase despedaaram o carrasco.
 Aps um momento de silncio, acrescentou:
 - Conhecia o feiticeiro?
 - No! - disse Anglica com esforo. - No sei o que me aconteceu.  a primeira vez que vejo algo assim.
 - Realmente, isso impressiona. Ns, os comerciantes da Place de Greve, vemos tantas coisas que j no sofremos o menor abalo. At parece que algo nos falta quando 
no h execues.
 Anglica queria agradecer, mas no tinha consigo seno alguns trocados. Disse que voltaria para reembols-los da consulta mdica.
 No crepsculo azul, o sino do Hotel de Ville anunciou o trmino das atividades. O frio, ao cair da noite, era cortante.
 No extremo da praa, o vento espertava uma enorme flor vermelha de carves ardentes: eram os restos da fogueira.
 Anglica vagava pelas proximidades quando uma humilde silhueta se destacou da sombra do cadafalso. Era o capelo. Ele se aproximou. A jovem assustou-se e recuou, 
porque de sua batina se desprendia um cheiro insuportvel de lenha queimada e carne grelhada.
 -        Eu sabia que voc viria, minha irm - disse ele. - Eu a esperava. Queria dizer-lhe que seu marido morreu como um cristo. Estava conformado. Lamentava 
perder a vida, mas no temia a morte. Vrias vezes me disse que se alegrava de apresentar-se ao Senhor de todas as coisas. Creio que lhe causou grande consolo a 
certeza que tinha de saber, afinal...
 A voz do sacerdote expressou hesitao e um certo espanto.
 - De saber, afinal, se a Terra gira ou no gira.
 - Oh! - exclamou Anglica, cuja clera de sbito a reanimou. - Exatamente como os outros! Os homens so todos iguais. Esse pouco se importou de deixar-me na misria 
e no desespero, nesta Terra que gira ou no gira!
 - No, minha irm! Muitas vezes ele me repetiu: "O senhor lhe dir que eu a amo. Ela encheu minha vida. Ah! na dela eu no terei sido seno um episdio, mas confio 
em que saber traar o prprio caminho". Tambm me disse que desejava que desse o nome de Cantor  criana que vai nascer, caso seja um menino, e de Clemncia, se 
for uma menina.
 Cantor de Marmont, trovador do Languedoc, Clemncia Isaura, musa dos jogos florais de Toulouse...
 Como tudo isso estava distante! Como tudo era irreal em face das horas angustiosas que Anglica vivia. Agora ela procurava chegar ao Temple, mas andava com dificuldade. 
Durante alguns instantes avivou o seu ressentimento contra Joffrey. Esse ressentimento a encorajava. Naturalmente, a Joffrey pouco lhe importava que ela se consumisse 
em dores e lgrimas. Acaso os pensamentos de uma mulher tinham algum valor?... Mas ele, do outro lado da vida, ele iria afinal encontrar a resposta para as questes 
que havia formulado seu esprito de sbio!...
 De repente uma onda de lgrimas inundou as faces de Anglica, e ela teve de se apoiar numa parede para no cair.
 -        Ah! Joffrey, meu amor - murmurou. - Finalmente voc sabe se a Terra gira ou no gira!... Seja feliz na eternidade!
 As dores no seu corpo tornavam-se lancinantes e insuportveis .
 Sentiu que alguma coisa dentro dela se rompia. Percebeu ento que ia ciar  luz.
 Estava longe do Temple. Em sua marcha incerta, ela errara o caminho. Achou-se na vizinhana do Pont de Notre-Dame. Uma carroa ia entrando nela. Anglica chamou 
o carroceiro.
 - Pode levar-me ao Htel-Dieu? Estou enferma.
 -  para l que me dirijo - respondeu o homem. - Vou buscar minha carga para o cemitrio. Sou eu quem transporta os mortos. Pode subir, lindeza.
 
 CAPITULO XXVIII
 
 Nasce Cantor - Anglica desaparece em Paris
 
 - Que nome lhe por, minha filha?
 - Cantor.
 - Cantor! Isso no  nome cristo.
 - Pouco me importa - disse Anglica. - Entregue-me meu filho.
 Tomou das mos da parteira o pequeno ser vermelho, ainda mi-do, que a virago acabara de acolher neste triste mundo e enrolara num pedao de lenol sujo.
 O dia ainda no terminara: a meia-noite no tinha soado no relgio do Palcio da Justia, e o filho do supliciado acabava de nascer.
 O corao de Anglica estava partido. Seu corpo tinha sido torturado, suas entranhas arrancadas. O sangue lhe correra de todas as partes. Anglica havia morrido 
ao mesmo tempo que Joffrey. Com o pequeno Cantor nascera tambm outra Anglica, uma nova mulher em quem sobreviveriam somente algumas das estranhas douras e ingenuidades 
da antiga Anglica.
 A selvageria e a dureza que palpitavam na garota indisciplinada de Monteloup retomavam forma nela, arremetiam como um rio negro pela abertura de seu desamparo e 
de seu terror.
 Com a mo empurrou sua vizinha, criatura frgil e febril, que delirava um pouco. A terceira mulher, afastada para a beira do leito, protestou. Tinha uma hemorragia 
lenta, que durava desde a parte da manh. O cheiro de seu sangue, que impregnava o enxergo, era repugnante.
 Anglica tirou-lhe o cobertor. A terceira ocupante do leito voltou a protestar, fracamente.
 "De qualquer modo, estas duas vo morrer", pensou Anglica.
 "Pois que meu filho e eu procuremos aquecer-nos e sair daqui com vida."
 Com os olhos arregalados, um tanto enlouquecida, via brilhar na ptrida atmosfera, atravs das cortinas rasgadas do catre, a luz amarela das lmpadas de sebo.
 "Que coisa estranha!", dizia consigo mesma. Joffrey  que tinha morrido, mas era ela, Anglica, quem estava no inferno.
 Naquele antro nauseabundo, em que o odor das dejees e do sangue tinha a espessura de um nevoeiro, ela ouvia prantos, gemidos, queixas, como se estivesse mergulhada 
num pesadelo. Os agudos vagidos dos bebes no cessavam. Eram como interminvel salmodia, que s vezes se intensificava, depois acalmava um pouco, mas elevava-se 
de novo no outro extremo da sala.
 O frio era glacial, apesar dos braseiros circulares colocados nas intersees dos corredores, pois o seu calor se dispersava nas correntes de ar.
 Anglica via agora de que velha experincia nasce o terror das pobres ao hospital.
 No  ele a antecmara da morte?
 Como sobreviver naquele acervo de enfermidades e sujeira, onde os convalescentes estavam misturados com os doentes contagiosos, onde os cirurgies operavam sobre 
mesas imundas, com navalhas que, algumas horas antes, haviam servido, em suas lojas, para barbear os clientes do quarteiro?
 A alvorada se aproximava. Os sinos anunciavam a missa. Anglica lembrou-se dos mortos do Htel-Dieu, que naquela hora as religiosas dispunham em fila diante do 
prtico, para serem.levados por uma carroa ao Cimetire des Saints Innocents. Um fraco sol de inverno passaria talvez sobre a fachada gtica do velho hospital, 
mas os membros dos pobres mortos cosidos em seus sudrios no mais se reanimariam.
 A cavaleiro do Sena, a grande via aqutica que abastece Paris e lhe serve de esgoto, o Htel-Dieu, banhado pelas nvoas do rio, esperava o novo dia um navio repleto 
de carga maldita.
 Algum descerrou as cortinas do leito. Dois enfermeiros com as roupas manchadas lanaram um olhar sobre as trs mulheres que ocupavam a cama, agarraram a ltima, 
a que tivera a hemorragia, e puseram-na em uma padiola.
 Anglica viu que a infeliz estava morta. Na padiola tambm estava o cadver de um beb.
 Anglica tornou a olhar para o menino que tinha junto de si. Por que no chorava ele? Estaria tambm morto? No: dormia, com as mos fechadas e com uma expresso 
calma, inslita num recm-nascido. Ele no tinha o ar de quem suspeitasse, ao menos de leve, que era o filho da dor e da desgraa. O rosto parecia um boto de rosa, 
e o crnio estava coberto de uma leve penugem loira. Mas Anglica sacudiu-o sem cessar, receando que estivesse morto ou a ponto de morrer. O menino abriu ento as 
plpebras, mostrando seus olhos azulados e turvos, e voltou a adormecer.
 Na sala do hospital, religiosas inclinavam-se sobre os leitos das outras parturientes. Eram, certamente, dedicadas e revelavam uma coragem que no se podia nutrir 
seno de Deus. Mas a m higiene da organizao as punha em face de problemas insolveis.
 Aferrando-se ao desejo ardente de viver, Anglica forou-se a beber o contedo de uma tigela que lhe estenderam. 
 Depois, tentando esquecer a vizinha febricitante e o sanguinolento enxergo, procurou refazer as foras no sono. Vises mal-definidas passavam-lhe sob as plpebras 
cerradas. Pensava em Gontran. Ele caminhava por uma estrada da Frana, parava perto de uma ponte a fim de pagar a peagem, e, para diminuir a despesa, fazia o retrato 
do portageiro...
 Por que pensava ela em Gontran, transformado em pobre com-fcanheiro do tour de France, mas que, pelo menos, caminhava sob o cu puro? Gontran era como aqueles cirurgies 
que, em uma das outras salas, se inclinavam sobre um corpo dolorido com a firme determinao de nele descobrir o segredo da vida e da morte. No seu meio-sonho, desprendido 
das contingncias terrestres em que ela flutuava, Anglica descobria que Gontran era um dos homens mais preciosos do mundo... assim como os cirurgies... Tudo aquilo 
se embaralhava um pouco em sua mente. Por que os cirurgies eram pobres barbeiros, gente que ningum estimava, embora fosse to grande o seu papel?... Por que Gontran, 
que levava dentro de si um mundo e o poder de suscitar o entusiasmo dos prprios reis, no passava de um pobre artista necessitado, que decara de sua posio social?... 
Por que pensar em tantas coisas inteis, quando lhe era preciso reunir todas as suas foras fsicas para evadir-se do inferno?...
 Anglica esteve apenas quatro dias no hospital. Intratvel e dura, exigia para si as melhores cobertas e proibia que a parteira pusesse as mos sujas nela ou em 
seu filho. Quando passavam as bandejas com tigelas de alimento, tirava duas em vez de uma. Certa manh, arrancou o avental limpo que uma religiosa acabava de pr 
sobre o hbito e, enquanto a pobre novia corria para chamar a superiora, transformou-o em faixas para envolver o beb e em ataduras para si mesma.
 s recriminaes que lhe fizeram ela ps um silncio feroz e fitou em suas interlocutoras um olhar verde, desdenhoso, implacvel, que as impressionou. Havia na 
sala uma cigana, que declarou a suas companheiras:
 -        Est-me parecendo que essa moa de olhos verdes  uma adivinha!
 No falou seno uma vez, quando um dos administradores do hospital veio pessoalmente, com um leno perfumado debaixo do nariz, fazer-lhe censuras.
 - Disseram-me, minha filha, que voc se ope a que outra doente compartilhe esse leito que a caridade pblica lhe quis conceder. Parece mesmo que j jogou ao cho 
duas pacientes to fracas que no puderam defender-se. No tem remorsos de tal atitude? O hospital tem o dever de acolher todos os enfermos que se apresentam, e 
as camas no so bastante numerosas.
 - Ento, seria melhor o senhor coser logo em seus sudrios os enfermos que lhe enviam! - respondeu bruscamente Anglica. - Nos hospitais fundados pelo Sr. Vicente, 
cada enfermo tem seu leito! Mas o senhor no quis que viessem reformar seus indignos mtodos, porque teria de prestar contas. Onde vo parar as doaes da caridade 
pblica, de que me fala, e os dinheiros do Estado?  preciso acreditar que os coraes so bem pouco generosos e o Estado, muito pobre, se no se pode adquirir palha 
suficiente para mudar todos os dias a cama dos enfermos que as sujam e que o senhor deixa apodrecer sobre seu prprio esterco! Oh! estou certa de que, quando a sombra 
do Sr. Vicente vem rondar o hospital, ela chora de dor!
 Atrs de seu leno, o administrador escancelava os olhos estu-pefatos. Durante os quinze anos que vinha administrando certos servios do Htel-Dieu, ele tivera 
de advertir, em algumas ocasies, pessoas indisciplinadas, peixeiras de lngua solta, prostitutas obscenas. Mas nunca, naqueles leitos miserveis, se elevara uma 
resposta to clara em uma linguagem to correta.
 - Mulher - disse ele erguendo-se com toda a sua dignidade -, por suas palavras compreendo que voc tem vigor bastante para tomar o caminho de sua casa. Deixe, pois, 
este asilo cujos benefcios no quis reconhecer.
 - F-lo-ei com prazer - respondeu Anglica mordazmente. - Mas antes exijo que lavem diante de mim, com gua limpa, as roupas que me tiraram quando aqui cheguei 
e que foram amontoadas com os andrajos dos variolosos, dos doentes de molstias venreas e dos pestosos; do contrrio, sairei daqui em camisa e irei gritar no adro 
de Notre-Dame que os bolos dos grandes e os dinheiros do Estado vo parar nos bolsos dos administradores do Htel-Dieu. Apelarei para o Sr. Vicente, a conscincia 
do reino. Clamarei to alto que o prprio rei mandar verificar as contas do seu estabelecimento.
 -        Se fizer tal coisa - disse o homem, inclinando-se com expresso cruel -, mandarei agarr-la e encerr-la com os loucos.
 Ela tremia, mas no desviou o rosto. Acudiu-lhe a lembrana do que a cigana dissera a seu respeito...
 -        E eu lhe digo que, se cometer essa nova infmia, toda a sua famlia morrer no ano que vem.
 "Nada arrisco ameaando-o", pensou ao estender-se de novo em seu srdido enxergo. "Os homens so umas bestas!"
 O ar das ruas de Paris, que outrora ela achara to mal cheiroso, pareceu-lhe puro e delicioso quando enfim voltou a achar-se livre, bem viva e trajada com roupa 
limpa, fora do repugnante  edifcio.
 Caminhava quase alegremente, com o filho nos braos. Somen-ite uma coisa a inquietava: tinha pouco leite, e Cantor, que at ento se havia portado de modo exemplar, 
comeava a queixar-se. Passara a noite chorando, sugando avidamente um seio vazio.
 "No Temple h rebanhos de cabras", pensou. "Criarei meu filho com leite desses animais. Tanto pior. se ele tiver o gnio de fum cabritinho."
 E Florimond, que era feito dele? Certamente a viva Cordeau no o tinha abandonado. Era uma boa mulher. Mas Anglica teve a impresso de que se separara havia anos 
de seu primognito! Passavam junto dela pessoas com crios na mo. Saa das casas 'um cheiro de folhados quentes. Ela disse consigo mesma que devia ser 2 de fevereiro. 
As pessoas celebravam a apresentao do Menino Jesus no Temple e a purificao da Virgem, oferecendo crios uns aos outros, segundo um costume que tinha feito dar 
a esse dia o nome de Candelria.
 "Pobre Menino Jesus", pensou, beijando a fronte de Cantor enquanto transpunha a porta do Temple.
 Ao aproximar-se da casa da viva Cordeau, ouviu chorar uma criana. Seu corao deu um salto, pois ela teve a intuio de que era Florimond.
 Tropeando no solo nevoso, surgiu-lhe uma pequena silhueta que outros meninos perseguiam atirando-lhe bolas de neve.
 -        Feiticeiro! Ei! pequeno feiticeiro! mostra-nos seus chifres!
Anglica precipitou-se com um grito, segurou o menino por um brao e, apertando-o contra o peito, entrou na cozinha, onde a velha, sentada junto ao fogo, descascava 
cebolas.
 -        Como pode deixar que esses moleques o martirizem?
 A viva Cordeau passou o dorso da mo sobre os olhos, que as cebolas faziam lacrimejar.
 -        Calma, calma! Nada de gritos, minha filha! Bem que me ocupei de seu filho enquanto voc esteve fora, e no entanto no tinha certeza de tornar a v-la um 
dia. Mas no posso traz-lo amarrado s saias o tempo todo. Deixei-o sair para tomar ar. Que quer que eu faa contra os meninos que lhe chamam "feiticeiro"? No 
 verdade que lhe queimaram o pai na Place de Greve? Ter de acostumar-se. Meu filho no era muito maior do que ele quando comearam a jogar-lhe pedras e chamar-lhe 
"Corda-ao-Pescoo".
Oh! Que menino lindo! - exclamou a velha, soltando a faca e aproximando-se com ar embevecido para admirar Cantor.
 Em seu pobre quarto, que reencontrava com uma sensao de bem-estar, Anglica ps na cama seus dois filhos e apressou-se a acender o fogo.
 -        Estou contente! - repetia Florimond olhando-a com seus brilhantes olhos negros.
 Agarrava-se a ela, perguntando:
 - Mame, no tornar a ir embora?
 - No, meu tesouro. Olhe que lindo beb eu lhe trouxe.
 - Eu no gosto dele - declarou imediatamente Florimond, aconchegando-se a sua me com ar enciumado.
 Anglica despiu Cantor e aproximou-o do fogo. O menino estirou os pequenos membros e bocejou.
 Senhor! Por que milagre pudera ela conceber um filho to rechonchudo, em meio de tantos tormentos?
 Viveu alguns dias com bastante tranquilidade no recinto. Tinha algum dinheiro e esperava o regresso de Raimundo.
 Mas uma tarde, o bailio do Temple, que estava encarregado da polcia particular daquele lugar privilegiado, mandou cham-la.
 -        Minha filha - declarou sem rodeios -, tenho de comunicar-lhe, da parte do senhor gro-prior, que voc deve deixar o Temple. Sabe que ele s acolhe sob 
sua proteo as pessoas cuja reputao no pode prejudicar em nada o bom nome de seu pequeno principado. E necessrio, pois, que v embora.
 Anglica abriu a boca para perguntar de que a acusavam. Depois pensou em ir lanar-se aos ps do Duque de Vendme, o gro-prior. Afinal recordou as palavras do 
rei: "No quero tornar a ouvir falar de voc!"
 Sabiam, pois, quem ela era! Talvez ainda a temessem... Compreendeu que era intil pedir aos jesutas que a apoiassem. Tinham-na ajudado lealmente quando havia algo'que 
defender. Mas agora a sorte estava lanada. Poriam de lado os que, como Raimundo, se haviam comprometido naquela triste empresa.
 - Est .bem - disse ela, com os dentes cerrados. - Sairei do recinto antes da noite.
 - Sei que pagou o aluguel - disse o bailio, que recordava a propina que ela lhe dera por ocasio da venda de Kuassi-Ba. - No lhe ser pedido o "dinheiro de sada".
 De volta a casa, ela guardou em um cofrezinho de couro tudo o que lhe restava, agasalhou bem os dois meninos e carregou tudo no carrinho que lhe tinha servido em 
sua primeira mudana de domiclio.
 A viva Cordeau estava no mercado. Anglica deixou-lhe uma bolsinha sobre a mesa.
 "Quando eu for um pouco mais rica, voltarei e mostrar-me-ei um pouco mais generosa", prometeu a si mesma.
 - Vamos passear, mame? - perguntava Florimond.
 - Voltamos para a casa de tia Hortnsia.
 - Vamos ver Bab? Era como ele chamava Brbara.
 - Vamos.
 Ele bateu palmas. Olhava para todos os lados com satisfao. Empurrando o carrinho pelas ruas, onde a lama se misturava
 com a neve derretida, Anglica contemplava o rosto de seus filhinhos, um ao lado do outro, debaixo do cobertor. O destino daqueles seres frgeis pesava sobre ela 
como chumbo.
 Por cima dos telhados, o cu estava claro, despido de nuvens. No entanto, naquela noite no gearia, pois havia alguns dias que ;o tempo se tornara mais suportvel, 
e os pobres voltavam a ter esperanas, junto s lareiras sem fogo.
 Na Rue Saint-Landry, Brbara soltou um grito ao reconhecer Florimond. O menino estendeu-lhe os braos e beijou-a com ardor.
 -        Meu Deus, meu anjinho! - balbuciou a criada.
Tremiam-lhe os lbios, seus grandes olhos encheram-se de lgrimas. Olhava fixamente para Anglica, como teria olhado um espectro sado do tmulo. Comparava a mulher 
de rosto duro e emagrecido, vestida ainda mais pobremente que ela, com a que havia batido quela porta alguns meses antes.
 Anglica perguntou a si mesma se, de sua gua-furtada, Brbara vira arder a fogueira na Place de Greve...
 Uma exclamao sufocada, vinda da escada, f-la voltar-se.
 Hortnsia, com um castial na mo, parecia gelada de horror. Atrs dela, no patamar, apareceu Matre Fallot de Sanc. Estava sem peruca, trazia um roupo e uma 
touca bordada, pois naquele dia havia tomado um purgante.
 Abriu a boca de espanto ao ver sua cunhada.
 Afinal, depois de um silncio interminvel, Hortnsia conseguiu levantar um brao rgido e trmulo.
 -        V embora! - disse com voz estridente. - Meu teto j abrigou por tempo demasiado uma famlia maldita.
 -        Cale-se, louca! - replicou Anglica, encolhendo os ombros.
Aproximou-se da escada e ergueu os olhos para sua irm.
 - Eu vou - disse -, mas peo-lhe que acolha estes pequenos inocentes, que em nada podem prejudic-la.
 - V embora! - repetiu Hortnsia.
 Anglica voltou-se para Brbara, que apertava em seus braos Florimond e Cantor.
 Eu os confio a voc, Brbara, minha boa filha. Toma,  todo o dinheiro que me resta, para lhes comprar leite. Cantor no precisa de ama. Ele gosta de leite de cabra...
 -        V embora! V embora! V embora! - gritava Hortnsia num crescendo.
 E comeou a bater com os ps no cho.
 Anglica deu uns passos para a porta. O ltimo olhar que lanou para trs no foi para seus filhos, mas para sua irm.
 A vela na mo de Hortnsia tremia e projetava sombras espantosas sobre seu rosto convulso.
 "Entretanto", disse Anglica a si mesma, "no vimos juntas a pequena dama de Monteloup, aquele fantasma de mos estendidas que passava pelos nossos quartos?... 
E ns nos aconchegvamos uma  outra, cheias de terror, em nosso grande leito!..."
 Saiu e fechou a porta. Parou um instante para olhar um dos escreventes que, trepado num escabelo, acendia a grande lanterna diante do escritrio de Matre Fallot 
de Sanc.
 Depois, virando-se, mergulhou em Paris.
 
 
 
 
 
 E a noite de Paris estendeu seu negro manto de mistrios sobre a infeliz Marquesa dos Anjos. Ferida e humilhada, abandonada por todos, no restaria a Anglica seno 
a desgraa, a triste sina de desaparecer entre os miserveis da velha capital?
 Ainda soavam em seus ouvidos as duras palavras de Lus XIV: "Nunca mais quero ouvir falar no seu nome!" Permaneciam vivas em sua memria as imagens do espetaculo 
macabro que fora a execuo de seu marido, o Conde Joffrey de Pey-rac, consumido na fogueira, aos gritos da multido enlouquecida. Por um milagre, ela conseguira 
sobreviver enfermaria infecta do Htel-Dieu, de onde poucos escapavam com vida.
 Apenas uma ideia fixa conservava-lhe o alento, o desejo de viver: tinha uma tarefa a cumprir. Em Anglica e o Prncipe das Trevas, ela procurar vin-gar-se de seus 
opressores. Mais umdvez, a indomvel Marquesa dos Anjos usar de todas as suas artimanhs para se impor.
 ANNE E SERGE GOLON
 
OS AUTORES:
ANNE E SERGE GOLON
 Serge Golonbikoff nasceu em Bukhara (URSS] em 1903 e Simone (Anne) Changeuse, em Toulon (Fiana), em 1928. onheceiam-se e casaram-se na frica, para onde Arme, 
com o dinheiro de um prmio literrio, viajara como jornalista. Serge era uma celebridade na poca: formado em geologia, mineralogia e qumica, cruzara o misterioso 
continente em busca de ouro e diamantes, acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). Atrada por sua fama, Anne resolveu entrevist-lo.
 De volta  Frana, em 1952, j casados, tiveram a idia de escrever uma novela histrica ambientada no sculo XVII: Serge colhendo as informaes no Arquivo de 
Versalhes e Anne exercitando um talento para as letras manifestado j na infncia.
  O sucesso de Anglica, Marquesa dos Anjos, lanado em 1959, foi imediato, animando os autores a produzirem novos volumes. Estes, traduzidos para vrios idiomas 
e transpostos para o cinema, fizeram da herona uma das personagens mais famosas do mundo.
 



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